Big Time Dream
31 Capítulo 31 - Across the Continent
Notas iniciais
Eu sei, eu sei. A Barbara deu uma sumida, mas no próximo capítulo ela vai estar de volta. Eu prometo!
Beem, boa leitura! E não esqueça de deixar um review depois que ler!
Jessica
(...)
– O mundo não gira em torno de você. – Eu disse. Aquilo foi a única coisa que me veio em mente.
– Muito menos de você. – Barbara rebateu.
– Então eu acho que acabamos por aqui.
– Também acho. – Concordou. Eu fiz questão de fechar o notebook, pouco me importando de ele estava ligando ainda. Eu queria gritar até a raiva passar, então gritei. Eu queria chorar, mas não consegui. Não saia nada. Eu sei, eu sei. Eu não tive razão para ficar tão zangada, mas, sei lá, o que eu mais temia aconteceu. Foi absurdamente frustrante ouvir que agora ela tem um futuro promissor, sendo que só tem 16 anos de idade. Enquanto eu ficava aqui, suspirando pelo Diego.
Eu não sei o que me deu, só sei que quando estou com raiva, eu falo as coisas sem pensar, tendo razão ou não. É, eu sou muito ansiosa. E isso me prejudica muito, mas Barbara conhece meu jeito irritadinho. Ah Barbara. Com uma carreira brilhante, morando em um lugar por conta própria, e com um cara famoso caidinho aos seus pés. Parece cinema, e quem não conhece pensa que é mentira.
De repente comecei a achar que o que eu estava sentindo não era somente raiva, e sim também inveja. Não, não pode ser. Ela é minha melhor amiga – ou pelo menos era – e eu deveria estar feliz por ela. Por que não estou? O que está acontecendo comigo?
Eu tenho que pedir desculpas a Barbara, porém já é tarde. Ela estava certa, que bela amiga eu sou. Perdi a minha melhor amiga por causa da minha estupidez. O pior é que eu queria chorar, para ver se amenizava, mas não saia absolutamente nada. Eu tentei, mas nenhuma lágrima desceu. Estava começando a achar que talvez eu seja feita de pedra.
Pelo menos para acalmar, eu peguei o meu violão. Só meus pais sabem que eu toco violão, ninguém mais, afinal foram eles que me deram de presente quando eu tinha 11 anos. Desde então ele é meio que o meu refúgio, melhor dizendo. Eu consigo me identificar com cada melodia, e viajar longe, é como uma droga às vezes.
Eu respirei fundo e comecei tocando uma melodia suave, que logo foi se intensificando ao mesmo tempo em que eu consegui passar a raiva para os meus dedos. A música não tinha letra, quem sabe ritmo. Só tinha emoção. É como se as lágrimas que não descem pelos meus olhos, passassem para as minhas mãos e se transformassem em cada nota que toco.
Até que fui interrompida com o som do meu celular tocando. Meu namorado Diego.
– O que foi? – Eu disse, deixando sem querer a raiva sobressair em minha voz. Droga. Pensei que eu tinha me livrado dela.
– Opa, posso saber o que eu fiz?
– Desculpa, eu não quis falar assim, foi sem querer.
– Está tudo bem?
– E-está. Não se preocupe.
– Então ta. Só queria avisar que já estou indo para aí.
– Tudo bem, tchau. – Desliguei sem saber se houve resposta. Hoje mais cedo, nós marcamos de ir ao cinema, mas eu não esperava não ter nem um pingo de ânimo para sair.
Peguei meu violão e guardei embaixo da cama. Aconcheguei-me, abraçada ao travesseiro. Não me importava se Diego chegasse, eu não queria sair. Se eu saísse, eu iria acabar descontando meu ódio em quem o que eu visse na frente, querendo ou não. Então achei melhor permanecer na segurança do meu quarto.
Sons de batidas na porta despertaram-me. Eu devo ter cochilado sem querer, pois eu tenho um sono que vem rápido, porém bem leve. Virei para o outro lado e vi o rosto de Diego, com sua barba mal feita, na brecha da porta entreaberta.
– Você não parece pronta para ir.
– Não me leve a mal... Mas eu não quero sair. Não hoje, desculpa. – Eu me sentei recostada na cabeceira da cama e passei a mão no rosto, tentando me livrar da cara de sono.
– Eu percebi, pelo jeito que você falou no telefone. – Ele entrou, fechando a porta em seguida. Sentou-se ao meu lado na cama. – Aconteceu alguma coisa? Tem a ver comigo?
– Não, Diego. Não tem nada a ver com você. Você não fez nada. O problema... Sou eu. Eu só faço besteira. – Ele me acolheu em seus braços.
– O que te faz dizer isso?
– Minha melhor amiga se mudou para o outro lado do continente para viver seu sonho, e em vez de apoiá-la, eu só pensei em mim e acabei a magoando.
– Qual amiga?
– Barbara. – Suspirei. – Nós estávamos em uma conversa por vídeo, e ela me contou a novidade, mas eu agi com ignorância. Ela se irritou e jogou um monte de verdade na minha cara. Ela é muito boa com argumentos, e eu fui só uma idiota. Falei sem pensar.
– Eu não sei o que te dizer Jessi, mas... Ela realmente não quer mesmo falar com você?
– Não. E foi tudo minha culpa.
– Se ela estivesse aqui no Rio, ou você lá, seria bem mais fácil de resolver né. Afinal, resolver briga pela internet não ajuda muito, eu acho.
– É, pena que não dá... – De repente, uma lâmpada imaginária surgiu acima da minha cabeça, e eu me levantei. – É isso!
– É isso o que?
– A Barbara não pode vir pra cá por causa da série, mas eu posso ir para Los Angeles.
– Você está de brincadeira? – Ele parecia não ter gostado nadinha da minha idéia. Então fiquei calada por um instante.
– M-mas é claro que eu estou brincando, foi só uma idéia boba...
– Ainda bem, pois de maneira nenhuma eu te deixaria viajar para Los Angeles, muito menos sozinha. – Eu arregalei os olhos, indignada. Desde quando ele opina nas minhas decisões? Ah é, desde que ele virou meu namorado. – Então, eu to vendo que nós não vamos sair para lugar nenhum... O que você quer fazer aqui?
– Nada, só ficar com você.
– Fofa. – Deitei ao seu lado e me acolhi em seus braços.
NO DIA SEGUINTE...
– De jeito nenhum! – Disse minha mãe enquanto lavava a louça suja do almoço.
– Por que não? – Eu tinha levado a idéia a sério, mesmo sem o apoio de Diego.
– Tá doida menina? Deixa só o teu pai saber dessa arrumação.
– Mãe, depois eu me resolvo com o papai. Eu quero saber uma resposta sua agora. Por favor, me deixa ir pra Los Angeles. Só uma semana, ou melhor, cinco dias!
– Você fez um tour pelos Estados Unidos nos seus 15 anos, o que não foi nada barato. O que você quer fazer lá, de novo?
– Eu preciso ver Barbara. – Ela parou de lavar a louça para me encarar. – Quer dizer, minhas férias estão um saco...
– Nem eu nem seu pai temos dinheiro para ficar bancando viagens para o exterior sempre que você quiser. – Voltou a ensaboar as louças. – Se você quer tanto viajar, arrume seu próprio dinheiro. – Ela continuou lavando, como se não tivesse dito nada de mais.
– O que? Você quer que eu arrume um emprego?
– Emprego, isso.
– Sonha.
– Então sonhe com a sua viagem. – Arregalei os olhos. – Você já tem 16 anos, tem que aprender a ter responsabilidade e compromisso com as coisas. – Ela disse enquanto me entregava um prato molhado e um pano. – Está na hora de ver que nem tudo é tão fácil, que não basta pedir pro papai e pra mamãe. Eu garanto que o seu namorado não age assim que nem você.
– Como eu vou conseguir um emprego agora? E se eu conseguisse, só receberia mês que vem, mas eu quero viajar ainda esse mês, antes que as férias acabem!
– Ah, faça bicos.
– O que?
– Vá enxugando e guardando esses também... – Ela colocou uma pilha de louça na minha frente.
– Como eu vou fazer bicos? Aonde?
– Tem bastante gente aqui na vizinhança que precisa de alguns serviços. A Ângela e o Valdemar, por exemplo, vão sair na terça para o casamento da prima da afilhada deles, mas não querem deixar os filhos sozinhos. Soube que eles vão pagar por hora.
– A senhora quer que eu dê uma de babá? Só pode ta de brincadeira né.
– Se você quer ganhar dinheiro pra viajar, é assim que tem que ser. – Eu não conseguia acreditar. Minha mãe, me arranjando um bico. Ah mas se ela ta achando que vai me por pra trabalhar, ela está muito enganada!
NA TERÇA FEIRA...
– Muito obrigada por ter tomado de conta dos nossos pequeninos! – Disse a Dona Ângela, com os olhos castanhos escuro brilhando de felicidade.
– Ah não foi nada, suas crianças são uns amores. – Eu disse enquanto tentava tirar a tinta do cabelo. – 15 reais por hora não é?
– Oh, sim! Quanto deu no total? – Perguntou o Seu Valdemar.
– Bem, vocês saíram às 19h, e agora são 1h da manhã. São 6 horas de trabalho, então daria 90 reais. Mas... Eu estarei cobrando os estragos com o meu cabelo. 110 reais no total.
– Nossa, esse é o preço mais caro que já paguei por uma babá... – Ele disse tirando a carteira do bolso. – Mas eu sei que você fez um bom trabalho.
– E como. – Sussurrei.
– Amor, eu não tenho nota nenhuma de 10, você tem? – Ele perguntou a Dona Ângela.
– Não. Lembra que você confiscou o meu dinheiro? – Ela cruzou os braços, irritada.
– Depois nós discutimos sobre isso. – Ele murmurou. – Você tem troco pra 50? – Ele me perguntou. Eu tenho cara de quem tem dinheiro?
– Não... – Eu respondi virando os bolsos ao contrário, mostrando que estavam vazios.
– Amor, dê essa gorjeta a ela.
– O que?! Você quer que eu pague 150 reais para ela? – Ele quase engasgou com a própria saliva, e eu arregalei os olhos com esperança.
– Sua mãe me contou que você está juntando dinheiro para viajar – Ela disse bem simpática e eu assenti sorrindo. – Vamos ajudar, não vamos meu bem?
– V-vamos...?
– Nossa muito obrigada! – Exclamei. Estendi a mão para receber o dinheiro, ele pensou duas vezes e hesitou até que a Dona Ângela segurou o seu pulso e o fez colocar o dinheiro na minha mão. – Isso vai ajudar, e muito! Muito obrigada mesmo!
– De nada, flor. – Ela disse sorrindo, e o Seu Valdemar não estava passando muito bem. Nós nos despedimos e eu corri para minha casa. Ainda bem que eles moravam ao lado, porque é um perigo andar na rua ás 1 da manhã com 150 reais na mão. Por sorte eu me lembrara de trazer a chave e entrei rapidamente.
Praticamente voei para o meu quarto e guardei o dinheiro na minha caixinha. Eu até que estava bem feliz, até perceber que 150 reais mal davam para comprar a passagem. Como eu vou conseguir mais dinheiro?
Dei uma olhada melhor na minha caixinha e vi que tinha muito mais que 150 reais, pois guardo dinheiro dela desde que me conheço por gente. Lembrei também do meu cofrinho, onde só guardo moedas. Joguei todo o meu dinheiro por cima da cama. Confesso que passei um longo tempo contando todas as moedas. No total, eu tenho aproximadamente 470 reais. Eu não teria que pagar hotel, pois ficaria no apartamento de Barbara, então não gastaria tanto com comida também. Só que o dinheiro continua não sendo suficiente para as passagens de ida e volta.
Ah, quase esqueci um detalhe. Diego. De jeito nenhum ele me deixaria viajar para Los Angeles sozinha. Eu preciso conversar com ele, é isso. Ele tem que apoiar.
São tantas preocupações, que daqui a pouco aparecem fios brancos na minha cabeça. Acho melhor eu ir dormir, descansar as idéias e o principal: Não entrar em desespero.
Acordo, e olho no relógio, nove da manhã. Eu fui dormir tarde ontem, não tem sentido eu ter acordado esse horário. Tento dormir novamente, mas não consigo. O jeito é levantar a bunda da cama e ir comer alguma coisa.
Desci as escadas e fui até a cozinha, vi meus pais sentados a mesa conversando. Assim que me viram se calaram.
– Bom dia... – Eu disse, indo até a geladeira. – Não foi trabalhar hoje, papai?
– Folga.
– Senta aqui com a gente um pouco. – Disse minha mãe. De repente comecei a pensar em todas as coisas erradas que eu fiz durante a semana.
– Pra que? – Eu perguntei, com medo.
– Nós só queremos conversar com você. – Disse o papai. Peguei uma caixa de leite e me sentei.
– Ontem eu e seu pai conversamos sobre a tal viagem que você quer fazer.
– Legal... – Eu respondi e tomei um gole do leite direto da caixa. Notei que a minha mãe virou o rosto para não ver.
– Nós vimos o quanto você está decidida a ir. E é isso que gostamos de ver de você, agora que está crescendo. Fazendo bicos para conseguir dinheiro... Aliás, quanto você tem? – Meu pai perguntou.
– Quase 470 reais, por ai, quando eu estava contando, acabei me atrapalhando. Eu não precisaria levar tanto dinheiro para lá, já que eu ficaria no apartamento da Barbara, então é uma boa economia. É um bom dinheiro, mas ontem eu percebi que não dá pras passagens de ida e volta. Então eu teria que fazer mais bicos. – Quando terminei de falar, meus pais estavam com as sobrancelhas levantadas, e se entreolharam.
– Eu te disse. – Mamãe sussurrou para o papai. Eu fiquei sem entender. – Filha, ontem depois que você saiu para a casa da vizinha, eu e seu pai conversamos. Achamos incrível você ter se disponibilizado a ajudar a Ângela, isso mostra que você está criando compromisso pelas suas coisas e responsabilidade.
– Então, sua mãe acabou me convencendo a comprar suas passagens.
– Sério? Vocês compraram as minhas passagens?! – Bati com as duas mãos na mesa.
– É nós compramos, mas ainda podemos cancelar. – Disse o papai, fazendo meu sorriso sumir.
– Mas não vamos. – Disse a mamãe, fazendo meu sorriso e orelha a orelha voltar. – Nós conversamos mais um pouco e decidimos observar como você estava lidando com o assunto, e posso lhe dizer que ficamos bem satisfeitos com o que vimos.
– Você está crescendo e conseqüentemente agindo e pensando como adulta. Espero que continue assim.
– Aqui estão as passagens. – Mamãe colocou uns papéis na mesa, quando eu estiquei a mão pára pegá-los, meus pais os recuaram. – Você vai no sábado e volta no outro sábado. Acha que consegue ficar uma semana sem causar problemas?
– Claro que sim.
– Jessica, eu tenho certeza de que pra onde você vai não tem nenhum adulto por perto. Eu e sua mãe estamos confiando em você, então é bom que tenha muita responsabilidade, para não nos decepcionar e perder nossa confiança. Pense nos seus atos antes de tudo e principalmente tenha cuidado. Muitas pessoas não são tão boas quanto parecem. – Meu pai estava começando a me assustar. O que ele e a mamãe acham que eu vou fazer? Usar drogas? Voltar grávida?
– Eu vou me cuidar não se preocupem. – Eles ergueram as sobrancelhas. – Eu prometo.
– Ok. – Mamãe cedeu finalmente me entregando as passagens. Eu as segurei com as duas mãos, morta de felicidade.
– E... O que eu faço com o dinheiro que já tenho?
– Me dê que eu troco em dólares para você gastar por lá. – Disse o papai. Bem, eu teria mais ou menos 260 dólares. Não é muita coisa, mas serve.
– Obrigada. Vocês são os melhores pais do mundo – Levantei e fui até eles, dando um beijo em cada um. – Ah, hoje eu vou almoçar lá no Diego.
– É? – Disse meu pai, não muito feliz com a notícia. – Pelos menos essa viagem vai ser boa pra você se afastar um pouco desse homem.
– Esse homem é meu namorado ta? Respeite. – Eu disse, guardando a caixa de leite na geladeira.
– Não sei o que te deu na cabeça para namorar um garoto de dezenove anos.
– Ah pai, não começa não. – Eu disse, enquanto saia da cozinha. Sai a tempo de ver minha mãe se levantar e jogar a caixa de leite fora.
Eu não acredito! Eu consegui as passagens! Ainda bem, pensei que eu teria que trabalhar mais. Ufa. Essa viagem promete. Vai ser ótimo encontrar a Barbara, e os novos “amigos” dela. Uh, eles devem ser uns pedaços de mau caminho. Menos Jessica, você é uma garota comprometida agora. Falar em compromisso, eu tenho que arrumar um bom discurso pro Diego. Ele não vai gostar nadinha dessa viagem.
Meus pensamentos foram interrompidos com o som do meu celular tocando.
– Alô? – Atendi.
– Oi Jessi, sou eu. – Era a voz de Diego, a única que conseguia alegrar meu dia.
– Ah, oi Diego...
– Só to ligando pra avisar que eu já estou passando para te buscar. E eu tenho uma surpresa pra você. – Já está passando?
– Surpresa? Diz logo o que é.
– Se eu te contar não vai mais ser surpresa.
– Tá bom... Estou te esperando, Tchau.
– Tchau. – Desligou. O apartamento de Diego não era muito longe da minha casa. Eu praticamente voei para o banheiro, tirando a roupa pelo caminho, e tomei o banho mais rápido que já tomei em toda a minha vida. Sai do banheiro tropeçando nas peças de roupas que estavam espalhadas pelo chão. Abri o guarda-roupa e peguei a primeira que vi. Quando estava calçando o sapato, ouvi batidas na porta.
– Filha, Diego está aqui! – Minha mãe gritou do outro lado da porta.
– O Diego? Mas eu ainda não estou pronta!
– Então eu vou pedir pra ele entrar.
– Não mãe! – Tarde demais, ouvi o som do tamanco se distanciando, ela não escutara minha prece. Terminei de me arrumar às pressas, e a minha maquiagem deve ter ficado horrível por que eu nem olhei no espelho.
Sai do quarto e desci as escadas correndo e no meio dela, ao ver Diego e meus pais conversando no sofá. Era essa a surpresa? Me matar do coração?
– Ali está! Minha filha! – Disse meu pai, levantando e abrindo os braços. Minha mãe e Diego levantaram logo. Ele mantinha as mãos nos bolsos.
– O-oi Diego. – Eu disse, envergonhada. Diego abriu um sorriso torto e tímido, me fazendo sorrir automaticamente.
– Cuide bem dela, viu rapaz? Ela é o meu tesouro. – Papai deu um tapinha nas costas de Diego.
– Pode deixar Senhor Bittencourt. Não irei decepcioná-lo. – Ele veio para o meu lado e pôs o braço volta da minha cintura.
– Podemos ir agora?
– Claro. – Disse Diego. Andamos até a porta e eu acenei pros meus pais.
– Tomem cuidado! – Minha mãe disse.
– E não volte tarde! – Disse o meu pai. Bufei assim que saímos de casa.
– Desculpe pelos meus pais. – Eu disse, e ele riu.
– Eles são legais, só se preocupam com você.
– Tá bom. – Ironizei. Dei uma olhada na rua e não vi o carro de Diego. – A propósito, cadê o seu carro?
– Essa é a surpresa.
– Essa era a surpresa? Nós vamos a pé?! – Ele riu de mim, mas eu não estava achando aquilo nada engraçado.
– Não. A surpresa está ali na esquina. – Ele colocou as mãos nos meus olhos, e foi me guiando, e eu tropecei algumas vezes. A única coisa que eu pensei que a gente podia encontrar na esquina era uma prostituta, mas eu acho que elas não trabalham esse horário.
Quando ele finalmente me permitiu ver, eu me deparei com a moto mais espetacular do mundo a minha frente.
– Essa moto é sua?! – Eu caminhei até ela e a fitei, deslumbrada.
– Sim. Eu comprei faz poucos meses. Quase não tiro essa belezura da garagem, eu só em ocasiões muito especiais. – Ele me abraçou por trás.
– Essa é uma ocasião especial pra você? – Perguntei, sorrindo timidamente.
– Pode apostar que sim. – Ele me virou nós nos beijamos. Um beijo suave e gostoso. Eu estava adorando. Quando ele infelizmente libertou nossos lábios, uma dúvida que me incomodava há muito tempo voltou a minha mente.
– Você não se sente estranho namorando comigo?
– Como assim? – Ele juntou as sobrancelhas.
– Tipo, uma garota mais nova.
– O que eu sinto por você não tem idade.
– Ah, a quem você quer enganar? Eu sou só uma garota e você é... Um homem. Com o seu apartamento, emprego, carro, moto.
– O carro e o apartamento foram presente dos meus pais. O emprego é provisório enquanto eu não terminar a faculdade.
– Tá vendo, Diego? Você já está na faculdade, e eu ainda no 2º ano. – Eu me livrei dos braços dele e fui até o outro lado da moto. – Quer dizer, o que você está fazendo aqui, em vez de estar saindo com uma mulher de verdade?
– Eu não gosto das outras mulheres. – Ele veio para perto de mim, mas eu virei de costas com os braços cruzados. O que eu estava fazendo? Rejeitando Diego? Qual é o meu problema? – Eu gosto de você. Você não é que nem as outras. – Ele segurou minha cintura e me virou de frente para ele, obrigando-me a encará-lo. – Elas eram fúteis e descartáveis. E você é muito diferente, dá de 10 a 0 nelas, e isso sim é ser uma mulher de verdade.
– 10 a 0? – Perguntei, com um sorriso.
– Sim. E é ridículo você ficar falando essas coisas de idade. Eu gosto de você, não de quantos anos você tem. – Meus olhos brilharam.
– Eu também não ligo se você é um cara mais velho. Só pensei que talvez algo estivesse te incomodando.
– Por que você achou isso?
– Ah, por nada, só me passou pela cabeça. – Ele deu um beijo na testa.
– Então pare de pensar isso. Promete?
– Tá, prometo. – Sorri timidamente. – Vamos?
– Vamos. – Ele pôs o seu capacete e me entregou outro reserva. Eu ajustei o capacete, que era ligeiramente largo para a minha cabeça, ele se sentou na moto e eu me posicionei atrás dele.
– Com emoção ou sem emoção? – Ele perguntou, quando deu a partida.
– O que você acha? – Perguntei irônica.
– Eu acho melhor você segurar firme. – Coloquei meus braços em volta da sua cintura e pus minha cabeça acima do seu ombro.
Ele deu arrancada na moto e saiu em alta velocidade. Costurando entre os carros. Eu fechava minha boca para o meu coração não pular para fora dela. Podia jurar que senti nitidamente a adrenalina correndo pelas minhas veias, enquanto meu coração batia na mesma velocidade que a moto. Ele acelerava cada vez mais, e eu quase pedi para ele ir mais devagar, porém hesitei. Apesar de estar com medo, eu estava gostando daquilo e não ia estragar o momento.
Diego fez uma curva fechada na rua que dobrava para o seu prédio.
– Estamos chegando, segura firme! – Ele gritou. Eu o obedeci, foi quando ele freou bruscamente, fazendo com que o pneu traseiro elevasse deixando marcas na pista. O portão da garagem se abriu e nós entramos normalmente, e ele logo colocou a moto na vaga. Desci e retirei o capacete, meio tonta.
– O que achou?
– Pergunta isso pro meu coração, quando eu achar ele. – Eu disse enquanto arrumava o meu cabelo despenteado. Ele começou a rir e pegou o capacete da minha mão. Nós subimos até o oitavo andar, apartamento 802. Era um apartamento grande, mas é claro, é um dois por andar.
Coloquei minha bolsa em uma mesinha ao lado da porta. Diego pegou minha mão e me levou até a sala. Ele se deitou no sofá e eu me joguei em cima dele, rindo. Eu estava o usando de cama, deitada de bruços sobre ele, com a cabeça em sem peito.
– Está confortável, milady? – Riu.
– Com certeza, e você?
– Ainda consigo respirar. – Rimos. Ele começou a acariciar meus cabelos. Se eu pudesse passava o dia assim. Até que a natureza resolveu conspirar contra mim. – Que barulho foi esse?
– Minha barriga roncando. – Levantei calmamente de cima dele. Ele olhou o relógio e franziu a testa.
– Agora que são 11h. Você quer comer agora mesmo?
– Não é seguro me deixar sem comida. – Ele riu e se levantou.
– Acho que tenho uns Hot Pockets, mas esse vai ser o nosso almoço, tudo bem?
– Ok. – Fomos pra cozinha e ele colocou dois Hot Pockets dentro do microondas. Enquanto esperávamos, ficamos jogando “Pedra, Papel, Tesoura” a mesa. Era um jogo bobo, mas com Diego, se tornava o melhor jogo do mundo. Depois de ser derrotada inúmeras vezes, o “almoço” ficou pronto.
A minha fome era tanta, que eu comi aquele hambúrguer num piscar de olhos. É, eu queimei minha língua, mas valeu a pena. Assim que Diego terminou de comer, eu fiz questão de levar os pratos pra pia e lavar. Enquanto eu lavava, ele veio por trás de mim e me abraçou, distribuindo beijos pelo meu pescoço.
– Você é boa demais pra mim. – Murmurou. Ele não viu, mas eu sorri.
– Deixa eu terminar de lavar a louça, amor.
– Agora eu sou seu amor?
– Sempre foi. – Virei o rosto e lhe dei um selinho e ele se afastou. Então eu pude terminar de lavar e coloquei os pratos para escorrer. Vi que Diego não estava mais na cozinha, então fui até a sala, e lá estava ele, assistindo televisão.
Lembrei que eu tinha que dar a notícia sobre a viagem. Aquele era o momento perfeito. Sentei ao lado dele, recostando minha cabeça em seu peito, e ele pôs os braços em volta de mim.
– Eu preciso te falar uma coisa.
– Diz.
– E-eu vou pra Los Angeles.
– O que? – Ele se desgrudou de mim, e me encarou, serio.
– Eu vou pra Los Angeles... Meus pais já compraram as passagens, eu vou no sábado, passar uma semana. – Ele começou a balançar a cabeça negativamente, começando a me assustar.
– Não, você não vai.
– Por quê?
– Por que... Por que não. Eu não quero que você fique andando por aquela cidade, sem mim por perto pra te vigiar, dando sopa para os rapazes.
– Você está com ciúmes? Que fofo. – Sorri.
– Jessica, eu estou falando sério. Você não vai mesmo pra Los Angeles.
– Agora você está sendo ridículo. – Levantei e cruzei os braços. Que direito ele tinha de me impedir? Ele estava começando a me irritar. – Eu vou viajar você querendo ou não.
– Jessica não torne as coisas mais difíceis. Eu não quero que ouse sair dessa cidade. – Ele se levantou e elevou o tom de voz.
– Você não manda em mim!
– Você tem que me escutar, eu sei o que é melhor. O melhor é você ficar aqui comigo.
– EU sei o que é melhor pra mim. Eu vou, e não vai ser você que vai me impedir. Você não é meu pai. – Eu virei as costas pra ele, para ir embora dali.
– Você não vai sair daqui! – Ele segurou meu braço com força.
– Tá me machucando!
– Senta aqui. – Ele praticamente me arrastou e me jogou no sofá. Eu não tinha noção do quanto ele poderia ficar bravo. – Eu não sou seu pai, mas sou seu namorado!
– Não é o que parece!
– Escuta aqui, moleca!
– Eu não sou moleca, seu idiota! – Eu disse apontando dedo. Podia sentir meu sangue ferver.
Então em um movimento rápido ele levantou a mão com raiva, e eu automaticamente fechei os olhos e me encolhi na tentativa de me proteger, pensando que ele fosse me agredir. Porém não senti nada. Abri os olhos lentamente e tirei as mãos do rosto.
Diego estava com a mão aberta paralisada no ar, e a mantinha sua respiração acelerada. Aos poucos ele abaixou o braço, fechando os olhos, provavelmente pensando na besteira que ele ia fazer. Levantei para sair dali o mais rápido possível. Esbarrei em seu ombro, mas ele não disse uma palavra, nem me pediu para ficar. Peguei minha bolsa e olhei para traz. Ele ainda estava imóvel. Abri a porta e sai daquele lugar.
Observei meu rosto no espelho do elevador. Eu estava tão assustada que parecia que eu havia visto uma assombração. Bem, o que eu vi foi quase isso. Desde que eu o conheço, a uns bons anos atrás, Diego sempre foi um cara irritado, mas nada fora do normal. Nada ao ponto de ele ter desejado bater em mim. Diego ia bater em mim. Eu ainda não conseguia acreditar que eu tinha um namorado assim. Logo quando tudo parecia perfeito...
Liguei para o meu pai vir me buscar. Quando ele chegou, eu entrei no carro sem dizer nada e continuei calada.
– Tá tudo bem?
– Tá. Tá tudo ótimo... – Murmurei. Meu pai sabe que eu não estou bem, pois eu não sou de ficar calada. Muito pelo contrário, eu falo pelos cotovelos. Ele respeitou meu silêncio e não fez mais perguntas.
Eu não estou nada bem, mas também não estou mal. Eu só estou um pouco chocada, e com raiva. Como ele ousou levantar a mão para mim? Nem os meus pais fizeram isso, e não vai ser um namorado que vai ser o primeiro. Eu ainda o amo, mas estou com tanta raiva que... Eu não sei o que fazer. Eu acho que... Acabou. É isso? Acabou? É, eu acho que sim.
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