Bifurcados - O Apocalipse Zumbi
26 Fulgor
Notas iniciais
Capítulo betado pela Carol Campos! Recomendo nesse ouvir a depressiva - mas ótima - Feist, Fire in the Water.
http://www.kboing.com.br/radio-show/playlists/1847828/760373/
Leiam as notas finais!
Boa Leitura! :)
Bifurcados — O Apocalipse Zumbi
Capítulo Vinte e Dois — "Fulgor"
⊂ ⊗ ⊃
A caminhonete estava estável na rodovia. As placas mostravam que Ribeirão Pires estava cada vez mais próxima, mas os indivíduos precisavam descansar suas pernas, comer alguma coisa e arejar suas mentes conturbadas. Enquanto todos tomavam um ar, Heitor e Ana Júlia conversavam sobrecoisas inúteis, como gostos musicais semelhantes ou vencedores injustos do Oscar (coisa que Heitor, um cinéfilo assumido, adorava opinar).
André, sentado na caçamba, fumava um charuto e Ana e Heitor conversavam na lateral do carro – ela sentada no banco de passageiros e ele de pé. Clarissa nem Henrique estavam no campo de visão de nenhum deles, até Heitor sentir falta da menina – que raramente era percebida por André e Ana, já que seu gênio ingênuo e calado a faziam não ser lembrada por muito tempo.
Pediu licença da conversa com Ana Júlia e fora atrás da garota, e consequentemente de Henrique. Tentou encontra-los com os olhos no barranco ao lado da rodovia, mas eles não teriam a devida coragem para escorregar até lá embaixo. Começou a caminhar pela estrada asfaltada até ver a silhueta calma e clara de Clarissa sentada nos pedregulhos, no canto da estrada, com as pernas apoiadas no começo do barranco. Ao seu lado Henrique sentava, com um braço em volta de seus ombros. Heitor aproximou-se com uma queimação interna, com uma inveja boba banhando sua face.
— O que vocês estão fazendo? — Ele cita, percebendo que o rosto de Clarissa banha-se em choro — Clarissa? O que aconteceu?
Heitor aproxima-se de Clarissa preocupadamente e ajoelha-se na sua frente, abraçando-a. Henrique fica desconfortável e retira o braço que antes enrolava em seu ombro.
— Me diz, Clarissa! O que aconteceu?
— Não sei — balbuciou a menina — Meus pais, tudo isso...
— Calma Clarissa... Está difícil para todos nós — Heitor fez um sinal para Henrique concordar com sua frase. — Vai dar certo... Nós vamos encontrar seus pais... Vamos, levante-se — Heitor agarra Clarissa pelos braços fazendo-a ficar de pé, com certa dificuldade em acertar seus passos já que as lágrimas dificultavam a visão.
— Tentei te chamar antes para ajudar ela, mas ela não quis... Pediu que não contasse para você — Henrique diz enquanto segue o casal abraçado pela rodovia.
—Sem problemas, Henrique... Obrigado por ter cuidado dela. — Heitor parou na rodovia espernado Henrique voltar para a caminhonete.
— Não vamos para lá? — Clarissa diz, seriamente.
— Quero conversar com você. — Heitor a fuzila com seu olhar, apoiando o queixo da garota sobre sua mão. — Eu sei que as coisas não estão tão certas quando esperávamos. Digo, estão completamente erradas... Nessa hora provavelmente estava trabalhando no restaurante, cozinhando, fazendo qualquer coisa... Menos matando eles. Mas vamos ter que enfrentar. Você sabe disso. Precisamos chegar a Minas Gerais, achar seus pais e depois encontrar um acampamento de sobreviventes. Clarissa, vai dar tudo certo. Você sabe disso.
A garota amolece seu corpo enquanto as lágrimas ainda caem de seus olhos. Ela sorri de lado tentando disfarçar a melancolia, morde os lábios e aproxima-se de Heitor, oferecendo-o um beijo envolvente.
— Obrigada por tudo, Heitor.
⊂ ⊗ ⊃
Voltandoà caminhonete,de mãos dadas o casal chega. Alguns olhares indiscretos de Ana Júlia e Henrique transparecem em suas faces, mas fingem que nada aconteceu. Heitor fita o chão por alguns segundos, até que Andrése manifesta.
— Vamos continuar? Todos comeram, esticaram as pernas, usaram o banheiro? — ironicamente ele ri. Todos concordam e entram no carro silenciosamente. Clarissa novamente tentava não trocar contato de pele com Henrique: sentia-se envergonhada por ter chorado para alguém com tão pouca intimidade.
Clarissa e Heitor ainda mantinham seus dedos entrelaçados. Entreolhavam-se raramente com sorrisos indiscretos, mas continuavam com olhos atentos na estrada. Ribeirão Pires estava apenas a dez quilômetros de distância, e já que a noite aproximava-se rapidamente André fez o carro chegar a cento e vinte quilômetros por hora. Heitor agora recusava o vento gélido em seu rosto para evitar lembranças inadequadas para o momento. Clarissa tinha olhos esperançosos, com certo brilho extraordinário em suas córneas.
— Clarissa — Henrique interrompe seus pensamentos divagantes — Por que está indo para Minas Gerais?
— Meus pais — diz a menina puxando uma mecha de cabelo atrás da orelha — Estão lá, devem ter arranjado algum abrigo ou algo assim. Ou é pelo menos isso que eu acho. E você?
— Não é para capital para onde estou indo, mas sim para Consolação. Já ouviu falar? Menor cidade do estado... — ele solta uma risada baixa — Minha família inteira mora lá. Meus pais, tios, primos... Eu e Paulo éramos os únicos que tiveram coragem de sair de casa e vir morar na cidade grande.
— E vocês? — Clarissa pede olhando para Ana e André — Para onde estão indo?
— Ouvimos falar que em Santos há um navio partindo para a salvação... É para lá que vamos. — André diz interrompido apenas pelas baforadas do charuto que fumava.
— Sempre digo para André que talvez não seja seguro — Ana Júlia vira seu tronco no banco observando os três passageiros de trás — mas vamos tentar. Talvez consigamos fugir de tudo isso...
— E onde ouviram que Santos é a salvação? — Heitor pede curioso.
— O rádio em que estava no nosso apartamento que estávamos abrigados em São Paulo. O sinal estava terrível, ouvíamos quase nada, mas isso nós temos certeza... Eles falaram que lá é onde deveríamos ir. — Ana esperançosamente cita.
Clarissa e Heitor entreolham-se confusos, pensando na possibilidade de continuarem seu caminho e pararem em Santos. Silenciosamente pensaram, até quando Ana os interrompe de suas mentes alheias.
— Por que vocês não vêm com nós? Digo, e se o navio parar no Rio de Janeiro ou no Espírito Santo? Era só atravessar o estado...
— Vamos pensar sobre isso, Ana. Não se preocupe, vamos dar a resposta em breve. — Heitor agradece com um olhar pacífico e a menina sorri de volta.
Lentamente a noite aparece e André acelera mais e mais tentando fugir dela. A placa de “Bem vindo a Ribeirão Pires” passa a cento e quinze quilômetros por hora dos olhos de Henrique.
Entrando na pequena cidade, que nada parecia com a metrópole, era possível perceber um solitário e vazio ambiente. Casas abandonadas, carros jogados nas ruas, estabelecimentos comerciais arrombados e um grande trilho de trem. Ele não parecia estar por perto, então a caminhonete atravessou facilmente – mesmo sentindo o forte atrito das barras de madeira. O automóvel continua deslizar pela cidade lentamente enquanto os olhos curiosos dos indivíduos fitavam a paisagem abandonada. Nenhuma pessoa, nenhum errante, ninguém. Apenas um carro vermelho com novos cinco moradores temporários na cidade.
— Como vamos fazer? — Ana Júlia pergunta fitando André.
— Invadimos uma casa, um prédio... Um mercado? — André fita uma construção relativamente alta e continua — Um hotel.
— Um hotel? Aonde? — Heitor tenta olhar pelo vidro dianteiro, mas o entardecer não ajudava criando sombras e efeitos típicos de uma tarde como aquela.
O hotel tinha apenas dois andares. Era pequeno, já que apenas algumas poucas sacadas ficavam na entrada dianteira. Em volta do mesmo, grandes grades formavam uma segura proteção, compunha um ótimo refúgio. A caminhonete para na frente do portão, e uma grande corrente de um metal prateado envolve toda a grade. Todos observam cuidadosamente se alguém ali os observa, ou um zumbi ali se aproxima, mas não havia ninguém – a não ser pela grande quantidade de vento que chiava sem parar.
Ana Júlia prontamente abre a porta do carro, sendo impedida pela mão direita de André.
— Aonde você vai?
— Abrir o portão. Não é isso que precisamos? Me deixa pelo menos uma vez ser útil nesse grupo!
— Cuidado. — Pela primeira vez André deixa a irmã fazer algo sem sua proteção. Ele morde os lábios preocupados enquanto observa a ação da garota. Seus braços fazem força para desatar o nó que dá voltas e voltas.
Após alguns minutos fazendo acontecer, Ana Júlia contentemente sorri quando observa que a corda de metal cai ao chão. Ela abre um dos portões rapidamente e faz o mesmo com o outro. Ao esperar a caminhonete entrar totalmente, um tiro vindo de uma das sacadas atinge seu braço. Ana cai ao chão gritando de dor. Em um momento fugaz André sai do carro desesperadamente e corre ajudar a irmã que é acolhida apenas pelos pedregulhos que fazem o estacionamento.
Heitor, Clarissa e Henrique entreolham-se assustados, mas rapidamente antes de qualquer acidente maior acontecer saem do carro, escondendo-se atrás da carcaça. Clarissa agarra seu arco, Heitor o rifle de André e Henrique agarra sua pistola. Durante dezessete segundos atiram contra o atirador – até perceber que a silhueta que na sacada permanecia cai para trás. Uma das flechas de Clarissa encontra bem sua cabeça, matando sem perdão.
Todos vão ao encontro de Ana. Seu rosto é de completo desespero, uma quantidade enorme de sangue jorra do raspão do braço e a dor embebeda seus olhos. Tudo parece rodar fazendo apenas silhuetas borradas invadirem sua cabeça, até um branco preencher seus olhos, a levando para um distante e remoto lugar.
Fale com o autor