Biker Blood
2 Submissive
Terminava de retocar a maquiagem e colocar meus grandes brincos de argola. Já conseguia ouvir o barulho dos passos pelo corredor. O som era característico de passos apressados sobre o piso de madeira, sempre seguidos de portas se batendo com força, apenas reforçando a pressa com que entravam nos quartos para aproveitar a noite regada ao prazer pago.
Desci as escadas apoiando-me no corrimão, meus saltos eram muito altos e achei melhor não arriscar uma queda. Chegando ao salão, era mais do que evidente: a Casa já estava cheia. No balcão, alguns dos que sempre frequentam a Casa as sextas à noite, estavam se embebedando e admirando as belas garotas. Elas se aproveitavam para persuadi-los a investir em mais uma bebida, quem sabe mais outra, outra, outra, e uma quinta, talvez? Assim, estariam contribuindo nos lucros do bar e ainda poupariam muitos esforços para entretê-los quando subissem para os quartos.
— Lizzie, estão esperando há um tempão nas barras e nenhuma das garotas foi até lá ainda! – Candice disse apressada passando por mim enquanto carregava uma bandeja repleta de uísque. Candice é a mais antiga da Casa e também muito especial para mim. Sempre fora uma grande amiga. Leva uma vida muito difícil e assim como tantas das outras garotas que trabalham para Sean, teve que se render à venda do próprio corpo.
Agradeci-a por me avisar, mas acredito que passou por mim tão rápido que talvez nem tenha me ouvido. Apressei-me cruzando o salão e indo até a área reservada para as “barras”. “Barras” é como Candice chama o “pole-dance”. Ela veio do interior e não se adaptou muito bem a essa nomenclatura. Sorri lembrando-me das vezes que zombei dela por isso. Mas logo meu sorriso foi apagado pelo que eu teria que enfrentar. O pequeno palco estava vazio e quatro homens sentavam-se de frente para ele, esperando inquietos pelo “espetáculo”. Quando notaram minha presença, viraram e começaram a murmurar, resmungando e dando início aos assédios corriqueiros.
— Já era hora, docinho! Vamos, se apresse que não temos a noite toda! – disse um deles levantando sua garrafa de cerveja já quase vazia.
— Valeu a espera, hein, boneca? Olha só como rebola... Tá de parabéns! – um deles disse num tom embriagado e hostil. Quando aproximei-me dele para poder subir ao palco, tocou com suas mãos imundas minhas pernas, lançando-me um olhar desprezível de desejo obsceno.
Todos os dias eu passava pela mesma situação, mas nesses instantes não eram cabíveis qualquer tipo de lamentação. Pelo menos ali eu estava a me exibir para homens que jamais havia visto na vida e que talvez depois daquela noite, nunca mais voltasse a ver. Subi ao palco e comecei a forçar uma sensualidade abominável, uma insinuação repugnante, uma exibição asquerosa. Movimentava meu corpo conforme a música lenta que rolava ao fundo, tocando a longa barra de metal de forma a provocar aqueles que assistiam a tudo, sem nem mesmo se dispersar em piscar os olhos. Começaram a se estirar, estendendo os braços e tocando vez ou outra, quando eu não conseguia me afastar o bastante, a minha pele. Tocavam meu corpo como se aquilo lhes causasse a maior onda de prazer de suas vidas, quando do outro lado, o lado ao qual eu pertencia, a única onda que era causada era a onda da repulsa.
Virei-me de costas, apoiando-me na barra e rebolando lentamente até ficar que ficasse agachada sobre meus calcanhares. Levantei lentamente, inclinando-me ao máximo, para que pudessem ter a visão mais explícita de meu traseiro. Quando voltei a virar-me para encará-los, começaram a lançar algumas notas no chão, próximo aos meus pés, agradecendo com sorrisos perversos e falando bobagens das quais eu não fazia a mínima questão de me atentar. O pior de tudo talvez ainda estivesse por vir, pois quando me dei conta, vi Sean parado ao fundo da sala. Ele estava de braços cruzados e seus olhos fixos em meus movimentos sobre aquele palco. Ao seu lado notei um homem já velho, porém vestido com um colete. Talvez um gangster ou membro de algum Clube. Não era de se admirar, pois são bastante frequentes esses tipos na Casa.
Sean acabou por fazer sinal com a mão, pedindo para que eu fosse até eles. Esperei que a música acabasse e encerrei minha dança, recolhendo as notas do chão. Desci do palco e sorri para os homens que me assistiam. Deixei com que o primeiro que havia tocado minhas pernas, tocasse-me outra vez, porém tive sorte. Ele puxou-me pelo pulso e sussurrou algo que não consegui entender em meu ouvido, seguido de vinte dólares que colocou em minha lingerie. Apenas sorri, afastando com certa aflição suas mãos de mim e fui até Sean.
— Olá, boa noite... Com licença. –Eu disse aos dois, posicionando-me ao lado de Sean e cruzando as mãos em frente a minha veste inferior. Mesmo estando ali para me expor, ainda sentia-me desconfortável. Eu vestia-me como Sean ordenava. Sempre com roupas curtas, lingeries, qualquer veste que fosse sensual o bastante para que desse o direito de sermos expostas como objetos àqueles que estavam ali para nos comprar.
— Boa noite, querida. Fique a vontade. – O homem disse. Ele sorria e comecei a sentir meu rosto queimar. Provavelmente eu estava vermelha, pois ele observava-me de forma que eu podia sentir o peso de seus olhos sobre mim.
— Era dela que estava falando? –Sean perguntou a ele, tirando do bolso um de seus charutos.
— Sim. É impossível não percebê-la com a beleza extraordinária que tem. – O homem respondeu, ainda sem desviar seu olhar de mim.
Naquele instante a única coisa que eu queria era rir. Não consigo entender o motivo de ter achado tanta graça no que havia dito. Era um elogio. Um elogio simples na visão de alguns, mas não para mim. Eu não costumava ouvir coisas do tipo, qualquer elogio que recebia era regado à luxúria. Elogios que se confundiam a insultos, e, de repente, se deparar com algo tão diferente vindo de uma pessoa que eu jamais vira antes. Era inédito. Tão inédito a ponto de parecer engraçado e me fazer corar ainda mais, não conseguindo conter um sorriso tímido.
— Bom, devia ter me dito antes. –Sean disse baforando a fumaça e enrijecendo ainda mais sua expressão facial. – Lizzie não faz esse tipo de trabalho. Ela está aqui apenas para dançar.
Não, eu não estava ali apenas para dançar. Ele devia ter se especificado melhor ao dizer algo assim. Ele devia ter especificado que eu não era como as outras que estavam ali para servir aos fregueses, eu estava ali para servi-lo. Apenas servi-lo. Ele dizia que fazia o favor de me poupar daqueles pervertidos imundos que compravam sexo, mas ele não enxergava que era mais imundo do qualquer outro. A única coisa da qual me poupa é de não ter que olhar para sua cara quando me coloca de bruços e se aproveita de meu corpo.
— Mas que tipo de trabalho está pensando que ela irá fazer? Será apenas uma festa e ela mais uma das acompanhantes.
— Lizzie não é uma das acompanhantes, Clay. Escolha outra ou eu mesmo terei que fazê-lo! –Sean disse aumentando a voz.
— Não estou entendendo sua irritação. Você conhece muito bem como são as festas do Clube. Não há nada demais, não é mesmo, docinho? Diga a ele que você quer ir, prometo que será mais divertido do que ser a refeição daqueles cachorros famintos ali. –O homem disse rindo e tocando-me o rosto com uma das mãos. Engoli em seco sem saber como reagir. Apenas torcia para que aquilo acabasse logo, pois eu não estava entendo absolutamente nada.
— Certo! Mas terá um custo muito maior e se não tiver disposto a pagar adiantado, não terá nenhuma delas. Ande, vamos voltar para lá e deixar com que Lizzie termine o que interrompemos! –Sean disse afastando-me daquele homem, o qual chamou de Clay. Sean claramente ficou irritado com a insistência dele por mim, pois para Sean, eu sou sua propriedade e nada pode ameaçar interferir nisso. Enquanto os dois caminharam, eu pude ver o que estava estampado no colete que o homem vestia. Estava escrito “Sons Of Anarchy” e a imagem de um ceifeiro bordada embaixo. Meus olhos arregalaram-se brevemente.
Os Sons Of Anarchy são um grupo de motoqueiros que firmaram um Clube há muitos anos. Eles são muito temidos por todos, pois se vestem como gangsteres, dirigem motos gigantescas, intimidam qualquer um por onde quer que estejam. Existem muitos boatos que os rondam por serem justiceiros, e, com certeza não são apenas boatos, pois toda semana vemos pelo menos um de seus membros estampados nos jornais, seja por agressão ou troca de tiros com outros grupos rivais, ou até mesmo policiais que tentam interferir em seus negócios.
{...}
Já era bem tarde, apenas algumas horas até o amanhecer. Deixei a boate para poder descansar, pois enquanto a exaustão tomava conta de meu corpo, a festa estava apenas começando. A Casa estava superlotada e esse horário é quando Sean mais fatura durante todo o dia. Caminhei titubeando com os saltos nas mãos até o final da rua, onde fica a casa em que moro com Sean e Kevin. Bem, onde morava Kevin.
Aproveitei que estava sozinha e resolvi tomar um banho quente para eliminar toda a tensão que estava sobrecarregando-me. Deixei a água escorrer por meu pescoço e traçar seu caminho por minhas costas, aquecendo-me internamente. Com o chiado do chuveiro, dei início a uma viagem em meus pensamentos. O barulho do chuveiro se assemelhava a uma turbina de avião e foi então que decidi viajar para bem longe. Peguei o voo mais rápido para uma ilha deserta. Eu havia acabado de inventar essa Ilha. Na verdade já tinha viajado para lá centenas de vezes. Minha própria ilha. Lá eu estaria longe de tudo e todos. Lá eu poderia ser livre e viver da companhia de animaizinhos que jamais me fariam mal algum. Lá eu poderia ser feliz por pelo menos dez minutos, até desligar o chuveiro e evitar muitos gastos com a energia.
Toquei o registro para fechar o chuveiro, quando senti meus cabelos sendo presos por um pulso e logo um puxão que me tirou de dentro do box de vidro, lançando-me ao chão. Choquei-me contra o chão, tendo tempo apenas de colocar as mãos a frente de meu rosto, evitando com que fosse de encontro à parede.
— Por favor, Sean! Não! Sean! –comecei a gritar em desespero, encolhendo-me.
— Favor? Achas que merece “favor” depois do que fez? Levante-se já daí, vadia! –ele disse aos berros. Seus olhos estavam transbordando fúria e seu rosto tomado por uma vermelhidão exagerada.
Chegara a um ponto onde eu já nem sabia o porquê estava sendo punida. Apenas estava. Puxou-me bruscamente, fazendo com que eu me levantasse, e, cravando seus dedos em meu braço, arrastou-me até o quarto. Lançou-me na cama. Antes que fizesse qualquer coisa, estiquei meus braços tentando alcançar seu peito para freá-lo.
— Sean, me perdoe! Me perdoe, Sean! Eu não fiz nada! Apenas dancei, coletei tudo o que consegui e voltei para casa. Eu juro, Sean! Eu não fiz nada! Por favor, não... –disse aos prantos. As lágrimas fraquejaram minha voz, mas eu tentava o possível para acalma-lo, mesmo sem saber pelo que estava tão zangado.
— Cale-se! – berrou seguindo-se de um golpe contra meu rosto. Senti cada articulação de seu punho se chocando contra minha face. – É melhor que fique bem calada, senão vai ser pior. Muito pior... –sussurrou em meu ouvido, puxando minhas pernas e jogando-me no colchão de bruços. Abriu minhas pernas violentamente e ouvi-lo desatar seu cinto. Uni as mãos cobrindo minha boca e evitando qualquer ruído que fosse irrita-lo ainda mais. Lágrimas percorriam meu rosto e saltavam aos lençóis. Sua mão pousou em minha garganta, puxando-me e se aproximando novamente de meu ouvido. – Espero que lembre-se bem desses minutos quando estiver na festa dos malditos motoqueiros amanhã. Assim aprenderá que garota minha não se engraça com homem algum.
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