Bitchcraft
3 Capítulo 02 - Noite do Pijama
Já era tarde da noite. As garotas haviam colocado colchões no quarto de Mia e estavam sentadas, conversando, enquanto o quarto de paredes em tom pastel era iluminado pela luz do luar que entrava pelo vidro da janela.
– Então, Rain, de onde você veio? – Arya perguntou, antes de morder uma maçã.
– Eu sou de Connecticut – Ela respondeu – Vim morar aqui há alguns meses, depois de fugir de casa.
– Fugir de casa? – Mia ficou espantada.
– Eu fui expulsa de casa pela minha mãe e fui morar com minha tia, mas não aguentava o jeito que eles olhavam pra mim, como se eu fosse uma estranha.
– Que horrível, eu sinto muito.
– Poucas de nós é a única da família a ser bruxa, a maioria é tem algum descendente, eu sou como você também, minha família não me aceitava – Lamentou Arya – Quando eu comecei a descobrir meus poderes fiquei tão assustada, eu não sabia o que estava acontecendo e eu só tinha um amigo que não teve medo quando eu me revelei, ele disse que eu era especial... – Ela sorriu, lembrando – Até que um dia... – Depois abaixou a cabeça e segurou seu colar de prata com força – Eu fiz uma coisa terrível.
– O que?
– Eu estava na escola e tinha uns garotos que ficavam me enchendo o saco. Nesse dia eu estava indo pra casa e tinha uma parte do caminho que eu precisava passar pelo bosque da cidade, eles me encontraram lá e começaram a fazer piadas, disseram que eu era estranha e me chamaram de aberração, aí eu não aguentei e dei um motivo para que eles me chamassem de aberração – Ela falava com arrependimento – Eu fiquei com tanta raiva que meus poderes manifestaram sem que eu pudesse controlar e eu acabei furando os braços e as pernas dele com uma planta cheia de espinhos.
– Eu sinto muito.
– Isso só piorou o jeito que as pessoas me viram, até que a Felicia me achou e eu passei a morar aqui, fugi de casa... Isso só me fez aprender que não importa o que as pessoas achem, nós temos que nos sentir honradas de possuir dons tão magníficos.
– O que ela faz é espetacular – Ava tocou o ombro da amiga.
– Mesmo? O que você faz?
Arya sorriu.
– Aquela flor é real? – Ela apontou para um pequeno vaso na cômoda de Rain, dentro havia uma pequena flor amarela.
– Sim, eu adoro plantar flores. Ia colocá-la no quintal, mas não sei onde.
Ela levantou sua mão e apontou para o vaso.
– Olha só o que ela vai fazer – Mia disse, sorrindo e esperando pelo espetáculo.
Rain ficou observando o vaso e viu quando aquele minúsculo botão de rosa amarela se transformou em uma bela flor, como mágica.
– Oh meu deus – Ela ficou maravilhada – Que incrível.
– Obrigada, mas e você, o que faz?
– Eu controlo a água.
– Que legal!
– Às vezes eu me pergunto de onde vem nossos poderes – Disse Ava – Tipo... A Mia é filha da Felicia, mas o seu poder é tão diferente do dela...
– Eu também me perguntava o porquê de eu nascer assim, já que ninguém que eu conhecia sabia fazer algo parecido.
– Ava, responda-me uma pergunta – Disse Mia.
– O que?
– Você acha que poderia se teletransportar levando alguém?
– Eu ainda não cheguei a esse ponto, mas a professora Target disse que não demoraria muito para que conseguisse fazer isso.
– Deve ser legal, teletransportar-se para onde quiser – Falou Rain.
– É mesmo – Ela sorriu – Ei, quer ver uma coisa legal? – Ava perguntou a Rain.
– O que?
– Me dê seu celular, dois casacos, uma calça e um sapato!
– Para que?
– Espere e verá.
Ava se levantou e foi até o armário. Pegou as roupas e as vestiu, depois pegou o celular e disse:
– Me deem quarenta segundos.
– O que vai fazer? – Arya perguntou.
– Espere...
Ela sumiu na frente das garotas. Se desmaterializou, ao contrário do que tinha feito antes.
– Da última vez que ela fez isso, foi comprar sorvete no centro da cidade – Mia zombou.
– Então vamos esperar...
Elas ficaram em silêncio por uns trinta segundos, olhando umas para as outras, estranhando o plano de Ava, quando, de repente, ela voltou. Materializou-se de surpresa no mesmo local onde estava, dando um susto.
– Aonde você foi?
– Dá uma olhada na galeria de fotos – Ela sorriu.
Rain abriu a galeria de fotos do celular e lá estava a foto de Ava. Na fotografia, ela estava parada em um campo de grama na frente da estátua da liberdade.
– Oh meu deus, você foi à Manhattan?! – Ela ficou surpresa.
– O que? Deixe-me ver! – Arya não acreditou. Pegou o celular da mão de Rain e constatou que era verdade – Sua louca! – Exclamou, sorrindo.
Mia também olhou a foto e ficou espantada.
– E como foi rápido, há um ano você demorava quase isso para ir ao centro da cidade – Mia zombou e as garotas sorriram.
– Pois é, querida, estou ficando boa nisso!
Elas passaram o resto da noite sorrindo e brincando, por isso chegaram atrasadas na aula do outro dia.
***
A professora Marsden estava dando uma aula sobre a história das bruxas, quando as garotas entraram na sala.
– Ah, bom dia, meninas, não estão um pouco atrasadas? – Ela perguntou, mas não brigou – Sentem-se, acabamos de começar.
Elas sentaram.
– Vejo que a nossa nova moradora também veio, seja bem-vinda, querida, qual o seu nome?
– Obrigada – Rain agradeceu – Meu nome é Rain.
– E quanto a vocês três – A mulher se dirigiu às outras garotas – Já é a segunda vez né? Sejam mais atentas.
– Desculpa – Elas falaram, quase em sincronia.
– Voltando ao assunto... Como vimos anteriormente, em 1692 começou a caça às bruxas, o pior massacre da história da nossa espécie.
– Denovo esse assunto? – Mia reclamou para Arya.
Ela fez uma careta.
– Mas a informação que vamos adicionar ao assunto é que na verdade, os responsáveis pelos crimes não foram os humanos, e sim as fadas.
As garotas murmuraram surpresas.
– Fadas? – Uma das bruxas sentada na frente perguntou.
– Sim, as fadas, eu sei que vocês já ouviram falar na história delas, é verdade, mas o que ainda não sabiam era isso... As fadas foram as responsáveis pela caça às bruxas, o que contribuiu muito para a batalha entre elas e nós bruxas.
– Mas onde estão as fadas? Estão realmente no Inferno Negro? Se estão, onde ele fica? – Lola, a garota das asas, perguntou. Estava sentada algumas carteiras à frente de Rain.
– Ainda é um mistério, na verdade... Alguns dizem que a entrada para ele fica aqui mesmo, em Salem, pois a cidade foi o palco da caça e o Inferno é criação das próprias bruxas... Mas existem várias teorias a respeito.
– Professora! – Rain levantou a mão, vencendo sua timidez. O que era incrível.
– Ah, oi.
– Você acha que as fadas podem se libertar do Inferno Negro algum dia?
– Eu acredito que não, na verdade, acredito que não haja um Inferno Negro, acredito que elas tenham sido mortas.
***
À tarde, depois da aula, algumas garotas estavam treinando, enquanto Rain observava, sentada em um banco embaixo de uma árvore ali perto. Havia três alvos para acertar, a primeira da fila era Mia. A professora que estava ao lado dela levantou sua mão e, através de telecinese, moveu os alvos alguns metros para trás. Mia se concentrou e segundos depois, abriu a boca, soltando outro daqueles gritos supersônicos. Rain foi obrigada a tapar os ouvidos, pois ainda não estava acostumada com aquilo, mas as outras garotas não esboçavam reação alguma, isso porque os gritos não eram direcionados à elas, porque se fossem, seus tímpanos acabariam como um daqueles alvos despedaçados no chão.
Quando quebrou os três alvos, enquanto a professora os reconstruía, Mia foi embora, em direção ao banco onde Rain estava sentada.
– Meus poderes estão evoluindo rápido! – Ela disse, animada.
– Parabéns – Rain respondeu – Quanto mais alto você grita, mais forte eu tapo meus ouvidos.
– Não se preocupe, com o tempo você acostuma.
– Sei...
– Enfim, ontem eu consegui fazer uma coisa nova – Ela contou – Eu nunca havia feito antes.
– O que?
– Eu descobri uma nova habilidade.
– Me mostre.
Ela aqueceu a garganta, respirou fundo e então falou:
– Meu nome é Rain – Para o espanto de Rain, aquela não era a voz de Mia, era a sua própria voz. Ela estava a imitando.
– Oh meu deus, como você fez isso?!
– Eu comecei a fazer há alguns dias, mas só agora estou aprendendo a controlar um pouco, tipo, se eu falar frases muito longas, a voz fica falhando e então a minha voz original volta.
– Isso é incrível!
Rain voltou a olhar o treinamento das garotas e então percebeu que uma mulher se aproximava delas. Felicia. Atrás dela, uma garota incendiava os três alvos com rajadas de fogo que saíam de suas mãos.
– Boa tarde meninas – Ela cumprimentou – Então, Rain, está gostando do lugar e das garotas?
– Muito – Rain respondeu, sorridente – Elas me tratam tão bem.
– Que bom – Ela disse e depois direcionou-se para Mia – Querida, preciso de você no escritório.
– Já vou mãe.
Felicia saiu andando, usando seus saltos altos como sempre.
– Eu preciso ir – Mia lamentou – Te vejo depois.
– Ok, tchau tchau.
– Tchau.
A garota correu para acompanhar sua mãe e Rain ficou ali, sentada, observando aquelas jovens bruxas treinarem seus dons magníficos.
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