Biblioteca sobre rodas - KakaSaku
1 Capítulo Único
(POV Kakashi)
O sol brilhava do lado de fora naquela manhã de verão, ainda bem cedo eu já podia escutar a movimentação na rua tão tradicional nessa época do ano. Me levantei animado, adoro quando finalmente chego em Bombinhas, porque eu tenho certeza de que irei vê-la.
Tomei um café da manhã reforçado, uma vez que era muito provável que eu não fosse almoçar, e depois de um banho refrescante peguei as chaves da minha Kombi seguindo rumo a Praia de Bombinhas, onde eu já tinha minha vaga de estacionamento garantida em frente a pequena escola de línguas, sem sombra de dúvidas o melhor lugar para eu estacionar meu “escritório”.
— Bom dia Kakashi! — Me virei em direção a padaria ao lado, e pude ver Tsunade acenando animada. — Que tal um pão de queijo quentinho?
— Como eu poderia recusar? — Ela sorriu abertamente e entrou no estabelecimento. Mesmo que seguisse de cidade em cidade, ali, em Bombinhas, era como uma segunda casa para mim. Os comerciantes eram sempre muito atenciosos e me receberam muito bem na vizinhança.
— Aqui está, por conta da casa. — Desci da Kombi e abri a porta lateral revelando meu pequeno paraíso, o motivo por estar sempre na estrada era aquela pequena biblioteca que eu carregava comigo.
— Muito obrigada Sra. Tsunade. Ninguém é capaz de superar seu delicioso pão de queijo. — Apesar de dizer isso toda vez que eu vinha, ela sempre corava intensamente. — Gostaria de ler algum livro hoje?
— Adoraria, mas o movimento está intenso demais para eu me dar o luxo de parar um tempo para ler. — A loira fez uma careta engraçada e suspirou em seguida. — Bom, mas acho que eles vão adorar escolher um livro. — Olhei na direção onde Tsunade encarava e a vi.
Sakura vinha sorridente com seus alunos a seguindo de perto. Seus cabelos incomumente rosados eram uma característica marcante, mas para mim, sem dúvidas o que mais se destacava eram seus belos e intensos olhos esverdeados.
— Bom dia Kakashi. — Sua voz melodiosa soava como um canto para meus ouvidos, Sakura então se virou para seus alunos. — Como se diz pessoal?
— Bom dia senhor Kakashi! — As seis crianças falaram em uníssono.
— Bom dia crianças, como estão? Já sabem o que pretendem ler hoje? — Me encostei contra a lateral da Kombi e observei as crianças se entreolhando e cochichando como sempre faziam para decidir sobre o que iriam escolher. Senti o olhar de Sakura sobre mim e isso fez meu foco mudar, sorri em sua direção.
— Eles ficam muito animados sempre que você vem para a cidade. — Ela comentou, se juntando a mim.
— Que tal vocês entrarem um de cada vez e escolherem seu próprio livro? — Sugeri e eles ficaram ainda mais animados já se organizando para ver quem iria primeiro. — Não conte para ninguém, mas essa é a minha cidade preferida. — Cochichei para a Haruno que riu timidamente.
— Prometo guardar seu segredo.
Abri uma pequena mesa e várias cadeiras que sempre trazia comigo para que as pessoas pudessem se acomodar para a leitura e me sentei em uma delas com Sakura se sentando ao meu lado.
— E você? Não vai ler nada hoje? — Perguntei tentando puxar assunto.
— Hoje não. — Pensei por um segundo que havia algo errado, mas ela completou logo em seguida. — Deve ser muito gratificante ver as pessoas felizes sempre que você chega em algum lugar. Meus alunos ficam eufóricos quando chega a última semana de janeiro. Como começou esse projeto?
— Para ser honesto, não foi nada mirabolante. Um dia eu resolvi pegar a estrada, sempre gostei muito de dirigir e viajar, observar as paisagens e, conhecer novos lugares foi algo que meus pais alimentam dentro de mim desde muito pequeno, mas, além disso, sempre fui um amante de livros. Talvez esteja ligado com essa fome de conhecer novos lugares que o mundo real já não era suficiente e me perguntei como eu poderia juntar essas duas paixões. — Fiz uma pausa, me lembrando das primeiras vezes que coloquei isso em prática e não pude segurar a risada.
— O que?
— Bom, as primeiras vezes foram caóticas, eu admito. Eu tinha muito ciúmes dos meus livros e ficava bem receoso sempre que alguém se aproximava. — Dei de ombros. — Mas tudo nessa vida é questão de se adaptar, não é mesmo? Acho que hoje em dia eu sou bem mais desapegado materialmente falando. Como você disse antes, realmente é bem gratificante.
— Impressionante. — Ela falou, e seu rosto estava corado me deixando confuso.
— Suponho que também deve ser muito satisfatório ser professora. Minha mãe sempre falava com admiração do trabalho.
— É sim, é uma paixão para mim, poder ensiná-los e ver cada um deles evoluir, cada turma que pego vira uma família para mim. — Seu olhar era quase maternal para os pequenos.
— O que acha de jantar comigo essa noite? — Meu convite saiu sem rodeios e sem preparativos. Para ser honesto eu mesmo não esperava ser tão direto, mas algo naquele momento pareceu tão certo que quando menos percebi já havia a convidado.
— Eu… eu adoraria. — Ela respondeu tímida e isso fez meu coração acelerar por uns instantes.
No entanto, mesmo ela tendo aceitado o convite, o silêncio que se seguiu não foi lá dos mais confortáveis. Eu sabia que não deveria ter ido tão rápido, mas não me contive, e agora não sabia ao certo como reagir. Sakura parecia tão desconcertada quanto eu, porque minutos depois resolveu que por fim iria escolher um livro para ler. Não me incomodei, apenas continuei sentado, hora ou outra desviando meu olhar em sua direção e admirando suas reações a cada palavra absorvida.
Por volta do meio-dia Sakura e os alunos se despediram, não sem antes a rosada me passar seu número para que eu pudesse entrar em contato para combinarmos sobre o nosso jantar. Eu já me sentia ansioso é claro e isso não passou despercebido pela sempre atenta Tsunade, que assim que Sakura entrou novamente na escolinha ela veio rapidamente para meu lado como quem não quer nada.
— E aí? Convidou Sakura para sair? — Me espantei com sua pergunta, ela não pareceu notar, ou se notou ignorou por completo já que me encarava com visível ansiedade.
— Er… sim. — Cocei minha nuca envergonhado, todavia a resposta foi suficiente para que ela pulasse no próprio lugar toda animada.
— Finalmente!
— Não sei o que quer dizer.
— Vocês nasceram um para o outro, e finalmente o destino resolveu trabalhar. — Olhei para a loira como se ela fosse uma alienígena mas isso não a intimidou. — Torço muito por vocês dois, e se precisar de qualquer ajuda é só me chamar.
— Bom… já que mencionou… — Ela tinha oferecido a ajuda, não tinha? — Eu não tenho ideia de onde levá-la para jantar. — Foi difícil admitir, mas depois me senti aliviado.
— Hum… — Ela ficou em silêncio por alguns segundos pensativa. — Sakura não é o tipo de mulher que se conquista com restaurantes chiques, nem com qualquer tipo de ostentação.
— Eu imaginei que não.
— Acho que você deveria cozinhar para ela, ou preparar um piquenique noturno na praia. Algo mais intimista, sabe? Dê atenção aos detalhes e ela ficará com você pelo resto da vida. — A loira piscou para mim aqueles olhos dourados com espessos cílios pretos.
— Obrigada.
— Quero saber tudo amanhã! — Ela gritou já se afastando, me deixando ali sozinho com meus próprios pensamentos.
(...)
Assim que estacionei a Kombi em frente ao endereço que Sakura havia me passado senti um arrepio excitante percorrer todo meu corpo. Ela morava próximo ao trabalho e não foi difícil de achar sua casa. Meus dedos estavam inquietos no volante, olhei de relance para o banco do passageiro onde o pequeno embrulho deixava a desejar e torci imensamente para ela não levar isso em consideração, apenas o conteúdo em si.
— Oi. — Me assustei ao ver que ela já estava ali abrindo a porta, acho que eu estou mais nervoso do que imaginei.
— Oi, entre. — Tirei o embrulho para que ela pudesse se sentar e o entreguei. — É para você. — Sakura mordeu o lábio rapidamente e voltou seus olhos para o pacote em suas mãos. — Desculpe pelo embrulho, eu realmente não levo jeito com essas coisas. — Admiti coçando a nuca esperando ela terminar de abrir. — Espero que goste.
— Jane Austen? Como poderia não gostar? — Ela estava animada ao folhear o livro em suas mãos. — Primeira edição? — Sua voz saiu um oitavo mais alta e me assustou. — Desculpe, é que… ual! — Sorri contagiado por sua empolgação. — Isso deve ter lhe custado uma fortuna. — Seus olhos se estreitaram em minhas mãos.
— Não pense nisso, o importante é que agora esse livro está em ótimas mãos. — Para ser honesto, esse livro não tinha me custado nada, era uma herança que meu avô tinha deixado para mim, mas achei que talvez não fosse o momento de mencionar isso ainda.
— Eu nem sei o que dizer, obrigada de verdade. Com certeza vou guardá-lo com a minha vida.
— Pronta para irmos? — Ela assentiu ainda concentrada nas páginas amareladas.
Felizmente eu já estava adaptado ao percurso já que nosso destino, a Praia da Sepultura, era um dos meus lugares favoritos no mundo para sentar durante a noite e observar o mar e as estrelas. Quando chegamos deixei o carro no estacionamento e me apressei a pegar a cesta de piquenique que eu havia montado para aquela noite. Se antes eu estava ansioso, agora já estava tranquilo.
— Não se incomoda de fazermos essa pequena trilha, não é mesmo? — Olhei para o espaço pouco iluminado e me dei conta que deveria ter perguntado isso antes. — Se quiser podemos ir para outra praia.
— Não, eu estou bem. Podemos ir. — Ela tomou a frente e estendeu a mão para que eu segurasse e a seguisse. — Faz um tempo que não venho aqui durante a noite, era um lugar que meu pai me trazia para ver as estrelas. Acho que era meu lugar favorito no mundo.
— É um dos meus também. — Comentei empolgado.
Como previsto a praia estava vazia, nada além do barulho das ondas e o vento contra as árvores. Estendi a toalha sobre a areia e me sentei.
— Um piquenique na praia, estou realmente impressionada. — Ela ajeitou o vestido azul e se sentou do meu lado.
— Não posso levar todo o crédito, Tsunade ajudou com a ideia. — Ela começou a rir alto me deixando confuso.
— Tsunade é realmente uma fuxiqueira. Por um acaso ela mencionou o fato de ser minha madrinha?
— Sério isso?
— Uhum. Ela se acha a casamenteira, mas na verdade não passa de uma enxerida.
— Por esse eu não esperava, mas parece que ela te conhece bem.
— Ah sim, conhece sim. Mas agora estou curiosa, onde você me levaria se não fosse pela “dica” que minha madrinha deu?
— Honestamente? Talvez um parque ou um restaurante mais intimista. — Arrisquei.
— Você também parece me conhecer.
Tirei as coisas da cesta e espalhei sobre a toalha, Sakura me ajudou e elogiou o cheiro e a aparência do meu suflê de cenoura. Servi vinho nas duas taças de plástico e mais uma vez me desculpei pelo improviso, no entanto o sorriso em seus lábios era sincero.
Dentre os muitos assuntos da noite, acabei descobrindo que seus pais haviam falecido em um acidente de carro quando ela tinha apenas quatro anos e por isso tinha sido criada pela madrinha. Fiquei surpreso ao saber, afinal fazia dois anos que eu conhecia as duas, mas nunca cogitei essa possibilidade.
Sakura também me contou da sua vontade de sair e descobrir o mundo, e a cada descoberta sobre a rosada eu sentia que havia muito mais em comum entre nós dois do que eu supus de início.
— Olha, olha! — Ela se levantou rapidamente apontando para o céu. — Você viu? Uma estrela cadente! — Seu entusiasmo era contagiante, me levantei ficando parado ao seu lado, de certo que o céu era deslumbrante, mas só talvez naquele momento Sakura fosse ainda mais.
— Sakura. — Minha voz saiu rouca e baixa, tomado pelo desejo de beijá-la, mas ainda assim eu precisava dar espaço a ela caso quisesse me rejeitar.
No entanto, assim que se virou para mim, Sakura entreabriu seus lábios rosados e fechou seus olhos. Não havia mais dúvidas, ela queria aquele beijo assim como eu.
Me inclinei para ela sem pressa, queria saborear o momento, sentir seu perfume, decorar seus traços. Minha mão pousou na curva do seu pescoço, sentindo a maciez da sua pele sob os meus dedos. Tão delicada quanto uma flor, ainda mais bela que a lua, ela me tinha rendido para si. Meus lábios tocaram os seus, adocicados pelo vinho. Saborosos, irresistíveis.
Eu precisava de mais, com cuidado colei meu corpo ao seu, sentindo uma onda de choque passar por cada terminação nervosa presente em mim. Minha língua pediu passagem e ela cedeu, me permitindo desfrutar de sua boca minuciosamente.
— Kakashi… — Meu nome não passou de um sussurro contra os meus lábios. Abri meus olhos apenas para me deparar com aquela imensidão esverdeada assim como a água daquela praia.
— Onde você esteve esse tempo todo, meu bem? — Um romântico desacreditado, agora ali tomado pelo mais simples e puro amor.
Fale com o autor