Beyond the Vengeance
48 Ponto de Encontro
Notas iniciais
Jennifer parou pela quinta vez para observar a cidade ao redor.
Achando que tinha se perdido, ela estava quase se arrependendo de passar seu fim de semana em Nova Iorque. Após ter uma série de crises nervosas ao analisar o estado da Patent Arms Company e ter passado semanas tentando trazer alguma ordem aquele caos contábil e administrativo, Jennifer precisava de um tempo para descansar.
Por outro lado estava preocupada com Terry e isso a fizera sacrificar parte de seu descanso para ir visita-lo. Agora, porém, preferia ter ficado deitada em sua cama ao invés de se aventurar por um lugar que ela visitara uma única vez.
O mais frustrante de tudo era que ela sabia que estava perto. Ainda assim não conseguia achar o local correto. Como um prédio caindo aos pedaços pode ser tão difícil de encontrar? Jennifer estava quase a ponto de perguntar a alguém se tinha algum prédio abandonado na vizinhança quando passou os olhos pelos prédios em seu lado esquerdo.
Não havia nenhum prédio abandonado naquela rua, porém ela viu um hotel com uma grande antena no terraço. Normalmente aquilo não seria nada para se chamar a atenção, mas aquela antena em questão estava perigosamente inclinada para o lado fazendo-a parecer uma estranha fusão entre a torre Eiffel e a de Pisa. Foi justamente isso que Jennifer pensou da primeira vez que vira a antena… pouco depois de sair do prédio abandonado, virando à esquerda até a rua em que estava.
Com uma renovada esperança de encontrar o apartamento de Terry, ela caminhou pela rua ansiosa pelo que ia encontrar quando chegasse. Não sabia como ele estava encarando o choque de ver sua namorada ser morta em frente aos seus olhos. Nem mesmo o conhecia bem o suficiente para arriscar um palpite. No entanto tudo que passaram juntos tinha criado uma espécie de laço entre eles e Jennifer não se sentiria bem sem ao menos visita-lo. Embora dentro de si guardasse certo temor em fazê-lo, já que não tinha certeza se seria bem vinda.
Depois de lutarem juntos encarando perigos tantas vezes em tão pouco tempo, Jennifer achou que aquilo podia ser o começo de uma boa amizade, mas isso fora antes da morte de Liza. Ela já não era mais a garota que o ajudou lutando lado a lado com ele por todo o caminho até Paterson. Agora ela era a garota que se parecia com sua falecida namorada e que não tinha conseguido capturar o assassino que a matou. Terry tinha ido embora, se isolado no apartamento e nunca mais entrara em contato. E por mais que Jennifer quisesse acreditar que sua visita fosse bem vinda, parte de si não conseguia parar de pensar na possibilidade de apenas estar trazendo memórias ruins consigo.
Contudo, quando ela chegou ao prédio abandonado seu único momento de hesitação foi para ter certeza de que ninguém estava olhando quando ela entrou. Tudo parecia tão vazio quanto da última vez que ela estivera ali. Com um calafrio ao pensar naquilo, Jennifer desejou que Terry não tivesse passado todo seu tempo naquele prédio.
Ela se lembrava de que na primeira vez não se impressionara tanto com o prédio, mas quando começou a subir as escadas, ouvido seus próprios passos ecoarem por todo lugar, Jennifer imaginou que o único motivo de não ter ficado com medo fora porque estava acompanhada.
Recuperando um pouco do fôlego depois da subida, a garota observou o corredor a sua frente por um momento. Nenhum som, silêncio completo. Pela primeira vez desde que tomara a decisão de visitar Terry, ela percebeu que talvez ele nem mesmo vivesse naquele lugar mais.
Com o pânico da ideia tomando conta de sua mente e xingando-se por ser tão burra, Jennifer correu até a porta do apartamento e entrou bruscamente.
O quarto estava vazio exceto pelos móveis. Uma cama, um criado-mudo, guarda-roupas, algo que parecia ser um fogão, um sofá, uma mesa e (estranhamente) um balde. Também havia uma caixa de pizza vazia que por algum motivo tinha um grande buraco na tampa. Porém ao se aproximar ela percebeu que na verdade o furo tinha sido coberto por um plástico transparente, o que fazia parecer o mostruário mais barato do mundo.
Parecia que Terry ainda morava ali, exceto pelo fato de que ele não estava lá. Só por garantia Jennifer checou se havia alguém no banheiro, mas viu logo que estava sozinha naquele apartamento.
— Aonde você foi? — Ela perguntou em voz alta.
Como não houve resposta, Jennifer pensou em suas opções: ficar e esperar ou sair e voltar para Paterson antes do esperado. Terry poderia simplesmente ter saído por alguns minutos ou então poderia estar fora por dias. Era difícil saber ao certo já que tudo naquele lugar parecia abandonado por anos, embora ela soubesse que aquilo não era verdade.
Com um suspiro, ela se decidiu. Resignada, tirou a mochila das costas e a deixou sobre o sofá. Tinha vindo de longe para ver ele e estava meio cansada da viagem. Descansar um pouco ali enquanto esperava por ele não faria nenhum mal.
Jennifer caminhou até a cama e se sentou. Porém quase imediatamente se levantou quando um rangido surpreendentemente alto a assustou. Com raiva de si mesmo por ficar com medo tão facilmente quando estava sozinha, ela tornou a se sentar na cama. Dessa vez não se assustou com o rangido, mas ficou alarmada em como a cama pareceu afundar sob seu peso.
Lá fora um trovão soou ao longe e em poucos minutos começou a chover. Enquanto a chuva ficava mais forte, Jennifer estremecia a cada trovão perto o suficiente pra fazer as paredes do prédio tremer.
— Como ele consegue viver aqui? Parece que cada gota de chuva vai fazer esse lugar vir a baixo...
Jennifer foi interrompida por mais um trovão. De repente, outro barulho atraiu sua atenção e com uma renovada repulsa por aquele lugar, ela notou a goteira que rapidamente começava a formar uma poça d’água no piso. Descobrindo o porquê de ter um balde ao lado da cama da pior forma possível, ela o posicionou para aparar a água que caía constantemente do teto e novamente suspirou.
— Não me importa se eu trouxer memórias ruins a ele… de algum jeito tenho que tirar ele daqui. O mais rápido possível.
…
Jennifer acordou subitamente. Não tinha se dado conta de quão cansada estava até pegar no sono. Ela se assustou o quão escuro estava. Que horas são? Ela tateou até o criado-mudo. Ficou feliz em ter notado a vela em cima dele antes de adormecer. Tinha esperança de que também houvesse fósforos por perto, mas ela não conseguia achar. Sua mão deslizou por todo o criado-mudo até encontrar sua gaveta. Lá dentro também parecia não haver nenhuma caixa de fósforos, mas havia algo que parecia ser um isqueiro. Jennifer quase gritou de frustação quando pela quinta tentativa o isqueiro ainda não produzira nenhuma chama, mas na sexta tentativa ele se acendeu e iluminou seu rosto lançando um calor agradável sobre sua pele.
Após acender a vela e vasculhar o quarto ao seu redor, Jennifer percebeu com pesar de que ainda estava sozinha. Foi até o corredor do lado de fora, mas dessa vez tomou outro caminho e subiu as escadas até o terraço.
Levando em conta a chuva que havia acabado de cair, o céu estava lindo. Algumas nuvens ainda eram visíveis, mas a luz do luar sobre elas com o mar de estrelas como plano de fundo tornava a vista agradável. Jennifer anotou mentalmente o único ponto positivo daquele prédio.
Enquanto olhava para o céu, pensava no que faria a seguir. Era um pouco tarde demais para voltar para Paterson, mas ao mesmo tempo agora que havia acordado não tinha certeza se conseguiria pegar no sono novamente até a manhã seguinte.
— Por que você não está aqui?
Jennifer se lembrou de quando era pequena e costumava olhar para o céu procurando estrelas cadentes para fazer um desejo. Embora não houvesse nenhuma naquela noite, ainda assim desejou que Terry estivesse ali. Já estava tarde e ele ainda não havia aparecido. Será que realmente não mora mais aqui?
Cansada de esperar que um milagre caísse do céu, Jennifer estava prestes a voltar para o quarto quando algo realmente caiu do céu. Um vulto escuro de repente entrou em seu campo de visão e começou a se aproximar rapidamente. Logo antes da coisa pousar sobre o terraço, Jennifer distinguiu uma coisa: asas. Sua memória foi imediatamente para o dia da morte de Liza, quando Terry havia invadido o local por cima, voando com asas que inexplicavelmente surgiram de suas costas.
Porém quando Jennifer se virou para encarar a figura alada, percebeu que não era Terry, mas assim como ele as asas pareceram sumir logo depois do pouso. As duas garotas se encararam com olhares confusos.
— Não era você que eu estava esperando encontrar… — ela disse.
…
Jennifer observava a garota a sua frente sob a luz de velas. Ela usava calças jeans, tênis all-star e uma jaqueta marrom. Uma franja escondia um de seus olhos castanhos. Ela a observava com certa desconfiança.
— Sei que é meio pretencioso perguntar assim tão diretamente, mas como exatamente você conhece o Terry?
— Sim, é pretencioso. E eu poderia fazer a mesma pergunta para você. — Jennifer fez uma pausa. — Mas suponho que tem algo a ver com essas asas negras nas suas costas, já que Terry tem asas iguais. Quem são vocês afinal?
A garota pareceu incomodada com a resposta, mas continuou mesmo assim:
— Não é uma resposta simples. E na verdade estou com um pouco de pressa. Você sabe onde Terry está?
Jennifer não sabia, mas sabia como negociar com alguém.
— Que tal trocarmos informações então? Eu respondo suas perguntas se você responder as minhas. Uma de cada vez.
A garota ponderou por um minuto antes de responder. Parecia nervosa. Mesmo que não tivesse falado Jennifer teria percebido que ela estava com pressa.
— Tudo bem. — Ela cedeu. — Então…
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Jennifer começou a contar como conheceu Terry. Contou como ambos estavam procurando pessoas desaparecidas naquela floresta e acabaram juntando forças para sair vivos dela. Omitiu, porém, qualquer detalhe maior como quem procuravam ou o que aconteceu depois.
— Ok. Então você sabe onde…
Jennifer já havia levantado a mão num sinal para que ela parasse.
— É minha vez agora. Quem realmente são vocês?
A garota pareceu contrariada. Obviamente ela tinha percebido a jogada de Jennifer e não ficara nada contente, mas mesmo assim começou a falar. Ela falou sobre o grupo da qual ambos eram membros, os Vingadores de Nêmesis. Falou também que todos os seguidores da deusa recebiam certos poderes semelhantes, como as asas que a trouxeram até ali.
Jennifer imaginou por que Terry entraria para tal grupo. Pensou em perguntar isso para a garota, mas achou que essa seria uma pergunta que só Terry poderia responder.
— Certo. Agora, onde está Terry?
— Não sei. Estou esperando ele aqui o dia todo. Ele não apareceu. — A garota mordeu o dedo indicador, com uma expressão pensativa no rosto. — Qual seu nome?
— Trish. E o seu?
— Jennifer. Por que está atrás de Terry?
Trish, que ainda estava com a expressão pensativa, mudou imediatamente sua postura. Levantou-se da cadeira onde estava sentada e se virou para sair.
— Já chega desse jogo de perguntas e respostas. Não há nada mais que eu possa contar. E já que você não sabe onde ele está eu preciso continuar procurando. Obrigada mesmo assim.
— Espere! — Jennifer sentiu que algo estava errado. Tinha ficado claro para ela que a razão que impedia Trish de falar vinha de cima. Em qualquer outro dia ela poderia acreditar que simplesmente era uma discrição inata dos Vingadores de Nêmesis, mas pela urgência que havia na voz de Trish ela sabia que algo estava errado. Será que acham que algo pode ter acontecido com ele? — Eu também estou procurando por ele. Me leve junto.
— A menos que você saiba voar, não.
A ideia fez Jennifer estremecer. Desde pequena tinha um medo alarmante de altura. Trish já estava próxima à porta. Jennifer teve que agarrar seu braço para que ela não saísse correndo.
— Posso ajudar de outras formas.
— Tenho que encontrá-lo rápido. Se ele não está mais morando aqui tenho que partir o mais rápido possível e procurá-lo, nem que tenha que ir ao outro lado do país.
— Então não vai encontrá-lo de qualquer forma. — Uma voz fraca surgiu do nada.
Ambas as garotas olharam na direção do som. A poucos metros delas, agarrado à porta de forma precária, havia um garoto olhando para as duas. Carregava uma espada na mão esquerda, mas parecia que mal estava aguentado seu peso. Usava calças jeans escuras rasgada num dos joelhos, mas esse parecia ser o único item de seu vestuário que estava em bom estado. O sapato (pois ele estava usando apenas um) estava completamente sujo de lama. Sua camiseta era uma mistura de verde, com sujeira e sangue. Em contrapartida seu rosto estava assustadoramente pálido.
Ele deu alguns passos a frente, tropeçou e cambaleou até largar a espada e se agarrar ao sofá.
— Pelo menos não está aqui para fazer piada disso de novo. — Ele balbuciou. Olhou diretamente para Trish e depois de alguns segundos tentando tomar fôlego disse: — Desista de procurar por ele… está fora do nosso alcance agora.
E desmaiou.
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