21 de setembro, 1998.

Aquele lugar tinha um cheiro absurdamente estranho e ao mesmo tempo, muito familiar. Era algo parecido com formol e remédio. Eu poderia estar errado em relação aquelas substâncias, mas aquilo era um hospital sem sombra de duvidas.

Só depois de ter analisado bem o local foi que decidi tentar me mover. Não conseguia mexer as pernas.

Observei bem as minhas mãos e reparei que elas não eram as minhas... Elas estavam tão pequenas, delicadas e gordinhas que mais pareciam com mãos de um bebê.

Minha duvida se tornou certeza no momento seguinte. Um espelho extremamente limpo e enorme pairava sobre o teto daquele lugar. Um espelho que mostrava um bebê que apesar de ser extremamente lindo e fisicamente perfeito, tinha um par de olhos vermelhos extremamente sombrios. Naquele momento, eu era aquele bebê.

Enquanto minha mente tentava decifrar aquela cena enigmática eu senti que agulhas, muitas agulhas, me perfuravam.

Um liquido quente adentrou em minhas veias e eu simplesmente adormeci.

...

Apesar de a madrugada ter sido uma das mais frias do ano, eu acordei muito suado.

Olhei o relógio. 6 e 13 da manhã... Eu estava muito atrasado... Parti para um banho rápido. Mesmo estando no inverno, a água fria não me incomodou nem um pouco. Acabei demorando mais do que realmente devia. Vesti a primeira coisa que vi pela frente e me observei por um momento no espelho. Havia esquecido o quanto aquele par de olhos laranja era assustador. O médico disse que com o tempo eles iriam clarear e de fato eles já estavam bem mais claros do que quando eu era criança.

Meu celular tocou. Eu já imaginava que ia ser bronca. A tela do celular dizia “Elisa Kisaragi”.

É, realmente ia ser bronca:

-Oi, bom dia – Eu disse na maior calma possível.

-Bom dia?! Você ta louco garoto? Que irresponsabilidade... Tá todo mundo aqui. É o nosso primeiro dia de aula... A Susan ta louca atrás de você...

“Susan”

Esse nome me parecia familiar, muito familiar. Foi ai que reparei que havia um aro de prata, um pouco pesado em um dos meus dedos. Sim, era uma aliança.

Susan foi a única que um dia eu consegui realmente amar, e a única pessoa no mundo que conseguiria fazer o que fez, me tirar do Brasil e trazer todos nós pra tão longe.

- Alô? Pablo, você ainda ta ai?

- Estou sim. Avise a todos ai que daqui a dez minutos eu apareço por ai.

...

O trânsito na cidade estava muito calmo durante aquela manhã, apesar de Raccon City ser uma cidade bem grande, porém a distância do meu apartamento era bem grande e acabei demorando o dobro do combinado para chegar até a universidade.

Na entrada havia uma placa bem grande escrito em letras vermelhas: “Federal University of Raccoon City”.

O lugar era bonito, de verdade. Mas cheguei atrasado e acabei ficando fora da primeira aula que seria a mais importante do dia.

O jeito foi esperar o sinal tocar.

Assim que o mesmo aconteceu, aqueles corredores vazios e desertos se transformaram em verdadeiros formigueiros.

Felizmente, era fácil diferenciar os brasileiros dos americanos. Os primeiros conterrâneos que avistei estavam se agarrando loucamente. Era óbvio que eram a Nathália e o Shawn. Eles eram o casal mais quente que eu já vi, ficava fácil diferenciá-los no meio da multidão.

- Com licença, mais pelo bem da humanidade vou ter que separar vocês brevemente.

- Caraca, Pablo!!!

Rolou um abraço coletivo no meio de todo mundo, mas sem me esquecer do foco eu logo perguntei:

- Vocês viram a Susan?

-Não – disse Nathália – mas você dá muita mancada cara, você sabe o quanto essa viagem significa pra ela...

- É, eu sei, foi mal gente, isso não vai acontecer de novo. Eu prometo.

- Puts, você ta ferrado... Fala isso pra Susan, porque ela ta vindo ai.

Rapidamente eu olhei pra trás. Lá vinha ela, linda e assustadoramente brava.

Eu mais do que ninguém sabia do que aquela garota era capaz quando estava infeliz com algo.

“Pense Pablo, pense”. Minha mente trabalhava incessantemente em busca de uma solução, mas nada vinha.

Ela já estava bem perto. Então eu pus em prática a única idéia que me veio na mente. Simplesmente a agarrei e rolou um beijo fulminante.

Quando percebi que ela já estava voltando à realidade eu disse na maior calma e serenidade possível:

- Eu te amo...

Ela me olhou, meio confusa, meio perdida. Parecia que não sabia o que fazer mais. Mas rapidamente sua expressão mudou totalmente.

- Não pense que esse seu teatrinho vai mudar alguma coisa, você não conseguiu evitar uma briga, só conseguiu adiá-la. Agora vamos logo.

- Espere ai. Nós vamos aonde? Não vai haver a segunda aula?

- Ah é... Esqueci de te avisar, o primeiro dia é só pra uma apresentação, discussão sobre as regras, coisas desse tipo. Não ficaremos até o fim hoje. – disse Nathália, que assim como o Shawn, não havia saído do lugar desde a chegada de Susan.

Todos começaram a conversar ao mesmo tempo, virou uma bagunça total, até que houve uma pausa geral. Todo mundo ali estava prestando atenção em alguém que corria loucamente em direção a nós.

Aparentemente era uma mulher, morena, jovem e estava com roupas bem mais curtas que os demais estudantes, roupas que pra falar a verdade ficavam muito bem nela. Logo, todos já perceberam quem era.

Elisa chegou ao nosso encontro, e respirou fundo antes de continuar:

- Pablo, eu não acredito que você já arrumou problemas. Ainda estamos no primeiro dia.

- Espera um pouco, do que é que você ta falando?

- Me entregaram essa carta hoje, parece que é da diretoria da escola, e é pra você.

Elisa me entregou um envelope branco e bem leve. Analisei bem e decidi abri-lo. Mas eu percebi que eu não era o único que estava curioso em relação à carta, e eu não queria que todos eles soubessem o conteúdo dela, pelo menos não por enquanto.

Elisa percebendo isso acabou dando um jeito pra mim:

- Muito bem galera, circulando... Vamos embora por que todos nós estamos atrasados. Pablo, a gente te encontra lá na republica pode ser?

Eu fiz que sim com a cabeça e rapidamente eles foram embora. Então, rapidamente eu abri o envelope.

Não era bem uma carta. Era um bilhete que dizia exatamente o seguinte:

Comparecer ás 17:00 na sede da Umbrella Prime, no centro.

Esteja sozinho, não conte a ninguém e destrua este bilhete.

Atenciosamente

William BirKin.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.