Beyond The Bounds Of Sky
9 Capítulo 9 - Alvo Travado
“Não se pode fugir para sempre. Não mesmo.”
-Você o quê?! –exclamou Zatch ao telefone celular, enquanto caminhava pela garagem do prédio. Carregava a mochila verde nas costas enquanto conversava em um tom ligeiramente irritado. –Eu pensei que três anos fossem tempo suficiente para você criar algum juízo!
Estava recebendo as novidades de Kiba e seu caloroso reencontro com a irmã mais nova. Agora o espadachim estava lá, no alojamento da universidade, recebendo os pontos pela ruiva amiga de Karoline. Soltava um palavrão de um minuto em outro pela dor, mas o Guardião da Chuva sentia a animação na voz carregada de sotaque dele.
-Tudo bem, passe a noite repousando ai. Mas amanhã direto pra cá, está me ouvindo? –ordenou de forma autoritária. Foi só depois de desligar o telefone que ele percebeu o quão responsável sua voz tinha soado.
Entrou no elevador, começando a sentir as alças da bagagem de escalada pesar nos ombros. Só queria se jogar no sofá do próprio apartamento e apagar antes de ouvir a chuva de reclamações da namorada. Pegou o molho de chaves viajando com a maciez das almofadas quando chegou ao andar em que morava. Foi quando estava caminhando pelo corredor de tonalidades verdes e portas brancas enfileiradas que o rapaz sentiu a irradiação vinda de seu próprio apartamento. Era um portador de Chama, e ela estava ativa.
Zatch sentiu a tensão percorrer o próprio corpo, enquanto colocava a mão na maçaneta da porta. Conseguia ouvir a voz de Beatriz, mas nada que pudesse constar se ela estava sendo atacada ou não. Respirou fundo, mantendo a frieza para preparar qualquer ataque de interceptação. Abriu a porta rapidamente e colocou a mão no punho esquerdo, pronto para liberar a arma selada.
Arregalou os olhos e ficou boquiaberto, não acreditando no que estava encarando.
-Mas que palhaçada é essa?! –indagou descrente.
No meio de sua sala de estar, pode visualizar uma réplica de si próprio, de tamanho e proporções iguais ao original. O Zatch-réplica segurava um imenso espanador cor-de-rosa em uma tonalidade berrante, avental e bandana combinando. Com o cabelo preso em um rabo de cavalo, cantava uma musiquinha alegre enquanto tirava o pó de uma estante de vidro.
Beatriz se retorcia de rir no sofá de três lugares, os braços contraindo a barriga enquanto ela lacrimejava. Jô se limitava a um sorriso divertido, enquanto seu olho direito vermelho mantinha-se envolto de uma aura que parecia fumaça, na cor índigo. Aquela brincadeira de mau-gosto era coisa sua.
-Boa noite. –Zatch estava se controlando para não espumar de raiva e dar uma voadora no Guardião da Névoa. Beatriz começou a respirar fundo para tentar cortar as risadas.
-Oi Zatch! –Jô acenou da poltrona onde estava. A réplica se virou e repetiu o gesto de forma irritante. O Guardião da Chuva largou a mochila no chão e cruzou os braços, fazendo um gesto com a cabeça para aquela aberração doméstica. –Oh, desculpe. Eu apenas estava fazendo a Beah se divertir.
O ilusionista fechou os olhos, voltando o direito à cor castanha habitual. A réplica começou a se desmanchar em uma fumaça de tonalidade clara, desaparecendo em pleno ar como se nunca tivesse existido. A caçadora de recompensas se levantou e deu um selinho no namorado, o cabelo castanho claro esvoaçando levemente com seus passos.
-Ah Duh, era só uma brincadeira... –ela apertou as bochechas do guardião, chamando por seu verdadeiro nome de forma carinhosa. –E trate o Jô bem, ouviu? Faz tempo que não recebemos visitas...
O rapaz fez uma careta, mas assentiu com a cabeça e Beatriz sorriu enquanto saía cantarolando até a cozinha usando seu conjunto de moletom branco. Zatch sentou-se no sofá de três lugares afastando as almofadas quadradas de tecido bordô assim como o conjunto dos estofados. Entre eles havia uma pequena mesa circular de vidro com, para o desgosto da dona da casa, uma séria de miniaturas de personagens de desenho animado japonês e videogames. Os óculos de aviador do rapaz reluziam a luz artificial, em volta do pescoço do estrategista.
-Suas piadinhas de mau-gosto continuam afiadas como sempre... –a frase quebrou o silêncio seguido dos risos incontidos de Jô. –Veio mendigar o que hoje?
-Hora, não seja tão antipático. –ele ajustou as mangas do casaco verde de moletom com zíper. –Eu vim dar um “olá” pra vocês apenas. É isso que os amigos fazem... Essa mochila denuncia o que eu estou pensando?
O Guardião da Névoa apontou para apontou para a direção da bagagem de trilha verde escura. Zatch deu os ombros em resposta,suspirando enquanto massageava o próprio pescoço.
-Se você está supondo que o Kiba retornou, acertou em cheio.
-Era o que eu temia.
O estrategista ficou surpreso e arregalou os olhos, uma das sobrancelhas arqueadas, descrente do que acabara de ouvir. Encarou a expressão do ilusionista, que havia mudado drasticamente: estava taciturna e sombria, o braço esquerdo apoiando o queixo na poltrona.
-Que conclusões você quer que eu tire dessa frase? –questionou Zatch. O outro guardião levantou as mãos em sinal de indiferença. Ele iria continuar, mas a voz de Beatriz os interrompeu.
-Amor... Vou ter que ir lá ao restaurante do lado para pedir um chapeado. Vocês dois se importariam de esperar para o jantar?
-Não. –responderam em coro, com uma animação forçada. Usaram os sorrisos alegres como máscaras, no curto espaço de tempo que a mulher levou para atravessar e sair porta afora.
-Pare de se fazer de desentendido. Ele é um grande amigo não só meu, mas de toda a família. Porém minha última esperança era a falta dele para que a Reunião no ocorresse...
Zatch entendeu onde ele queria chegar.
-Você ainda tinha esperanças de evitar um confronto direto? Que ridículo. –sorriu de forma cínica. Jô passou a mão nos cabelos escuros sem dar ouvidos aos comentários de escárnio. –Tenho certeza de que eles virão. Isso se já não estiverem aqui.
O ilusionista fechou os olhos, mergulhando nas lembranças de três anos atrás. Naquela época as armas seladas foram um presente dos Sete Anciãos para a recém-formada família Vongola. Para os guardiões aquilo era aparentemente estético, descobrindo seu verdadeiro significado apenas quando despertaram os poderes das Chamas.
Vários mercenários de todas as regiões começaram a atacar a família, no tempo em que tais armas eram raridade. A batalha mais feroz incumbiu na destruição completa de um complexo industrial, embora a população fora informada que fosse conseqüência da explosão de uma tubulação de gás. Tal evento ficou conhecido como “Incidente Marsélia”.
Depois da vitória heróica somada a influência da família Cavallone, os Vongola conseguiram ganhar status no círculo dos poderosos, seus brasões foram considerados intocáveis e sua bravura resultou em um último presente dos Anciãos antes de sua partida para o exílio: uma arca de conteúdo misterioso, mas de grande poder.
Aparentemente tudo ficara em paz. Mas a pior parte da tempestade ainda estava por vir. A nova geração de uma grande família se rebelou contra o cessar-fogo e cobiçou as armas dos jovens guardiões. Com todo seu poderio bélico e homens, começaram a orquestrar uma mega-operação de captura. Por sorte, ou destino, os boatos chegaram aos ouvidos do Guardião da Névoa por meio de seus subordinados e ele repassou para o Guardião da Chuva. Em meio a derrota iminente, ambos tomaram a decisão de fragmentar a família, pelo menos até a poeira baixar.
-Mesmo estando mais fortes, acha que realmente poderemos enfrentá-los? Eles têm um exército, Zatch.
-Com exército ou não, temos que ter a decência de pelo menos contar aos outros sobre a nossa real situação.
-Morrer como heróis, é o que você quer dizer. –o tom de voz de Jô saiu com uma dose de escárnio.
A porta se abriu e Beatriz atravessou-a, cantarolando uma música despreocupada enquanto carregava uma grande caixa de entrega até a cozinha.
-Meninos, hora do jantar!
Os dois guardiões se entreolharam, o clima pesado se dissipando vagarosamente.
-Tenha fé, Névoa. –Zatch se levantou e deu um tapinha no ombro do ilusionista. Jô assentiu com a cabeça ainda descrente.
Fé. Uma palavra da qual ele não queria depender.
O cômodo amplo e redondo estava mal iluminado, sendo riscado pelos feixes de luz azuis que saíam das pilastras quadradas acopladas na parede. O teto era uma redoma de vidro fosco com armação de metal, mostrando as estrelas como pontos opacos e sem vida.
Ao centro, sentada com as pernas cruzadas em posição de meditação, estava uma mulher com as feições concentradas. Os cabelos soltos se remexiam levemente, enquanto sua mente estava ausente.
As portas de acesso se abriram em rompante e uma figura impaciente entrou, analisando a profunda meditação da mulher.
-Pelo amor de Deus! Ela ainda não acabou? Como pode ser tão lerda?! — a voz feminina soou irritada pelo ambiente, enquanto ela balançava a cabeça. Outra silhueta surgiu, encoberta pela luz do corredor atrás de si.
-Acalme-se. Você sabe a quão concentrada ela precisa estar para conseguir localizar os portadores de Chama num raio do tamanho desta cidade. A habilidade necessita de paciência e tempo.
-Ah, um dia inteiro perdido... –bufou a mulher. Era notável que estava ansiosa demais para começar o que tinha deixado pendente em três anos. O sujeito atrás de si sorriu de forma cúmplice, e colocou a mão em seu ombro.
-Calma minha cara. Partilho a mesma ansiedade que você, mas acredito que nossos três anos de buscas finalmente chegaram ao fim.
Os lábios dela se curvaram em um sorriso sádico. Era impaciente e a coisa que mais odiava era esperar. Pensou consigo mesma que, pelo menos, teve tempo para planejar as formas mais sórdidas de matar os oponentes. Iria comentar algo, quando a mulher no centro da sala abriu os olhos e falou com a voz fraca.
-Eles estão aqui. Consegui captar a freqüência de suas Chamas. Estão confusas por estarem desativadas, mas a confirmação veio agora pouco quando sentia uma forte onda da Névoa agindo.
O sujeito ficou com uma cara mais séria, mas seus punhos se apertaram de ansiedade. A mulher soltou uma risada com gosto, finalmente pronta para dar cabo daquela chatice de uma vez. O sujeito tomou a palavra, erguendo a mão para cima.
-Liguem para a Chefa. Vamos dar início à Operação.
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