Beyond The Bounds Of Sky

1 Capítulo 1 - Dias Nublados


"Aquela que é independente da Família, sempre podendo movimentar-se com total liberdade para tomar as decisões que acha mais corretas."
–Missão primordial da Nuvem


O pátio pavimentado estava escuro, naquele fim de tarde nublado e frio. Não havia emoções naquelas formas de concreto que chamavam de estátuas. A chuva ameaçava cair, como sempre naquela cidade de ar úmido e abafado. Ainda assim, um vulto esperava pacientemente o tempo passar, olhando a fonte que se encontrava no meio da praça circular. Algumas árvores de folhas verdes balançavam com o vento a alguns metros dali.

O sujeito usava um terno feito sob medida, com sapatos impecavelmente limpos e um chapéu pequeno e elegante. A camisa vinho contrastava com a gravata negra e o coldre estava escondido por debaixo do paletó. Carregava no bolso um relógio dourado atado a uma corrente e com seu clique, denunciava às cinco horas em ponto, no instante em que o rapaz abriu um sorriso discreto.

-Sua pontualidade como sempre me assusta.

-Eu sei que é preciso muito mais do que isso para lhe assustar, Yure.

A moça estava encarando o rapaz de forma firme com o único olho que possuía descoberto, pois o outro estava escondido por um tapa-olho negro atado no lado direito da cabeça por duas fitas que lhe cruzavam o rosto, quase imperceptíveis. Sua franja lisa castanha escorria na diagonal para a direita, enquanto o resto do cabelo descia em espirais bem definidas até abaixo dos ombros dela. Usava uma camisa social roxa por baixo do uniforme da faculdade, que se constituía de uma saia um pouco acima dos joelhos e um agasalho aberto com um brasão. As botas iam até o alto de suas canelas, fechada com fivelas negras.

-Não parece muito feliz em me ver, Karoline.

Ela estreitou os olhos e encarou o pátio de concreto por uns momentos. Fazia três anos desde a separação e a única pessoa que ela ainda conseguia rever era Yure, um dos fundadores da família e sucessor da Marca do Sol. Voltou a olhar de forma fria e decidida para ele, que mantinha a postura educada e o sorriso discreto.

-A minha resposta é não.

-Você não sabe o sobre que eu vim perguntar...

-Mas você já sabe o que eu vou responder. –sentenciou Karol, como um ultimato.

O rapaz se calou, tirando o chapéu e coçando a nuca com a expressão pensativa enquanto exibia o cabelo curto ao estilo militar. Iria ser mais difícil do que ele esperava. Karoline, a Guardiã da Nuvem, era obstinada em vários pontos. E para piorar ele sabia que, desde a última vez que os sete guardiões haviam se reunido, a moça tinha uma razão muito forte para não querer vê-los nunca mais.

-A separação- Yure voltou a falar de forma ponderada. -foi difícil para todos nós, Karol. Entendo o porquê de você não querer rever algumas pessoas, mas elas sentem muita saudade da família reunida... Junto com você.

-Novamente digo que não vou à Reunião. Eu não sou mais da família, Yure- ela se virou bruscamente e caminhou na direção oposta à dele, decidida. O rapaz suspirou, perdendo um pouco a paciência.

-Então porque ainda está carregando o brasão em volta do pescoço, Guardiã da Nuvem?

Há quanto tempo ela não ouvia essas palavras? Estacou e levantou o rosto, vendo com o olho esquerdo o céu nublado enquanto o dia acabava. Os postes começavam a ter suas luzes acesas, criando círculos de luz ao redor de toda praça. Levou a mão até o colar de metal, no qual estava o brasão com o símbolo da nuvem e o apertou contra mão, até as juntas dos dedos ficarem brancas. Havia sorrido com eles, lutado, sofrido. Eles haviam se tornado, sem dúvida, uma verdadeira família para ela.

Yure só ficou observando de longe, consciente de que havia conseguido alcançar o próprio objetivo. Se havia conseguido dobrar a mais teimosa, os outros não resistiriam tanto à convocação.

-Só me responda uma coisa. –Karoline não se virou, ainda encarando o céu cinzento acima da própria cabeça.

-Sim?

-Se ele aparecer, o que eu duvido muito, eu posso espancá-lo até a morte?

-Faça o que quiser. Você é livre para suas próprias escolhas, lembra-se?

Ela não respondeu, apenas acenou uma despedida rápida e passou a caminhar indo em direção a saída do parque. Estava satisfeita. O rapaz de terno ficou observando ela se distanciar, vendo o quanto ela havia mudado em três anos, com satisfação. A mais promissora de todos os guardiões havia realmente se tornado extremamente forte. Yure colocou a mão em um dos bolsos do paletó escuro, tirando um pequeno chocalho amarelo do tamanho da palma de sua mão que estava engatado na corrente do relógio.

A hora estava chegando. Podia sentir a excitação de rever os velhos companheiros reaparecer.





Karoline desceu os degraus que davam à rua e sentiu uma gota de chuva molhar a borda do seu cabelo. Suspirou chateada, lembrando uma velha piada que havia feito há muito tempo para um grande amigo: “Você que é feliz. Você vive na cidade da chuva”. Seus lábios se curvaram em um sorriso, enquanto as gotas de água começaram a cair de forma mais pesada. Encostada no portão de ferro da saída do parque, que dava acesso a rua, estava uma figura que segurava um guarda-chuva de intenso vermelho. Usava o mesmo uniforme que Karoline, só que sua camisa social era branca e seu cabelo era de um vermelho rubi trançado em um rabo de cavalo. Ela olhou para o relógio que estava na parte inferior do pulso magro e voltou os olhos castanhos escuros para a morena, como se esperasse a respostas já de imediato.

-E então? –disse a ruiva com delicadeza.

-Pois é. Vamos rever velhos amigos em breve, palito de fósforo.

-Já disse para parar com esses seus apelidos infantis, Karol... –as duas passaram a andar pela calçada, desviando das poucas pessoas que transitavam, enquanto a chuva criava poças no chão.- Quando ouvi que você viria visitar o Yure, eu fiquei perplexa...

-Eu ainda tenho contas a acertar com alguém dentre os Guardiões. –ela disse de forma seca, com a cabeça erguida para frente. Kamila não conseguia saber o que se passava pelos olhos dela com o tapa-olho, mas conhecia a amiga a tempo suficiente para saber que ela ainda guardava aquela antiga mágoa.

-Você ainda não o perdoou mesmo depois de tanto tempo? Karoline, ele pode ter partido, mas ele sempre será seu an...

-Ele está morto para mim. –Karoline cortou de forma ríspida, fazendo Kamila apertar a alça do guarda chuva com raiva, que ela controlou de forma sutil sem demonstrar qualquer sinal de irritação. -Vamos andando. É hoje que eu vou espancar aqueles vândalos da faculdade até arrancar todos os seus dentes e fazer uma bijuteria barata de camelô com eles. Quem eles pensam que são para vandalizarem A MINHA instituição...?! Escória...

Kamila assentiu com a cabeça, enquanto elas apertavam o passo. Por um momento, ela fechou os olhos e se lembrou da silhueta de todos os antigos amigos que tanto sentia falta assim como Karoline, mesmo a chefe do Comitê de Disciplina não revelando isso a ninguém. Voltou a abrir as pálpebras, enquanto seus olhos castanhos encaravam o céu novamente.

Por algum motivo, para ela, estava chegando o fim dos dias nublados.