Bitchcraft

10 Capítulo 09 - A Batalha Real


Era quase cinco e vinte da manhã. As bruxas estavam em um grande campo aberto, no meio de uma floresta. Todas vestidas de preto, esperando as inimigas da batalha. Flora e Virginia estavam à frente do grupo.

– Acha que era a carta era mentira? – Virginia perguntou.

– Não, com certeza não, elas vão aparecer – Flora respondeu, olhando atenta à floresta à frente delas. As fadas poderiam sair dali a qualquer momento.

Felicia se aproximou.

– Nenhum sinal delas? – Felicia perguntou.

– Por enquanto não – Flora respondeu.

– Temos que tomar cuidado, fadas não costumam cumprir tratos.

– Do que está falando? – Virginia perguntou, olhando para ela, desconfiada.

– Nós capturamos uma, conseguimos algumas informações.

– E você não me contou?

– Não pensei que fosse importante.

Felicia pensou que Virginia fosse ficar brava, mas ela apenas voltou a olhar a floresta à sua frente.

– O que ela disse?

– Disse que não existe Inferno Negro, que as fadas sempre estiveram aqui na terra, conosco.

– Como assim? – Ela ficou surpresa.

– Houve um acordo, há três séculos, depois da caça às bruxas.

– Que tipo de acordo?

– Bruxas e fadas juraram não se atacar, mantendo um estado de paz.

– E porque estão atacando agora?

– Por nada, apenas por serem ambiciosas e egoístas, como sempre foram.

– Eu já ouviu uma história assim, nunca acreditei na verdade – Flora interrompeu.

– O acordo foi uma batalha justa, hoje, às 5 horas, certo? – Felicia perguntou.

– Sim.

– Então, o que eu acho é que deveremos tomar cuidado, porque se elas não respeitaram aquele acordo, porque respeitariam esse?

– Você acha que elas podem nos atacar de surpresa?

– Eu tenho quase certeza.

Virginia caminhou até as garotas, que estavam conversando eufóricas. Algumas se abraçavam, chorando.

– Garotas – Ela chamou a atenção das pobres bruxas – Fiquem atentas a qualquer movimento que ouvirem dentro da floresta. Qualquer um.

Virginia viu uma das garotas abrir espaço entre as outras bruxas e se aproximar dela. Era a garota que, há alguns dias, avisara às outras que estavam sendo atacadas. Ela podia ver através de alguns materiais. A madeira das árvores era um deles.

– Sra. Gardner? – Ela perguntou, olhando para os lados, nervosa.

– O que houve?

– Elas estão aqui.

– Onde, onde estão? – Virginia olhou para os lados, não via ninguém.

– Não olhe para a floresta – Ela abaixou a cabeça, estava chorando.

– Onde elas estão, Matilda?

– Estão em toda parte – A garota respondeu, com uma expressão de pânico no rosto.

Neste momento, várias fadas começaram a sair de dentro da floresta, sorrindo maliciosamente. Estavam cercando as bruxas. As garotas respiraram fundo. Iria começar a batalha.

– Garotas, escutem-me, lembrem-se do que lhes foi ensinado nesses últimos três dias e em toda a sua vida – Disse Flora, enquanto as fadas se aproximavam mais. – Ataquem! – Ela gritou e as bruxas se espalharam, correndo ao ataque.

A batalha havia começado. Felicia estava no meio, olhando ao seu redor.

De um lado, ela viu as plantas espinhosas de Arya levantando quatro fadas de uma vez e rasgando suas peles enquanto gritavam. Do outro lado, via uma garota incendiando duas fadas com jatos de fogo que saíam de seus dedos.

À sua frente, duas fadas furiosas avançavam correndo. Os olhos dela ficaram negros e dezenas de lâminas negras surgiram, levitando em sua frente. Ele apontou sua mão para as duas fadas e as lâminas seguiram o percurso, só pararam quando atingiram os corpos das fadas. Elas quase fatiaram seus corpos. As lâminas ficaram cravadas na altura da barriga, joelhos e pescoço de ambos os corpos, em seguida, desapareceram, virando fumaça negra no ar, deixando à mostra os cortes para lá de profundos, jorrando sangue na grama do campo.

A alguns metros dali, uma garota estava cercada por quatro inimigas prontas para atacar. Uma das fadas correu para atacá-la, mas foi afastada quando a garota deu um sopro tão grande que a jogou contra uma árvore violentamente, quebrando sua coluna. As três fadas restantes tentaram atacá-la furiosamente, mas ela deu outro sopro, afastando uma delas. As outras duas fadas, ela deu socos em seus estômagos, o que afetou a estabilidade delas. Em seguida, pôs suas mãos nos rostos de cada uma, tapando suas bocas e narizes. Elas batiam em seus braços, tentando se soltar, enquanto os poros da mão da garota liberavam rajadas de vento que entravam pelas bocas e narizes deles. Seus tórax aumentavam de tamanho, inflando de um modo que ninguém nunca havia visto. Eles se debatiam enquanto o ar enchia seus pulmões. Segundos depois, eles pararam de se debater e caíram no chão, sem vida, enquanto o sangue saía de suas bocas e narizes. Seus pulmões haviam sido explodidos.

Não muito longe, uma das bruxas lidava com uma fada de cabelos loiros e longos, com uma espada em mãos.

– Eu vou te esfolar, vadia! – A fada gritou, furiosa.

– Com essa espada? Acho que não – A bruxa respondeu, fazendo um movimento com a mão que fez com que a espada fosse parar na garganta de outra fada que vinha correndo.

A fada ficou agonizando no chão, enquanto o sangue jorrava de sua garganta.

– Essa espada era feita de que? De ferro? – A bruxa perguntou, zombando – Para me pegar, teria que ser plástico – Ela sorriu.

A fada correu para o ataque corpo-a-corpo, mas a bruxa deu-lhe um soco no rosto e ela recuou. Em seguida voltou, revelando o nariz sangrando. A bruxa agarrou os cabelos loiros da fada e a jogou no chão.

A inimiga levantou-se e seus olhos ficaram verdes, assim como suas mãos. Quando ela levantou a mão esquerda, preparando-se para atirar sua esfera de energia cósmica, Helen, a bruxa, controlou sua mão, colocando junto ao seu corpo, novamente. Depois, controlou o resto do corpo, deixando a bruxa imóvel.

– O que? – A fada ficou espantada.

– Você tem muito ferro no sangue, não é? – Ela perguntou, sorrindo – É muito bom saber – Em seguida, levantou fez um gesto com as mãos, dobrando os dois braços da garota. Ela gritou quando seus ossos foram quebrados.

Helen a soltou no chão.

– Eu ficaria aqui o dia todo com você, vaca, mas precisa cuidar de outros vermes como você – Disse, e logo em seguida, fez outro movimento com a mão, girando a cabeça dela e quebrando seu pescoço.

Quando virou-se, deparou-se com uma fada segurando outra espada. A inimiga foi mais rápida, enfiando a espada em sua barriga, na altura do estômago. A tal fada tirou-a da barriga de Helen, mas como a bruxa estava fraca, não pôde controlar a lâmina de ferro, então a fada a cravou novamente. Helen caiu no chão, seus olhos fechavam lentamente.

***

Rain estava no meio do campo, segurando um machado e destroçando qualquer fada que visse pela frente. A essa altura estava coberta de sangue. Ao seu redor, suas amigas também lutavam. Em alguns segundos pôde ouvir, em algum lugar, o estridente grito de Mia, que foi logo interrompido, levando Rain a pensar que ela poderia ter sido morta.

Olhou para os lados, procurando sua amiga, precisava saber se Mia estava bem. Correu entre os corpos no chão. Nem sequer olhava. Queria apenas encontrá-la.

Uma fada veio correndo em sua direção, coberta de sangue. Rain caminhou para trás, preparando-se para usar sua arma, quando viu, ali perto, o corpo de Mia caído no chão. Uma súbita raiva passou por sua cabeça e ela pensou que poderia descontar naquela garota que vinha atacá-la. Quando a garota se aproximou um pouco mais, Rain levantou sua mão e ela abruptamente foi levantada no ar. Começou a gritar, enquanto a bruxa lentamente puxava e descolava sua cabeça de seu corpo, com dificuldade.

Quando ela conseguiu, a cabeça da garota ficou flutuando no ar e o corpo, ela deixou que caísse no chão. Olhou por alguns segundos para os olhos da fada encarando o vazio, estava se deliciando com a morte dela, mas então lembrou-se de Mia. Jogou a cabeça em algum lugar ali ao lado e correu para ajudar sua amiga.

Mia estava deitada no chão, com um ferimento na altura do pulmão. O sangue saía de sua boca e seus olhos fechavam-se lentamente.

– Mia! – Ela exclamou, desesperada.

– Rain – Mia disse, baixinho. Estava pálida e muito fraca.

Não houve espaço para palavras, apenas lágrimas. Rain passou a mão pelo rosto dela.

– Não chore – Mia disse, sorrindo – Eu já sabia que esse dia chegaria, eu sempre soube.

– Não – Disse Rain, aos prantos – Não!!! – Ela gritou.

– Onde está minha mãe?

– Está lutando, por você, por nós... Você precisa ficar viva.

– Não, eu não posso.

– Sim, você pode.

– Isso é tão clichê – Ela sorriu – Mas eu quero que diga a ela que eu a amo – Seu bom humor continuava aceso mesmo em horas difíceis, ela tinha esse dom. Mas Rain não conseguia rir, não naquele momento.

– Eu posso fazer alguma coisa, eu posso te salvar – Disse Rain, colocando a mão sobre o ferimento – Eu posso alterar o curso do sangue, eu sei que posso fazer alguma coisa.

– Não, Rain, não – Mia disse com sua voz fraca. Rain olhou para ela, seus olhos brilhavam, ela não parecia triste – Deixe-me ir, por favor, deixe-me ir.

– Eu não posso – Ela abaixou a cabeça – Eu não posso!

– Adeus Rain – Mia pronunciou suas últimas palavras e então morreu. Seus olhos fitavam a imensidão do céu azul.

Rain chorou, abraçando o corpo da amiga. Depois ergueu a cabeça e viu Felicia enfiando uma espada na barriga de uma fada. Ela olhou para Rain e depois para o corpo de sua filha no chão. Sua expressão foi de horror. Ela levou a mão a boca e começou a chorar. Rain continuava aos prantos.

Felicia correu em direção a elas e soltou um grito.

– Não!!! – A bruxa gritou, enquanto corria até sua filha.

No meio do caminho, foi surpreendida por uma fada com uma faca. A inimiga cravou a lâmina em sua barriga e Felicia caiu no chão, aos prantos. A última visão que teve deste mundo foi o cadáver de sua filha deitado no chão.

Rain passou a mão sobre o rosto de Mia, fechando seus olhos. Em seguida, levantou-se. Olhou para os lados. Havia um estado de calmaria ali. Todas as fadas estavam mortas, assim como a maioria das bruxas. As sobreviventes estavam no meio do campo de batalha. Algumas delas se abraçavam aos prantos. Virginia estava toda ensanguentada, segurando uma espada, a alguns metros dali.

Havia dezenas. Na verdade, centenas de corpos sobre o grande campo. Um grande banho de sangue. Entre as bruxas que estavam ali, de pé, Rain procurou Ava e Arya, mas não as encontrou, o que só poderia significar o pior.

2 dias depois

Rain estava no campo de treinamento da Garden School – que havia virado um cemitério, com vários túmulos – segurando quatro rosas brancas. As bruxas mereciam ser enterradas no lugar onde passaram a maior parte da vida, onde, na verdade, tiveram uma vida. Os túmulos havia sido construídos pelas próprias bruxas.

Ela ainda não conseguia aceitar o fato de que suas amigas estavam mortas.

Ava Harrington (1997-2014)

As letras estavam escritas em uma placa de metal na lápide de mármore. Rain pegou uma das rosas e colocou no chão, à frente do túmulo de Ava. Enxugou uma lágrima caía de seus olhos lacrimejantes, lembrando dos momentos em que se reunia com suas amigas. Ava era divertida e tão, tão alegre.

Caminhou até a lápide ao lado da dela. Dizia “Arya Shae (1996-2014)”. Outras lágrimas insistiram em descer pelo seu rosto ao lembrar-se de Arya e sua tranquilidade. Era tão confortável ficar perto dela. Pegou uma rosa e colocou no chão.

Rain caminhou um pouco mais até o terceiro túmulo. “Mia Coast (1998-2014)”. Fechou os olhos para expulsar as lágrimas, não conseguia parar de chorar. Mia havia sido tão fiel e amiga todos aqueles meses e agora estava morta. Rain nunca mais veria aquele sorriso pela manhã. Nunca mais ouviria mais uma de suas piadas sem graça que ela tanto gostava. Pegou outra rosa branca e colocou sobre a grama, à frente do túmulo.

Por fim, caminhou até o último túmulo que visitaria. As letras escritas na placa de metal diziam “Felicia Coast (1978-2014)”

Ela se ajoelhou na frente do túmulo, seus olhos estavam vermelhos e ela ainda chorava. Felicia havia sido a responsável por ela estar ali, com sua verdadeira família. Havia cuidado tão bem dela todos esses meses, como uma mãe.

Rain colocou a última rosa branca no chão, em frente à lápide de mármore, enxugou as lágrimas, mesmo que outras fossem cair depois e disse:

– Obrigado.

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