BioMecha (Versão Alpha)
1 The Arrival
Terra batida, seca e árida. Era tudo o que se podia ver no vasto terreno por onde ela andava, estendendo-se até ao horizonte infindável. O céu era coberto por nuvens espessas e escuras, que anunciava uma tempestade, algo raro naquela terra deserta.
Os passos dela eram um tanto arrastados, pelo cansaço eminente no seu corpo desidratado. A capa cor de mogno arrastava-se pelo chão. Uma rajada de vento repentina fez o tecido longo esvoaçar agressivamente para trás, levando-a a cruzar os braços na frente dos olhos, impedindo a poeira que se levantou de penetrar os cílios longos e ferir os orbes esmeralda decididos. Os fios da franja faziam-lhe cócegas na testa.
– Já estamos quase, May... Só mais um pouco... – A voz era rouca e entregava o cansaço dela quando falava com a Husky de olhos heterocromáticos, sendo o direito castanho-chocolate. A cadela acompanhava com dificuldade os passos dela, não saindo do seu lado um segundo, sequer.
O vento acabou por abrandar, o que lhes permitiu avançar a um ritmo ligeiramente mais rápido. Quilómetros e mais quilómetros foram percorridos pela dupla, até que chegaram finalmente, à civilização.
– Chegámos... Finalmente, chegámos, Mayla! Chegámos! Mas... Onde? – A sua expressão antes animada ficou intrigada, com as sobrancelhas arqueadas.
Olhou bem ao seu redor: havia uma muralha que se estendia por metros incontáveis e que se erguia em direção ao céu, mas estava rachada, ferrugenta e em algumas juntas até mesmo partida. O portão, mais alto até que a muralha, tinha o calço partido do lado, com peças em falta e no topo, onde outrora jazeriam as asas não havia nada além de um pedaço partido, enferrujado e que parecia ter parado de funcionar em plena subida.
O portão, como mostrado pela posição da asa, estava aberto e era possível ver os edifícios mais próximos: em ruínas, antigos, mal cuidados. Tudo características eminentes de edifícios abandonados.
Ela foi acordada dos seus pensamentos pela sua cadela, que puxava levemente a sua capa, com a boca. Ela baixou-se à altura dela e afagou-lhe a cabeça, com um pequeno sorriso.
– Está tudo bem, Mayla. Está tudo bem. Agora vamos tratar de arranjar comida e água, está bem? – Ela latiu, concordando, e começou a andar ao lado da jovem rapariga, atravessando a rua que partia diretamente do portão.
Foram atravessando a rua deserta, sendo rapidamente envolvidas nas sombras que as estruturas internas dos edifícios e casas em ruínas proporcionavam.
– Isto é um bocado sinistro... Parecem aqueles filmes de terror antigos! – Ela observou, olhando em volta.
À sua esquerda estava uma florista, cujo vidro da montra estava estalado e partido no canto. Havia um sinal luminoso com a forma de uma flor, que piscava, já antigo. Duas das pétalas já estavam completamente apagadas. Do lado direita havia um supermercado que surpreendentemente tinha as luzes dos frigoríficos lidadas, algo que se podia ver através das montras sem vidros.
– Wally’s... Tenho de fixar este nome! – Ela sorriu e olhou para cima, deparando-se com um teto de canos e vigas de ferro, dando um sorriso maravilhado com vontade de saltar por entre eles. Mas isso seria preciso mais rápido do que ela imaginava.
Mayla rosnou, virada para trás em posição de ataque. A sua dona voltou o rosto para trás, ouvindo passos.
– Estamos a ser seguidas... Para cima! – Ela começou a correr para dentro de um edifício, encontrando escadas. Sem hesitar um segundo sequer, começou a subi-las, sem olhar para trás um segundo. As escadas acabaram por chegar ao fim, dando lugar a um terraço. A primeira coisa que fez foi parar para recuperar o fôlego. Olhou para trás, mas ouviu os passos insistentes na mesma, bastante próximos. Continuou a correr em frente, saltando da margem do terraço, aterrando numa viga larga. A sua cadela alcançou-a pouco tempo depois, acompanhando-a no salto. As duas saltavam de cano em cano, de viga para viga e de um telhado para outro. A jovem olhou para trás, tendo a prova visual de que realmente estava a ser seguida. O próximo cano no qual pisou partiu-se sobre os seus pés.
Não teve tempo sequer de gritar, pois no segundo seguinte, alguém a apanhou. Sentiu essa pessoa saltar entre os canos e entrar num edifício escuro, iluminado apenas pela janela partida pela qual entraram. Mayla entrou logo de seguida, sentando-se ao lado da dona, e outro cão seguiu-a. Era um Akita, que se sentou ao lado da pessoa que tinha trazido a rapariga, e a tinha seguido. Ela soltou-se dos braços de quem a estava a segurar até ao momento.
– Quem és tu? E porque é que me andas a seguir?! – A sua voz emanava raiva, além da rouquidão eminente.
Ele levou o indicador aos lábios, indicando-lhe que não falasse. Apontou para fora da janela e ela pôde ver um grupo de homens vestidos de preto, que conversavam entre si. Rapidamente desapareceram, fazendo a pessoa ao lado da jovem suspirar aliviada.
– Ufa! Já se foram... O que é que estavas a dizer? – Perguntou, sorrindo, de forma simpática.
– Quem és tu e porque é que nos seguiste?! – Ela indagou novamente, fuzilando-o com o olhar.
– O meu nome é Joshua! E não te estávamos a seguir! – Ele riu um pouco e afagou a cabeça do seu cão, que latiu e começou a abanar a cauda, contente. – Este aqui é o Inu!
A rapariga cruzou os braços e riu. – A sério? Chamaste “cão” a um cão? Que original... – Revirou os olhos e suspirou. Baixou-se ao nível do olhar da sua cadela e afagou-lhe as bochechas carinhosamente. – E como assim “não nos estavam a seguir”?
Ele suspirou e sentou-se no calço da janela.
– É tão simples quanto isso! Estávamos simplesmente a tentar salvar-te daqueles monitores. – Explicou, tirando uma bolacha do bolso da sua capa e abocanhando-a.
Ela bateu as mãos no calço e aproximou o rosto do dele rapidamente, encarando-o nos olhos, séria. Ele tinha olhos castanhos, com uma mistura de laranja, que encaravam os esmeralda com um brilho de confusão e espanto. – O que são monitores? Onde estamos e o que raio tem esta cidade?! – Ela bradou, decidida, mas isso logo se dissipou quando ambos ouviram o estômago dela roncar. Ela envergonhou-se e endireitou o corpo, pigarreando. Só então deu uma boa olhada no rapaz. Tinha cabelos castanhos claros desarrumados, usava uma touca cinza escura e um par de óculos de piloto na cabeça. O cano do nariz era parcialmente ocultado por um penso rápido, que certamente escondia algumas das sardas do rosto dele. Usava uma capa longa e negra, presa ao nível do peito, o que fazia com que o capuz lhe caísse pelos ombros e bíceps. Conseguia ver parte da camisola beije de gola larga e a cair para um dos lados e o fio de um colar que desaparecia na gola da camisola. Tinha uma fita azul marinha na cintura, usava calças pretas de estilo chinês e sabrinas pretas do mesmo tipo. Reparou também que ele tinha pele clara.
– Primeiro; os monitores vêm às cidades todos os meses para avaliar e relatar o seu estado aos superiores deles, segundo; estamos no que antigamente era conhecido como os Estados Unidos da América e atualmente setor Gama e terceiro; esta cidade foi abandonada há muito tempo, coisa que podes notar. – Explicou, sem muito interesse. Riu ao ouvir o ronco vindo dela e pôs-se de pé, saltando para um cano, sendo acompanhado pelo seu cão. A rapariga surpreendeu-se.
– Ei! Onde é que vais? – Ela perguntou, e Joshua virou-se para ela, sorrindo.
– Já vais ver! Anda! – Continuou o seu caminho, sendo prontamente seguido pela rapariga e pela sua cadela. Percorreram vários telhados e canos, até chegarem a um edifício alto, bem no centro daquela cidade. Joshua fê-la subir vários degraus – com a desculpa de que ainda estavam a tratar de arranjar o elevador – até chegarem ao que ela presumiu ser o último andar do prédio. Ele abriu a única porta do pequeno corredor e ela teve a vista de uma vasta sala de estar, com três sofás posicionados em “U”, várias estantes com livros e mesas com computadores. Entre elas, uma televisão larga e de aspeto caro. Ao lado dela, uma consola de aspeto antigo e vários jogos empilhados. Entre os sofás havia uma pequena mesa de vidro com alguns livros por cima, um comando e algumas folhas de papel. No fundo, havia uma parede feita inteiramente de vidro, com cortinas azuis escuras abertas, deixando entrar a claridade. O chão era forrado com uma carpete cinza e toda a sala era um pouco mais baixa que o hall de entrada, tendo que descer umas escadas para chegar ao chão.
– Uau... Tu vives aqui?! – Perguntou, extasiada, olhando em volta, maravilhada.
Ele riu um pouco. – Sim, mas a casa não é só minha! Amy! Donnie! – Ele chamou alguém e pouco tempo depois, duas pessoas apareceram na sala.
Uma das pessoas era um rapaz alto, com a pele morena e os cabelos negros com reflexos azulados. Tinha olhos castanhos-avermelhados e usava óculos de armação violeta. Usava uma camisa preta com riscas finas e brancas e umas calças de ganga escuras, um pouco deslavadas nos joelhos.
A segunda era uma rapariga de cabelos loiros e olhos cinza esverdeados. Tinha os cabelos cacheados e amarrados num rabo-de-cavalo alto, do lado direito da cabeça. Usava brincos pequenos e pretos. Usava uma camisola de manga curta lavanda, com um coração desenhado, uma saia de ganga e um par de leggings pretas por baixo, até ao joelho. Ambos usavam chinelos.
Joshua sorriu à rapariga. – Estes são o Donnie, ou Daniel Stone; e a Amy, ou Amanda Grassland! – Depois de os apresentar, um par de cães entrou na sala: um Rough Collie e uma Bulldog preta, que tinha um laço branco ao pescoço, com um pingente em forma de coração, cor de rosa. – Ah, ia-me esquecendo! São o Pointer e a Bola de Neve! – Disse, referindo-se ao Rough Collie e à Bulldog, respetivamente.
A rapariga riu um pouco ao ser-lhe dito o nome da cadela preta. – Bola de neve? Ela caiu numa lata de tinta preta, foi? – Preguntou, rindo pela ironia presente.
– Joshua! Não acredito que trouxeste uma miúda para aqui! Ela pode trabalhar para os monitores! Tu não pensas nas consequências?! – Daniel gritava com Joshua, que se encolhia no sítio.
– Calma! Ela tem ar de ser uma viajante e mais importante que nada, tem fome e eu não suporto isso! Anda, vem comigo à cozinha. – Agarrou no pulso dela e guiou-a para lá. Inu instalou-se num dos sofás e Mayla seguiu-os, ansiosa por comer.
A cozinha era totalmente branca, tinha uma bancada com quatro cadeiras, onde Joshua colocou um cesto com frutas e um copo com sumo de laranja, ao lado de uma jarra com o mesmo conteúdo. Instintivamente a rapariga sentiu o seu estômago roncar e encolheu-se por tal.
Joshua riu. – Ei, não faz mal nenhum! Sobe e come à vontade! – Disse, convidando-a a sentar-se num dos bancos do balcão.
Ela fê-lo e esticou a mão para pegar numa maçã, mas hesitou e recuou-a. Olhou para Joshua. – Como sei que posso confiar em ti? E que esta comida não está envenenada? – Perguntou, desconfiada.
Ele sorriu e sentou-se à frente dela, pegando numa pêra e mordendo-a, deliciando-se com a doçura da fruta. – Simples: não sabes! E se a fruta estivesse envenenada, a tua cadela já a tinha atirado para longe. – Deu outra dentada na fruta, com um meio sorriso.
A rapariga retribuiu o sorriso e agarrou numa maçã, mordendo-a com pressa e mastigando, sentindo o corpo começar a despertar e a ganhar forças. A sua refeição foi seguida de mais peças de fruta e pães com diferentes recheios. Por fim, bebeu um copo cheio de sumo de laranja, empurrando tudo para baixo.
Suspirou, com a barriga cheia e olhou para Joshua, que apoiava o rosto nas mãos entrelaçadas, com os cotovelos no balcão. Ele sorria enquanto a observara a comer. – Bem... Muito obrigada, Joshua! Mas acho que agora tenho de ir embora... – Olhou para baixo, verificando que Mayla também havia feito a sua refeição e ela ergueu-se nas duas patas, pousando as dianteiras na perna da dona, abanando a cauda, satisfeita. Ela riu e afagou a cabeça da cadela, que baixou as orelhas, apreciando o carinho.
Joshua, ao ouvir tal coisa, ficou visivelmente deprimido.
– Mas já? Porque não ficas connosco?! – Perguntou, com as pupilas dilatadas, com uma expressão implorante.
– Parece um cachorrinho... – A rapariga sussurrou, para si mesma, e ajeitou o capuz, para não ter de encarar a expressão que Joshua fazia. – Mesmo que quisesse, não acho que quisessem ter alguém como eu por perto. – Disse, dando de ombros.
– Porquê? – Ele perguntou, rindo um pouco. – Somos todos iguais! – Disse, com um sorriso no rosto.
Ela fechou os olhos. – Não, não somos! – Retorquiu, um pouco irritada.
Novamente, ele riu e aproximou-se dela, puxando-a pelo pulso. Guiou-a para a sala, onde se encontravam Amanda e Daniel.
– Mas que...?! – A rapariga não conseguiu terminar a sua frase, estupefacta pelo que via.
Daniel tinha o seu braço esquerdo transformado numa espécie de canhão de energia, apontado para cima, na direção de uns alvos que Amanda levitava através de telecinésia. Daniel tinha o braço cheio de marcas lilases brilhantes e Amanda tinha os olhos da mesma forma, exceto de que eles brilhavam em cinza e as suas mãos eram envolvidas em luz da mesma cor.
Alguns dos alvos tinham um buraco no centro.
– Vo-vocês são...! – A boca dela estava aberta e o queixo caído, descrente.
– Mutantes! Tal como tu! – Joshua disse, sorrindo e levantando o dedo indicador.
A rapariga ficou com uma carranca novamente. – Como sabes que sou como vocês? – Perguntou, semicerrando os olhos, desconfiada.
Daniel suspirou e fez a sua mão voltar ao formato normal, com as marcas a desaparecer na pele. Amanda fez os alvos voltarem ao chão, amassando-os e colocando-os no caixote do lixo. Depois, as suas marcas também desapareceram.
– Se fosses humana, já terias sido eliminada por nós. – Daniel aproximou-se da rapariga, que era bem mais baixa do que ele, chegando-lhe ao peito. Ela deu um passo para trás, por instinto. – Temos um leitor de ADN que alcança até 5 metros de diâmetro do prédio. Se algum humano atravessasse esse perímetro, nós íamos saber. O que fazes aqui? – Ele perguntou, cruzando os braços.
Ela elevou o rosto, fixando o seu olhar no dele. Olhares duros e calculistas. – Vim só buscar mantimentos e estou de saída. – Disse, agarrando a asa do saco de viagem que carregava.
– Mas tu podes ficar! Temos montanhas de espaço, não há despesas e temos a cidade só para nós! Vais desperdiçar tudo isso? – Amanda interveio no diálogo deles, fazendo uma expressão carente para a rapariga.
– Bem... Suponho que realmente seja uma boa oportunidade e... – Não pode terminar a frase, pois foi interrompida por Joshua.
– Ótimo! Sê bem-vinda ao nosso gangue! E por falar nisso, como é que te chamas? – Joshua perguntou-lhe, curioso.
Daniel olhou-o incrédulo. – Nem sequer sabes o nome dela?!
Joshua deu um sorriso amarelo. – Não! Não sei nadinha de nada sobre ela! – Apesar de ser alvo do olhar fuzilante de Daniel, ele tinha um sorriso doce.
A rapariga nem teve tempo de protestar, pois Joshua começou a empurrá-la por um corredor, com os protestos dela. Chegaram ao final do corredor, onde havia três portas, uma em cada parede e uma na última parede. Joshua abriu a porta à sua esquerda, revelando um quarto.
– Este é... – Novamente, foi interrompida por Joshua.
– O meu quarto! Entra, vamos! – Ela entrou no cómodo, olhando em volta fascinada com o quarto.
zO cómodo tinha paredes azul-marinho com alguns traços brancos, que formava uma perfeita linha reta. Na parede oposta à porta havia uma janela, com portas de correr, que davam acesso a uma varanda. Havia uma enorme cama de casal na parede do lado direito, com um édredon preto e almofadas de decoração em tons de azul claro com adornos prateados. As cortinas eram cinza, assim como as molduras de vários quadros pendurados na parede. Em frente à cama havia uma televisão pequena, com uma consola ao lado e algumas caixas de jogos. O chão era forrado com uma carpete beije. Havia um armário de uma cor branca imaculada, quase tão alto quanto o teto.
– Uau... É lindo... – Observou, dando uns passos pelo cómodo dentro.
Joshua esfregou a nuca, lisonjeado. – Obrigado... – Ele deu uns passos e saltou, aterrando na cama, de bruços. Virou-se com a barriga para cima. – Ei... Posso pedir-te duas coisas? – Perguntou, pondo os braços atrás da cabeça, encarando o teto.
Ela sentou-se na borda da cama. – Claro! O que foi?
Ele desviou a sua atenção do teto para olhar para ela. – Primeiro: podes tirar o capuz? – Perguntou e ela, um pouco surpreendida, tirou-o, revelando a pele bronzeada e os cabelos ruivos, de um vermelho profundo, próximo à cor do sangue. Tinha uma franja que se repartia para a direita, ocultando um pouco do olho.
Joshua arregalou levemente os olhos. – O que foi? – A ruiva perguntou, intrigada com a reação dele.
– Nada! És bonita, só isso! – Ele sorriu e viu a ponta da orelha dela ganhar um tom avermelhado, mas o seu rosto não demonstrava reação alguma. No entanto, os seus lábios estavam ligeiramente avermelhados.
– Obrigada... – Murmurou, baixo.
Mayla e Inu entraram no quarto, indo até aos seus respetivos donos. A ruiva deixou que a Husky se deitasse no seu colo e começou a fazer-lhe festas leves na cabeça, com a cadela fechando os olhos e apreciando o gesto ao abanar lentamente a cauda.
Joshua prendeu a respiração quando Inu saltou sobre ele, apoiando todo o seu peso no peito dele. Ele riu e fez festas no dorso do cão, que lhe lambeu o rosto. Dirigiu a atenção à ruiva novamente. – Segundo... – Ele começou e ela olhou na sua direção, os olhares cruzando-se e permanecendo conectados. – Diz-me o teu nome! Ainda não sei... – Disse, com uma expressão suave.
A ruiva ponderou um pouco e acabou por ceder ao pedido, dando um sorriso quase impercetível. – Natasha. Natasha Hagane. E ela é a Mayla. – Disse, fazendo cócegas à cadela, que logo se levantou, olhado rapidamente para os lados e ao verificar que não corria perigo, se deitou novamente. – Preguiçosa! – Natasha empurrou-a levemente, fazendo-a cair no chão. Ela enrolou-se numa bola e continuou a dormir. A dona riu.
– Natasha... Continua lindo, mesmo noutra pessoa... – Ele soprou, mergulhado nos seus pensamentos.
– O quê? – Natasha soltou a pergunta instintivamente, sentindo a face aquecer levemente. As orelhas avermelharam-se novamente.
Joshua reparou no que tinha dito e sentou-se. – Nada! Eu só estava a pensar alto, ignora! – Ele levantou-se e desabotoou a capa, pendurando-a num bengaleiro. Natasha pôde ver que a camisola que ele usava tinha mangas que iam um pouco além dos ombros e que era grande para ele, visto que era visível a extensão do ombro. Reparou também que ele usava pulseiras de pano azul-marinho, da mesma cor da fita que prendia a sua camisola na cintura. Caminhou até ao pé de Natasha e estendeu a mão. – Dá-me a tua capa, eu vou pendurá-la!
– Eer... Ok! – Ela levantou-se e desabotoou a capa, entregando-a a Joshua. Ele então pode ver que os cabelos da ruiva chegavam até aos tornozelos, e que os cabelos que lhe caiam pelos ombros chegavam apenas à cintura. Olhou-a de cima a baixo, reparando, acima de tudo, na cintura fina e corpo esguio, assim como as curvas suaves e levemente acentuadas. Ela vestia uma camisola violeta de alças, com renda no decote pequeno e na barra, de uma cor mais clara. Vestia uns calções pretos e umas meias de vidro pretas, com fitas que as prendiam aos calções – isso foi o que ele quis pensar. Os sapatos eram botas castanhas rasas, que combinavam com o casaco, desabotoado e que lhe chegava a meio das coxas.
Natasha pestanejou e aproximou-se de Joshua, estalando os dedos à frente do seu rosto. – Joshua, daqui Houston! Tudo bem? – Perguntou, fazendo uma brincadeira.
Ele sorriu e alinhou com ela. – Houston, daqui Joshua! Nada de mais, um pequeno mau contacto!
Ela riu e voltou a sentar-se. – Entre ti e o teu cérebro, só pode!
Ele riu e sentou-se ao lado dela. – Vens de onde? – Perguntou, apoiando o rosto na mão e o cotovelo na perna.
Ela olhou para o teto por uns segundos e depois negou com a cabeça. – Não sei! – Respondeu, honestamente.
– Hm... Lugar bonito! – Ambos riram com o comentário.
Natasha olhou para a janela e viu que já era noite. Voltou a olhar para Joshua. – Ei. Se eu vou ficar aqui, durmo onde? – Perguntou.
Joshua sorriu e bateu no colchão sobre o qual estavam deitados. – Aqui, comigo! A Amy e o Donnie dormem em camas de solteiro e eu nunca deixaria um convidado dormir no sofá! Muito menos alguém que vai viver cá! – Ele disse, dando-lhe um empurrãozinho no ombro.
Natasha riu e agradeceu-lhe, imitando o gesto.
Daniel apareceu na porta do quarto, vestido com um pijama preto. Estava sem óculos. – Vocês os dois... Para a cama, já! – Ele ordenou e virou-se, abrindo a porta do seu próprio quarto. Amanda entrou logo depois.
– Boa noite! Durmam bem! – Amanda abraçou ambos e beijou-lhes a testa, saindo do quarto aos saltinhos.
Natasha riu nervosamente com a atitude. – Ela é sempre assim? – Perguntou, rindo.
Joshua assentiu. – Açúcar, picante e tudo o que é doce! Estes foram os ingredientes escolhidos para criar a Amy! – Novamente caíram na gargalhada.
– Ainda bem que não adicionaram o químico X, não é? –
Riram novamente. Natasha viu que ele descalçou os sapatos e que pegou numa muda de roupa: uma regata cinzenta e uns calções vermelhos. – Ei, Joshua! Podes emprestar-me um par de roupas? A que trago vestida é a única que tenho...
Ele revirou a gaveta e entregou-lhe uma camisola comprida, na cor castanha. – Serve? – Ela tirou-lhe a camisola das mãos e começou a despir-se, vestindo a camisola no final. Joshua estava de costas o tempo todo, a fazer o mesmo.
– Está um bocadinho grande, mas é muito confortável! – A camisola chegava-lhe aos joelhos, as mangas eram mais compridas do que os braços dela, e toda a camisola era larga.
Joshua sorriu e abriu as portas do armário, tirando de lá duas almofadas. Guardou as de decoração no lugar das outras e puxou as cobertas para trás, colocando as almofadas na cabeceira da cama. Sentou-se no colchão e deitou-se após isso, puxando as cobertas do seu lado. Natasha fez o mesmo, puxando Mayla consigo. Joshua riu um pouco.
– Dormes com a tua cadela? – Perguntou, sorrindo.
Natasha abraçou Mayla contra si e apoiou a cabeça na dela. – A cadela tem um nome: Mayla. E sim, eu durmo com ela! Fica mais quentinho e dá uma sensação de segurança... Sem falar que é muito macia! – Apertou-a mais e Mayla debateu-se um pouco. Ela riu e afrouxou o abraço.
Joshua bocejou e carregou num botão numa das mesinhas de cabeceira, fazendo com que descesse um estore sobre a janela da varanda, deixando o quarto na escuridão. Antes de tudo se apagaram viram Inu aninhar-se na ponta da cama, aos pés de Joshua.
– Boa noite, Nathy... – Ele sussurrou, sentindo as pálpebras pesarem.
– Nathy? ...Não é mau... Boa noite Joshua... – Bocejou, fechando os olhos.
– Não tenho direito a um apelido? – Perguntou, sonolento e brincalhão.
– O teu nome é bonito como é, Joshua. Boa noite! – Riu um pouco e deixou-se relaxar.
Joshua fez o mesmo, mas a expressão risonha que tinha desfez-se numa sem emoção alguma, como se a alma tivesse abandonado o corpo.
– Boa noite, Hagane...
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