Bite Mark
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ele estreitou perigosamente os olhos e preparou as tonfas em suas mãos sem, no entanto, tirar os olhos sequer por um instante do garoto de cabelos azuis, em um estilo bastante familiar ao de um abacaxi, que estava relaxando apoiado no contorno da porta da sala onde se encontravam. Hibari Kyoya não estava com nenhuma disposição para isso. Mukuro sorria, aquele seu sorriso sarcástico que sempre o acompanhava onde quer que fosse – o qual o garoto japonês odiava mais do que qualquer outra coisa –, e ocasionalmente olhava na direção de seu tridente, apoiado em seus braços cruzados, sutilmente convidando Hibari para se aproximar e atacá-lo.
— Kufufufu… muito bom te ver também, Kyoya. – Mukuro riu ao ver a face de Hibari contrair-se em mais ódio ainda.
Hibari deixou escapar um baixo grunhido, e nada mais, não querendo dar ao ilusionista a satisfação de saber que havia conseguido provocar alguma reação nele. A decisão de manter-se calado, por parte de Hibari, apenas pareceu instigar mais ainda a determinação do Guardião da Névoa em falar. Ele sorriu e empurrou-se para longe da porta, começando a fazer seu caminho até Hibari, não ficando nenhum um pouco intimidado com o olhar ameaçador e a postura deste.
- O que? Não vai nem dizer “Oi”?
Hibari franziu levemente a testa, apertando ainda mais as tonfas sob seus dedos.
- Você deveria estar na prisão. – Sibilou o japonês, se esforçando para não demonstrar mais nenhuma reação.
— Deveria. – Respondeu simplesmente Mukuro. – As coisas não estavam sendo muito fáceis para Chrome sozinha. Decidi cuidar de alguns problemas para ela por enquanto.
Ele sorriu, mais uma vez. Seus olhos bicolores cintilaram, incompatíveis com a luz artificial fraca da sala. Hibari ergueu as tonfas, que brilharam de forma bastante peculiar.
— Já chega de conversa. – ele ordenou – Lute comigo, aqui e agora.
Mukuro riu, girando o tridente nas mãos enquanto se aproximava mais de Hibari, parando a apenas alguns metros de distancia dele; aquele irritante sorriso ainda gravado em seus finos lábios.
— E se eu te disser, meu querido Kyoya, que eu não vim para lutar? – perguntou o mais velho, sorrindo daquela maneira maliciosa que só ele conseguia sorrir – e que Hibari definitivamente odiava –.
Hibari abriu a boca por um instante, mas não soube o que dizer, se perguntando o que Mukuro estava pretendendo. Suas sobrancelhas franziram-se devido a raiva que sentia, com seu olhar fixo na figura bastante charmosa que Mukuro representava. Mukuro parecia estar gostando bastante da situação, apoiou-se sob seu tridente, como se precisasse de ajuda para suportar seu peso. Seu sorriso expandiu-se consideravelmente, para o mais completo desgosto de Hibari.
- Porque mais você estaria aqui? – ele questionou, ficando cada vez mais desconfiado conforme o lento passar do tempo.
Mukuro afastou-se de seu tridente e deixou-o gentilmente perto da porta, antes de voltar até Hibari.
- Não posso visitar um velho amigo? – ele perguntou, sorrindo levemente quando a posição de Hibari mudou subitamente. Ele ergueu as tonfas para o alto, seu braço direito longe do esquerdo e afastou seus pés um do outro para manter o equilíbrio para o caso de um eventual e repentino ataque de Mukuro.
- Você não é meu amigo, herbívoro. – respondeu Hibari, com rispidez – Vou te morder até a morte.
— Kufufufu – Mukuro riu – Sabe, Kyoya, eu sempre quis saber sobre isso.
Hibari levantou uma sobrancelha mas ainda continuou parado.
- Porque bom, tecnicamente você não morde. Você bate.
Mukuro sorriu um tanto maldosamente e, corajosamente, se atreveu a arrancar a duas tonfas das mãos de Hibari, chocando-o. Embora ele escondesse bem, Mukuro podia ver o ligeiro espanto que seus olhos demonstravam, o que pareceu motivar ainda mais o Guardião da Névoa. Ele sorriu em comemoração a sua pequena e momentânea vitória e voltou para ficar de frente com seu tridente que ainda se encontrava apoiado contra a porta. Girou as tonfas experimentalmente em suas mãos antes de olhar de volta para Hibari, o qual parecia ter conseguido a proeza de intensificar ainda mais o brilho assassino no olhar.
- Devolva – ordenou o garoto japonês.
Mukuro pressionou uma das tonfas contra os próprios lábios com ar de zombaria em seu falso momento de reflexão, antes de seu rosto desfazer-se em outro sorriso antagonizante.
- E se eu não quiser? – Ele jogou uma das tonfas para Hibari, a outra pendendo sob sua mão esquerda. – E agora eu pergunto... O que vai fazer?
Hibari fez um movimento rápido para pegar sua arma, apenas teve que se afastar um pouco do jovem italiano.
- Devolva a outra! – ele repetiu, desta vez em um tom mais agressivo do que antes. Mukuro riu e, como se quisesse lutar, jogou a tonfa restante para Hibari. Porém, logo que o fez, chutou seu tridente para cima e pegou-o no ar, com o intuito de bloquear qualquer que fosse o ataque no qual Hibari investiria contra ele. Desnecessário dizer que ele não estava decepcionado. Logo que as tonfas voltaram para suas mãos, Hibari pulou, indo em direção ao italiano de cabelos azuis. No entanto, outro sorriso enfeitou os lábios de Mukuro assim que as duas armas chocaram-se uma contra a outra.
— Kufufufu – ria Mukuro enquanto seu tridente colidia com as tonfas de Hibari, de novo e de novo.
Não importava o quanto cada um deles treinava ou lutava, ainda pareciam estar exatamente no mesmo patamar. Mesmo assim, isso parecia que não se aplicava muito bem a Hibari. Ele balançava seu braço, mostrando os dentes devido ao ligeiro esforço enquanto Mukuro se esquivava, passando perto e fazendo uma lâmpada no teto balançar um pouco. O ilusionista riu alto e impulsionou seu tridente contra Hibari, mesmo sabendo que não acertaria.
Hibari deixou escapar um rosnado baixo quando as duas tonfas foram pegas pelo tridente, ficando completamente presas. Os dois jovens se aproximaram um do outro, tentando libertar sua arma da de seu oponente.
— Você luta bem, Kyoya – sussurrou Mukuro, com seu rosto a poucos centímetros do de Hibari – Mas você ainda não me mordeu.
Hibari arregalou os olhos, no mínimo surpreso, enquanto Mukuro sorriu mais maliciosamente do que havia feito até então, antes de rapidamente se afastar, levando seu tridente com ele. Um ligeiro rubor se espalhou pela face de Hibari, enquanto que ao mesmo tempo estava chocado demais para conseguir dizer qualquer coisa. Mukuro sorriu.
- Bom, o que você vai fazer agora?
Hibari abriu a boca para responder, mas as palvras simplesmente não saíam. Suas sobrancelhas franzidas e seu rosto torcido lhe davam uma aparência ainda mais sombria. Num repentino acesso de fúria, ele voou contra o Guardião da Névoa, sua raiva escondendo o quão envergonhado estava. Mukuro riu, aquela sua costumeira risada debochada em resposta ao ataque de Hibari, enquanto defendia com seu tridente, não hesitando em passá-lo pela bochecha de Hibari, cortando-a como se dissesse “Posso te machucar mais se eu quiser, mas não acho necessário.” Hibari não prestou atenção – sequer notou – no corte e no pequeno filete de sague que dali escorria, e continuou a atacar Mukuro, cravando uma das tonfas, com uma força um tanto exagerada, em seu estômago.
- Assustado com um pouco da nossa intimidade, é? – Ele zombou, segurando seu estômago onde a tonfa o havia atingido.
Hibari avançou contra ele de novo, mas acabou caindo em uma sorridente ilusão.
- Estou bem aqui – Disse Mukuro, sarcasticamente, materializando-se no sofá.
Hibari avançou novamente, parando abruptamente quando a imagem de Mukuro desapareceu novamente.
- Ou será que estou aqui? – O ilusionista agora estava na porta, mais uma vez girando seu tridente entre seus longos dedos.
Ele riu, com a raiva crescente – e aparente – do japonês, que se aproximou apressado, antes de aparecerem sete cópias do italiano de uma só vez.
Hibari parou de novo e começou a procurar, tentando descobrir qual dos risonhos Mukuros era o verdadeiro.
- Onde você está, herbivoro?
Seus olhos se arregalaram mais do que era possível sequer imaginar que o fariam, quando sentiu um hálito fresco em seu pescoço.
— Atrás de você. – Hibari de repente sentiu uma mão em seu ombro, antes de se sentir virado para frente, encontrando o rosto de seu oponente. Ele mal pôde perceber os lábios de Mukuro contra os seus devido ao choque de ser aparentemente derrotado pelo ilusionista.
Não, ele pensou, ainda não.
Largou suas tonfas e abriu a boca para protestar, apenas para ser silenciado pela língua de Mukuro serpenteando, lentamente passando pelo céu de sua boca. Sem querer, Hibari deixou escapar um gemido involuntário, enquanto retribuía o beijo com a mesma intensidade, mentalmente amaldiçoando a si mesmo, enquanto sentia um leve sorriso se formar nos lábios de Mukuro. Suas mãos encontraram o caminho até o peito do Guardião da Névoa e empurrou-o, tentando se afastar, mas para sua supresa, sem sucesso.
Logo, porém, seu corpo começou a traí-lo também. Suas mãos, que antes estavam lutando para afastar Mukuro, agora acabaram por começar a puxá-lo mais para perto. Mukuro, não conseguiu deixar de rir, o que foi abafado pelos lábios do menor. Foi então que recuperou seus sentidos. Ele se afastou, chutando a canela de Mukuro no processo e olhando com o que parecia ser nojo, passando uma das mãos por sua boca.
- Não me toque. – ele sussurrou, sua voz ainda soava assustada como antes.
- Kufufufu – riu Mukuro, pegando Hibari pela cintura e puxando-o para perto. – Nem adianta dizer que não gosta.
Hibari foi um pouco para trás com um suspiro e Mukuro foi descendo para seu pescoço, beijando-o avidamente. Ele bem que tentou empurrar o jovem italiano para longe mas, por alguma estúpida razão seus braços não se moviam da forma que ele queria.
— Sai! – disse Hibari fracamente, se odiando por parecer tão patético.
Começou a xingar interiormente assim que percebeu que Mukuro entreabriu os lábios e afundou os dentes em seu pescoço, exatamente como um vampiro teria feito.
- Se você não vai me morder... – Mukuro se limitou a dizer, passando a língua sobre o local que havia mordido.
— Sai! – repetiu Hibari, tentando soar parecido com o seu habitual modo de agir.
Então de novo, Mukuro ignorou seu pedido, começando a sugar seu pescoço.
- Se você quiser, – disse Mukuro se afastando do pescoço de Hibari – Kyoya.
Ao invés disso, ele molhou os lábios, passando-os pelo colarinho de Hibari, que tentou o empurrar novamente. Ele colou seus lábios, mais uma vez surpreendendo o menor. Ele sorriu contra os lábios de Hibari e forçou sua língua a passar pelos seus dentes. Seu sorriso, no entanto, logo desapareceu ao sentir os dentes de Hibari afundarem em sua língua. Sem nem ao menos pensar, Mukuro se afastou, com a boca entreaberta – logo levando uma de suas mãos até ela –, com sangue escorrendo de sua língua.
- Você queria ser mordido. – disse Hibari como se fosse grande coisa.
Sua língua passou para fora de sua boca e percorria seu lábio inferior, espalhando as gotas de sangue que tinham vindo da língua de Mukuro. Provar o líquido acobreado parecia motivá-lo a fazer aquilo de novo, tanto que desta vez foi ele que tomou a iniciativa, pressionando seus lábios contra os de Mukuro, para o mais completo choque do Guardião da Névoa. Hibari chupava o que sangue que vinha da língua, aproveitando-se do choque do outro garoto.
Eles se beijavam exatamente como eles lutavam, Mukuro percebeu que ele recuperou os sentidos. Era vicioso, como se eles estivessem lutando pelo controle sobre o outro. Suas línguas percorriam cada canto da boca do outro possessivamente, nenhum dos dois querendo parar. Era como se eles tivessem transformado um simples beijo em uma competição que ambos se recusavam terminantemente a perder.
Hibari rosnou ao se sentir pressionado contra a parede. Aquilo significava que ele estava perdendo. Sem se separar do maior, o garoto menor e mais novo, puxou a jaqueta de Mukuro, antes de violentamente incliná-lo sob a mesa, acidentalmente fazendo vários papéis chegarem ao chão. No entanto, Mukuro, apesar do fato de Hibari ter alegado desprezá-lo, era muito parecido com Hibari. Ele também não gostava de não estar no controle, já que era porque ele tinha jogado Hibari contra a parede que havia sido empurrado para cima da mesa. Ele sorriu e se virou, fazendo com que agora quem estivesse sobre a mesa fosse o japonês.
Tirando suas mãos de perto de Mukuro, Hibari se inclinou para longe da mesa, apenas para conseguir terminar de tirar a jaqueta do ilusionista, que foi parar no chão. Mukuro sorriu mais uma vez e deixou suas mãos vaguearem pela camisa de Hibari, passando por suas costelas. O Guardião da Nuvem sentiu sua musculatura enrijecer perceptivelmente, fazendo Mukuro se afastar de seus lábios.
- Sensível, não é, Kyoya? – ele zombou, olhando para Hibari com uma preocupação fingida.
Hibari se limitou a olhar e puxar Mukuro de volta para encontrar seus lábios, este último ainda estava sorrindo irritantemente. Com os dedos rápidos ele tentou desabotoar a camisa de Hibari, mas acabou simplesmente rasgando-a, quando percebeu que levaria muito menos tempo. Ele mais uma vez passou suas mãos pelo peito de Hibari, aproveitando que o mesmo – embaixo dele – soltava alguns gemidos involuntários, se contorcendo uma vez ou outra.
Quem diria que Hibari Kyoya seria tão sensível, ele pensou enquanto Hibari agarrava suas mãos. Ele deslizou ambas pelo peito de Mukuro, que rapidamente prendeu as mãos do menor acima da cabeça para o impedir de continuar. Por vingança, Hibari mordeu o lábio inferior de Mukuro – com mais força do que na primeira vez –, mais uma vez arrancando sangue. Mukuro suspirou e se afastou um pouco, antes de seu rosto se desfazer em um sorriso. Ele soltou um dos pulsos e avançou até Hibari, começando por deslizar sua língua na boca do japonês.
Apesar do fato de as tonfas e o tridente terem sido esquecidos no chão há muito pelos dois, eles continuavam a batalha. Mukuro deixou escapar um gemido que mesclava satisfação e diversão enquanto Hibari começava a mexer na bainha da camisa. Interrompendo o beijo, Hibari puxou a parte de cima da camisa pela cabeça de Mukuro antes de voltar a encontrarem seus lábios. Ambos foram pegos no momento (mesmo que fosse em um momento muito longo) e, mesmo que dissesse a si mesmo que odiava Mukuro, Hibari não conseguia parar de beijá-lo.
Entretando, Mukuro conseguia, com certo esforço. Logo que Hibari começou a puxar o cinto do italiano, o Guardião da Névoa se afastou.
— O que você está fazendo? – Hibari exigiu saber, assim que Mukuro levantou e ajeitou o que restava de suas roupas.
— Realmente adoraria ficar e continuar brincando com você, mas Chrome acabou de acordar. – Mukuro respondeu com um sorriso de escárnio. Ele rapidamente arrumou seu cinto e vestiu sua camisa, antes de recuperar sua jaqueta e tridente do chão. – Até a próxima, Hibari Kyoya. Kufufufu.
Hibari levantou-se silenciosamente e assistiu Mukuro desaparecer em um véu de névoa, deixando uma confusa Chrome em seu lugar.
A primeira coisa que ela notou foi a lâmpada quebrada e os papéis que foram descuidadamente espalhados por toda a sala. Então, seu olhar caiu em Hibari. Ela olhou para ele, para sua camisa aberta, com todos os botões arrancados, seu cabelo terrivelmente bagunçado, na trilha de sangue seco em sua bochecha feita pelo tridente e finalmente para a vermelho-arroxeada e dolorosa marca de mordida em seu pescoço. Seu rosto ficou vermelho de raiva ou vergonha – ou dos dois. De qualquer forma, ele parecia completamente desorientado.
Hibari encarou a menina antes virar para a mesa, apoiando suas mãos e abaixando a cabeça.
- Aquele bastardo! – ele sussurrou, alto o bastante para Chrome ouvir. – Ele me bateu, me bateu de novo!
Chrome se agarrou ao tridente, como uma criança se agarra a um brinquedo, olhando com os olhos arregalados o irritadíssimo garoto diante dela, desejando saber apenas o que raios Mukuro tinha feito com ele.
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