Biblioteca de Segredos
1 Câmara Oculta
Notas iniciais
Linus achava que morreria de tédio e raiva em questão de minutos se o relógio não se apressasse e batesse o horário de expulsar os alunos para fechar a biblioteca. Já havia tido que interromper seu cálculos mais de sete vezes na última hora para repreender babacas rindo, conversando em tom alto ou quase danificando os livros já desgastados do acervo, para os quais não tinha dinheiro caso uma substituição fosse necessária porque o último bibliotecário fez o desfavor de secar a verba da biblioteca no ano anterior com salgadinhos e doces, antes de sumir misteriosamente.
Lançou um breve olhar pela janela e percebeu, além do reflexo de sua própria imagem, a luz quase lilás do início da noite se derramando sobre a cidade. Suspirou. Não aguentava mais ter que trabalhar todo dia em uma faculdade cuja metade dos estudantes fazia da biblioteca o canto da paquera ou a sala dos cochilos.
Lembrava ainda de quando era um calouro, sedento por conhecimento e influenciado pela paixão aos livros do avô. Ia àquela biblioteca quase todos os dias para procurar todos os materiais bibliográficos possíveis que pudessem ajudá-lo a saber mais sobre os assuntos tratados em sala de aula; afinal de contas, era o primeiro da família que sonhava em ter não apenas uma graduação, como também um mestrado e um doutorado. Eram um garoto jovem e deveras ambicioso no quesito acadêmico.
E era justamente por estar mirando tão alto que agora sentava-se no balcão da biblioteca da faculdade na qual se formara, observando o sol desaparecer no horizonte enquanto tentava ignorar os absurdos que era obrigado a aguentar para não enxotar os diabinhos antes do horário, já cansado demais de repreendê-los.
Chegou a perder um pouco a noção do tempo enquanto observava o céu escurecer, pois levou um susto quando alguém derrubou algo por cima do balcão e só então se deu conta de que o céu já estava azul-escuro.
Desnorteado, olhou para os lados, tentando encontrar algum aluno em movimento que pudesse ter acabado de passar por ali, mas não encontrou ninguém. Na verdade, a biblioteca parecia consideravelmente mais vazia agora, como se um ou dois dos grupinhos de baderneiros tivesse saído correndo enquanto Linus perdia tempo olhando através da janela. Estranho... Mas melhor agora, com apenas os estudiosos e os dorminhocos lhe fazendo companhia.
Quando resolveu voltar para a cadeira, deu uma olhada à sua volta, buscando o objeto que havia caído para o seu lado do balcão e tudo parecia estar exatamente como deixara, exceto por um pequeno objeto que estava jogado no chão.
Caído do lado de sua cadeira, encontrou um cubo mágico. Não tinha as cores normais de azul, amarelo, verde, laranja, vermelho e branco. Era como se as cores houvessem desbotado e o vermelho se tornara rosa, o laranja se tornara uma pálida réplica do que havia sido; azul e verde estavam em seus tons pastéis e o branco havia ficado amarelado enquanto o amarelo se tornara quase branco, sendo um pouco difícil diferenciar os dois.
Não apenas isso, mas o cubo mágico parecia estar quase todo resolvido.
Linus pegou o cubo mágico do chão e deu uma olhada, tentando resolver o problema apenas observando, sem tocar no cubo. Não tinha certeza se seria seguro mover as peças sem antes entender o que quer que seu dono estivesse fazendo; afinal de contas, quem quer que tivesse deixado o cubo cair estava seguindo uma lógica enquanto tentava resolver o quebra-cabeças. Mas talvez fosse fazer um favor completando-o.
Quando sentou de volta em seu posto para esperar dar o horário e começar a mexer no cubo, o sinal tocou indicando o final das aulas das 20h e, portanto, hora de fechar a biblioteca.
Expulsou rapidamente todos os estudantes, trancou as portas e, como sempre, sentou-se à mesa do balcão para estudar depois do horário.
Porém, desta vez, não estava fazendo cálculos para cobrir os rombos no orçamento das verbas da biblioteca, muito menos estudando para compor sua tese de mestrado. Sentou para resolver, de forma definitiva, o cubo mágico.
Girou e girou o cubo diversas vezes, fascinado, ora confundindo as cores, ora desfazendo o que já estava feito com perfeição.
Por fim, após longas duas horas de muita concentração, o cubo foi resolvido e ao mesmo tempo que um sorriso surgia no rosto do estudante, um zumbido esquisito encheu o ar da biblioteca.
Linus parou para escutar por alguns instantes e largou o cubo em cima da mesa antes de sair em busca de sua origem.
Encontrou, por detrás de uma estante de mistério, uma portinha de madeira escondida.
Olhou à sua volta, buscando alguma câmera, já esperando alguma pegadinha, mas estava completamente sozinho em uma biblioteca nada vigiada.
Abriu a porta e adentrou o cômodo, fechando-a em seguida.
Era um cômodo extremamente mal iluminado, o que obrigou Linus a sacar o telefone do bolso e acender a lanterna. Ainda tinha 50% de bateria, o que não era nada, considerando que era um iPhone de duas gerações atrás, mas não pretendia se demorar demais explorando um lugar empoeirado e cheirando a mofo como aquele.
Ao jogar a luz do celular para os lados, alguns ratos saíram correndo de seus esconderijos e quase pulou de susto. Ainda bem que estava acostumado com os bichanos, graças aos maus hábitos de seu pai em casa, deixando lixo na porta da cozinha para os roedores revirarem.
Continuou a jogar a luz do celular para os lados, mas via apenas alguns móveis com aparência velha e quebradiça; isto é, até encontrar indícios de uma escadaria.
Seguiu na direção das escadas, com um sentimento esquisito vibrando em seu peito que se intensificava a cada degrau galgado. Era uma escadaria razoavelmente estreita, mas que parecia muito mais com algo que se encontraria em um ambiente doméstico do que em um ambiente universitário.
Quando chegou ao andar de cima, o zumbido em seu peito cessou, sendo substituído por uma pulsação similar a batimentos cardíacos desacelerados, e por algum motivo que não sabia explicar, Linus sabia que não era seu próprio batimento cardíaco. Era de outra pessoa.
Olhou à sua volta, sentindo-se dentro de um filme que se passa em um local abandonado, jogando a luz do celular para encontrar algo, qualquer coisa, que pudesse lhe dar uma dica de por que raios estava se sentindo daquela forma, tão esquisita e se sentindo tão impulsionado a continuar buscando por algo que sequer sabia o que era.
Ao caminhar mais para o centro do cômodo ao qual havia chegado, encontrou o que parecia um grande caixão de madeira. Havia algumas letras entalhadas em dourado pelas bordas e Linus descobriu que sabia lê-las; era uma das línguas que havia estudado enquanto ainda era graduando. A língua materna dos fundadores da universidade.
Sussurrou as palavras em voz baixa e, de repente, com um clique, o caixão destrancou.
Linus apertou o celular mais forte, com um nervosismo crescendo desde o estômago até a boca, mas afastou a tampa lentamente e encontrou, deitado de olhos fechados, com um lençol fino e translúcido cobrindo todo seu corpo, o garoto mais bonito que havia visto na vida.
Largou a tampa no chão e inclinou a luz do celular para olhar melhor as feições do garoto, retirando com cuidado o lençol. Não sabia se era um corpo mumificado, encerado, um boneco ou o que quer que fosse, muito menos estava questionando se era correto o que estava fazendo ou o que esperava que acontecesse.
Só sabia que não esperava que o garoto subitamente abrisse os olhos, sentasse e, após olhar à sua volta, enfiasse o rosto em seu peito e começasse a chorar, desconsolado, murmurando baixinho um nome apenas:
“Ksenia…”.
Linus só conseguiu pensar em duas coisas:
Que o que quer que estivesse fazendo aquele garoto chorar, ele queria consolá-lo.Que ele não fazia a mínima ideia do que aquilo tudo significava.
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