Bipolar

1 único


Seu jeito era tão despojado, mas sabia que só na minha casa que ela se soltava. Bebia no gargalho, largava os calçados em qualquer lugar e sorria para mim.

Uma visita tão desejada e que se eu não tomasse cuidado, podia afastá-la. Lidar com ela era preciso saber andar sobre ovos. Lucy, não vá por favor.

Eu sou carente, mas vou me esforçar dessa vez. É que você é tão irreverente e teimosa, qualquer um ao seu lado fica sem brilho. Tá, eu sei, eu estou inventando desculpas. Não vá, por favor.

Prometo que vou me conter e só te ouvir. Está me dizendo que todos estão preocupados comigo? Então está me dizendo que todos sabem que sou doida?

Não, não vá. Você sabe como sou neurótica... Lucy, é difícil pra mim. Ok, eu sei que é pra você também. Por favor, não faça eu gritar.

Por que acha que sempre tem razão de tudo? Por que você aparece só quando está a fim? Por que não veio aquele dia que eu te liguei e estava super mal? Eu precisava da ajuda de alguém. Lucy, eu quase tirei minha vida.

Eu digo isso toda hora? Lucy, calma! Não vá! Sim, eu falo isso todo momento. É tudo neurose.

Mas eu precisava da ajuda de alguém... não, eu precisava da sua ajuda. Sabe, eu tenho vivido muito uma vida romantizada; onde eu penso que ser assim é uma dádiva, não tem? Hoje eu vi um documentário legal sobre o Japão, você conhece Gekigá? Não? Você sabia que a capa de The New Abnormal é uma arte do Basquiat? Não? E você sabia que eu já li 5 livros esse ano? Certo?

Lucy, não vá. Tenho tanto pra dizer, tanta coisa aprendi, juro que não vou dizer que te desejo, que te quero aqui sempre comigo. Você não precisa me salvar e nem me abraçar. Você não precisa se sentir asfixiada ao meu lado.

Tá tudo bem quando tenho a vida romantizada. Lá você me escuta e limpa minhas lágrimas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!