Beyond the Vengeance

26 Preso na Floresta - Você vai caçar?


Notas iniciais
E aí galera, tudo certo? Mais um capítulo pra vocês. Espero que gostem u.u Boa leitura.

Liza estava do meu lado, com a cabeça apoiada em meu ombro, o braço enroscado no meu. Estávamos sentados num banco de trem, deixando os ruídos das rodas nos trilhos nos embalarem para um suave cochilo. Senti ela se mexendo para me beijar, seus lábios comprimindo levemente os meus.

— Rápido — ela formou as palavras sem tirar seus lábios dos meus.

Acordei com um solavanco do trem. Esfreguei os olhos, me sentindo mais cansado do que quando tinha adormecido. Seguir o rastro deles não tinha sido nada fácil. Não pararam em momento algum e eu não podia ser diferente. Tive que parar em várias estações e perguntar a quem quer que fosse sobre informações. Eles tinham mudado de trem três vezes. Por sorte estavam com pressa e pegaram todos expressos, do contrário seria impossível me manter perto deles. Estava um trem atrás, atrasado pelas inúmeras perguntas que tive que fazer pelo caminho. Nem me lembrava para onde estava indo, apenas me lembrava de ter comprado o bilhete para o mesmo lugar que eles. No caminho acabei cochilando, embora não fosse minha intenção.

Também não era minha intenção sonhar com Liza. Naquele momento isso só me deixava mais preocupado. Por outro lado talvez não acordasse para ver a estação que se aproximava a frente.

Quando desembarquei fui direto falar com um segurança. Não havia pessoa melhor para te responder com impaciência, mas também era a pessoa com as informações que eu queria. Após respirar fundo pela quinta vez para não responder como queria ao segurança descobri pra que lado eles talvez tivessem ido.

Se estava preocupado antes isso só piorou quando vi a bilheteria do lado oposto ao qual seguia. Se eles tivessem saído da linha ferroviária seria quase impossível segui-los na cidade. Meus temores se confirmaram quando alcancei a saída da estação. Fiquei parado na calçada, sem saber que direção tomar. Pessoas passavam apressadas aqui e ali, mas nenhuma delas poderia ter visto Liza. Todas estavam de passagem. Então avistei um mendigo sentando sobre um pedaço de papelão, um pouco afastado da saída. Ele estendia sua caneca para cada pessoa que passava a sua frente e era brutalmente ignorado por todos. Não imaginei que ele poderia ter informações, mas fui até ele assim mesmo.

Ele imediatamente estendeu sua caneca até mim. Procurei no bolso por trocados, mas tudo que achei foi uma nota de cinco dólares, o que representava um quarto do meu dinheiro, mas mesmo assim achei bom dá-lo a ele. Os olhos do mendigo brilharam como duas bolas de gude ao ver a nota caindo na caneca até agora com apenas duas moedas.

— Oh, muito obrigado, senhor — ele disse feliz.

Não pude evitar que a reprovação à palavra senhor aparecesse em meu rosto, mas o mendigo estava ocupado demais com sua nova nota para perceber.

— Na verdade também preciso de ajuda — comecei. Seus olhos imediatamente perderam um pouco do brilho e deram lugar a uma incerteza cautelosa à perspectiva de não ter recebido a nota inteiramente de graça — Estou procurando uma pessoa. Duas na verdade.

Expliquei resumidamente a situação, descrevendo detalhadamente Liza e ocultando por que exatamente eu estava atrás dela. Ele pareceu relaxar um pouco.

— Ah, sim. Acho que vi essa menina sim. Ela me deu as moedas — ele disse indicando a caneca — Disse que era tudo que tinha. Também perguntou se havia alguma loja que vendesse artigos de camping. Barracas, sacos de dormir, essas coisas. Depois que eu disse onde achar a loja ela foi embora, junto com aquele cara. Se quer saber eu não gostei nada dele. E acho que ela também não gosta dele, mas mesmo assim o seguiu.

— Pode me dizer onde fica essa loja?

— É só seguir pela rua, uns dois quarteirões, e dobrar a direita. É a única loja que vende essas coisas por aqui. Não tem erro.

— Obrigado — agradeci enquanto me afastava.

— Obrigado você — o mendigo respondeu retirando a nota da caneca e guardando-a no bolso.

No final das contas a loja não era exatamente sobre artigos de camping, mas sim de caça. Ao entrar na loja a primeira coisa que vi foi a cabeça de um urso enfeitando a parede atrás do balcão. Não saberia dizer se havia pertencido a algum urso algum dia ou se simplesmente era uma cópia realista. O homem atrás do balcão era baixo. Tinha a barba por fazer e vestia uma camisa xadrez. Ele grudou os olhos em mim como se esperasse que uma mina de ouro jorrasse do meu bolso e comprasse toda a loja. Infelizmente eu teria que decepcioná-lo. Mal tinha dinheiro pra comida. Ele abriu a boca quando me aproximei, provavelmente pronto para falar sobre cada artigo da loja, mas eu não tinha tempo.

— O senhor não recebeu uma menina junto com um cara hoje? Talvez procurando por barracas ou coisa do tipo?

O olhar que ele me lançou foi tão melancólico que quase senti pena dele. Não devia ser uma loja popular.

— Sim, são seus amigos?

— Pode-se dizer que sim — menti — Sou o atrasado do grupo, queria saber para onde eles foram, se o senhor souber.

— Eles foram caçar. Digo, na floresta, é claro. Se está indo também talvez queira algo para se proteger. Tem alguns ursos na região. Acho que um rifle Puma calibre 44 combina perfeitamente com você. Ou talvez um 38…

— Não, obrigado. Não vamos entrar muito na floresta.

— Ah… claro.

Achar a floresta não foi difícil. Saber por onde começar era. Primeiro por que a floresta não era exatamente convidativa e segundo por que não tinha nenhum guia. Podia ir voando, mas as folhas das árvores formavam um teto para a floresta, sendo quase impossível enxergar através dele. Liguei para Chris (ainda bravo comigo) e ele me disse a minha melhor pista:

— Eles devem estar indo para outra cidade. A floresta fica na divisa dessas cidades. Passando por ela eles despistam qualquer um fácil — Ignorei essa última parte e desliguei. Não queria saber das minhas chances, só queria encontrar Liza.

O começo da floresta era calmo, sem animais, sem pessoas, algumas trilhas aqui e ali. Mais parecia um parque. Porém conforme fui adentrando mais e mais na floresta ela começou a ficar mais fechada. As trilhas simplesmente sumiram, o número de árvores pareceu dobrar e os barulhos típicos de uma floresta começaram. O barulho de pássaros nas árvores, esquilos correndo pela grama. Felizmente nenhum barulho alto que pudesse ser um urso.

Meus pés comeram a doer quando senti o cheiro de algo queimando. Inspirei profundamente tentando determinar de onde vinha o cheiro. Segui em frente com passos apressados. Avistei uma fina e quase transparente coluna de fumaça subindo acima das árvores. Tentei enxergar o mais longe que podia entre as árvores. Então eu a vi. De longe, numa clareira. Liza estava sentada ao lado de uma fogueira já apagada, de costas para mim, seu cabelo preso num rabo-de-cavalo.

— Liza — murmurei. Meu primeiro pensamento foi gritar seu nome, mas me controlei. Ela podia não estar sozinha.

Aproximei-me cauteloso, quase certo que alguém estaria me esperando para me atacar ou fazer alguma coisa com Liza. Estava a cerca de 20 metros quando ouvi o rugido. Um urso negro saiu detrás das árvores. Rugiu para Liza. Ela se levantou depressa, mas estava desarmada. Corri como um louco para chegar até ela. O urso se ergueu sobre duas patas, pronto para usar suas garras contra Liza.

— Liza! — dessa vez realmente gritei.

Passei como um raio por ela, sacando a espada e a usando contra o urso. Arranhei sua pata, mas isso não pareceu surtir efeito algum. Puxei o celular do bolso e atirei contra ele, acertando sua cabeça, o que deu tempo suficiente para recuar. Agarrei a cintura de Liza e praticamente a arrastei junto comigo.

— Ei! — ela reclamou.

Puxei ela para trás de uma árvore e olhei em seus olhos pela primeira vez. Olhos castanhos, confusos e com medo ao mesmo tempo. Afastei-me. Não era Liza. O cabelo era parecido, embora um tom mais escuro. Fora isso tudo era diferente de Liza desde o tom de pele até a forma de se vestir. Usava botas de caminhada, shorts e blusa cinza. Trazia uma mochila pendurada nas costas. Alguém que realmente estava lá para acampar, imaginei.

Ela abriu a boca para falar, mas mudou sua expressão rapidamente.

— Cuidado!

Ela me puxou para o lado, mas ainda assim as garras do urso me acertaram no braço, destruindo completamente a manga esquerda da minha camiseta. Gritei de dor, mas logo abafei o grito quando tive que me esquivar novamente do urso. A menina havia me salvado do pior, mas o urso não iria embora sem nos matar antes, provavelmente pensando que invadimos sua área.

O urso investiu contra mim. Rolei para a direita, evitando-o e ataquei. Uma mancha de sangue surgiu em seu pelo, mas novamente ele pareceu ignorar. Tive que me esquivar de novo, mas dessa vez o urso girou rápido, batendo em mim e me atirando no chão. O urso ficou sobre duas patas, prestes a jogar todo seu peso sobre mim. Duas flechas surgiram em seu peito como num passe de mágica e ele se desequilibrou, caindo para trás. Com o canto do olho registrei a menina segurando um arco, já puxando outra flecha da aljava em suas costas. Me pus de pé rapidamente, me afastando do urso. As flechas balançaram quando ele se levantou, mas não pareceram atrasá-lo. Saquei a lança e arremessei-a nele. Ela atingiu seu ombro e dessa vez foi o suficiente para derrubá-lo no meio de uma corrida. Rapidamente saquei a espada e a enfiei em suas costas. O urso parecia uma imensa e peluda almofada de alfinetes. Ele não morreu imediatamente, ficou agonizando. Nenhum de nós se atreveu a se aproximar, mas a menina atirou mais uma flecha certeira em seu peito e o urso morreu. Trocamos olhares compreensivos e despencamos na grama, exaustos.

É claro que não haveria hora pior para a fome me atacar, mas foi o que aconteceu. Em todo tempo que estive acordado também não me alimentei e, naquele momento, descansando na grama, parecia não haver hora melhor para comer. O problema imediato é que não havia comida, nem comigo, nem com a menina que estava igualmente faminta. Havia uma solução na qual pensei imediatamente, mas odiaria ter que fazê-la. Por fim me vi sem escolha, não poderia voltar à cidade a procura comida.

Durante o processo descobri duas coisas: a primeira foi que ser açougueiro devia ser a pior e mais nojenta profissão do mundo. A segunda era que carne de urso assada não era tão ruim. A menina também pareceu gostar, ela não se importou de acender novamente a fogueira e ajudar a assar a carne. Quando finalmente comemos alguns pedaços de carne é que pudemos conversar.

— Qual o seu nome? — ela começou.

— Terry Rivers. E o seu?

— Jennifer Rockbell.

Houve um silêncio estranho entre nós.

— O que está fazendo aqui? — perguntei.

— Procurando uma pessoa — ela respondeu evasiva — e você?

— Também — devolvi.

— Liza… é esse o nome dela, certo?

— É.

— Você me confundiu com ela? — era mais uma afirmação do que uma pergunta.

— Vocês são parecidas… — parei por um segundo — Por falar nisso, de onde surgiu aquele arco? Ou melhor, onde ele está agora.

Jennifer puxou o cabelo para o lado, revelando um fino cordão em volta de seu pescoço. Ela o puxou fazendo um pingente sair de baixo de sua blusa. Um pequeno arco prateado juntamente com uma aljava em miniatura, também de prata.

— Impressionante — comentei. Ela sorriu.

— Nem tanto para você. Vi que você tem um parecido — ela disse apontando para minha pulseira.

— Filha de Apolo? — arrisquei.

— Sim e você?

—Atena.

Mais um momento de silêncio.

Olhei para o céu claro dando lugar a um dourado pôr-do-sol. Logo seria noite, estaria escuro e seria ainda mais difícil procurar Liza. Fui tomado por um estranho sentimento de urgência. Quanto tempo eu havia ficado parado ali com Jennifer? Liza estava cada vez mais longe e eu estava sentado conversando. Levantei-me com urgência, mas tão logo fiquei de pé fui novamente ao chão, acometido por uma súbita tontura.

— Ei, você está bem? — Jennifer perguntou.

Só naquele momento me dei conta do cansaço que tinha acumulado. Minhas pernas pareciam pesar toneladas. A gravidade parecia estar pelo menos três vezes mais forte, me prendendo ao chão. Jennifer tentou me persuadir a ficar onde estava. Acabei aceitando. Eles também tinham que descansar em algum momento. A floresta seria o lugar perfeito, longe de olhares curiosos. E de nada adiantaria eu ir atrás de Liza se tivesse que me arrastar pelo caminho. Jennifer insistiu em ficar de guarda primeiro, deixando que eu descansasse. Pensei em protestar, mas quando me deitei na grama adormeci quase imediatamente, confiando em uma menina que eu acabara de conhecer.

Notas finais
Não se esqueçam de comentar o que achou aí embaixo =P Obrigado por lerem e até a próxima!