Beyond The Bounds Of Sky

7 Capítulo 7 - Luzes


“Um líder não é lembrado pelos seus atos de bravura ou sua inteligência exemplar, e sim pelo amor que sente pela bandeira que ostenta”

Yure desligou o celular, pousando-o na mesa de cabeceira enquanto observava a janela com um ar de alívio. Seu esforço de pesquisa e localização durante as últimas semanas dera certo. Era uma questão de pouquíssimo tempo até que a Reunião ocorresse. E nela, o Sucessor revelaria toda a verdade sobre o que escondera pelos longos anos.

Seu olhar pairou na janela do apartamento, que dava a vista panorâmica da cidade sob o céu sem estrelas. Era uma vasta gama de luzes douradas e brancas, tentando não ser engolidas pela escuridão da noite. Pensou em cada pequena luz como a vontade, os sonhos das pessoas que estavam lá embaixo. Todas tentando sobreviver, não apagar e nem oscilar perante o dia-a-dia. Mas a realidade estava ali acima delas, preparando para engolfá-las em seu mais escuro desespero.

A linha que separa o sonho de um pesadelo é tênue demais.

O Sucessor do Sol ficou devaneando sobre tais questões por um bom tempo, como sempre fazia nas horas livres, até ouvir a voz de alguém atrás de si. Era uma mulher, vestindo um colete cinza sob uma blusa social e uma saia que ia até a altura dos joelhos. O cabelo azul escuro estava preso em um coque na nuca. Segurava contra o peito uma fina prancheta preta e tinha sob os olhos pequenos óculos de leitura.

-Ele irá recebê-los, senhores em cinco minutos. Queiram aguardar.

Yure voltou os olhos para o outro lado da sala de espera, onde um jovem estava sentado na poltrona com uma expressão despreocupada. Usava trajes impróprios, uma camisa listrada em preto e branco de um time da primeira divisão de futebol e uma bermuda azul marinho, para tal encontro. Mesmo assim, seus olhos escuros olhavam em volta com certa desconfiança e suas mãos pairavam sempre próxima ao pingente que estava sob debaixo da camisa, pendurado em uma corrente de prata.

-Está pressentindo alguma coisa? –Yure se aproximou, o já habitual terno e o chapéu impecáveis como de costume.

O rapaz assentiu que não com a cabeça.

-Ele é nosso aliado e amigo há bastante tempo. Na verdade, eu me sinto meio mal por ter que pedir ajuda a ele sobre um problema que é nosso...

Eduardo Matheus, mais conhecido por Dudu, colocou a mão no queixo e suspirou. Era difícil voltar a se acostumar com a idéia de que liderava uma família, depois de três anos no completo anonimato. Agora suas responsabilidades como Chefe e Guardião do Céu estavam retornando, sendo que ele estaria perdido se Yure não o estivesse auxiliando como sempre. O chefe Vongola por fim passou os dedos nos cabelos castanhos, que eram curtos e começavam a encrespar, enquanto se levantava com um ar tranqüilo. Encaminhou-se até a porta e foi direto para a sala de reuniões, sendo seguido pelo Sucessor do Sol. Ele já sabia que era hora da reunião.

A intuição do Guardião do Céu nunca falhava. Era algo natural, corriqueiro. E é claro inusitado, visto que a secretária ficou espantada ao ver os dois visitantes entrando na ante-sala no exato minuto em que ela iria chamá-los.

-Oh... –ela deixou escapar o gemido de surpresa. A moça se recompôs rapidamente e ajeitou os óculos elegantes e gesticulou com um braço a imensa porta dupla e negra- O chefe os aguarda.

Ela abriu a porta e os dois passaram, para o imenso escritório. Após estarem dentro, a porta foi novamente fechada.

Era um lugar amplo, com as paredes brancas de erguendo como muros maciços. Apenas uma das paredes, a que ficava atrás da escrivaninha grande de madeira escura, era de vidro. Havia estantes com várias réplicas de motocicletas antigas e novas, assim como fotografias e alguns livros já desgastados. Quadros e brasões enfeitavam a sala, enquanto a janela era um grande vital com um enorme símbolo: um corcel empinando o corpo para cima e duas enormes asas negras saindo de suas costas. Abaixo da figura, havia uma escritura em letras douradas.

“Cavallone Famiglia”.

Os mais fortes e influentes do triangulo do norte do Estado.

Sentado atrás da mesa, em uma enorme poltrona estofada cor de ébano, estava o Chefe da família. Era alto, bastante forte e só sua presença já era suficiente imponente. O cabelo marrom estava penteado levemente para o lado, e os olhos azuis acompanhavam um sorriso satisfeito ao ver dois velhos amigos de longa data. Com a mão direita sinalizou as duas cadeiras, menores que a poltrona mas também estofadas.

-Sentem-se, Sucessor do Sol e o jovem Décimo Vongola. -Yure tirou o chapéu, em sinal de respeito e Dudu sorriu acenando enquanto se acomodavam.

-É um prazer lhe rever, Casagrande. –Yure cumprimentou. — Creio que já sabe o motivo de nossa visita.

O homem assentiu com a cabeça, apoiando os cotovelos nos braços da poltrona e encarando os convidados. Tiago Casagrande se vestia de forma mais social e discreta, fazendo com que seu aliado Vongola parecesse um jovem relaxado. A camiseta pólo branca ficava por baixo do casaco de couro negro junto à calça de brim cinza, terminando com o par de coturno. No peito, pendia uma grossa corrente dourada com um pingente, uma réplica do mesmo brasão do mosaico da janela.

-O conteúdo do cofre continua seguro, meus companheiros, e deixei meus melhores homens sob sua guarda nesses três anos. A questão é: vocês acham que a família Vongola está preparada para dar conta disso sozinha?

Yure não tinha resposta para essa pergunta e se surpreendeu quando o Guardião do Céu tomou a palavra.

-Nós éramos jovens demais quando formamos a família e o que recebemos foi realmente um grande poder que ninguém tinha na época... As armas seladas... –ele levou a mão ao pingente que estava debaixo da camisa, sentindo seu relevo contra o peito.- que hoje são chamadas de “brasões”, nos deram um poder de luta inimaginável. Foi difícil os manter em nossa posse no começo, mas nos agüentamos e isso nos fortaleceu... O mesmo se dará ao conteúdo da arca. Estamos diferentes do passado. Nosso pior desafio agora será nos unirmos de novo, porque eu sei que ficaram mágoas entre alguns de nossos membros.

-Tenha em mente isso, jovem Vongola. –Casagrande voltou a falar, com os olhos duros e a voz fria.- No momento em que essa posse sair deste prédio e ficar em suas mãos, é provável que os velhos inimigos que estavam sondando voltem e desta vez vão caçá-los de imediato. Eduardo, Yure: vocês tem certeza que vocês suportaram esta tormenta, que será pior do que vocês imaginaram antes?

-Confio minha vida nisso. –disse o Sucessor do Sol prontamente.

O chefe da família aliada suspirou, sabendo o risco que o rapaz estava assumindo com suas palavras. Tiago estava com as mãos atadas pela burocracia e negócios que possuía com outras famílias e o código da máfia, sendo que só poderia estender sua proteção sobre os amigos no momento em que eles já tivessem sido atacados. E isso poderia ser fatal.

A reunião durou mais meia hora, com a discussão dos detalhes de como iriam carregar a arca e seu conteúdo e para onde transportariam. Casagrande se despediu sem conseguir esconder o entusiasmo, e o pesar, pela volta da família Vongola.

-Bem vindo de volta. –apertou a mão de Dudu fortemente.

Saíram do grandioso prédio e passaram a caminhar pela calçada, quase sem transeuntes naquela hora. O chefe caminhava com as mãos no bolso e de cabeça baixa, enquanto Yure tirava o paletó e o colocava enrolado no braço. Passaram um tempo caminhando em silêncio, cada um com suas preocupações. Que não eram poucas.

-A reunião está marcada para amanhã, Décimo. Todos estarão aqui.

-Ele queria realmente nos ajudar, até mais do que poderia... –Dudu passou a mão nos cabelos castanhos, com um ar chateado.- E eu não sei como vou encarar os seis depois de todos esses anos. Foi a minha decisão que dividiu a família, mesmo a idéia não tendo sido de minha autoria.

O Sucessor lembrou-se então da pequena filosofia que havia devaneado sobre as luzes e os sonhos das pessoas. Sorriu, pensando em um ponto que não havia levado em consideração. As luzes são facilmente subjugadas pelo escuro quando estão só. Mas juntas, formam uma força que pode clarear qualquer coisa e sobreviver a qualquer investida.

-Só você pode uni-los de novo, Décimo. –disse, satisfeito, enquanto dava alguns tapinhas nas costas do amigo. O Vongola sorriu de forma cativante, sabendo que essa era uma verdade de fato.

-Eu sei. Devo isso a cada um deles, no final das contas...

Enquanto eles caminhavam em direção ao coração da cidade, Casagrande ainda observava os céus pelas janelas de seu grandioso escritório com os braços cruzados nas costas e o olhar pensativo. Se manteve assim até a secretária entrar, carregando a sua inseparável prancheta nas mãos. Não precisou nem se virar para dar as ordens.

-Mandem os homens ficarem cuidando das fronteiras, a partir de amanhã de manhã. Se qualquer pessoa incomum atravessar os limites da metrópole, quero ficar sabendo.

-Sim, chefe. –a mulher fez uma breve reverência e se retirou.

Os Sete estavam a ponto de se reunir e as rodas do destino começavam a engrenar novamente. O mafioso deveria estar preparado para tudo.

Ainda mais se tratando de quem eles possivelmente iriam se enfrentar.