Bianco de neve

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Estou aqui de novo, com mais uma capa azulzinha e uma tentativa de inovar tudo o que eu estou acostumada a escrever. Essa foi a mais difícil até então ...

Eu espero que gostem.

Comentários (críticas) são bem vindas!

besos besos

BIANCO DE NEVE

Há muito, muito tempo atrás, quando o inverno rigoroso despejava flocos de neve do céu, uma rainha observava a plumagem branca que cobria o solo do reino. Bordava e, de quando em quando, olhava a maciez alva que amontoava-se também em sua janela com moldura cor de ébano. Espetou o dedo e três gostas de sangue tingiu de vermelho o branco puro. Suspirando, pensou consigo mesma: “Quem me dera uma filha de pele branca como a neve, lábios vermelhos como sangue e cabelos pretos como o ébano”.

Um tempo depois, deu à luz não a uma menina, mas um menino de pele alva e lábios vermelhos, além dos cabelos negros como ébano. Deu-lhe o nome de Bianco e, após niná-lo por algumas horas, veio a falecer.

O Rei nunca mais casou-se. Em seu luto eterno, culpou a pobre criança por sua solidão e, cheio de rancor, tornou-se o Rei mais rico e ambicioso. Princesas ajoelhavam-se a seus pés, cantavam ao mundo sua malícia e beleza – o mais belo Rei de todos os reinos. Presenteavam-lhe com fitas e objetos raros, um deles um espelho mágico. Todas as noites diante do espelho, o Rei questionava:

— Espelho, espelho meu. Em todo o Reino, existe alguém mais belo do que eu?

E o espelho lhe respondia:

— É Vossa Majestade o mais belo e poderoso de toda a redondeza.

Como o espelho era encantando para não mentir, ele dormia na paz de sua grandiosidade.

O CAÇADOR

O tempo se passou e o Rei continuou a repetir, todos os dias, o seu ritual de vaidade. Até que, em uma noite de verão, o espelho monocórdio respondeu-lhe de forma diferente.

— É Vossa Majestade o mais poderoso, mas Bianco, teu filho, é agora o mais belo de toda a redondeza.

O Rei ficou vermelho de raiva. Bianco havia se tornado forte e gentil e tamanha era a arrogância do Rei que não havia percebido o quão querido era o rapaz por todos que com ele tinham contato. Toda vez que via o filho, seu coração enchia-se de veneno e, quando completamente corroído por ervas daninhas, ordenou ao caçador:

— Leve Bianco para a Floresta, não quero tornar a vê-lo! Leve-o e mate-o na floresta e, como prova de tua lealdade, traz-me o seu coração.

Obediente, o caçador levou o rapaz para a floresta sob o pretexto de mostrar-lhe as criaturas mágicas que lá habitavam. Quando desembainhou o facão para matar o jovem, porém, sentiu que lhe faltavam forças. Soube, não por sua pele branca como a neve ou por seus lábios vermelhos como sangue, que qualquer palavra dita por ele seria acatada pelos demais. Soube através da bondade que via em seus olhos.

— Fuja, jovem príncipe. Esconda-se na floresta. A maldade corroeu o coração de seu pai, então fuja!

Diante de homem tão antes empenhado, Bianco aproximou-se. Perguntou-lhe o porquê e o caçador lhe contou que ordens havia dado o rei. E viu, naquele momento, a luz se apagar dos olhos do príncipe, então segurou-lhe os ombros.

– Asseguro-lhe, Vossa Alteza, que nada de mal lhe acontecerá. Fuja e voltei quando for seguro. Saberá a hora.

Entregou-lhe o próprio facão, ficando com um reserva e viu então o rapaz perder-se por entre os galhos. Rezou secretamente para que o rapaz não fosse devorado por nenhum bicho da floresta. Era um jovem forte, conseguiria sobreviver. E, para honrar sua missão, o caçador arrancou o coração e o fígado de um veado, entregando-os ao Rei como prova de sua falsa lealdade.

O cozinheiro foi incumbido de preparar e cozer os órgãos e, acreditando que aqueles pertenciam a Bianco, o Rei os comeu com alegria, certo de que agora seria para sempre o mais belo e poderoso.

AS SETE CRIANÇAS

Durante esse tempo, o rapaz vagou pela floresta. No Castelo, treinava com homens nobres e suas espadas, mas ali estava exposto a lobos e leões, seres que nunca havia enfrentado. Usando a inteligência, resolveu abrigar-se em algum lugar seguro antes que escurecesse. Encontrou-se um tempo depois diante de uma pequena casa, a qual entrou.

A casa, que estava vazia, deveria pertencer a alguém muito organizado, porém. Na cozinha haviam sete pratos, sete garfos e sete facas. Numa bandeja, um pouco de comida. Bianco que estava faminto, comeu o que viu pela frente e tão logo o cansaço lhe tomou o corpo. Agarrado ao facão, subiu para andar superior. Haviam sete camas muito bem arrumadas. Escolheu uma e deitou-se. Jurando vingança ao pai, adormeceu.

Tarde da noite chegaram os donos da casa. Eram sete garotas pequenas que trabalhavam durante o dia na escavação de minério da montanha, protegidas por capuzes que escondiam suas identidades. Na cozinha, perceberam que alguém havia estado na casa, comido suas comidas, sentado em suas mesas.

Subiram para o quarto, cada uma com uma lanterna na mão esquerda e a pá da escavação na mão direita. Assustaram-se diante de Bianco, mas usaram da lógica: eram sete garotas e ele, apenas um. Então acordaram-no com alguns beliscões.

Sobressaltado, Bianco sentou-se na cama.

— O que fazes aqui em nossa casa, malfeitor? – Questionou uma delas.

— Oh, não me interpretem mal. Chamo-me Bianco, sou filho do Rei.

— E o que faz um príncipe em nossa casa?

— Não é minha intenção incomodá-las, moças. Acontece que minha vida caiu em desastre. Meu pai mandou matar-me e, até que esteja forte o suficiente para me vingar, preciso esconder-me. Não havia outro lugar para abrigar-me.

— Pois aqui não é bordel! – Irritou-se a que parecia mais velha dentre elas – Queres ficar? Terá de limpar e cozinhar.

Sem muito a fazer, ele concordou. E, todos os dias, quando as meninas saíam para o trabalho, ele deixava a casa em ordem, cozinhando para as setes pré-adolescentes independentes do casebre. Nenhuma delas tinha pai ou mãe, eram uma família. Mestre era a mais velha das moças, Dengosa a mais chorona, Atchim vivia doente e Zangada vivia de cara feia. Havia ainda Dunga e suas grandes orelhas de abano, Soneca que estava sempre se escorando nos cantos e Feliz, a conselheira. Mas, apesar do bom convívio, nenhuma pode lhe tirar a ideia de vingança da cabeça.

— O Rei está promovendo um baile para encontrar uma nova Rainha, alguém que lhe dê herdeiros – Mestre lhe contara numa noite qualquer.

— Pode aproveitar e ficar para sempre – Feliz sorria – Aqui tem comida e uma cama. Tem uma nova família. Do que mais precisa?

Mas nenhuma palavra era suficiente.

A FADA MADRINHA

Certo dia Bianco estava na janela, apreciando os primeiros flocos de neve de um inverno rigoroso que se aproximava. Avisou, ao longe, uma senhora que caminhava em sua direção. Confundiria-na com uma princesa se não fosse tão velha.

— Aproxime-se, jovem homem! Não gostaria de uma maçã? – Perguntou-lhe, sorrindo.

— Não, te agradeço.

— E do que gostaria? Posso decifrar os seus desejos, torna-los realidade. Diga-me, jovem rapaz: o que mais deseja?

Por um momento Bianco perdeu-se naqueles olhos negros. E, com um sorriso amável, a velha aproximou-se um pouco mais, estendendo-lhe uma maçã. Nunca havia visto maçã tão vermelha, tão bonita e suculenta. Tomando-a nas mãos, o príncipe apressou-se para morde-la, mas antes que o fizesse, a velha o deteve.

— Não, não, não. Queres teus desejos realizados? Entregue esta maçã para o inimigo.

— E como posso fazer isto se o inimigo me ameaça de morte?

— Ouça-me, jovem rapaz: Lhe darei o que precisa – Segurou-lhe as mãos e beijou-lhe os dedos brancos – Veja isto como um presente de sua fada madrinha.

E, tirando uma varinha de condão de dentro de sua sacola, a sacudiu uma vez.

Apontando-a primeiro para uma grande abóbora, transformou-a numa bela carruagem dourada e espaçosa. Mas como carruagens não andava sozinhas, a velha apontou a varinha para quatro ratos enxeridos que ali estavam, transformando-os em quatro belos cavalos.

— Ora, ora, precisará de companhia! – Riu-se ela ao ver que às sete donas da casa se aproximavam, sacudindo a varinha e transformando-as em belas damas adultas, metidas em ternos e penteados típicos da realeza.

Diante da confusão de Bianco, ela sorriu.

— Já vai entender.

E, acenando com a varinha uma última vez, apontou-a para ele.

Luzes douradas tomaram-lhe como um redemoinho e logo as calças transformavam-se numa bela saia bufante, e a blusa transformava-se num espartilho e, nos cabelos de ébano, surgiam um laço. O rosto do rapaz ainda era o mesmo, mas naquele momento não havia gênero que o indicasse. Estava belíssimo – ou seria belíssima? – como nunca visto antes.

— Lembre-se: Agora és Branca de Neve. Vá e entregue a maçã ao inimigo! Faça-o até a meia noite!

BIANCO E O CAÇADOR

Segurando a maçã e acompanhado das demais damas de companhia, seguiu para o Castelo afim de concretizar sua vingança. Havia, no baile, as mulheres mais belas de toda a redondeza, mas todas pararam para ver quem se aproximava em tal vestido vermelho, tão vermelho quanto os seus próprios lábios.

O Caçador, que havia se tornado escudeiro do Rei, também estava lá. Achou conhecer a bela dama que se aproximava, como a criatura que lhe atormentava os sonhos, mas seus olhos... Havia algo diferente em seus olhos, algo obscuro. O Rei não percebeu, porém. Ordenou que parassem o Baile e apontou para a donzela à sua frente.

— Bela dama, como te chamas?

— Branca de Neve.

— Case-se comigo e torne-se mãe dos meus filhos.

Bianco, por sua vez, perdeu o chão ao ouvir a palavra filhos. Sentiu o coração em despedaçar em seu peito, afinal de contas, aquele homem era o seu pai. Caiu sobre os joelhos, chorando e olhando para o Rei, que uma vez lhe dera a vida e agora queria tirá-la.

— Não há como viver com a dor de não ter amor. Eu sinto muito, papai. – E, agarrando-se à maçã vermelha, mordeu-a.

Em instantes caía no chão, desmaiada. Toda a magia se desfizera, revelando no chão o corpo de Bianco, com suas vestes reais e uma multidão à sua volta. Chorando, as setes camponesas ajoelharam-se a seu lado.

Diante de tamanha comoção, o Rei arrependeu-se. Lembrou-se da mulher que tanto amava e entendeu que o filho era o último resquício de sua alma na terra. Corroído pelo remorso, ergueu acima do próprio peito uma adaga e cravou-a ali, morrendo diante de todos.

Durante sete dias um véu de neve cobriu todo o povoado. Cavalgando desolado num desses dias, o Caçador segurava o facão com toda a força, lamentando a desgraça que decaíra sobre o reino. Apertou tão forte que o sangue caiu na neve, ao lado do carvão. Foi quando soube o que tinha de fazer. Correu para o palácio e, diante da autorização das sete crianças que ali faziam vigília, beijou Bianco de Neve.

O Jovem Príncipe então despertou e foi motivo de festa para todo o reino. As sete crianças deram vivas! Os camponeses deram-lhe uma esta após a coroação e Bianco e o Caçador viveram felizes para sempre.

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