Bigger Than Us
4 CAPÍTULO 3º
Notas iniciais
TRÊS
PDV Charlotte
Apesar de estar acordada, continuei com os olhos fechados, sentindo as manchas vermelhas se formarem na vista, conforme o sol ia nascendo no horizonte. Ao longe, ouvi uma porta sendo fechada, e me perguntei se estava morta. Se estivesse, não me importaria muito. Apenas lamentava por não poder mais ajudar bons espíritos, perdidos por aí. Mas haviam espíritos que eu bem gostaria de manter distância. E não precisei pensar muito para que a imagem daquele palhaço demoníaco surgir em minha cabeça. Abri os olhos assustada.
Sentei-me no colchão corpulento, macio, com um leve odor de mofo, mas ainda sim, confortável. Não sabia onde estava, e mesmo que achasse a decoração de um terrível gosto, totalmente cafona, não ousaria sair daquela cama nem tão cedo. Talvez eu tivesse sido, de fato, seqüestrada por demônios. Mas eu pouco sabia sobre isso. Meus reflexos captaram um movimento no chão, e encravei meus olhos em Beagle, meu gato negro que pulou na cama para me saldar.
– Como vai amigo? – não esperei por resposta. Ter meu gato comigo não facilitava muita coisa, afinal, ele me perseguia, ele sempre me perseguiu, eleque não me abandonava. Ou seja, se eu tivesse sido mesmo raptada, ou até mesmo morta, ele estaria comigo, como estava agora.
Ousei levantar-me da cama, e caminhar até o banheiro. Concluí, pelo odor de sabonete e pelo vapor derretido no espelho, que este já havia sido usado. Senti uma de minhas sobrancelhas levantarem; que tipo de seqüestrador usava o banheiro do quarto da vítima, please?! Talvez não fossem seqüestradores, tentei me convencer. Lavei meu rosto e minha boca com rapidez e, foi com surpresa que achei minhas coisas no quarto, intactas. Troquei-me e, mesmo sabendo que seria idiotice, girei a maçaneta da porta, esperando que estivesse trancada. E com um sorriso besta na cara de alegria e surpresa, soube que estava livre. Mas do que?
Tentei colocar minha mente para pensar, enquanto descia as escadas infinitas daquele... prédio? Eu estava numa suíte, cafona, mas parecia ser uma suíte. Puta merda, deveria ter olhado a vista pela janela, pensei. E minhas coisas não pareciam violadas. Eunão parecia violada. Enquanto andava de um lado para o outro, procurava por mais escadas para descer, e como uma retardada, descobri que este era o térreo.
Meus all stars batiam no piso velho de madeira opaca e faziam um barulho escandaloso, como se eu estivesse de salto. Passei por um cômodo dito como recepção, recebendo uma olhada muito estranha de uma senhora que parecia ter 500 quilos. Ignorei tal sensação e atravessei a sala, deparando-me com algumas mesas, como se fosse um restaurante. Andei pelas pessoas, passando pelos garçons e pelas cadeiras já ocupadas, tentando encontrar algo que pudesse me ser útil, alguém que pudesse dizer onde eu estava. Senti Beagle passando sua grossa calda em minhas pernas.
– Arg, gato mal! – dei um gritinho de aflição. E me arrependi por ter chamado a atenção das poucas pessoas que ali estavam E quando achei que já era humilhação demais, lá estava um idiota, de pé, acenando pra mim com os dois braços levantados, como se eu fosse um avião. Na mesa em que estava sentado, estava Sam, sorrindo minimamente a me ver. Crispei os lábios, desconfiei desde o início, tentei me convencer. Caminhei de má vontade até estar na frente de Dean, o idiota que ainda estava sorrindo (e que sorriso!).
– Já ia levar café pra você. – não entendi sua necessidade de me explicar o que ia ou não fazer. Assenti, ainda sentindo o orgulho em mim desde o dia anterior.
– Certo. – porém, senti a necessidade de agradecer. – Obrigada.
– Sente-se conosco. – disse Sam, indicando uma cadeira. Eu lhe sorri fracamente e me sentei em frente aos dois, sentindo mais enjoo do que fome.
– E o que você quer? – perguntou Dean. Eu observei ele chamar a garçonete, com um sorriso sedutor no rosto.
– Um suco de laranja. – pedi pra moça, assim que esta chegou. – E uma fruta.
– Não temos frutas frescas. – franzi o cenho, mas ela estava mais interessada nas piscadas de Dean.
– Como vocês fazem suco de laranja, então? – perguntei, incrédula.
– Oras, suco de saquinho. – bufei estressada.
– Então, me traga apenas um café. – não pude deixar de completar, enquanto ela anotava meu pedido de má vontade. – Se é que tivercafé nessa espelunca.
Eu me sentia tão frustrada e confusa que, por tudo, eu poderia muito bem colocar as duas mãos na cabeça e gritar, principalmente depois de ver que os irmãos seguravam o riso pela a minha resposta mal dada. Sentia-me pressionada por todos os lados. A responsabilidade em ajudar ou espantar espíritos, a habilidade de poder vê-los, minha relação estranha com dois caçadoresdesconhecidos, a coincidência de encontrar os filhos do meu padrinho, o alívio por tê-los encontrado, a falta de cafeína em mim. E tudo aquilo estava me aborrecendo demais.
– Então. – inclinei-me para Sam, que havia se pronunciado. Ele olhou para Dean, era como se pudesse conversar com o olhar. Isso me irritou ainda mais. – Qual seu nome?
– Depende. – sorri de má vontade. – Tenho muito nomes pelo país.
– Qual seu verdadeiro nome? – perguntou Dean, com a expressão cansada, não parecendo estar de brincadeira. Bufei, rendendo-me. Sabia, algo me dizia, que era o certo a se fazer.
– Charlotte Smith.
– E...? – Sam instigou-me a continuar.
– É só o que precisam saber, — pensei bem e completei. – pelo menos por enquanto.
Antes que pudessem falar, levantei-me da mesa e olhei o relógio em meu pulso, já era quase meio dia.
– Preciso ir. – joguei algumas notas na mesa. – Obrigada pela hospedagem e por terem me ajudado. Daqui, eu continuo sozinha. Por enquanto. A gente se vê.
Virei-me nos calcanhares e subi as escadas correndo, saindo do quarto pela escada de incêndio que ficava encostada no prédio, do lado de fora. Coloquei a mala nas costas, desisti de procurar por Beagle, e saí de uma vez daquele – havia descoberto – hotel xexelento. Caminhei calmamente pelo estacionamento do estabelecimento, encostando-me num carro qualquer. Com meu canivete, consegui abrir a porta do motorista. Enfiei minhas coisas no banco de trás, improvisei uma conexão entre fios, e lá estava eu, dirigindo até um novo bar, até roubar outro carro, e assim, até chegar a Manhattan.
No meio do caminho, chorei. Porque eu gostaria de dizer tudo, de pedir ajuda... mas eu havia desistido de muitas coisas por respostas, e teria quase certeza de que só as conseguiria sozinha. Sorte a minha perceber que estava errada, meses depois.
DOIS MESES DEPOIS
Minha cabeça latejava, desde manhã. Estava dando graças por não chorar de dor, como na ultima vez. Saí da cafeteria, mastigando um chiclete de menta, numa tentativa de tirar o cheiro de café da boca, caminhando pelas calçadas de NY. Entrei no metrô de cabeça baixa, sentindo meus dedos frios segurarem a carteira que havia acabado de furtar com maestria, escondida dentro do bolso do moletom. Senti o vento de outono bater em meu rosto, enquanto saía do vagão aquecido pelo calor das pessoas frias. Caminhei apressadamente até o Hospital de Geral de Nova York, entrando sem demora no vestiário. Saí, bem diferente de como havia entrado.
– Charles, as crianças estão prontas. – disse uma das médicas, assenti.
– Obrigada. – com um all star de cada cor, com um vestido de boneca, e os cabelos amarrados em tranças tortas, entrei na sala e sorri para a enfermeira que cuidava de um menino, na ultima maca de uma fileira imensa delas. Coloquei o nariz de palhaço, e ajeitei minhas meias.
– CHARLES! – uma das garotas apontou e todos gritaram um ‘eba’ em coro. Uma vez por semana, eu fazia serviço comunitário no hospital, levando alegria para crianças, jovens e adultos que sofriam com o clima mórbido do lugar. Era esse o meu jeito de fazer alguém feliz. Que fossem felizes por mim. Passei a mão por seus rostinhos rosados, contei histórias, cantei, bati palmas, fiz cócegas, e brincadeiras de diversos tipos. Mas parte de mim se quebrava ao ver aqueles pequeninos, sem cabelos algum, mas sempre com um sorriso no rosto. E envergonhada por ser saudável, mas infeliz, me despedi das crianças, prometendo voltar na semana seguinte.
– Charles, precisa dar uma olhada na emergência. – assenti para o doutor de cabelos brancos, que sorriu amigável. Todos – ou quase todos – me tratavam bem por eu ser uma das únicas voluntárias comprometidas com as crianças, mas mal sabiam o que eu era por trás daquela roupa atrapalhada. Além disso, eu possuía em minha pequena bagagem de experiências um técnico especializado em enfermagem. Não que ajudasse em algo, mas ervas medicinais, magia e corpo humano tinham uma melhor relação quando você sabia o que estava fazendo, e isso era necessário.
Caminhei pelo corredor e abri a grande porta que separava as alas, sem o nariz de palhaço, tentando respirar melhor. Cumprimentei algumas pessoas com um aceno, beijei algumas crianças, e comentei uma ou duas palavras com seus pais. Entrei na sala de espera, e puxei Drake pela orelha, sem machucá-lo. Ele era um garoto sardento, interno do hospital, ainda em fase de adaptação; também era meu irmão de consideração. Deu-me um sorriso.
– Pegue o violão. Vamos fazer uma surpresinha na emergência. – ordenei, dando um beijo na bochecha.
– Cuidado com os caras, você tá tão sexy com essa roupa... só pra me dar trabalho! – disse baixinho, fazendo-me sorrir. Entrei na sala de espera pulando como um coelho, deixando as pessoas surpresas.
Passava assim, leve como o vento, fingidamente alegre como num baile de máscaras. Você nunca sabe quem esta por baixo delas, ou o que sente. Imitei algumas pessoas como sombra, fiz algumas piadinhas discretas, baguncei os cabelos lisos de uma garota, que sorriu animada. Drake chegou com o violão.
People come, people go
(Pessoas vêm, pessoas vão)
Sometimes without goodbye, sometimes without hello
(Às vezes sem dizer adeus, às vezes sem dizer olá)
I got one magic trick
(Eu tenho um truque de mágica)
Just one and that's it
(É apenas um, e é isso)
Ooh... I disappear
(Ooh... eu desapareço.)
It's like, now you see me, now you don't
(É como se, agora você me vê, agora você não vê)
You think you're gonna get to know me now, well you won't
(Você acha que vai me conhecer agora, bem, você não vai)
I got one magic trick
(Eu tenho um truque de mágica)
Just one and that's it
(É apenas um, e é isso)
Ooh... Ooh... I disappear
(Ooh… Ooh… Eu desapareço)
Aah... Aah...
It's like, easy come, easy go
(É como se, vêm fácil, vai fácil)
Sometimes without goodbye, sometimes without hello
(Às vezes sem dizer adeus, às vezes sem dizer olá)
I got one magic trick
(Eu tenho um truque de mágica)
Just one and that's it
(É apenas um, e é isso)
Ooh... I disappear
(Ooh... Eu desapareço)
Ooh... And that's it.
(Ooh… E é isso).
Recebemos palmas singelas, eu e meu irmão, por trazermos alguns sorrisos á sala de espera da emergência. Agradeci, curvando levemente meu corpo. Levantei-me rapidamente ao ouvir Dr. Collins me chamando, com um sorriso fraco no rosto. Eu o segui.
– Mas será possível você ser uma boa voluntária, — começou com sarcasmo, já longe da vista dos pacientes, enquanto eu o seguia e fingia submissão. – e atender as pessoas da enfermaria, em vez de fazer dupla country com aquele moleque?!
Ele parou de andar e fitou meu rosto, as sobrancelhas furiosamente franzidas, assim como os lábios. Enquanto fingia estar aceitando a bronca não merecida, desejei fervorosamente que Dr. Collins tivesse uma dor de barriga. Sem brincadeira. Afinal, o que eu havia feito de errado? Assenti rapidamente e, tirando o nariz de palhaço, atravessei o corredor em direção à enfermaria. Entrei na sala, desmanchando as tranças e amarrando os cabelos num coque, e pegando as fichas que estavam em cima da mesa. Li o primeiro nome, sem que meu cérebro pudesse digerir o que saía de meu lábios.
– Sou eu. – disse a voz de homem, enquanto eu colocava o avental por cima daquela roupa de quadrilha. Olhei para a autor da voz, e pensei que, talvez, eu tivesse de ser medicada. Olhei a ficha mais uma vez, para ter certeza de quem era.
– Sam Winchester? – perguntei confusa. – O que faz aqui?
~•~
PDV – Sam
Dean e eu olhávamos intrigados de longe para a garota que cantava e dançava, colocando sorrisos nos rostos das pessoas naquele hospital. Discretamente, vimos suas artimanhas com um cara e um violão. Parecia que meu cérebro já havia reconhecido quem era, mas eu não queria acreditar. Não podia acreditar que Charlotte – uma caçadora de demônios que portava armas, como nós – poderia estar ali, alegrando as pessoas entre aqueles corredores brancos e sem vida. Meu estômago reclamou e evitei gemer de dor, mas Dean não fez nenhuma cerimônia ao ver que seu corte sangrava para começar a reclamar.
– Senhores? – disse um homem de branco, provavelmente médico do lugar. – Peço que me sigam até a enfermaria. Já vamos lhes atender.
– Se até lá eu estiver enxergando... – Dean deu de ombros e seguiu o homem, com seu olho banhado de sangue pelo corte na sobrancelha.
Entramos numa pequena sala, com algumas parafernálias de médico. Passamos pelo balcão simples, onde o homem deixou nossas fichas e nos assentiu antes de virar-se e sair. Sentamos nas cadeiras, que ficavam em frente à maca, e ao lado de uma pequena janela. O silêncio havia se instalado entre nós, assim como a tensão. Nós dois parecíamos decidir se falávamos ou não sobre a garota que parecia/era Charlotte. Talvez, eu não tivesse comido aquele lanche gorduroso e passado mal por acaso.
Enquanto tentávamos decidir, ouvimos passos na sala. Era ela, amarrando os cabelos compridos, ondulados e escuros num coque. Com um vestido de boneca, o nariz de palhaço preso por um elástico, pendurado no pescoço, um tênis de cada cor, e meias coloridas até metade das pernas. Agora eu poderia ter certeza de que era ela, sim. Charlotte pegou uma ficha e chamou por meu nome, com a voz cansada e entediada, mas não pareceu notar quem, de fato, havia chamado. Levantei-me com dificuldade, dando um olhar significativo a Dean, que estava visivelmente surpreso.
– Sou eu. – respondi, esperando que ela terminasse de vestir seu avental por cima da roupa engraçada, e colocasse o estetoscópio em volta do pescoço. Ela me olhou e franziu o cenho. Sorri, vendo que havia percebido que eu era, que havia se lembrado.
– Sam Winchester? – perguntou confusa, voltando a olhar minha ficha para se averiguar de que não falava com a pessoa errada; prendi o riso, e lhe dei um sorriso fraco e simpático. – O que faz aqui?
– Parece que comeu algo que não fez bem. Vomitou a viagem inteira. Então resolvi trazê-lo. – interrompeu-me Dean antes mesmo que eu pudesse responder, enquanto eu o fuzilava com os olhos. Ela o olhou indiferente, com olhos frios e sérios. Talvez ela não gostasse das brincadeirinhas dele tanto quanto eu. Isso me deu vontade de sorrir, mesmo que o mínimo esforço fizesse meu estômago doer.
– Okay. – disse Charlotte confusa e extremamente constrangida. De repente, ela assumiu sua imagem profissional, endireitando as costas e encarando-me com olhos metódicos. E nem sua roupa engraçada poderia lhe tirar tal seriedade e confiança. – Tire a camiseta e deite-se na maca, por favor.
– Mas já?! – Dean riu com malícia. – Será que posso sair da sala, primeiro?
Eu o olhei sério, e ela imitou meu movimento, mas ignoramos a brincadeira sem graça. Ele deu de ombros, e voltou a se sentar, sorrindo. Tentei não mostrar o constrangimento ao deitar-me na maca sem camisa, e sentir seus dedos frios em meu abdômen, massageando-o e fazendo-me cócegas.
– Dói aqui? – perguntou baixo, forçando os dedos em minha pele.
– Não. – respondi, visivelmente sem graça, e me odiando por isso. Evitei olhar para Dean, porque sabia que ele estava sorrindo, ou segurando a risada.
– Aqui? – apertou mais pra cima, perto da boca do meu estômago.
– Sim. – disse entredentes, evitando gemer de dor. Ela suspirou, parecendo preocupada.
– Pode se sentar na maca, por favor? – pediu, dando-me o espaço que precisava. Sentei-me rapidamente, olhando automaticamente para meu irmão, esperando ver seu sorriso malicioso, ou seus lábios, dizendo-me alguma baixaria em gestos mudos. Mas ele estava sério, e concentrado nas ações de Charlotte.
Quase saltei de susto ao sentir o metal gelado em meu peito. Respirei fundo, enquanto ela ouvia meu coração denunciando-me, pelo estetoscópio. Inspirei. Seus olhos fitavam o vazio atrás de mim, e as linhas de seu rosto estavam tensas, os olhos estavam quase em fendas, e havia percebido que essa era sua expressão quando estava concentrada. Expirei.
– Tudo bem, Winchester. – disse, afastando-se de mim com rapidez e sentando-se atrás do balcão, anotando algo num papel. – Você está proibido de comer fast fooddurante, pelo menos, uma semana. Provavelmente não é nada mais grave que uma intoxicação alimentar, mas por via das dúvidas, vai tomar soro. Só vai durar uns vinte minutinhos. E terá de passar a comer coisas leves, de preferência, de fabricação caseira.
Enquanto ela falava, com seus lábios bem feitos mexendo-se rapidamente, uma enfermeira entrou, e ficou do lado de Charlotte. Ela lhe estendeu o papel, olhando sem muito interesse.
– Pode aplicar o soro. – garantiu. A enfermeira sorriu e pediu para que eu a seguisse. Caminhei até a porta, sem querer sair da sala, na verdade. Não sabia quando voltaria a ver Charlotte de novo se ela fosse embora outra vez, e não deixasse vestígios.
PDV – Dean
Ela ainda anotava coisas em sua bancada, enquanto eu sentia o sangue ainda descer por meu olho direito. Pensei em perguntar quando seria atendido: se quando perdesse a visão, ou nunca. Não faria muita diferença, nos dois casos. Observei suas mãos enquanto examinava Sam, percebi como seus ombros se mexiam enquanto ela escrevia e falava com a enfermeira. E não sabia se teria coragem de chegar perto daquela mulher. E pensar nela como uma enfermeira, como uma mulher, era difícil também. Afinal, eu tinha conversado com uma garota, eu tinha discutido com uma garota, eu tinha desejado uma garota. E não sabia que sentimento ou que conclusão deveria nutrir por aquela mulher.
– E você? – perguntou, apoiando o queixo em sua mão. – O que houve?
– Na pressa de ver Sammy passando mal, acabei não colocando o sinto de segurança, e quando brequei o carro com força, em meio a esse trânsito maluco... – respondi automaticamente.
– Certo, sente-se na maca. – ordenou. Não tive tempo de recusar, pensar besteiras. Apenas obedeci minha mente.
Ela colocou luvas de látex nas mãos e pegou um algodão, molhando-o com qualquer medicativo que deveria arder. E como havia pensado, ardia. Mas meus lábios continuavam grudados, sem nada dizer, agüentando firme a dor.
– Eu não vou rir se você gritar de dor. – disse sorrindo, os dentes quase retos, com os caninos na medida certa, sobressaindo um pouco sobre os incisivos. Seus olhos quase em fendas, concentrados em meu corte, sorri.
– Não sou homem de gritar de dor. – ela me olhou e pareceu concordar, com um aceno leve. – No máximo, um SOS pro Cass.
– Cass? – perguntou confusa.
– Talvez você o conheça um dia.
– Talvez. – disse, colocando um fio numa agulha. – Fique parado, vou costurar sua sobrancelha.
– E se eu não ficar? – a desafiei, com um sorriso sacana no rosto, o qual ela correspondeu, mas com os olhos ainda sérios.
– Então, vou costurar no lugar errado, e seu rosto vai ficar deformado. – eu a olhei em choque, e percebi que agora ela sorria verdadeiramente, seus olhos sorriam também.
Ficamos em silêncio novamente, enquanto eu sentia sua mão leve em meu rosto, costurando minha pele, tentando concertar o estrago que havia feito num momento de desespero. E depois caiu a ficha: ela estava me concertando. Ela parecia saber o que estava fazendo, mas ainda sim, não entendia como ela conciliava a vida de caçadora com a vida de enfermeira. Pensei em quebrar o silêncio. Eu quebreio silêncio.
– Então, você é enfermeira.
– Não sou interna, apenas voluntária, uma vez por semana. – explicou, e tudo pareceu ter mais sentido. – Tenho técnico em enfermagem. Relaxa.
– Não, eu confio que você vai me costurar certo. – disse um pouco em dúvida, e escutei sua risada acima de mim.
– Okay, obrigada. – pegou a tesoura e cortou a linha, passando um novo algodão com o mesmo remédio, fazendo o machucado arder outra vez.
– Au! – fiz questão em reclamar.
– Aposto que você não deixou de ser homem por isso. – comentou, dando de ombros.
– Com certeza, não. – lhe dei um olhar sacana, pensando que ela já estava no papo, mas também não me surpreendi em ver seus olhos vazios, sérios e gélidos, sem nenhuma emoção, fitar meu semblante malicioso.
– Tudo bem. – disse por fim. Voltou ao seu balcão, e eu a minha cadeira, o silêncio se instalou entre nós, apenas quebrado por sua caneta, fina e precisa no papel, onde ela escrevia não sei o quê.
– Charles, já está liberada. – disse a mesma enfermeira que havia levado Sam, agora, trazendo-o de volta. Ele se sentou ao meu lado, parecendo meio tonto, franzi o cenho preocupado.
– Certo. Obrigada. – elas se despediram. Charlotte virou as costas para sair da sala, e pensei em gritar e pedir que ficasse um pouco mais e respondesse todas as perguntas que eu tinha a fazer. Mas antes que eu pudesse abrir a boca, ou mesmo Sam, ela se virou, o rosto iluminado com uma decisão já tomada. – Esperem aqui. Vou me trocar, e já volto.
Eu a olhei em dúvida.
– Confiem em mim. – sorriu minimamente, e segui pelo corredor branco do hospital.
~•~
Fale com o autor