Biópsia
1 Capítulo único
Era mais um dia de trabalho. Mas não era simplesmente um dia de trabalho. Porque? Bem, Talvez porque tinha sido o primeiro dia que eu soube da minha real situação. Sou Cecília, sou médica, oncologista. Todo dia passam pelo meu consultório dezenas de pessoas, alguns hipocondríacos desesperados que acham que tudo é câncer, outros que acham que nunca vão morrer e sempre acham exames desnecessários e descobriram em cima da hora que estão em fase terminal, uns poucos sensatos que fazem check-up uma vez por ano e são indicados para meu consultório...
Enfim, tenho um trabalho que alguns louvam, outros acham inútil e outros simplesmente sentem necessidade da minha existência. Porém naquele dia eu não queria ver nenhum daqueles pacientes. Afinal eu estava impaciente, pois pela primeira vez em anos me via como minha própria paciente.
Mas meu trabalho me obrigava a estar ali. Eu não tinha escapatória. No fim de um dia cansativo com poucos pacientes interessantes tudo o que eu queria era ir para casa e detonar aquele pote de sorvete de passas ao rum que estava no meu congelador. Já me preparava para sair quando uma mulher praticamente invadiu meu consultório.
_Doutora Cecília Lins? (Uma garota jovem, cabelo vermelho, piercing no nariz falou me encarando seriamente.) Você pode me atender por favor? É urgente...
Suspirei. Queria ir pra casa, mas algo naquele olhar me fez permanecer onde eu estava e pedi-la para sentar-se e me explicar o que estava acontecendo.
_Eu... To com um caroço. (“Mais uma hipocondríaca!”, pensei.)
_Onde? (Perguntei sem dar muita importância.)
Ela não respondeu, só tirou a blusa e o sutiã e me apontou uma região do seio esquerdo. Não pude deixar de reparar em seu corpo, mas como profissional me aproximei e toquei a tal região em busca de algum tumor. Estava ali, um caroço, um tanto grande, na região inferior do seio.
_Há quanto tempo que sentiste isso? (Perguntei preocupada pelo tamanho da anomalia.)
_Dois, três meses...
_E não procurou um médico?
_Achei que não fosse nada de mais.
_E porque me procurou agora?
_Porque eu acho que cresceu... E eu to com alguns sintomas estranhos.
Perguntei quais sintomas, ela me passou uma lista. Quase todos batiam com câncer nas mamas ou no pulmão. Não quis alarmá-la. Falei que por precaução faríamos alguns exames de rotina. Mandei-a fazer uma biópsia.
_Tem algo pra fazer hoje a noite? (Ela me perguntou antes de sair.)
_Que? (Perguntei sem entender.)
_Desculpe eu sei que é estranho, eu sou só mais uma dos seus trilhões de pacientes, mas é que eu to meio entediada, queria sair pra fazer algo divertido só para variar... Se tivesse afim de sair...
_Tenho um jantar daqui a pouco. (Menti.) Um outro dia quem sabe a gente pode tomar um café... (Droga, ela havia dito algo divertido! Eu sou uma chata mesmo, tomar café! O que tem de divertido nisso?)
Dois dias depois eu tinha o resultado em mãos. Agora não poderia mais fingir calma, teria de alarmá-la, estava em estágio terminal e precisaria ser internada.
Eu tinha 36 anos. Saber que iria morrer não seria tão traumático quanto para ela que estava ainda nos seus 25 anos e provavelmente nem imaginava que a vida lhe ia ser tão cruel e tão curta. Precisava contatar seus parentes, ela iria precisar de apoio emocional, apoio tal que eu jamais teria, pois era completamente sozinha, sem família... Só tinha o apoio da minha equipe médica.
_Preciso do telefone dos seus pais.
_Não tenho. (Ela respondeu um tanto melancólica.)
_Filhos, namorado, marido, familiares, melhores amigos... Qualquer um serve.
_Não tenho. (Ela repetiu a frase, agora com um tom de voz mais choroso.)
_Entendo. (Disse sem questionar o porque de uma garota tão jovem e linda não ter amigos e nem família, mas confesso-lhes que fiquei extremamente curiosa.)
_E então doutora?
_Ham? (Perguntei debilmente. Saber da situação dessa menina me fazia refletir sobre minha própria vida.)
_E então? O que é que eu tenho? É câncer mesmo? (Perguntou como quem perguntava qual era a data do seu aniversário.)
_Nós vamos ter que te internar... Para saber melhor o que você tem (Menti. Não estava preparada para contar a verdade. Estranho fazer isso depois de tantos veredictos já dados.) Pode ser perigoso te deixarmos ir para casa.
Ela me encarou com aqueles olhos castanhos e me analisou. Mantinha uma expressão estranhamente serena.
_Você está mentindo. (Ela disse calmamente.)
_Porque acha que estou mentindo?
_Você pisca diferente quando mente. (Ela disse me encarando com firmeza.)
_Como pode saber que eu pisco diferente quando minto? (Perguntei incomodada por ter sido pega mentindo.)
_Você piscou do mesmo jeito quando inventou uma desculpa para recusar meu convite aquele dia.
_Como pode saber se eu estava ou não mentindo?
_Eu mentiria. (Ela disse seca.) Além do mais, aquele envelope com o meu nome ali na mesa mostra que você já está com o resultado dos meus exames, como ele está aberto você já leu e como você mentiu, eu já sei que estou com câncer.
Suspirei atônita. Ela era muito boa observadora, eu não podia negar.
_Desculpe. (Admiti o erro.)
_Tudo bem, acho que se eu fosse você, faria o mesmo. (Ela disse dando um sorriso.)
Como ela podia sorrir? Acabara de saber que iria morrer!
_Como você consegue? (Perguntei por impulso.)
_O que?
_Manter a calma?
_É simples, eu sou realista.
_Não não... (Eu continuei argumentando.) Eu sou realista e não esto... (Me corrigi em cima da hora.) Estaria calma se estivesse nessa situação.
_Você não é realista, você imagina ser realista. Mas serei sincera, você está aparentemente calma.
Fiquei chocada. Ela tinha notado. Meus olhos se encheram de lágrimas. Mas me contive.
_Aparentemente eu estou calma, mas se olhar atentamente verá que nem tanto. (Ela disse fria levantando o braço. A manga do casaco desceu deixando o pulso com vários cortes exposto.) Eu tenho que ser internada hoje? (Ela perguntou, pela primeira vez demonstrando algum receio.)
Pensei um pouco.
_Gostaria de ter uma ultima noite de diversão. (Ela argumentou me convencendo.)
_Acho que poderia ser amanha de manha...
_Obrigada. (Ela disse sincera. Virou-se para ir embora.)
_Alice... (Chamei-a) quer fazer algo divertido?
_Desde eu não seja sair pra tomar um café eu topo. (Ela disse exibindo um belo sorriso triste.)
_Ok, me espera vinte minutos na entrada?
_Te espero na entrada do cinema do shopping. (Ela disse.) Não quero morrer sem ver oo ultimo Harry Potter.
Eu ri. Gargalhei. Desde aquele maldito dia eu não conseguia sorrir. Me assustei ao me dar conta do quanto eu estava rindo. Meu sorriso aos poucos amarelou e eu recuperei o fôlego para falar:
_Tudo bem. Mas você vai estar lá mesmo né?
_Claro. (Ela disse me dando um aceno.)
Demorei uns vinte minutos para fechar o consultório, depois fui até o guichê na entrada e agendei um leito no nome de Alice. Era estranho, de tantos pacientes que eu tive nenhum me cativou a ponto de eu realmente sentir pena. Talvez fosse por eu estar em uma situação parecida, talvez eu seja tão egoísta que só possa sentir pena de mim mesma e refletir isso em alguém que compartilhe os mesmos problemas que eu.
Saí do hospital e fui em direção ao shopping me achando um tanto idiota, será que ela não usou aquilo como uma desculpa para fugir da internação? Eu me fazia várias perguntas no caminho, mas continuava a caminhar em direção ao local marcado. Não me surpreendi ao chegar na fila do cinema e não encontrar Alice. Me senti uma estúpida acreditando na história daquela guria.
Estranhamente eu não fiquei com raiva dela. Na verdade a idéia de ver um filme me pareceu até interessante. Entrei na fila. Depois de dois minutos esperando senti um cutucão no meu ombro.
_Alice... (Falei por impulso quando vi a menina que segurava um balde de pipoca e um copão de refrigerante.) Você não devia comer essas coisas! (Dei-lhe um esporro.)
_Dona Cecília, eu comprei nossos ingressos já, mas só vou entrar com você naquela sala se você me prometer esquecer que é minha médica por hoje.
Olhei para ela que fez uma carinha emburrada bem fofa, não pude deixar de rir. Segunda vez em um dia que eu sorria por causa de Alice. Concordei em esquecer de qualquer coisa ligada a doenças naquela noite. Entramos na sala de cinema e assistimos ao filme, foi interessante, uma crítica social bem melhor que a do primeiro filme.
Saímos da sala e fomos andando pelo shopping, ela estranhamente segurou minha mão quando descíamos a ultima escada rolante. Olhei para sua face e ela cabisbaixa me confessou:
_Estou com medo.
_Quer falar sobre isso? (Perguntei imaginando que ela, assim como eu, estava com medo da morte.)
_Não é isso... (Ela disse meio tristonha.)
_Está com medo do que então? (Perguntei sem entender e ela me pegou pela mão novamente e me levou a um canto vazio.)
Estava me preparando para ouvir qualquer história trágica da sua vida ou qualquer síndrome de pânico que ela pudesse ter. Mas ao me levar para um corredor vazio do shopping que já fechava, ela aproximou-se do meu ouvido e me disse:
_Tenho medo de você não me entender...
Olhei para ela ainda a procura de uma resposta, mas seus lábios se aproximaram dos meus calmamente, apesar de eu reparar que suas pernas tremiam levemente. Meu rosto automaticamente foi de encontro ao seu, senti minhas mãos suarem de nervosismo, ansiedade, talvez medo também. Mas ao contrário dela eu não tinha medo de que ela não me entendesse. Ela me entendia bem. A forma que seu beijo me envolveu completamente mostravam que ela me entendia melhor do que eu mesma.
Meu medo era de daqui a uma semana, ou duas, não poder mais ampará-la... Meu medo era morrer e deixá-la sozinha, sem ninguém. Depois de vários beijos ela me pediu para dormir na minha casa. Fazia anos que eu não levava ninguém em casa. Nem uma amiga sequer...
Entramos no meu apartamento. Era amplo e tinha uma iluminação mais fosca que eu preferia por achar essas luzes fluorescentes muito fortes.
Gentilmente a conduzi até o meu quarto e ali voltamos a nos beijar. Sentadas na minha cama sem parar nem mesmo um segundo continuamos a saborear uma a boca da outra. Até nossos corações aos poucos se acalmarem e pegarmos no sono entre beijos e abraços.
No dia seguinte acordei cedo com ela me recepcionando com um café da manhã na cama. Não sabia que se podia fazer tanta coisa prum café da manha com tão pouca coisa na geladeira. Ela fez torrada, pão na chapa com queijo, suco de limão, leite com Nescau, banana assada, bolinho de chuva e um tradicional café.
_Não sabia do que você gostava então... Fiz várias coisas. Espero que não se importe. (Ela disse mordendo o lábio e pondo a bandeja lotada na mesa de cabeceira ao meu lado.)
Comi um pouco de cada coisa, ela ficou contente, mas ao invés de comer o café que ela tinha feito detonou meu ultimo pote de sorvete enquanto assistia “Tom e Jerry” na tv. Não pude deixar de achar graça e não resisti sentar-me ao seu lado. Ela parecia uma criança as vezes, aquela inocência de certa forma me cativava.
Depois de algum tempo senti meu peito doer. Não, eu não estava passando mal, aquela dor não era física, era o meu psicológico que estava me matando. Dentro de duas horas ela teria de estar em uma maca de hospital sendo entupida de remédios e fazendo uma bateria de exames. Olhei para ela que estranhamente me encarou. Parecia saber o que eu estava pensando.
Levantou-se calmamente e enlaçou meu pescoço com seus braços. Me deu um selinho e depois falou:
_Ainda temos tempo de aproveitar...
Mordeu minha orelha sensualmente e me atirou no meu sofá. Subiu em cima de mim e me tirou a blusa, arranhou minhas costas e beijou cada centímetro exposto do meu corpo. Nos amamos como se dependessemos somente daquilo, como se o tempo não mais existisse e como se a vida se resumisse a nós duas.
Vejo hoje que realmente a vida, para mim foi aquele momento em que nuas nos amamos sem medo do depois, sem pensar no amanhã, só pensando em nos sentirmos completas naquele momento em que juntas, éramos uma e sozinhas, não seriamos nada.
Ficamos ali não sabe-se por quanto tempo, sei que meu telefone tocou loucamente, mas louca como eu estava não atendi. Depois de ficarmos juntas o dia inteiro, apagamos novamente em minha cama. Eu acordei, mas ao contrário do dia anterior ela não.
Senti as lágrimas escorrerem pela minha face e preparei, sozinha, o velamento daquele corpo, que mesmo morto exibia um sorriso.
Tive medo de deixá-la sozinha, mas ironicamente quem estava sozinha agora era eu. Chorei como nunca havia chorado, sofri, mas pela primeira vez por outra pessoa. Sei que morrerei em breve, da mesma forma que minha vida morrera. Mas só agora posso dizer realmente que vivi, pelo menos por um dia.
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