Beyond The Bounds Of Sky

8 Capítulo 8 - Laços


“Memórias podem ser apagadas. Feridas podem cicatrizar.

Mas certos laços nunca podem ser rompidos. Adeus, irmã”


-Fragmento de Bilhete

As últimas aulas da universidade haviam terminado e os poucos alunos que ainda se mantinham no complexo de prédios retangulares e de cores sóbrias. O único bloco que ainda tinha certa movimentação era o de Ciências Humanas.

Três edificações eram separadas por um grande pátio de granito iluminado pelos postes de feixes brancos. Havia ainda uma grande escadaria de acesso, com degraus de pedras e corrimões entalhados em mármore.

Karoline olhou pela janela de sua pequena sala, erguendo os braços para cima enquanto se espreguiçava. Em sua frente, pilhas de papéis e canetas estavam espalhadas por toda a superfície obstruindo parte da visão da madeira que o móvel era feito. A jovem coordenava o Comitê de Disciplina, mantendo a ordem e os alunos sobre rigorosas regras. Sua pequena equipe fazia tanto sucesso que a direção do campus fazia vista grossa sob suas ações.

Havia trabalhado parte da tarde até então em cima da papelada que tinha deixado acumular durante a semana. Cuidar do patrimônio da universidade consumia grande parte de seu tempo, e os trabalhos iam acumulando como uma bola de neve. Suspirou chateada, vendo que ainda teria muito trabalho ao dia seguinte. Ouviu batidas na porta aberta atrás de si, se virando.

-Karoline? –a ruiva colocou a cabeça para dentro do cômodo, com a alça transversal de uma bolsa sob o ombro. O uniforme estava intacto mesmo após o dia escolar gerenciando o Comitê. –Estou indo para casa. Vai ficar ai por muito mais tempo?

A guardiã voltou a encarar a própria mesa, desanimada.

-Tenho que arrumar essa bagunça aqui, Kamila. Pode indo na frente…

-Não se esforce demais, ok? Deixei uma última xícara de café sob a mesinha daqui. Até depois.

A morena murmurou um “até” sem nenhuma convicção. Voltou sua atenção para os trabalhos, começando a arrumá-los para poder r embora. Demorou certo tempo, os separando por matéria e data de entrega. Abriu a gaveta para entulhar tudo ali, quando seu único olho descoberto viu o que seu coração já havia esquecido.

Era uma foto, já antiga. O fundo era o antigo colégio que ela estudava e Karoline se reconheceu de imediato ali. O cabelo preso em uma trança descia pela frente do peito, enquadrando o sorriso sincero daquela época em que ela nem sonhava em usar tapa-olho. Sua mão segurava a câmera acima de sua cabeça, enquanto a outra pessoa passava o braço por suas costas e lhe dava um meio-abraço.

Demorou o olhar pouquíssimo tempo e virou a imagem ao contrário, fazendo-a desaparecer em meio ao mar de folhas e rabiscos. Ali estava algo que ela queria esquecer a qualquer custo e Karoline sentiu-se uma idiota por guardar aquilo por tanto tempo.

Continuou a arrumar o local de trabalho, mas as lembranças acarretadas pela foto começaram a lhe sufocar.”Não é mais da minha conta. A decisão foi dele”, repetia para si mesma na tentativa de aplacar a angústia.

Terminou e saiu de sua sala, indo até a mesinha e tomando a xícara de café deixada por Kamila. Deu uma última checada rápida nas três salas que serviam de sede do Comitê, tomou o resto do líquido em dois goles e saiu para os corredores do prédio, localizado na parte Oeste do pátio. O campus estava agora completamente deserto.

Karoline chegou ao pátio em questão de segundos. O céu estava profundamente negro, deixando o pavimento iluminado apenas pelas luzes fortes dos postes. O vento fazia os cabelos dela remexerem sutilmente e a guardiã parou onde estava, a frente das grandes portas de vidro.

Podia ver uma silhueta subindo a escadaria.

Daquela distância, ainda sem alcançar a iluminação do local, não passava de uma sombra disforme. Ainda sem reconhecê-lo, a expressão de surpresa surgiu na face da morena. Aquela sensação lhe era familiar. A sombra era portadora de Chama.

A Chama é uma força interior, uma aura em forma de energia separada em seis ondas diferentes. Cada onda tem sua própria característica e a junção de todas elas formavam outra onda muito rara e especial. Cada Chama possuía forma, cor e atributos que as diferenciavam das outras. E para cada pessoa, uma das ondas se destacava.

E Karoline podia senti-la cada vez mais forte a cada passo em que a sombra ia tomando forma: a força destrutiva beirando o descontrole, o verdadeiro caos.

A guardiã mordeu o lábio inferior. A sombra parou debaixo de um poste de luz, revelando-se um rapaz carregando uma bolsa preta e comprida na mão esquerda. Karoline pode reconhecer os mesmos olhos azul-cinzentos da antiga foto, mas em um rosto mais sério com a pele mais morena. Ainda com a aparência mudada, não havia dúvidas de quem se tratava.

-O que você está fazendo aqui? -ela cerrou o punho ao lado do corpo, com tal violência que as unhas lhe feriram a palma da mão.

-Eu vim conversar com você. -a resposta veio em um certo tom triste. -Apenas me ouça agora e eu prometo n...

-Você se lembra do que eu disse na última vez que nos vimos, Igor? -Kiba engoliu em seco. Sempre sentia um calafrio lhe percorrer a espinha quando lhe chamavam pelo verdadeiro nome. -Eu disse que lhe mataria se você ousasse voltar.

-Pensei que fosse algo apenas momentâneo...

-Pensou errado. -a guardiã segurou fortemente o brasão que carregava no pescoço, com o símbolo da Nuvem. -Romper o selo.

O brasão começou a brilhar, transformando-se em uma esfera de chamas densas e pesadas com a cor violeta. Karoline então deixou o braço cair levemente ao lado do corpo enquanto sua arma selada começava a tomar forma. Era uma imensa alabarda com o cabo na coloração roxa e detalhes brancos perto da lâmina curvada. Embora parecesse pesada, Karoline a manejava com uma sutileza inacreditável.

Kiba continuou parado, mas seus dedos se apertaram na bolsa preta. Não estava gostando do que estava por vir.

-Não vou lutar com você.

Ela não respondeu e as chamas cessaram da arma, tornando-a com o aspecto normal. Pegou impulso com os tênis e começou a correr na direção do rapaz, a lâmina arrastando no chão e a saia se mexendo conforme o movimento de suas pernas. Kiba abriu o arco entre os pés e quando entrou na linha de alcance da guardiã, saltou para o lado. A resposta foi rápida e a moça girou a lâmina na horizontal, visando o braço do outro guardião. Houve o impacto e Kiba foi arremessado alguns metros longe.

O Guardião da Tempestade caiu com dificuldade em pé. A bolsa havia sido rasgada pelo seu uso inadequado como escudo. Os olhares se cruzaram e Karoline segurou a alabarda com as duas mãos em posição de ataque.

-Lute comigo Kiba! -sua voz explodiu de raiva, ecoando por todo o pátio. As mãos tremiam levemente de raiva enquanto o olho esquerdo fuzilava ferozmente o rapaz. -Ou não sobreviverá ao próximo ataque!

-Karoline... -respondeu com a voz frustrada.

Não a culpava pela raiva, afinal fora sua decisão de partir. Três anos atrás, após a última vez que todos os sete estavam reunidos. Kiba decidiu que deveria partir por suas próprias razões e foi incompreendido pelos outros. Principalmente pela irmã mais nova. Alegava que ele estava desistindo de ajudá-la como sempre fizera, que não se importava mais.

Kiba abriu o zíper da bolsa estragada, retirando seu conteúdo. Era uma katana longa de duas mãos, guardada em uma bainha azul-escura e com a guarda prateada em forma de losango. O rapaz jogou o pedaço de tecido longe e colocou a espada no ombro.

-Eu lhe suplico Karoline. Não me obrigue a empunhar a espada contra minha própria irmã.

-Sua irmã?! -ela atravessou rapidamente a distância que os separava, aplicando-lhe uma estocada. Kiba habilmente desviou a rota da lâmina com a espada embainhada, causando um risco na camada azul. -Agora você finge que se importa comigo, depois do que me fez passar, me deixando sozinha?!

A lâmina reluzente da alabarda rasgou o ar mais uma vez, com um ataque vertical de cima para baixo de Karoline. Kiba abriu uma fresta da bainha, mostrando uma parte da lâmina prateada da arma, bloqueando a investida com uma mão no cabo e outra na parte de cima da bainha.

O atrito criou centelhas que voaram pelo ar noturno.

Ambos os combatentes pularam para trás, o espadachim desembainhando a espada de vez e a segurando com as duas mãos.

-Por favor, caçula. Não pense que foi fácil deixar todos para trás mas... Eu precisava recuperar o que eu perdi em mim mesmo, o significado da minha espada. Mas nunca deixei de pensar na minha irmã, Karoline.- ele baixou os olhos, chateado com as próprias palavras.

Ela não podia acreditar na sinceridade daquele olhar. A guardiã girou o bastão da arma acima da cabeça e tentou mais uma sequência de cortes diagonais, enquanto o espadachim os defendia com a katana perto do corpo. A força dela era excepcional, os ataques precisos e não deixava brechas na defesa. Kiba sorriu de forma triste por ver os frutos do treinamento da caçula em tais circunstâncias.

Karoline tentou golpear as costelas do outro guardião com o bastão roxo da alabarda. O rapaz bloqueou com o antebraço direito, soltando um ganido de dor, e usou o mesmo braço para agarrar a arma da adversária. Kiba girou o tronco no sentido horário e arremessou Karoline para longe, berrando pelo esforço. A moça voou e caiu derrapando não muito longe, quase batendo as costas em um dos postes. Seu sorriso era de escárnio.

-Não acha que está na hora de lutar a sério, Kiba?

-Você já sabe minha posição. -ele disse de forma seca, os dedos firmes no punho da arma.

Ela fechou os olhos, a Chama roxa novamente tomando conta da arma. Os cabelos dela começaram a se mexer pela intensidade da aura. Os olhos azul-cinzentos de Kiba se estreitaram, enquanto ele voltava a segurar a katana com as duas mãos.

-Vamos enterrar isso de uma vez. Este será meu adeus... Aniki.

“Irmão mais velho”. O significado da última palavra ecoou pela cabeça do espadachim, lembrando o quanto sentia falta da voz de Karoline. Porque não podiam se abraçar e rir como em um reencontro normal, como todos os outros?

Karoline avançou, segurando a arma selada cheia daquela aura violeta atrás do corpo com o braço direito. Sua movimentação estava diferente de antes e ela saltou velozmente, a saia e as mechas encaracoladas esvoaçando ao vento. Segurou a alabarda acima da cabeça com as duas mãos pronta para o ataque.

A reação de Kiba foi rápida, pulando para trás escapando por pouco do impacto fulminante da arma. A potência fora tão grande que a lâmina fora enterrada no solo, levantando uma leve nuvem de poeira. O espadachim, no ar, olhou para o rosto da moça e viu o sorriso de vitória em seus lábios. Havia caído em uma armadilha.

A Chama da Nuvem era da coloração roxa e a mais densa e pesada das sete. Seu atributo é a Propagação, podendo se expandir rapidamente ou se multiplicar para qualquer direção.

-Cemitério das Mil Lâminas. -Karoline sentenciou em um tom fúnebre.

O solo trincou, rachou e explodiu enquanto dezenas de lâminas cresciam do granito em um grande raio de alcance exceto pelo pequenino metro quadrado em que a Guardiã da Nuvem estava segurando ainda firmemente a alabarda roxa.

-Merda! -ganiu o Guardião da Tempestade.

Kiba estava a ponto de cair em cima do mar cortante, quando girou o corpo no ar movimentando a espada. A lâmina brilhou em um clarão vermelho vibrante. Estilhaços voaram com o choque e o espadachim foi arremessado para o centro do pátio, rolando no granito até enterrar a katana e conseguir parar agachado. As lâminas voltaram a brilhar e a se tornarem energia, sendo reabsorvidas pela alabarda. Karoline puxou a arma do chão e as chamas novamente se apagaram. Fingiu não perceber os danos catastróficos que havia causado e se dirigiu ao rapaz com a arma em riste.

Kiba estava de joelhos, segurando a espada enterrada com uma com uma mão e a outra sobre as costelas esquerdas. Ofegava de forma irregular, as duas pequenas argolas em sua orelha reluzindo às luzes pálidas dos postes.

-Se tivesse usado toda sua força como eu, não estaria nesse estado deplorável.

-Eu nunca me perdoaria se levantasse minha espada contra alguém que eu jurei proteger.

Karoline apontou a lâmina no pescoço do espadachim que a encarou com olhar de desânimo. Ele tirou a mão das costelas, a palma coberta de sangue. Havia levado um corte horizontal profundo de um dos estilhaços. Com isso seu braço esquerdo estava com os movimentos seriamente prejudicados.

-Porque? -ela perguntou após um longo silêncio, o olho esquerdo sem qualquer emoção, o metal da alabarda quase riscando a jugular de Kiba. -Porque você partiu? Eu preciso saber...

Kiba respirou fundo, baixando os olhos enquanto falava.

-Naquela época eu havia perdido o significado da minha espada e sentia um vazio que a deixava incompleta. Isso me transtornava... Era como se eu não tivesse parte de mim mesmo. -ele deu os ombros. -Foi uma atitude egoísta e acarretarei qualquer decisão que ela trouxer. Se minha morte lhe trazer paz, então faç...

A resposta foi um baque surdo e a cabeça do espadachim foi projetada para baixo com o golpe. Largou a espada e colocou a mão no local atingido, que começou a doer. Voltou os olhos para a irmã, que ainda mantinha o punho fechado após executar o cascudo. Kiba emudeceu ao ver o olhar tristonho de Karoline, com o olho castanho mareado.

-Eu tinha lhe dito que toda vez que você estivesse mal deveria me contar ou levaria um cascudo, aniki! -a alabarda encolheu novamente se tornando pura energia, até pousar no ombro da morena, na forma de uma pequena andorinha: penas violetas com uma mancha no peito da cor lilás assim como as compridas penas da cauda. Seus pequenos olhos negros despreocupados fitaram Kiba.

-Me perdoe, eu não queria preocupá-la...

Recebeu outro cascudo, soltando um ganido de dor. O passarinho da Nuvem piou de forma divertida.

-Eu pensei que você não se importasse mais conosco, idiota! -ela usou a manga do blazer escuro para limpar o olho esquerdo das lágrimas que se formavam e praguejou para si mesma quando sentiu o tapa olho ficar levemente molhado.

Kiba ficou em silêncio, chateado por ter feito sua caçula sofrer, mas feliz por sentir que os laços que os uniam estavam ainda fortes e estreitos. O rapaz ergueu a mão que estava na cabeça e envolveu o punho fechado dela, sorrindo daquela mesma forma que ela se lembrava de três anos atrás.

-Senti sua falta, maninha.

-Sua camisa virou um trapo... -ela debochou, mostrando a língua.

Ele voltou os olhos para a mão em cima do ferimento. A camisa listrada, além do rasgo, estava com uma imensa mancha vermelha escura. O espadachim suspirou chateado.

-Eu adorava essa camisa.

-Vem aqui... -Karoline ajudou o irmão a se levantar e passou seu braço direito sob o próprio ombro. Pegou a katana dele e, depois de muito tempo, sorriu carinhosa. -A Kamila pode dar um jeito nisso...

-Quero ver como vocês estão se virando sozinhas. -comentou, começando a caminhar com certa dificuldade. A garota arregalou o olho surpresa. -Que foi? Como você acha que eu soube que você estaria aqui?

A Guardiã da Nuvem concordou com a cabeça, enquanto eles se dirigiam a escadaria. A pequena ave alcançou voo e ficou girando em volta dos dois irmãos. As nuvens negras que estavam no céu começaram a se afastar.

O dia seguinte seria de um sol intenso.