Bifurcados - O Apocalipse Zumbi

22 As Ruínas Obscuras do Fim


Notas iniciais
"Não tenho medo da morte
mas medo de morrer,
a morte é depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou" - Gilberto Gil
Boa leitura :)

Bifurcados — O Apocalipse Zumbi

Capítulo Dezenove — "As Ruínas Obscuras do Fim"

⊂ ⊗ ⊃


Do profundo silêncio ao ar livre, era possível ouvir cada batida do coração dos três indivíduos enquanto esperavam pela morte. Em um triângulo desgrenhado, Clarissa Heitor e Henrique permaneciam roçando suas costas uma na outra. Os grunhidos eram deliciosamente ouvidos pelos estômagos dos errantes, que sentiam a animação ao receber a carne nova. Carne pelo menos para dez zumbis já que muitos não teriam como conseguir chegar aos mortos, por causa da grande quantidade de companheiros mortos.

Clarissa atira algumas flechas em alguns zumbis. Tentam não usar armas, pois provavelmente chamaria a atenção de mais algumas hordas. Heitor, de vez em quando, parte do triângulo e mata alguns zumbis com suas facas. Nada mais quando são envolvidos pelos errantes, com suas mãos fétidas aguçadas pela carne.

Como trilha sonora um som de um motor salpica o ambiente lentamente. Ficando mais alto a cada segundo, pela esquina uma caminhonete vermelha aparece, pulando fortemente sua carcaça. Passa por cima de todos os zumbis. Muitos se levantavam novamente, mas o carro continua seu trajeto. Em um momento ágil freia na frente dos três. A face embebida por adrenalina de André aparece quando o vidro é abaixado.

— Vamos, porra! Entrem! — ele grita vaporizando a substância natural que corre por suas veias.

Sem pensar direito abrem a porta traseira e jogam-se nos bancos de tecido – os quais fedem charuto. Clarissa entra primeiro – as damas primeiramente até após o extermínio da população – Henrique e Heitor. Antes de fechar a porta, uma mulher morta agarra o pé direto de Heitor. Tenta chutar, mas é impossível tirar seus dedos cravados nos tênis brancos.

— Acelera André! — Heitor grita segurando-se no apoio para a cabeça do banco em que Ana está sentada. Fortemente agarra o tecido com o intuito de deixar o zumbi para trás e junto do errante seu tênis foge de seu pé.

A porta é fechada e seus pulmões aliviados respiram pela primeira vez.

— Meu Deus! Vocês não disseram que tinham um carro ai fora? — Com certo desespero em seu olhar lacrimejado, Ana Júlia diz rapidamente.

— Claro que tínhamos... Alguém roubou.

— Roubou... — André cita com um certo tom de ironia em seus lábios —Aposto que foi um deles... — ele ri para si mesmo.

Ana dá um soco em seu ombro, reprimindo o irmão de certo tom egoísta.

— Também não sei quem... —Heitor lambe os lábios ainda secos.

— Um sobrevivente que estava se abrigando em um dos prédios... — Henrique opina.

— Provavelmente — Ana responde.

Um silêncio acolhedor acalma o carro, antes arranhado por adrenalina e desespero. Lentamente a cidade ia ficando para trás, assim que André escolhia certas rodovias que saiam da cidade. O sol aparecia lentamente arrebatando raios enquanto o carro era acelerado pelos pés de André.

— Estou com fome. — Clarissa fala baixo interrompendo o aspecto sombrio da fala.

— Para o carro André — Ana Júlia diz retirando o cinto de segurança. Assim que o carro é freado, ela abre a porta encostando suas sapatilhas azuis no asfalto quente. — Vem, Clarissa.

Ela abre a porta traseira saindo lentamente da carcaça. Heitor sai junto, com intuito de forrar seu estômago com qualquer coisa comestível.

— O que vocês preferem? — A menina diz revirando algumas sacolas plásticas na porta malas aberto da caminhonete — Bolachas, salgadinhos, biscoitos?

— Um pacote de salgadinho está ótimo... — Clarissa sorri de lado, sem graça.

Prontamente recebe um pacote grande recheado com salgadinhos de batata. Apanha-o e abre deixando o sabor industrializado apalpar sua língua. André sai do carro e em passo acelerado tira uma caixa do porta malas e abre. Vários conjuntos de charutos amontoam-se espremidos no papelão. Com dedos ágeis apanha um, acendendo com um isqueiro amarelo o fumo. O cheiro forte do charuto é inalado por André que parece sentir um misto de prazeres a cada tragada que inala até seus pulmões.

Heitor junta-se a Clarissa. Por trás, retira seu arco negro – que moldava seus seios — e sua mochila cheia de flechas.

—Deixa aqui atrás... Não vamos precisar deles mais. Pelo menos agora.

Oferece o pacote e ele devora alguns salgadinhos limpando seus dedos em seus jeans. Heitor fita novamente o porta malas. Repleto de sacolas plásticas, armas recolhidas do escritório e as mochilas de todos os indivíduos do grupo. Quando observa bem, escondido atrás das sacolas, muitas bebidas alcoólicas se distribuem, com seus líquidos acuados.

— Por que tantas bebidas aqui atrás? — Pergunta sem pretensões.

Tirando o charuto da boca, André solta uma tragada de fumaça e responde.

— Limpar as armas. Não tínhamos álcool ali no mercado, então pegamos todo o álcool bebível de lá.

— Limpar armas? Por que?

— Vocês não limpam as suas?! — Assustado André interroga levantando uma de suas grossas sobrancelhas. Heitor nega com a cabeça. — Tirem todas e coloquem ai no asfalto.

Sem pensar Heitor retira todas as três facas que ficam em sua cintura. Clarissa agarra seu arco e todas as flechas, deixando a gravidade cuidar do resto.

André agarra uma garrafa de whisky e abre seu gargalo. Despeja todo o líquido de tom marrom em cima das flechas e das facas – que possuíam uma quantidade enorme de sangue já seco. O álcool parecia limpar todas as impurezas.

— Abre suas mãos — André ordena olhando para Clarissa. A menina mostra suas palmas brancas,mas sujas de sangue. Ele despeja a bebida fazendo sinal para ela lavar suas mãos. O mesmo foi com Heitor e Henrique – que teve que sair do carro apenas para fazer isso. Após o procedimento aproveita e toma alguns goles da bebida.

— Precisava trocar minhas roupas... — Clarissa diz desapontada, observando sua camiseta cheia de sangue após a breve luta pela sobrevivência no depósito.

— Levaram nossas malas, mas tenho uma camisa na minha mochila. — Heitor diz revirando os pertences que ficavam na caçamba. Uma camisa xadrez com mangas compridas é entregue a Clarissa.

— Obrigada. Posso usar mesmo?

— Claro que pode... Minhas roupas estão limpas, talvez dure por mais alguns dias... — Heitor sorri gentilmente.

— Também precisamos trocar as nossas. — Ana Júlia se manifesta — Não se preocupem, vamos saquear uma loja... Só precisamos achar uma.


⊂ ⊗ ⊃


Clarissa agarra a camisa com força, apanha um shorts jeans que estava em sua mochila e sai de perto do carro, abrigando-se atrás de uma carcaça abandonada que no meio da rodovia estava. Tira suas roupas, abotoa a camisa de Heitor e veste os shorts. Novamente coloca seus sneakers em seus pés. Ao reflexo ela observa por um bom tempo. Alguns pingos de sangue sujam suas sobrancelhas e bochechas, mas as retira com seus dedos úmidos de saliva. Seus cabelos desgrenhados são presos em um coque por um nó com alguns fios de cabelo. Enquanto o reflexo da menina transparece no vidro, uma mão saída de dentro do carro bate na janela. Clarissa leva um susto, dando um grito feminino caricato.

Ouvindo o barulho agudo, Heitor corre para ver o que estava acontecendo. Clarissa ainda observava a janela fechada com certo medo, e aponta mostrando que alguém está no carro.

Lentamente Heitor abre a porta. Um zumbi preso pelo cinto de segurança tenta sair dali a todo custo. Observando a refeição, revira-se fazendo o cinto quase se desprender da fivela.

Heitor vai à caminhonete, pega uma de suas facas e volta ao zumbi preso. Estanca em seu lobo frontal, fazendo o sangue pulsar de seu cérebro — agora já a mostra.


Notas finais
E ai, o que acharam? Estão percebendo que estou aumentando os capítulos? Muito obrigado por lerem :)