Notas iniciais
E ai galera, tudo bem com vocês? Esses últimos capítulos (e provavelmente alguns futuros capítulos também) estão dando um pouco mais de trabalho do que de costume, por isso tenho demorado mais que o normal e também estão me deixando com um pé atrás antes de postar. Por isso a opinião de vocês é muito importante. Boa leitura.

Liza estava me observando do alto. Lançou-me olhar curioso, como se estivesse se perguntando o que eu estaria fazendo ali. Só então percebi que estava no chão. Liza sorriu pra mim, um sorriso não muito feliz, mas sincero. Sorri também.

Levantei rápido, ficando sentado antes mesmo de ter consciência que estava acordado novamente. Por um momento eu fiquei fitando o chão a minha frente, como se esperasse que ela realmente estivesse ali me observando. Então me levantei por completo, ficando de pé. Olhei da porta para a estátua da deusa, ainda meio confuso fui até a porta.

Todos se voltaram pra mim quando atravessei a porta. Piper foi a primeira a falar:

— Como passou pela porta?

Por um momento não entendi o que ela queria dizer. Então me lembrei que a porta estava fechada a pouco tempo e… onde estava a chave? Estava na minha mão, mas quando acordei ela não estava mais lá. Por um segundo de desespero eu pensei que a havia perdido, mas quando enfiei a mão no bolso lá estava ela. Piper olhava pra mim esperando uma resposta.

— Eu encontrei a chave — menti e então me perguntei por que havia feito aquilo. De alguma forma não me parecia uma boa ideia contá-los sobre a chave. Quanto menos soubessem melhor.

— Bom — Piper começou — Menos mau então. Acho que podemos começar a catalogar as coisas antes que alguma outra porta maluca nos tranque em algum lugar.

— Hum — o garoto falou. Jason… havia esquecido seu nome — E o que tem pra lá? — ele apontou para o corredor.

— O corredor leva a um tipo de salão branco sem nada. A menos que você queira catalogar os materiais das paredes também acho que não há motivo pra irmos lá. Depois do salão só tem mais labirintos.

— Bom, de qualquer forma é melhor darmos uma olhada.

Ele não esperou uma resposta. Começou a andar e fomos obrigados a acompanhá-lo. O lugar estava exatamente como eu me lembrava: corredores, sala com o pedestal vazio, mais corredores e então o salão branco onde havia enfrentado o cão infernal.

— Por que falou do material nas paredes? — Piper perguntou.

— Elas são brancas, mas não é tinta. A própria parede é feita de algum material branco, muito branco.

— Gesso?

— Duro demais para ser gesso.

Piper e Jason se afastaram indo em direção às paredes. Chris os observou por um segundo. Parecia desanimado.

— Está tudo bem? — perguntei.

— Sim, tudo bem — ele respondeu, embora não parecesse tão certo disso.

Imaginei se tinha lido a mente de um dos dois. Com a mania de Chris isso era bem possível. Senti um pouco de pena dele, mas iria suportar. Se não quisesse compartilhar aquilo eu não revelaria que já sabia.

— Agora que eles estão distraídos… você viu Psique, não viu?

— O quê? — quase falei alto demais — Como sabe?

— Sua proteção mental está mais forte, agora realmente não consigo entrar. Como estamos no templo dela imaginei que fosse ela.

— Espera aí, como assim agora não consegue entrar? No Central Park você disse que não havia conseguido me contatar.

— Bom, pra ser mais específico, eu não conseguia à distância. De perto, fazendo algum esforço eu conseguiria… não que eu tenha tentado! — ele acrescentou rápido quando viu minha cara — Como eu vou explicar…? A sua proteção era como um cercado, se alguém tivesse habilidade poderia pulá-lo. Agora sua proteção está mais para um pequeno forte protegendo seus pensamentos, bem mais forte que antes. Tentar atravessar a barreira seria mais ou menos como atravessar rocha sólida.

— Espero que você não tente dessa vez então.

Chris levantou as mãos num gesto de rendição.

— Eu não faria isso. Primeiro porque não conseguiria. Segundo porque já estive aí uma vez, sei como você pensa. É o bastante pra mim.

Lancei um olhar de aviso para Chris. Ele fingiu não ter percebido. Enquanto isso Jason e Piper pareciam confusos com a parede. Olhei em volta. Não entendia como tudo aquilo poderia ser tudo do mesmo material. Nenhuma tinta, nenhum indício de argamassa ou tijolos. Nada. Dei mais uma olhada no salão. Algo me incomodava.

Sem entender direito o porquê daquela sensação ruim, coloquei as mãos no bolso, sentindo a chave de ouro. Ainda não sabia o que era exatamente aquela chave, mas ela me passava uma sensação de extrema importância, como se segurasse algo que podia explodir o mundo. Embora fosse apenas um devaneio, era exatamente essa a sensação que tinha, de que tinha no bolso algo importante, que não poderia ser mostrado a ninguém. E ainda assim sentia uma sensação de que havia algo que eu deveria saber sobre aquilo, algo que tivesse deixado escapar. Porém não parecia vir da chave em si. Olhei ao redor novamente.

— Chris! — chamei.

— O que?

— Não devia haver uma porta de ferro aqui?

Chris olhou para o vão onde antes estava a porta, depois olhou em volta do salão onde o cão infernal havia atirado a porta depois de arrombá-la, mas não havia nada, nenhum sinal da porta. Chris abriu a boca para falar, mas nesse momento a passagem pela qual havíamos passado começou a se fechar.

— Não!

Chris estava mais perto, mas não conseguiu chegar antes da passagem se fechar, voltando a parecer fazer parte da parede. Ele a socou frustrado. Como se em resposta ao soco, todo o lugar começou a tremer. O tremor foi aumentando até ser quase impossível se manter de pé. Jason e Piper se seguraram como podiam às paredes. O chão sob nossos pés começou a se rachar. Chris e eu cambaleamos para onde estavam Jason e Piper, tentando escapar da rachadura que se abria depressa, como se quisesse nos engolir. Ela aumentou o bastante para formar um enorme rasgo no chão, dividindo o salão em dois.

— Mas que m…

Uma mão (literalmente) esquelética saiu da fenda formada no chão. Apoiou-se no chão e começou a puxar o resto do corpo. Depois mais uma mão veio. E outra. E mais outra. Em questão de segundos estávamos cercados por uma pequena tropa de soldados gregos zumbis. Todos estavam vestidos com armaduras gregas de bronze, embora em vários faltasse alguma parte. Em um faltava o peitoral, outro não tinha elmo, outro só tinha uma das grevas. A maioria estava armada com lança, escudo e uma espada pendurada na cintura. Alguns não tinham escudos, outros não tinham um braço. O esqueleto sem elmo tinha um item adicional: uma faca presa no lugar onde um dia havia seu olho direito. Por um segundo eles nos observaram com as armas prontas. Depois atacaram.

Saquei a espada. Jason fez o mesmo. Chris e Piper sacaram suas facas. Por um minuto pareceu chover golpes de todos os lados. Defendi um golpe com a espada enquanto acionava o escudo e o usava para mandar um esqueleto de volta para a fenda. Chris havia milagrosamente se esquivado de um golpe do esqueleto sem o elmo e havia arrancado a faca presa ao olho dele, ficando com duas facas. Piper e Jason lutavam juntos, fazendo o possível para não morrer. Enquanto isso o esqueleto sem uma das grevas me atacou. Defendi o golpe com escudo e aproveitando de sua falha na armadura golpeei sua canela. Ele caiu.

— Estão nos cercando! — Jason gritou.

Era verdade. Estávamos num canto, perto da parede e a cada segundo ficávamos mais fechados. Se ficássemos encurralados seria o fim. Cravei a espada no esqueleto sem peitoral e saquei a lança, usando-a mais como um bastão para tentar inutilmente afastar os esqueletos. Não ia dar certo, eram muitos.

— Por aqui! — ouvi Piper gritar.

De alguma maneira ela e Jason tinham conseguido flanquear os esqueletos e agora tentavam passar pelos cantos abertos, em direção ao corredor. Naquele momento ir para os labirintos parecia uma ótima ideia, mesmo sobre o risco de nos perder. Chris já ia ajudá-los. Defendi um último golpe antes de correr para o flanco, mas parei no primeiro passo.

— Ah!

Dedos esqueléticos se fecharam com força sobre meu tornozelo. O esqueleto que eu tinha derrubado havia se arrastado até mim. Os ossos machucavam minha pele. Tinha que pegar em cima do nervo? Antes que eu pudesse pensar em algo, Chris já estava de volta pisando no braço do esqueleto. Houve um sonoro crack e apenas a mão e uma parte do antebraço continuou presa ao meu tornozelo. Chris quase foi decapitado enquanto se livrava do resto da mão ainda viva. Uma lança passou como um raio entre nós, quase levando um nariz de mentalista junto. Ele e eu gastamos preciosos segundos nos defendendo. Quando olhei de esguelha para o lado vi Piper conseguindo passar através do flanco aberto. Uma espada quase a atravessou, mas Jason a impediu.

— Vamos! — ela gritou.

Chris eu tentávamos, mas os esqueletos estavam nos atacando em peso. Já era difícil nos manter vivos. Por um momento achei que alguns esqueletos iriam atrás de Piper e Jason conseguiria passar, mas o esqueleto da ponta deu as costas para Piper e atacou Jason.

Tudo aconteceu muito rápido. No segundo que registrei o esqueleto ignorando Piper também notei vagamente que o corredor, agora a poucos metros de Piper, estava mais escuro do que deveria. Jason não conseguiu passar e os esqueletos se fecharam em torno dele, pressionando-o para trás, para junto de nós. Piper deu uma pequena corrida até perceber que os esqueletos não estavam tentando impedir sua fuga. Ela se virou incrédula. Tarde demais percebi o que estava acontecendo. Abri a boca para avisar, mas um esqueleto bateu seu escudo no meu com força, me fazendo fechar a boca e morder a língua. Reprimi um palavrão.

— Piper, não! É uma armadi…

Antes que pudesse terminar a frase um vulto saiu do corredor, agora realmente escuro. Piper voltava para ajudar com os esqueletos, mas foi pega pelo vulto antes de chegar. Um lenço foi rapidamente passado sobre sua cabeça e se encaixou em sua boca, no momento em que ia dizer alguma coisa. O lenço foi puxado para trás com força, trazendo Piper junto num tipo cruel de coleira. Pude ver uma mão pálida segurando uma adaga, passando pela frente de Piper. Por um momento achei que fosse cortar seu pescoço, mas a faca continuou para baixou e fez um pequeno corte na mão da filha de Afrodite, fazendo largar a faca.

A luta parou.

Os esqueletos recuaram e formaram uma linha protetora entre nós e Piper. Pela primeira vez vi quem a havia rendido. Ou pelo menos sua cara. Parecia que estava tentando se tornar um esqueleto como os outros. Tinha uma pele tão pálida quanto osso, cabelos pretos (realmente pretos, demais para serem naturais) e escorridos com uma pequena franja na frente, duas pequenas argolas estavam presas a sua sobrancelha e seus olhos eram negros assim como suas olheiras. Parecia tão magro e abatido que fiquei surpreso de ter conseguido render Piper.

— Eu estou com pressa — ele disse. Falava alto, mas sua voz parecia ter a potência de uma buzina de bicicleta infantil (e tão irritante quanto) — Vou direto ao assunto: já sabe o que eu quero. Vou trocar pela garota — ele pareceu pensar por um momento — No labirinto. Quanto estiver pronto vá até o labirinto. Apenas um, ou ela morre.

Ele começou a se afastar, indo para o labirinto. Os esqueletos o seguiram. No mínimo sete deles ainda estavam em condições de lutar bem. Lutar no corredor estreito era suicídio.

Depois que o último esqueleto desapareceu no corredor escuro Jason começou a avançar para o corredor. Estava claro o que pretendia. Tentei segurá-lo pelo ombro, mas o toque me deu um choque e me obrigou a tirar a mão rapidamente. Me lembrei de sua marca do acampamento romano, filho de Júpiter. Era tudo que eu precisava. Um filho do rei dos céus eletrificando tudo a sua volta e se metendo num assunto que não compreendia. Nisso eu não estava muito melhor, mas tinha que impedi-lo, não importava que fosse a namorada dele. Desistindo de fazer as coisas com calma, corri para frente dele, empunhando a espada.

— Saia — ele disse.

— Vamos fazer as coisas com calma. Eu vou.

— Calma?! Ele levou Piper! Só um de nós pode ir. Ela é minha namorada e sou eu que tenho que cuidar dessa coisa idiota — ele tirou o mapa amassado do bolso — Está bem claro pra mim quem deve ir!

— Ela me falou dos roubos. Como eles acontecem geralmente?

— Simplesmente são roubados do lugar em que são guardados. O que isso interessa? Saia da minha frente!

Ele ameaçou avançar, mas apontei a espada para sua garganta. Achei que isso seria o suficiente para iniciar uma briga, mas Chris também se interpôs entre ele e o corredor. Jason recuou um passo, mas não de modo defensivo.

— É a última vez que aviso. Saiam da minha frente — ele falou entredentes.

— Ninguém viu quem roubou, não é verdade? — quando ele não respondeu resolvi me apressar, quase podia sentir a eletricidade no ar — Tudo foi serviço profissional. E agora não querem roubar simplesmente, se deram o trabalho de sequestrar alguém para fazer uma troca. Não acha estranho que tenham mudado tanto o jeito de agir?

Isso conseguiu prender a atenção dele.

— Como assim?

— Estão desesperados — isso não chegava a ser uma completa mentira, ou ao menos não parecia ser — Querem o mapa rápido. Podemos nos aproveitar disso.

— Pode ser verdade, mas não muda o fato que só um de nós pode ir e serei eu.

— Tudo bem — levantei as mãos num gesto de rendição, guardando a espada — Mas você tem a espada?

— Só.

— Aqui — disse tirando o anel que ganhara de Atena. Ele se aproximou para ver — Leve isso. É um escudo — disse colocando o anel no dedo e acionando-o, numa demonstração.

— Obriga…

O escudo fez contato com a cabeça de Jason antes que ele pudesse completar o que ia dizer. Ele caiu no chão, desmaiado.

— Péssima ideia ter baixado a guarda — comentei. Virei-me para Chris — Agora eu vou lá salvar a garota. Cuida dele.

Por um momento quase me esqueci de levar o mapa também, porém me lembrei de apanhá-lo antes de ir.

— Espera! — Chris chamou — O que eu faço se ele acordar?

— Pegue a espada dele antes.

— Mas ele é filho de Zeus!

Júpiter, corrigi mentalmente, pensando no que responder.

— Hum, então você improvisa — Chris ia protestar, mas corri para o corredor antes que pudesse dizer mais alguma coisa — E não o deixe entrar no corredor — completei alto.

Em poucos passos tudo já estava completamente escuro e por um momento (quase nostálgico) me lembrei de como era ter uma visão noturna.

Notas finais
Não se esqueçam de comentar, se não um zumbi vai misteriosamente surgir em seu quarto quando você estiver dormindo u.u Obrigado por lerem e até a próxima!