Beyond The Bounds Of Sky

23 Capítulo 23 - Missão noturna: parte III


Notas iniciais
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Sol à meia-noite

O motor ruía inquieto, tremendo compulsivamente debaixo do capô do carro.

-Você tem certeza que é esse o lugar? – a voz feminina reclamou. Os outros dois ocupantes do veículo permaneceram em silêncio, enquanto observavam os arredores por detrás dos vidros fechados. — Juro por Deus que mato vocês dois se estivermos no lugar errado.

O rapaz no banco da frente ajeitou os óculos de grau à frente dos olhos claros, ligeiramente nervoso, relendo pela centésima vez as coordenadas que lhe foram repassadas.

-O endereço confere.

O outro, despojado no pequeno banco traseiro do veículo, jogou a cabeça para trás suspirando. Os braços se escoravam na parte superior do assento, e mesmo com o movimento repentino da cabeça, os óculos de grau com aro esportivo nem chegaram a se mexer.

A mulher que estava no volante o encarou pelo retrovisor, arqueando uma das sobrancelhas.

-Qual o problema, Göbel? – disse entre dentes.

O Guardião do Trovão voltou a ajeitar o tronco. O cabelo encaracolado e escuro estava preso em um apertado rabo de cavalo curto, e seu sorriso de escárnio se abriu em meio a barba por fazer.

-Só estou achando tudo uma perda de tempo. Podíamos causar uns estragos por aí para chamar a atenção...

Ricardo virou para trás, seu semblante exibindo clara repreensão.

-Sim, e não duvido que teremos aquela tal da F.E.A.R. em nossos calcanhares. Foi você mesmo que descobriu que a Bruna está promovendo uma caça às bruxas por aí.

Göbel manteve a postura debochada.

- Sempre haverá prós e contras.

Sara mantinha as mãos no volante mordendo o lábio inferior. Chegava a concordar com o Trovão, apenas para dissipar toda a tensão e ansiedade.

Os Guardiões saíram do conversível vermelho, que estava parado ao centro de uma encruzilhada. O teto retrátil de couro do veículo estava armado para fora e a lataria refletia as luzes grandes dos refletores que iluminavam a fachada do parque industrial. Era composto por diversas construções de alvenaria, imponentes e sóbrias, com janelas espelhadas e clarabóias em forma abobadada.

Tudo estava silencioso. Aquela parte do complexo ficava desativada durante a noite, pois se tratava em maior parte de pavilhões de embarque e desembarque. A única preocupação encontrada até agora fora com o segurança calvo e carrancudo que cuidava da entrada sul. Algo que foi resolvido rapidamente: Sara só teve que sair do carro, após murmurar um rápido esperem aqui, e foi até o pequeno cubículo em que o senhor estava sentado. Ricardo não entendeu qual foi o assunto da conversa, mas foi o suficiente para que o homem abrisse um sorriso amarelo e levantasse a cancela para liberar a passagem.

-Um truque ou dois, e nada mais. –foi a única resposta que ela disse ao entrar no carro e fechar a porta, enquanto engrenava novamente a marcha com o motor ligado. Não deu qualquer outra explicação referente ao assunto, enquanto dirigia o carro. Até estacaram na encruzilhada sem saber qualquer direção.

Ricardo, que usava uma camisa pólo bege com as mangas dobradas até o alto dos braços, deixou os dois punhos fechados ao lado dos quadris. Tentava localizar algo fora do comum nos arredores, enquanto Göbel tamborilava os dedos da mão direita sobre a lataria vermelha do carro, escorado na lateral traseira do veículo no lado oposto do Guardião do Sol. Fez um muxoxo, sem nenhuma preocupação de demonstrar desinteresse expressivo no rosto.

Sara havia deixado a porta aberta enquanto sentava no banco com as pernas para fora. Usava uma calça jeans negra apertada como de costume, valorizando as linhas do corpo, e a blusinha branca de alças finas estava coberta por um fino casaco lilás com capuz. Ela estava com o braço escorado ao volante, tentando decifrar os pensamentos do pugilista da família Vongola.

-Então, qual é o plano? –perguntou o Guardião do Trovão, nem se dando o trabalho de virar o rosto para falar com os companheiros. Coçou a barba na altura do queixo, soltando o ar de forma audível. Parecia ter prazer em exaltar o fato que estava entediado.

Ricardo se virou na direção dele.

-Não temos escolha a não ser averiguar o local. Pode ser uma brincadeira de mau gosto da Gallardo... –concluiu Ricardo.

-Fomos alertados de um foco de incêndio, mas não vejo nem sinal de fumaça. –a Doku Sasori cruzou os braços, os olhos escuros encarando o pavilhão que estava a sua frente. –Também não há qualquer sinal de bombeiros ou policiais... Nem o guarda moribundo sabia de nada do ocorrido.

Os olhos safira do Guardião do Sol encararam a mulher, por de trás das lentes dos óculos de grau. Mas foi o Guardião do Trovão que virou parcialmente o tronco e respondeu. Agora parecia estar se interessando pelo assunto.

-Aquela vaca conseguiu acessar a rede de comunicações da Torre do Vigia. Não tenho dúvidas que também conseguiria plantar informações falsas no sistema também. –parou de tamborilar os dedos no metal. Sua face ficou séria e os olhos castanhos frisados. –A pergunta não é onde está o incêndio, e sim porque fomos arrastados para cá.

Os três ficaram alguns momentos em silêncio.

-Podemos contatar o QG? –o pugilista direcionou a pergunta para a amiga. Sara arqueou o corpo para trás e levou a mão em direção do porta-luvas, de onde retirou seu celular. Bastou uma rápida olhada na tela para ela soltar um nítido palavrão.

-Puta que pariu, estou sem área.

Göbel e Ricardo se entreolharam.

-Sara, eu quero que você saia daqui e tente contatar a base –o Guardião do Sol voltou a falar, segurando a porta com uma das mãos. Ela entendeu o que o gesto significava e recolheu as pernas, para que ele a fechasse dentro do carro vermelho. Com a janela aberta ele se apoiou com os braços estendidos, enquanto mantinha o rosto fixo nela e lhe repassava as ordens. -Eu e o Göbel vamos ficar averiguar o perímetro... Qualquer coisa, você pode vir nos buscar depois.

O Guardião do Trovão ficou calado, apenas observando a cena. A loira assentiu com a cabeça, concordando com a decisão do pugilista. Sabia que seu envolvimento nessa história toda não poderia passar de taxista dos outros, para sua própria segurança. Atou o cinto de segurança em volta do corpo e girou a chave, dando partida no motor. Quando Ricardo estava para se afastar da porta, a moça rapidamente segurou o seu braço.

-Espera.

Os olhares se confrontaram, e o rapaz se agachou para ficar mais próximo do nível do olhar dela. Os rostos se aproximaram e permaneceram ali. Ricardo conseguia ver cada traço do belo rosto da Doku Sasori desenhando um misto de preocupação e dúvida. Os lábios rosados se abriram e as palavras travaram na entrada da garganta, só lhe restando comprimi-los enquanto virava o rosto para frente.

-O que foi? –o rapaz de cabelos loiros e curtos questionou, intrigado. Sara anuiu os ombros, parecendo que iria afundar no banco do motorista. Atitude completamente diferente de seu temperamento altivo e explosivo habitual.

-Me de os óculos aqui. –ela disse por fim, soltando o braço do rapaz e deixou a palma da mão virada para cima. –Do jeito que você é, vai acabar quebrando-os.

Ele obedeceu prontamente, tirando os óculos de grau com lentes quadradas e dobrando as hastes. Quando pousou o acessório sobre a pele dela, o motor do carro roncou de forma alta. Os olhos castanhos dela então focaram o rapaz pelo canto, enquanto ele se afastava alguns passos para trás.

Havia um estranho brilho de súplica naquelas íris que nem ela conseguia entender.

-E tente não fazer merda até eu voltar.

As palavras ficaram suspensas no ar, até mesmo depois do veículo vermelho arrancar e contornar a rua de paralelepípedos pela qual viera, deixando a dupla de Guardiões a sós por ali. Ricardo acompanhou o carro se afastando pelo complexo industrial, até que voltou a atenção de seus olhos azuis para Göbel. Ele estava levemente borrado devido ao problema de vista que o pugilista possuía, mas sua postura de braços e olhar acusador estavam expressos de forma bem clara.

-O que foi?

-Não sabia que vocês dois eram tão íntimos.

Ricardo fez um sinal negativo com a cabeça, colocando as duas mãos na cintura.

-Não me venha com essa. Eu tenho namorada, e nós dois somos apenas amigos.

O Guardião do Trovão continuou ostentando a mesma pose interrogativa. E Ricardo percebeu que nem ele estava tão firme em suas próprias palavras.

Fato. Ele e a namorada já não estavam se falando há muito tempo. E os últimos encontros não haviam sido um mar de rosas. Estavam chegando a um ponto em que discordavam em todas as coisas. Para tentar afastar pensamentos ruins acerca disso, o estudante se focara em seu curso de veterinária o máximo que conseguia. Por isso era um aluno aplicado e ficara por fora das notícias sobre a família Vongola nos últimos meses. Isolado e confuso, a carona e a companhia de Sara lhe trouxeram de volta a uma realidade que ele sentia muita falta... E trouxe toda uma gama de sentimentos consigo.

-Ah, que se foda. A vida é sua, eu é que não vou me meter. –Göbel deu de ombros por fim, passando a caminhar em uma direção qualquer. Se não fosse pelos postes perfilados que iluminavam a rua, suas vestes negras poderiam lhe permitir caminhar camuflado em meio à escuridão da noite. Para o Guardião do Sol, só restou acompanhar o rapaz de cabelos negros em silêncio.

Andavam pelo meio da rua, tentando encontrar algo que chamasse atenção nas construções inóspitas e sombrias. Mantiveram-se completamente alertas nos primeiros quinze minutos, mas à medida que nenhum sinal de ameaça aparecia, foram relaxando aos poucos. Começaram um bate papo animado sobre as últimas temporadas de alguns animes, enquanto uma vez ou outra topavam com algum gato vira-lata zanzando pelas vielas adjacentes. Estavam chegando à conclusão que tudo não passara de um trote da Gallardo.

Os prédios de uma instalação siderúrgica já começavam a dar forma no campo de visão de ambos. Altura maior que os galpões, ostentando as arquitraves de ferro e as aberturas laterais por onde saíam as esteiras que escoavam a produção, junto aos tambores de produtos químicos e os baús gigantescos com pedaços de metal. O ar começava a se impregnar com um cheiro de metal se oxidando junto a enxofre e tabaco.

-E é por isso que eu acho que o Segundo Estágio é forçar muito a barra do enredo. Tem uma coisa que é desnecessária é o protagonista tirar poder do na...

Göbel estacou, virando-se subitamente para trás com o olhar intrigado. Ricardo parou de falar quase no mesmo segundo e também se virou, cerrando os punhos.

-O que aconteceu? –perguntou o pugilista.

O Guardião do Trovão não respondeu de imediato. Suas pupilas passeavam pelas órbitas do globo ocular, seguindo em todas as direções.

-Hm, pensei ter ouvido alguma coisa... Se arrastando. –respondeu com sua voz rouca. Os olhos azul-safira de Ricardo ficaram com uma expressão de indagação, com as sobrancelhas arqueadas.

-Acho que você está ouvindo Heavy Metal alto demais, isso sim. –o Guardião do Sol respondeu, como se alegasse um fato.- Eu juro que não ouvi nada.

O rapaz de cabelos negros se virou, irritado, pronto para replicar. Foi quando algo se movimentou por de trás dos tonéis de produtos químicos, se arrastando pela entrada lateral da siderúrgica. Os Guardiões se entreolharam: Ricardo engolindo em seco e Göbel fazendo cara de deboche.

-Eu falei, não falei?

-O que foi aquilo? Não consegui distinguir a essa distância...

-Não faço a mínima. A luz não alcança aquele lugar, então mal consegui ver o vulto também. Seja o que for, é grande e pesado.

-Alguma chance de ser nosso inimigo?

O jovem com camisa estampada deuma banda Hard Rock só pôde se limitar a dar os ombros.

-Alguma chance de não ser nosso inimigo? –ele respondeu, com o tom sarcástico habitual.

Começaram a se aproximar da construção, passo a passo. Os braços de Ricardo já estavam rígidos, e a mão de Göbel já ansiava pelo cabo de sua arma selada. Ainda assim, entraram em consenso de que não deveriam exaltar muito as Chamas: talvez o provável inimigo ainda não os tivesse localizado.

Enganaram-se quanto a esta última conclusão. A meio caminho da grande entrada da siderúrgica, um vulto distinto caminhava tranquilo e em passos leves em direção à dupla, surgindo das sombras.

Era elegante, assim como as roupas que usava. Um fraque escuro sobrepujando uma camisa social púrpura com uma gravata borboleta branca assim como as luvas finas. O sapato era imaculado de tão lustrado, chegando a refletir as luzes artificiais dos altos postes. A cartola era alta e combinava com as cores da roupa, tendo o brasão da família Gallardo junto à fita de cetim que a circulava. Carregava uma bengala de madeira com mais da metade do próprio tamanho, mais por estilo do que para usar de apoio. A aba do chapéu estava abaixada, e seu tronco curvado, o que dificultava ver os traços do seu rosto. Mas ele estava os dedos da mão livre, como em um musical.

Göbel e Ricardo respiraram fundo em unissinio. O loiro, por estar incrédulo diante daquela visão. O moreno, para não escangalhar de tanto rir.

-Tá, isso só pode ser uma piada. Ou o cara veio de chofer para alguém. –o Guardião do Trovão não conseguia levar a sério aquela figura. –Devemos deixar uns trocados para ele ir buscar nosso carro no estacionamento?

E soltou uma gargalhada bem alta. Ricardo não sabia se ficava com vergonha do riso espalhafatoso do amigo ou do modelito cult do recém-chegado. Ele parou a cinco metros da dupla de Vongolas, com um sorriso largo e, de certa forma, presunçoso.

-Que agradável noite, não, cavalheiros? –sua voz era polida e tinha um timbre quase musical. Ele abaixou ainda mais a aba da cartola, como uma saudação. –Embora acredite que este não seja um dos melhores locais para se visitar em sua cidade...

Göbel levou as costas da mão à frente da boca e virou o rosto, tentando em vão suprimir mais uma onda de risadas. Seus olhos estavam começando a lacrimejar. Ricardo tomou a dianteira, para conseguir focalizar detalhes do homem.

-O que me levar a pensar que você não está aqui para apreciar o turismo. –o pugilista deixou os braços ao lado do corpo, relaxados, embora os dedos se articulassem de forma frenética. E ele deixou isso visível, para o possível adversário. O Gallardo deve ter entendido como um sinal de boas vindas.

-Me chamo Marcello, e atendo pelo posto de Sentinela da Nuvem. -O Guardião do Trovão tentava controlar a respiração, falhando miseravelmente em esconder os traços de deboche no rosto. Por educação, o oponente fingiu que não estava prestando atenção neste fato. –Isto evita conversas desnecessárias, creio...

-Temos que admitir: ele não fica de rodeios. Ganhou uns pontinhos comigo. –o Vongola de cabelos escuros disse, cruzando os braços a frente do peito com um sinal afirmativo da cabeça.

O Sentinela caminhou mais alguns passos em direção à dupla, segurando a bengala em uma das pontas e criando longos e lentos círculos no ar. Era impossível não fazer alusão a um musical da Broadway. Ricardo teve que dar um soco no ombro de Göbel para ele parar de rir. Por fim, o Gallardo novamente pousou a bengala no chão, apoiando as duas mãos enluvadas em branco sobre ela, com a cartola levemente inclinada para o lado.

-Vamos pontuar ao óbvio, Vongolim...

-Vongola. –retrucou secamente o pugilista.

Marcello deu os ombros, arqueando ambas as sobrancelhas. Estava se divertindo tanto quanto em um passeio.

-Que seja. Vocês sabem que foram atraídos aqui por um alarme falso. Mesmo achando desnecessário, não custa nada reforçar: entreguem-me as armas seladas, Guardiões. E não haverá mortes desnecessárias.

O Guardião do Sol ergueu os braços, estralando os dedos contra as palmas das mãos. Os olhos safira continuavam com um tom extremamente sóbrio, embora os músculos estivessem rígidos e os tendões à mostra superficialmente por debaixo da pele clara. O aperto dos braços de Göbel se tornou mais forte e um chiado eletrostático percorreu velozmente seu corpo, como um relâmpago esmeralda: os pêlos de sua espinha ficaram eriçados.

-Eu te dou as honras se você quiser, cara. –Ricardo disse por fim, colocando as mãos no bolso da calça. Respirou fundo, atenuando a tensão do ambiente. –Ainda que seja um Sentinela, não me passa muita credibilidade.

Um sorriso surgiu em meio à barba desleixada do Guardião do Trovão. O mais genuíno jubilo.

-Tem certeza? –Göbel tentou parecer educado. Mas nem esperou pela resposta do companheiro. Situou-se na frente, abrindo os braços levemente em um ângulo agudo e deixando as mãos abertas. –Ah Deus, era disso que eu estava precisando.

A corrente de Chamas do Trovão serpenteou em torno dos braços do Vongola, verde e brilhante, chiando alto enquanto se concentrava no centro das palmas. Estava tão ofuscante quanto seu sorriso lascivo. A energia criava reflexos nas lentes dos óculos de armação esportiva negra.

O homem à frente dos Vongola ajeitou a cartola, sem perder a pose. Era possível agora ver seu rosto de feições arredondadas e os olhos pequenos. A pele era de um tom marrom claro, e os olhos escuros cintilavam mesmo naquela escuridão. Algo dentro do Guardião do Sol lhe fez mudar de idéia quanto à postura do Gallardo, simplesmente após ver o instinto assassino naquele olhar.

-Göbel... –Ricardo começou a falar, quando foi interrompido.

Como foi a ordem, nenhum dos dois Guardiões viu. Talvez tenha sido um leve menear na bengala, ou até mesmo o fato de ele ter ajeitado o chapéu. O importante foi o resultado: um rombo no teto das instalações que estavam por trás do Sentinela, e o grande objeto disforme ganhou os céus.

A trajetória era em arco, como se tivesse sido arremessado por uma catapulta, mas o peso lhe conferiu maior velocidade. Por breves segundos, os dois integrantes da família Vongola observaram estupefatos, até raciocinarem onde é que aquela montanha de sombras estava prestes a cair.

Saltaram para direções opostas, escapando por pouco de serem esmagados. O contato com o solo fez com que o calçamento rachasse e se partisse, jogando cacos irregulares para várias direções.

O projétil de larga escala rolou mais alguns metros para trás, mesmo com o violento primeiro impacto. O som de metal se retorcendo e cacos quebrando sacudiu a avenida do complexo industrial, enquanto o Sentinela da Nuvem abafava a própria risada com a ponta dos dedos. Puro deboche.

O Guardião do Trovão ficou com o corpo levemente arqueado, arfando. O rabo de cavalo, que prendia todo o cabelo escuro e encaracolado do rapaz, ficou desgrenhado. O pugilista estava paralelo na outra direção, pernas dobradas e a palma usando como apoio no chão.

-Filho da puta. –praguejou Göbel. A concentração de eletricidade esmeralda em suas mãos se dissipou completamente.

-Não seja tão ríspido. Apenas quis lhe dar uma mostra de que devo ser levado a sério...

No galpão do qual o Sentinela da Nuvem saiu, algo grandioso começou a se movimentar, oscilando nas sombras. Ambos os Guardiões ficaram em postura defensiva, esperando mais um ataque. Mas o que eles contemplaram foi algo que lhes causou ainda mais preocupação.

Tentáculos. Muitos tentáculos, se arrastando pelo chão, ganhando o céu, saindo de vários pontos do edifício, rompendo paredes e quebrando janelas. Todos eram grossos próximos à escuridão, afinando conforme iam se estendendo em direção à ponta. Sua superfície era lisa em uma face, sendo a outra enrugada e cheia de ventosas dispostas em duas fileiras. Eram de uma coloração roxa berrante, lustrosas e de aparência pegajosa.

-Ah, Deus. –Göbel cruzou um dos braços à frente do peito e apoiou o outro sobre ele, segurando o queixo com o dedão e o indicador. –Não me diga que a arma selada desse cara é um polvo.

-Polvo não é o único animal da classe Cephalopoda que possui tentáculos, você sabe. Aquilo também pode ser uma lula, acho eu. Embora eu tenha pouco domínio de conhecimento desta área... –corrigiu Ricardo, embora daquela distância já ficasse um pouco difícil distinguir os tentáculos de borrões de tinta.

-Vamos combinar, isto é um pouco irônico.

-O que você quer dizer?

Göbel virou-se para Ricardo, e indicou a monstruosidade do usuário da Nuvem com um movimento de cabeça.

-Isso me lembra daqueles hentais de segunda categoria que você assistia no colegial. “Alienígenas Sedentos”, ou algo assim. Tentáculos, garotinhas de ensino médio com peitos gigantes, aquelas coisas deslizando e indo em direção da b...

O Guardião do Sol sentiu-se obrigado a interromper o amigo, elevando o tom de voz e erguendo a mão em um sinal de cortar o assunto.

-Pega leve ok? Eu era jovem, estava cheio de hormônios. Não fazia nada diferente do que um garoto naquela idade fazia... –era claro o tom de nervosismo e desconforto nas palavras do rapaz loiro.

-Além do fato de que você assistia aqueles desenhos em traço de anime com aquelas coisas gosmentas apertando os seios fora de proporção de mulheres indefesas que gemiam feito vadi...

Ricardo voltou-se completamente para o amigo, gesticulando com a mão. Por um momento, ambos esqueceram que estavam diante de um inimigo da família.

-CHEGA, ok? Era uma fase de descobertas na minha vida, mas eu cresci, mudei e amadureci. –o pugilista cogitou emendar com “inclusive arranjei uma namorada”, mas achou que seria inadequado para o momento. –Vamos tentar manter o foco um pouco.

Foi ao se virar para confrontar Göbel que a visão periférica de Ricardo captou algo familiar. Terminou de falar e girou parcialmente a face para o lado, na direção do grande objeto que anteriormente fora arremessado na direção de ambos como se impulsionado por uma catapulta. De imediato, não reconhecera devido à sua pequena deficiência na visão, mas foi só se concentrar um pouco que ele reconheceu aquele amontoado de metal retorcido. O sangue se esvaiu completamente do seu rosto, deixando a pele caucasiana tão pálida quanto a de um morto.

O Guardião do Trovão copiou o amigo, ao perceber o estado de choque em que o mesmo se encontrava. Ao descobrir o motivo, o sorriso sarcástico desapareceu por completo do seu rosto.

Mesmo tendo sido lançado contra o ar, atingido o chão e quicado diversas vezes, ainda era possível ver a lataria vermelha completamente amassada. A capota retrátil havia sido rasgada em diversas partes, e não havia sinal do vidro da frente. Estava tão retorcido e amassado que parecia ter sido usado como uma bolinha de ping-pong em uma partida de doze horas consecutivas. Mas era indiscutível dizer que, antes de ter sido completamente obliterado, aquilo um dia fora um conversível vermelho.

Ricardo sentiu o ar ser subitamente retirado dos pulmões à força, o que lhe tirou a resposta imediata. Seus olhos claros apenas conseguiam focar o veículo destruído, enquanto o resto do ambiente escureceu. Cerrou os punhos com tanta força que as juntas estalaram mutuamente, e o braço ficou tremendo em pleno ar pela tensão exercida nos músculos. Deu um passo desesperado em direção aos destroços, quando Göbel venceu a distância entre ambos e o segurou pelos ombros. Enquanto o loiro se debatia e protestava, o Guardião do Trovão disse em um tom baixo.

-Acalme-se. Ela não está no meio dos destroços...

Marcello demonstrava-se confuso quanto a toda aquela situação. Ficou observando os Guardiões cochicharem entre si (o rapaz com rabo de cavalo e óculos tentava tranquilizar o loiro de cabelo curto), e depois passou a atenção para o carro que seu pequeno querido havia arremessado em cima dos inimigos. Foi então que suas idéias foram clareando...

O Sentinela da Nuvem deu uma leve batida no chão com a bengala, sorrindo.

-Pelo visto a sorte sorriu para mim hoje. Parece que aquele pequeno beija-flor não apareceu aqui por um acaso, afinal. –seu sorriso era lascivo.

A dupla da Vongola se virou. Ricardo estava com uma expressão transtornada, agressiva: uma veia estava saltada em seu pescoço. Sua voz ecoou como um rugido, enquanto o Guardião do Trovão ponderava preocupado quanto à situação: gostava de trabalhar sozinho justamente para não ter que se preocupar com ninguém.

-O que você fez com ela?! Cadê a Sara?! –berrava o pugilista a plenos pulmões. Mais uma vez Göbel teve que aplacar a fúria do amigo, antes que ele avançasse desgovernado para cima de Marcello. Ricardo nunca agia de forma tão passional, o que deixou o rapaz de cabelos escuros desnorteado.

Se não fosse pelos braços forçando que o Guardião do Sol se mantivesse parado, provavelmente ele iria até lá fazer aquele maldito engolir os próprios dentes junto com aquela cara maliciosa.

-Sara? Que belo nome para uma bela mulher... Pena que é um pouco arisca, difícil de domesticar. -Göbel só conseguiu pensar em uma expressão perante o último comentário do Gallardo: Mas que filho da puta.

Os tentáculos novamente começaram a se remexer, irrequietos. Mais alguns pareciam escondidos dentro do edifício, e foram saindo lentamente enquanto se arrastavam para fora de um arco de porta duplas no térreo. Mas eles não estavam simplesmente livres: carregavam algo.

Ricardo parou de se debater, como se a raiva estivesse lhe bloqueando a coordenação motora. Continuou com os dentes trincados, ombros arqueados para frente e os punhos cerrados fortemente. Göbel se limitou a suspirar fundo e passar a mão direita no cabelo, ajeitando o penteado para trás que terminava no rabo de cavalo.

-Cara, lembra a ironia quanto à hentais? –houve uma pausa enquanto o rapaz suspirava. -Esquece aquilo.

Os cabelos loiro-cobre estavam desgrenhados, emoldurando o rosto inconsciente. Os braços estavam esticados para cima, presos por um dos tentáculos, as mãos pendentes no ar. Outros forçavam ao mesmo tempo o pescoço, um pouco abaixo da linha dos seios, e os tornozelos. As roupas estavam um pouco esfarrapadas, e havia manchas roxas visíveis em algumas partes do belo corpo sinuoso da Doku Sasori.

Estava completamente indefesa.

-Sara... –o pugilista disse em um fio de voz.

Göbel tomou a frente da discussão com o oponente, antes que Ricardo pudesse fazer alguma besteira. Por trás das lentes de vidro, os olhos escuros do Vongola tentavam focalizar e localizar todos os tentáculos daquela coisa. Mas eram muitos, o que aumentava drasticamente sua preocupação. E Marcello caminhou alguns passos até a jovem desacordada, passando o dedo por seus cabelos com cinismo. A jovem se remexeu, mesmo que inconsciente, soltando gemidos de dor quando seus pulsos eram apertados pelos tentáculos gosmentos.
O pugilista bufou. A corrente ao redor do seu pescoço emitiu um flash dourado momentâneo.

-Eu sou um grande admirador da anatomia humana... Seja homem, mulher, é simplesmente bela a forma como a carne se projeta sobre os ossos, as curvas se desenham sobre o espaço, o contraste de cor entre o cabelo e a pele... –enquanto falava, ele aproximava mais o rosto da loura. Os dedos brincaram de trançar as mechas, quando as puxaram e o Sentinela da Nuvem aspirou seu perfume. Puro ato de provocação. –Me darei o prazer de detalhar melhor este belo monumento da natureza... Em um local mais apropriado.

A ênfase na última palavra fez as entranhas do Guardião do Trovão se reviraram e deixar Ricardo quase espumando pela boca.

E em sincronia, somado ao som de estática, as Chamas de cada um dos Vongola despertaram em uma torrente violenta.

-Eu odeio trabalhar em grupo, por isso vou te atropelar se você me atrapalhar, ouviu? –Göbel cuspiu no chão ao seu lado, como se pudesse condensar todo o ódio e desprezo por aquele merdinha em um único gesto. Seu martelo de combate começou a se materializar em sua mão direita, envolvendo o punho pela alça de couro. — Mas... Não existe nada pior em ver um imbecil pomposo tentar se dar bem como se fosse a coisa mais natural do mundo.

-Cale-se, seu egocêntrico de merda. Eu deixarei a carcaça dele para você... Porque não o perdoarei por ter machucado a Sara. –o pugilista ajeitou as luvas brancas de combate, as veias do pescoço saltadas e sua pele clara tomando uma coloração avermelhada. Estava deixando o ódio correr como veneno por seu corpo, corrompendo o senso de honra e justiça que sempre o acompanhava. Aquele Gallardo não merecia isso.

Marcello se virou para os inimigos, e os tentáculos que seguravam a refém se afastaram. Ele continuou se apoiando no bastão com uma das mãos, enquanto a outra desabotoou os botões superiores da camisa social.

-Huhum... Nada mais romântico do que uma luta de cavalheiros pelo coração da jovem dama... Ou neste caso, seu corpo. –a risadinha de deboche ecoou. Göbel e Ricardo deram alguns passos para o lado, tomando distância entre si para não se chocarem na investida. – Acabe com eles, meu querido.

Ambos os Vongolas dispararam na corrida e vários tentáculos voaram na direção de ambos em alta velocidade, ricocheteando pelo ar. Göbel saltou por cima de um com o corpo reclinado, usando a palma da mão livre como apoio para transpor o obstáculo. Ricardo teve que se agachar, ouvindo o zunido do ar sendo cortado acima da própria cabeça, enquanto acelerava o passo.
O pugilista cerrou o punho esquerdo, enquanto deixava o braço direito dobrado próximo ao peito. A luva branca começou a brilhar pela imensa concentração de Chama do Sol, tornando-se uma forte esfera dourada que iluminou por completo um grande raio com centro onde Ricardo estava.

Göbel, por sua vez, soltou o cabo, deixando o martelo suspenso pela tira de couro em seu pulso direito. Fazendo força de rotação com o membro, começou a girar a arma. A eletricidade esmeralda da Chama do Trovão chiou, tomando conta do bloco maciço da marreta, enquanto o rapaz chegava perto de Marcello.

O Sentinela da Nuvem se manteve parado, enquanto algo se movimentou nas sombras.

-Impacto Solar!!!!

— Elektrisch Achse!!!!!

O impacto de ambos os golpes levantou um nuvem de poeira e pequenos detritos, junto ao clarão verde e amarelo. Os dois Vongolas recuaram. Ambos absortos.

-Mas que merda, o que foi isso?! –berrou Göbel, vendo as lentes ficarem levemente sujas devido aos destroços levantados.

O Guardião do Sol não respondeu, apenas frisou os olhos para tentar enxergar direito. O vulto que antes fora o inimigo agora estava disforme.

A risada debochada novamente soou, quando finalmente era possível enxergar com clareza novamente.

Dois dos tentáculos haviam se enrolado no Gallardo completamente, encobrindo-o em meio aquela superfície lisa e lustrosa. O corpo do homem de fraque começou a então aparecer, sobressaindo no centro da proteção de sua arma selada, enquanto ajeitava a cartola. Não havia sofrido sequer um arranhão.

-Meu soco não teve qualquer efeito... –Ricardo sibilou entre dentes, articulando os dedos da mão que havia golpeado o oponente. Sentia que havia acertado algo extremamente maleável. O Guardião do Trovão ergueu o martelo de batalha, parecia igualmente confuso.

Os tentáculos começaram a se desenrolar da volta de Marcello, revelando que havia um terceiro escondido por baixo dos dois que estavam de proteção, servindo como degrau. O Sentinela segurou o bastão negro debaixo do braço, para que pudesse bater suas lentas palmas cheio de satisfação.

-Bravo. Não esperava menos de uma cidade tão bela. É uma pena para vocês... Suas armas não terão efeito contra mim.

Mais uma vez os tentáculos sibilaram no ar, porém os Guardiões não estavam preparados para a investida. Com um golpe seco, parecido com uma chibatada, Göbel e Ricardo foram arremessados para direções opostas. Marcello desceu do elevado em que estava, segurando novamente a bengala e a apoiando no chão com as duas mãos na ponta.

-Meu atributo é Nuvem, expansão. Com isso, posso movimentar, esticar e contorcer minha arma selada a meu bel prazer... Sem contar que a mesma é extremamente maleável. –ele deu uma risadinha. Um dos tentáculos começou a rastejar para perto do portador, para que o mesmo pudesse acariciar-lhe a ponta. Caído de costas no chão, com o corpo atravessado e o rosto parcialmente no concreto, Göbel engoliu vários palavrões e ofensas que tinha reservado para o inimigo: estava receoso. – Golpes de impacto, e até mesmo a alta voltagem “sólida” da Chama do Trovão são facilmente dissipadas ao longo de toda a extensão da minha arma. Ou seja, seus ataques contra mim são praticamente inofensivos.

Os Guardiões se levantaram, ainda sentindo as dores pelos impactos sofridos com a investida de Marcello. Os olhos do pugilista novamente se focaram em Sara, ainda presa atrás do Sentinela da Nuvem em segundo plano. O ombro latejava e havia um certo incômodo no joelho. Tudo que ele fez foi ajeitar o tronco e erguer os braços, ficando na posição neutra do boxe. O Guardião do Trovão ficou com o corpo arqueado, a marreta pesada sob o solo, enquanto se apoiava nas coxas.

Aquela batalha estava ficando cada vez mais complicada.

As pernas do Guardião da Chuva estavam trêmulas, mas ele mantinha-se firme. Era a única linha de defesa entre o companheiro caído e a Sentinela da Chuva. O vagão continuava a percorrer os trilhos junto com a locomotiva, e o vento rugia invadindo o local pelo rasgão que Zatch havia feito na lataria.

Ele segurava as foices da kusari-ganma nas mãos, com a corrente levemente enrolada em ambos os punhos e passando por trás de suas costas. Mantinha os olhos castanhos focados na mulher que estava prostrada à sua frente de forma ameaçadora, enquanto o espadachim mantinha-se imóvel no frio chão de metal. O sangue escorria de seus ferimentos, deixando manchas escurecidas em sua roupa em meio àquela fraca luz sufocante.

Os cabelos de Jéssica estavam desalinhados, emoldurando seu rosto, enquanto seus olhos claros encaravam o oponente. As Chamas que antes brilhavam pálidas em suas mãos se apagaram e ela juntou as palmas, como em uma prece.

-Non, non haverá necessidade disso hoje. –ela disse por fim. Calmamente se agachou e pegou sua jian que estava enterrada próxima a si. Zatch apenas ergueu as armas que tinha mais próximas do tórax, em postura defensiva. Estava arfante. –Acredito que você está ponderando esta possibilidade também, não é cherry?

O Guardião da Chuva baixou as duas foices da Kusari Ganma. Entendeu perfeitamente aonde aquela conversa iria chegar. Seu olhar era frio e sua fala serena.

-Eu tive que deixar minha Arma Selada em forma animal para perseguir este trem, sem contar meu combate anterior. Eu sou um dos Guardiões com a menor quantidade de Chamas, logo me esgoto com facilidade. Não perdurarei num combate demorado. –analisou de forma fria o rapaz.

Um sorriso vermelho sangue se projetou nos lábios dela.

-Imprudência a sua me contar tantos detalhes.

O Vongola deu os ombros.

-Errado. Estou dizendo isso porque é algo irrelevante para mim. Sou diferente dos tipos de adversário que você costumou encontrar em sua vida, senhorita. –um clarão azul, refletindo luzes como água em um dia de verão, iluminou o vagão. A arma selada de Zatch foi se encolhendo até se tornar novamente o cordão com o brasão de pingente. –Minha maior arma é a Tática. Dentre os Sete, sou aquele que consegue analisar fatores com precisão. E sei quando batalhas são desnecessárias. Este é um dos casos.

A mulher deixou uma das mãos segurando o cabo da espada, enquanto utilizou o indicador da outra para colocar uma de suas mechas tingidas atrás da orelha. Zatch continuava encarando-a de frente, digladiando sua frieza com aqueles belos olhos verdes. Ele continuou a falar, enquanto se agachava para observar a situação de Kiba.

Apoiou as mãos nas coxas, com os joelhos flexionados e deixando-se sustentar na ponta dos pés.

-Vejo pelas suas roupas –o rapaz se referia a mulher, embora ainda olhasse o espadachim caído.- que sofreu diversos ferimentos oriundos da Chama da Tempestade. Arrisco a dizer até que isso danificou um pouco sua locomoção e agilidade. E, ainda que você cogite a possibilidade de me enfrentar sabendo de meu estado não muito favorável, devo lembrar que não cheguei aqui sozinho.

Ela riu. Mas era visível que o comentário dele era válido o suficiente para que ela não entrasse em um embate. Jéssica deixou a espada baixa, enquanto encarava o vão aberto anteriormente pelo Guardião da Chuva. Pode visualizar que havia um grande veículo movendo-se a algumas dezenas de metros e paralelamente aos trilhos do trem. Só pode identificar os dois feixes potentes de luz provindos dos faróis.

A espadachim gótica deu os ombros. Realmente havia muito a arriscar.

-Então quer que eu simplesmente vire as costas e vá embora?

O estrategista apenas virou o rosto na direção dela. Ainda que estivesse de frente para a quase algoz de seu melhor amigo, o rapaz não exibia qualquer alteração nos traços faciais e tão pouco no timbre de voz. Era como se a presença dela não pudesse mais interferir em mais nada naquele ambiente.

-Acredito eu que não será problema nenhum para você se locomover até o próximo vagão. De lá, você vai cortar a conexão e deixar que este aqui se desprenda da locomotiva. Você seguira o caminho de trem pelos trilhos enquanto, lentamente, nós ficaremos sendo deixados para trás.

-E o que te leva a pensar que eu farei isso? –Jéssica retrucou. Calmamente, Zatch se levantou, ajeitando o tronco novamente. Respirou fundo, enquanto voltava-se para ficar de frente para a mulher. Ajeitou as mangas da camisa quadriculada, refazendo as várias dobras que as encurtavam sobre os braços.

Por algum motivo, a Sentinela se sentia incomodada com aquela atitude leviana do estrategista. Ela mordeu o lábio inferior. Em contrapartida, o Guardião da Chuva aguçou o olhar. Por pouco, não cometeu o desleixo de sorrir de satisfação.

Ela estava caindo no pequeno jogo psicológico criado pelo Vongola.
Que, diga-se de passagem, era uma de suas especialidades.

-Sua missão já acabou por aqui, Sentinela.

-Ainda não tomei as Armas Seladas de vocês. Não posso sair daqui sem elas, ou aquela chienne vai torrar minha paciência. Sabe como é, sou nova no cargo, tenho que mostrar serviço. –os lábios pintados da mulher emolduraram os dentes brancos em um sorriso perfeito.

O estrategista simplesmente passou a mão na nuca.

-Tive muito tempo para me questionar sobre o contexto e entender o mecanismo desta situação. Se esta fosse realmente sua missão, você teria nos atacado na estação de trem mesmo. Não se colocaria em movimento, tampouco nos atrairia para o vagão. Seria um ataque rápido e fatal. Blefes não funcionam comigo, querida. Sou um dos melhores jogadores de pôquer da região Sul. -Jéssica crispou os lábios, resmungando baixinho. O desgraçado era realmente bom. Não adiantava tentar esconder algo dele. Ele continuou.- Você só queria apenas nos tirar um tempo extremamente precioso. Para quê é o que eu realmente não entendi.

Pelo simples fato de deixar o estrategista da Chuva com uma parte em branco na dedução, Jéssica sentiu-se de certa forma satisfeita. A gótica deu os ombros, e começou a caminhar em direção ao espaço aberto na lateral do vagão de carga. Zatch se limitou a acompanhá-la com os olhos castanhos de forma discreta, com os braços cruzados. Havia deixado explícito que ela sairia dali sem qualquer combate.

Quando a Sentinela da Chuva alcançou o limite do piso de metal, ficando face a face com os trilhos que passavam em alta velocidade, o Guardião se pronunciou.

-Gallardo.

Ela estacou. Seu cabelo esvoaçou com o vento violentamente, parecendo uma onda tingida em tonalidades profundas de azul. Mas ela não disse nada. Zatch continuou a falar, vendo na falta de resposta dela um sinal para que prosseguisse. E pela primeira vez desde que ambos se encararam, ela pode reconhecer uma fagulha de emoção naquela voz gélida e calculista.

-O cara tava sem a Arma Selada. Se ele estivesse usando-a, com certeza teria acabado com você.

Jéssica deixou o rosto perfilado, o olho verde encarando o rapaz enquanto as mechas azuis continuavam seguindo o fluxo das correntes de ar. Os resquícios de seu vestido rasgado faziam o mesmo trajeto.

-Mon chér, para alguém que estava se mostrando completamente racional, você parece não estar falando em completo juízo quanto ao Treize... –a espadachim gótica se apoiou na borda da lataria semi-destruída com uma das mãos.

O Guardião da Chuva respondeu com uma expressão de desdém, colocando parte de cada uma das palmas das mãos dentro dos bolsos da jeans que estava usando.

-Você está enganada. Este seu comentário sugere que eu esteja utilizando de uma visão otimista e distorcida dos fatos. Mas continuo utilizando a razão para embasar esta observação. Convivo com o Guardião da Tempestade a mais de quinze anos, sendo os últimos dele como combatentes da família Vongola. Estando tão próximo assim do objeto de estudo, pude observar eventos recorrentes... Um padrão, para ser mais exato.

-E que padrão seria esse?

Ele arqueou uma das sobrancelhas, projetando um ar de vitorioso.

-Não importa o quão na merda ele fique, eu não sei como o Kiba consegue tirar forças para se levantar de novo. E sempre se superar em batalha. Esta situação é tão recorrente que deixei de considerá-la uma anomalia e passei a tratá-la como uma constante. Simplificando: você pode achar que o derrubou agora, mas quando ele se levantar ele vai lhe dar a maior surra de sua vida.

Jéssica ouviu atentamente as palavras do estrategista, e aquilo de alguma forma fez algo inquietante despertar em seu interior. O coração começou a bater mais forte, enquanto ela fracamente mordia o lábio inferior. Seu olhar agora projetava além da silhueta da Guardião da Chuva, indo em direção ao rapaz de cabelos negros e roupas chamuscadas que jazia estatelado no chão. Por causa do vento, suas mechas crespas se remexiam, enquanto sua mão direita continuava firmemente segura no cabo semi-destruído da katana.

Sentiu-se ansiosa para o próximo embate, que ela sabia que iria ocorrer mais cedo ou mais tarde. Queria ver aquele Cavaleiro do Priorado em perfeita forma, no ápice de sua técnica, para poder esmagá-lo contra o solo e destruir completamente sua vontade de lutar. Aquilo seria muito mais prazeroso que tirar sua vida rapidamente...

Por fim, ela sorriu de forma diabólica.

-Avise ao Treize que o estarei esperando. Não agredirei mais nenhum Mestre, enquanto eu não o derrotar e o humilhar perante a toda a sua amada família Vongola... Eu quero testar sua teoria, meu caro... Quem sabe até não posso provar que o único motivo para ele estar vivo seja apenas um bocado de sorte...

O estrategista não se deu o trabalho de responder, apenas fechou a expressão do rosto. Observou Jéssica se deslocar no ar e sumir noite adentro, sendo carregada pela lufada de vento para trás com violência. Não era difícil saber o que aconteceria depois: passos apressados na parte superior do vagão, o golpe seco da espada chinesa que cortaria a ligação de ferro, a perda de velocidade e a separação de onde a dupla Vongola estavam da locomotiva.

Estava preocupado com aquela intimação da Sentinela da Chuva. É claro que ele repassaria a mensagem na integra para Kiba. E tinha certeza absoluta de que o amigo iria sentir o sangue ferver com aquelas palavras de provocação.

Virou-se para trás, encarando o ferido mais uma vez, com a plena consciência de que algo deveria ser feito a respeito.

[5]

O impacto fez ecoar o estrondo por todo o pavilhão. Göbel atravessou a nuvem de poeira, as lentes dos óculos novamente foscas pela sujeira pesada. O ar chiou novamente ao lado de sua cabeça e o Guardião do Trovão instintivamente se agachou: por milímetros não foi chicoteado por mais um dos tentáculos com o atributo da Nuvem.

Firmou o pé no chão, sentindo a fadiga forçar seu pulmão. Puxou o ar para dentro do corpo, mas antes que pudesse recuperar o fôlego por completo, uma nova onda de ataques caiu sobre si.

Mais um estrondo, e um dos galpões de fundição próximos à zona de embate teve parte da estrutura comprometida. Desta vez, Göbel fora obrigado a rebater grande parte das chicotadas com seu martelo de batalha, porém não conseguira realizar a ação com eficiência. Como resultado, vergalhões marcando diversas partes do corpo e o rapaz sendo arremessado contra uma grande placa de ferro.

Marcello sorriu, gesticulando com as mãos como um assombroso maestro da morte, ordenando a forma e a freqüência que os membros de cefalópode atacassem os oponentes. Acabou criando uma zona de conforto de grande raio ao redor de si próprio, deixando com que a dupla Vongola ficasse incapacitada de realizar um contra-ataque, além de resguardar a presa.

-Onde está toda sua valentia, Vongolim? Deixou de estufar o peito e abandonou o sarcasmo em seus olhos? –o deleite nas palavras do Sentinela da Nuvem era nítido. Segurou a bengala verticalizada, apoiando as duas mãos e deixando a aba da cartola inclinada.

Som de entulho sendo revirado, enquanto Göbel lentamente se erguia. Os braços exibiam marcas vermelhas doloridas e aleatórias em larga escala, enquanto a lente esquerda que ele usava exibia uma rachadura ramificada em diversos pontos, deixando a vista de um dos olhos inutilizada.

— É Vongola, seu filho da puta!

Arfando, o rapaz de cabelos encaracolados e presos em rabo de cavalo curto encarou Marcello, focando sua visão periférica. Sara continuava suspensa no ar, inconsciente, pulsos amarrados e estendidos para cima. O cabelo loiro-cobre caía sobre parte de seu belo rosto, a cabeça jogada para frente.

O Guardião do Trovão xingou mentalmente. A melhor vantagem em trabalhar sozinho era que (palavras dele) não era preciso ter que sair por ai salvando o rabo dos outros. Por mais que fizesse a imagem de durão e de quem não ligava para nada, era muito apegado aos membros da família. Estar naquela situação já estava passando de frustração para fúria.

Os tentáculos retrocederam um pouco, serpenteando com suas superfícies lustrosas ainda próximas a Göbel, as ventosas deslizando no chão deixando rastros gosmentos. O martelo do Trovão começou a girar ao redor do pulso, atado pela tira de couro, criando rotações lentas. Algumas mechas do cabelo dele haviam escapado do rabo de cavalo curto, ficando soltas pelo ar e a mercê do movimento.

A Chama cor esmeralda começou a se alastrar pelo braço e pela arma selada, pulsando como corrente de alta voltagem. Embora o corpo demonstrasse sinais de desgaste, a expressão do Guardião Vongola voltou a ser provocativa.

-Qual a graça, posso saber? –questionou o homem de fraque.

-Aproveite enquanto pode, chofer. Porque quando a mesa virar, eu vou te mandar pro outro lado da cidade com uma bordoada.

Marcello pensou em retrucar, mas não houve tempo. Depois de um berro extremamente audível, um imenso bloco de concreto voou na direção do Sentinela. O Gallardo virou o rosto e arregalou os olhos surpreso, fazendo um gesto brusco com a mão em sobressalto. Agilmente, os tentáculos retrocederam e se projetaram contra o objeto maciço em alta velocidade no ar.

Por pouco, o bloco de concreto não esmagou o inimigo. O homem desfez toda a pose confiante e continuou com a mão erguida, os olhos vidrados no grande pedaço de escombros que fora arremessado contra si. Em primeiro momento, os membros pegajosos colocaram-se como obstáculo entre o alvo e o projétil, mas a força aplicada junto ao peso foi tão grande que os tentáculos acabaram sendo empurrados para trás enquanto envolviam a superfície irregular. Restou para Marcello assistir, quase catatônico, o concreto se aproximar em desaceleração até ficar a poucos centímetros da ponta do seu nariz.

De uma boa distância, o pugilista observou a cena com seus olhos azul-safira. Ainda que a vista estivesse levemente borrada pela falta dos óculos de grau, ele pôde entender completamente como havia se desenrolado a cena. E grifou um detalhe importante extraído desta situação.

O Guardião do Sol estava com o corpo arqueado, os punhos vestidos com as luvas brancas de luta relaxados para frente com a perna direita adiantada. Posição clara de quem havia acabado de arremessar algo. O sangue escorria pela lateral do seu rosto, um corte mediano aberto no supercílio, manchando com gotas vermelhas a gola de suas vestes.

O ferimento latejava e os músculos doíam, mas não era o suficiente para extinguir a determinação do pugilista. A imagem de Sara presa ardia sua consciência, chegando até mesmo a surpreender o próprio Ricardo o fato de estar se importando tanto com aquilo.

A retaliação do Sentinela da Nuvem tardou, mas já era esperada. Embora não houvesse dúvidas que o suor frio havia escorrido por toda sua espinha, seu rosto acabou por transformar de empalidecido para uma máscara de ira.

-Como você é... deselegante!!!!

Com um imenso esforço, levando provavelmente sua arma selada quase ao limite, Marcello arremessou de volta o pedaço de concreto. Ele voou em arco, ganhando mais velocidade e força no meio do trajeto, e sua sombra projetada começou a engolir o Guardião do Sol. Um presságio para a morte.

Mas ao contrário do Gallardo, a coragem do Vongola era inabalável.

Cerrou os punhos, e quase de imediato as luvas brancas foram envolvidas pelo brilho dourado e intenso da Chama do Sol. Ajeitou a postura, erguendo os braços próximos ao rosto como um verdadeiro lutador de boxe, enquanto o bloco ia caindo.

-Rajada Solar!!!! –vociferou Ricardo.

Uma sequência de três golpes. Dois jabs com a mão direita travaram o gigantesco pedaço de concreto e lhe causou incontáveis rachaduras profundas ao longo de sua superfície. O terceiro, e fulminante golpe, foi um poderoso soco direto no centro de uma dessas rachaduras. E pedaços de concreto se espalharam por todo o ar, desintegrando o bloco de escombros.

Mas não houve tempo para se vangloriar. Enquanto os fragmentos caíam ao solo, os tentáculos de Marcello imediatamente romperam o ar. O pugilista loiro não teve tempo de se recompor do próprio ataque. Os membros do cefalóide chicotearam impiedosamente o Vongola, que se agachou e deixou os braços protegendo as laterais da cabeça.

O Sentinela da Nuvem começou a gesticular novamente com a mão, enquanto açoitava o Guardião do Sol. Göbel se valeu dessa chance e correu em reta na direção do oponente, pronto para atacar pelo flanco, a rotação de Mjiönir aumentando e tornando-se um círculo esmeraldino de eletricidade. A intensidade era tremenda, que as faíscas elétricas riscavam o solo.

Marcello percebeu a investida e virou parcialmente o corpo no exato momento que o Guardião do Trovão saltou para vencer a distância e atingir o Gallardo. O Sentinela retraiu um dos braços e fez um movimento lateral com o outro. Tentáculos começaram a se movimentar.

Göbel ficou incrédulo ao ver Sara sendo utilizada como escudo humano.

Sua única reação foi travar a rotação de sua arma abruptamente, segurando no cabo do martelo. Cortou a Chama do Trovão, fazendo seus resquícios se espalharem em pleno ar, e abriu os braços para deixar a guarda completamente exposta. Seria a única forma de diminuir o impacto contra o corpo desfalecido da mulher.

O Vongola olhou para Marcello quando um dos tentáculos livres o atingiu em cheio no peito. O ar foi forçado para fora dos pulmões e lhe causou vertigem, mas seus olhos castanhos captaram algo em meio à dor.
“Isso é...!!!”

Como a Doku Sasori, o membro gosmento envolveu e apertou Göbel pelo torso. Jogou-o contra um poste sem soltá-lo, derrubando a estrutura de metal e fazendo o rapaz gritar de dor. A força do impacto fora tão forte que derrubou os óculos de aro negro e esportivo do rosto do rapaz. Depois, com mais um gesto de Marcello, a arma selada fez um movimento giratório com o tentáculo, arremessando o cativo.

Ricardo estava se levantando quando percebeu o borrão vindo na sua direção em alta velocidade. Tentou amortecer o impacto, mas tudo que conseguiu foi acabar rolando com o outro Guardião pelo chão.

-Patética! Sua atuação esta noite está completamente patética! — berrou o Sentinela quase em delírio. Levou os tentáculos que prendiam a moça para próximo de si, para lhe envolver a cintura com o braço. Esfregou o rosto próximo ao pescoço dela, enquanto ouvia grunhidos de onde a dupla Vongola estava caída.

Mas não eram suplícios de dor, como Marcello acreditava. Imóveis, estatelados no chão, Göbel e Ricardo traçavam uma estratégia.

-Ele não tem qualquer noção de combate. É visível porque mantêm sua arma selada na forma de animal. – o pugilista começou, referindo-se ao fato do usuário da Nuvem não transformar sua arma selada no estágio “Refinado”. Supondo é claro que aquela fosse uma das tantas cópias feitas das Sete de Firenze.

O Guardião do Trovão concordou com a cabeça, tentando acostumar o máximo possível a vista sem os óculos.

-O chofer engomadinho orquestra muito bem os tentáculos porque depende completamente deles. Se passarmos disso, ele não vai durar cinco malditos segundos. – sussurrou o moreno. — Percebi algo neste último ataque. Quando ele usou o corpo da Doku Sasori como barricada, a investida sobre você parou. Isso me leva a concluir que ele pode ordenar um comando por vez.

-Você não é nenhum Zatch, mas até que da pro gasto, Leo. –brincou Ricardo, chamando o amigo pelo primeiro nome. Ensaiou uma risada, mas uma careta de dor e a mão na parte esquerda do corpo denunciaram que o loiro havia se machucado de forma séria. –Merda... Acho que fraturei alguma coisa.

Passos esmagando cascalho. O inimigo começou a se aproximar, levando Sara consigo logo atrás. Pelo visto, havia gostado da eficácia de usá-la como barreira.

Göbel começou a se levantar. O rosto estava sujo, a camiseta com vários rasgos e o cotovelo esquerdo exibia escoriações feias. Mas ainda sim, o aperto no cabo de Mjiönir era resoluto.

-Não consegue dar um jeito nisso ai?

-Cortes e sangramentos são uma coisa. Fraturas é algo muito mais complexo! Se eu tentar usar a Chama do Sol e fizer o processo errado, posso calcificar o osso torto ou até perfurar um órgão, cara...

-Cacete, pelo menos finja que serve pra alguma coisa!!!- ralhou o Guardião do Trovão.

O pugilista começou a responder, mas riscos dourados cortaram o ar noturno acima da cabeça do Vongola. Marcello ordenou que três tentáculos o protegessem da investida. Eles foram alvejados por quatro agulhas finas e do tamanho de facas, com as pontas afiadas e focos brilhantes da Chama do Sol.

Por fim, os membros de atributo Nuvem começaram a inchar descontroladamente, partindo dos pontos atingidos e explodindo sob alta pressão. A energia arroxeada e parecida com cúmulos-nimbo se espalhou por todas as direções, com impacto tão grande que a cartola do Sentinela fora arremessada para trás com violência. De algum lugar, um som gutural de agonia trepidou pela noite.

O Guardião do Trovão, surpreso frisou os olhos, forçando a vista. Marcello havia protegido o rosto com os braços cruzados, exibindo a mesma expressão de surpresa.

-Heeeeeee.... Os balões de festa já estão explodindo? –questionou a voz arrastada e preguiçosa. Ricardo, ainda caído e com a mão no ferimento nas costelas, arregalou os olhos claros.

Sentado sob uma pilha de caixotes de ferro, um homem observava o trio de combatentes enquanto balançava as pernas no ar. Usava uma calça justa social, com um par de tênis negros com detalhes azuis encobertos pela bainha comprida de tecido. Usava uma regata também negra abaixo de um jaleco branco de mangas curtas, marcado em vermelho com um logotipo nas costas. O símbolo era uma balança, pesando com os pratos em equilíbrio uma caveira e um livro. O cabelo do homem era curto e espetado, raspado nas laterais e de coloração castanha, tendo em cada orelha um alargador pequeno e cromado.

Embora estivesse olhando diretamente para o Sentinela da Nuvem, seus olhos estavam semicerrados de tal forma que parecia estarem fechados e sua expressão permanecia eternamente sonolenta.

-ENEO... -sibilou Göbel, intrigado. Ainda não estava acostumado de ver os integrantes do Esquadrão como aliados.

Os tentáculos “feridos” recuaram para as sombras, se retraindo, sem deixar qualquer indicação do tamanho ou de onde estaria o cefalóide ao qual eles pertenciam. Marcello também recuou, levando a mão ao chão e tateando até encontrar a cartola. Os tentáculos livres começaram a ondular à frente do usuário, enquanto os que mantinham Sara presa se afastaram mais para trás. Ela se remexeu, gemendo: não ficaria inconsciente por muito mais tempo.

O recém-chegado embalou o corpo para frente, para descer da pilha. Quando seus pés atingiram o solo, as pernas envergaram sem equilíbrio nenhum, obrigando-o a dar alguns passos na diagonal para balancear o trajeto. Algo então começou a escalar seu ombro, parecendo dali um objeto semi-redondo com diversos espinhos.

-Desculpem o atraso, eu meio que...Hã.... Dormi no ônibus. Ai sabe como é, perdi o ponto, fui parar lá no final da linha, essas coisas. – ele disse calmamente, colocando a mão nos bolsos e fazendo um movimento inseguro com os ombros.

Se ele não fosse o único reforço para aquele momento, Göbel teria lhe dado uma martelada no queixo que teria deslocado seu pescoço, se é que isso é possível. Como não poderia fazê-lo, no momento, repassou essa ação umas três vezes na própria mente. O integrante da ENEO se aproximou do pugilista do Sol, que cerrou os punhos por reflexo.

-Xande. – ele disse, entre dentes.

-Olá, er, Sol. Desculpe, sou péssimo com nomes.

-É difícil esquecer quem quase me matou uma vez...

Xande deu os ombros e se virou para Göbel.

-Então era uma armadilha, assim como fui informado pelo Corvo... Como está a situação?

Relutantes, os Guardiões falaram em tom baixo sobre a luta até então, desde a captura de Sara até suas conclusões na forma em que o Sentinela executava seus movimentos.

Marcello se manteve estagnado na posição em que estava, receoso. Estava conseguindo administrar facilmente a situação até então, não havia porque se preocupar com a movimentação dos Vongola. Os ataques do pugilista e o martelo de combate não faziam qualquer efeito em sua arma selada, logo não havia complicações. Agora aquele sujeito havia chegado e com apenas um movimento inutilizou três tentáculos... Estava começando a considerar a possibilidade de sair dali o mais rápido possível: para ele, batalhas só valiam à pena serem travadas quando os oponentes não tinham nenhuma chance de vitória.

Então, percebeu que o Guardião do Trovão novamente o encarava, segurando o martelo de batalha ao lado do corpo com a mão direita.

-Nossa prioridade é libertar a Sara, depois eu parto com tudo pra cima dele sem remorso nenhum. –sentenciou Göbel. –Como você conseguiu destruir três tentáculos de uma vez, quando eu e Ricardo juntos sequer fizemos um arranhão?

Xande tirou a mão do pugilista do osso quebrado e começou a pressionar levemente os dedos sob a camisa. Ricardo reclamou quando eles passaram pelo local ferido.

-O atributo da Chama da Nuvem é propagação. Claro que, como qualquer coisa, um crescimento descontrolado causa problemas. Os espinhos de Hacchan podem carregar altas “doses” de Chama do Sol. O atributo da ativação delas vai aumentar a taxa de propagação dos tentáculos e com isso imaginei que fossem perder o controle... Mas explodir foi muito mais legal, admito.

-Hacchan?

Ricardo questionou, no exato momento em que Xande levou a mão livre até o ombro. Agora mais perto, podia-se ver que o que havia ali era um pequeno porco espinho encolhido, de coloração amêndoa e a pequena cabeça quase encoberta pelas patinhas. Seus olhos negros estavam focados em Ricardo, e corpo diminuto parecia tremer enquanto estava encarrapitado no corpo do dono. Quando foi-lhe puxado dois de seus espinhos, ambos foram transformados naquelas agulhas finas e compridas, que olhando mais de perto pareciam ser de...

-Isso ai é acupuntura? –Ricardo reclamou depois que habilmente Xande enfiou em pontos específicos os artefatos brilhantes pela energia dourada. Estranhamente, após isto, a dor que o Vongola sentia se dissipou. –Você me...

O paramédico da ENEO fez um sinal negativo com a cabeça.

-Ossos são muito mais complicados de se tratar do que cortes. Um movimento errado aqui e posso acabar comprometendo toda sua movimentação. O que eu fiz foi um velho truque para “confundir” seus sensores de dor que estão em seu Sistema Nervoso. Não vai durar muito, mas acho que o suficiente para um movimento.

Xande retirou as agulhas e o pugilista sentiu um estranho calor na região da costela quebrada.

-Um movimento? –replicou ele, agora conseguindo se levantar com certa dificuldade.

Trocaram algumas frases rápidas, quando os tentáculos do Sentinela da Nuvem começaram a se movimentar de forma ameaçadora novamente. Pelo visto, havia terminado o tempo técnico.

-Não vão me apresentar seu novo amigo? –o nervosismo na fala do Gallardo era evidente, embora ele tentasse manter a postura.

Em resposta, o paramédico retirou mais um punhado de espinhos de sua arma selada. Novamente, os espinhos se transformaram em agulhas assim que foram arrancados.

-Romper o Selo.

Hacchan começou a brilhar, soltando um ganido, e seus olhos se tornaram um par de esferas douradas. Seu corpo se transfigurou em pura Chama, até se envolver completamente na coxa esquerda do usuário. Tornou-se uma espécie de estojo branco, atado por tiras na perna, com um compartimento onde ficou alojado uma dezena de agulhas metálicas.

-Pronto, pessoal? –perguntou Xande, bocejando de forma audível e colocando as costas da mão que seguravam já algumas das agulhas contra a boca. Seus olhos semi-cerrados chegaram a lacrimejar. –Sou o pior de toda ENEO quando se trata de combates físicos... Então vamos tentar fazer isso direito, ok?

Ricardo estava de pé novamente, sentindo a região do osso quebrado ainda com um calor fora do comum. Respirou fundo, sabendo que não poderia errar nesta única chance que teria. Göbel estava ao seu lado, girando o pulso que segurava o martelo. Sua superfície retangular e sólida novamente foi tomada pela torrente de Chamas do Trovão.

-Estamos. –foi a última palavra sentenciada.

Os três começaram a se movimentar, e Marcello detectou o perigo. Sob pressão, tudo o que conseguia pensar em fazer era atacar os oponentes com toda a força que tinha. Saídos de Deus sabe onde, uma infinidade de tentáculos ricocheteou, formando um arco por trás de Marcello. Pareciam surgir das sombras, batendo e esmigalhando tudo que encontrava pelo caminho. Xande arremessou diversas agulhas para várias direções, acertando com perfeição vários tentáculos e os inutilizando em meio a uma série de explosões de ar em sequência. Göbel teve que se agachar e se esquivar de vários deles, enquanto Ricardo foi em direção oposta, ao mesmo tempo em que as pontas da cefalóide se projetavam como lanças na parede por onde ele passava, quase o atingindo por milímetros.

O Guardião do Trovão girou o martelo de batalha, a tira de couro laçando seu próprio pulso, e saltou. A mão desocupada começou a acumular uma grande quantidade de energia similar à eletricidade.

Quando sua mão soltou Mjiönir, a arma selada voou como uma bomba pra cima do Sentinela da Nuvem. Marcello teve tempo apenas de recuar os ataques e dispôs uma série de tentáculos em trama na própria frente. O impacto foi neutralizado, chegando a afundar um pouco a arma selada de superfície maleável, até que o Vongola de cabelo preso aterrissou no chão e apontou a mão espalmada cheia de energia em direção ao martelo.

- Koloss Töten!!!

A Chama do Trovão, atraída diretamente para a arma selada do usuário como por efeito de condução, irrompeu o ar criando um imenso relâmpago esmeralda queimando oxigênio. O cheiro de ozônio era forte, e o clarão originado da descarga elétrica transformou o local temporariamente, como se fosse a luz do dia.

Mas ao final, os tentáculos apenas desfizeram a linha de defesa, com Marcello intacto e um sorriso presunçoso (embora os olhos estavam completamente assustados com a força do Guardião).

-Ainda nos velhos truques que não funcionam, meu rapaz?!

Göbel retribuiu o sorriso, fazendo um leve movimento com a mão. O martelo de batalha foi puxado novamente para entre seus dedos como por magnetismo, uma das características.

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-Apenas para desviar sua atenção, palhaço.

O Sentinela da Nuvem não entendeu de imediato, quando sentiu a força de algo explodindo atrás de si. Suas vestes voaram a favor do ar liberado, fazendo com que ele fosse obrigado a novamente a segurar a cartola com a mão para que ela não voasse. Surpreso, virou-se para trás.

O paramédico estava parado, resquícios dourados de suas agulhas longas caídas sobre o chão de onde antes se encontrava a prisioneira. Logo atrás de si, Ricardo estava agachado, a respiração acelerada pela explosão de energia no corpo. A dor do osso quebrado voltou lacerante, o que fez o loiro ficar com o corpo arqueado, mas ele não se importava com isso.

Em seu colo, envolta por seus braços fortes e torneados, estava a Doku Sasori. O rosto estava voltado para cima, deixando os cabelos caindo em direção ao chão. Em sua mão direita, que antes não era possível enxergar direito, ela segurava firmemente o par de óculos de grau do Guardião do Sol.

Marcello apertou a bengala com força, sentindo o nervosismo lhe consumir completamente. Göbel e Xande encurralaram o Sentinela, enquanto o pugilista foi lentamente se afastando da luta.

-Me pergunto... –o integrante da ENEO começou a falar daquela forma sonolenta e arrastada, até que no meio da frase sua entonação mudou: ficou mais fria, cruel. Até seus olhos, antes semi-cerrados, abriram o suficiente para mostrar as íris escuras. — ...quanto de dano pode suportar sua arma até ela se selar novamente?

O tom presunçoso de Marcello desapareceu. Ele respirou fundo, enquanto todos os tentáculos passaram a brilhar num tom roxo depressivo e foram encolhendo numa velocidade impossível de ser vista a olho nu. No topo de sua bengala negra, se projetou uma jóia em forma de pedra lapidada, na cor turquesa.

-O...O que você está fazendo???!!! –berrou Göbel, apontando o martelo de combate em direção ao inimigo. Sua cabeça estava explodindo por estar forçando a vista sem os óculos, e o plano de fundo daquela arena improvisada era apenas um show de borrões. Mas ele conseguia distinguir a figura do Gallardo e o que ele acabara de fazer. Ricardo também estava incrédulo com aquilo, mas apenas apertou a loira mais contra si: naquele momento, a segurança dela era só o que importava.

Como se aquilo fosse algo elegante a ser feito, o homem ajeitou a cartola e novamente baixou a aba, apoiando-se com as duas mãos sob a jóia na bengala.

-Não vejo porque continuar nossa pequena dança, cavalheiros. Já perdi a dama, acho que seria um tanto infeliz acabar recebendo alguns machucados...

-SEU FILHO DA PUTA, DEPOIS DE TUDO ACHA QUE DEIXAREI VOCÊ SAIR DAQUI LIVRE?! –vociferou o Guardião do Sol. Ele deu uma passada brusca para frente e o ferimento lhe atordoou as pernas, assim ele resolveu ficar quieto sem se mexer. Göbel tão pouco estava gostando dessa idéia. Sua mão estava coçando para descer tanta porrada naquele desgraçado que sua face iria ficar irreconhecível como humana até para o legista.

Xande era o único que se mantinha calmo. Seus olhos novamente ficaram semi-cerrados, e ele coçou a bochecha com o dedo indicador.

-Heeeeeeee, ainda que eu fique feliz em ter menos trabalho... Não sei se os Guardiões concordaram com a idéia... –embora tenha pronunciado alto, parecia mais uma reflexão do que uma afirmação.

O Sentinela da Nuvem não estava nem um pouco a fim de participar de uma luta que, sem dúvida, iria acabar levando alguns machucados muito feios. Quando entrava em um combate, não se importava com os meios, apenas com a vitória. Honra, dignidade, valor, todos os códigos de luta eram uma balela para ele.

Göbel começou a andar de forma ameaçadora em direção ao Sentinela. Enquanto falava, parecia que suas palavras subiam pela sua garganta acompanhada de línguas de fogo.

-Você exigiu nossas armas, fez a garota de refém E ME QUEBROU A PORRA DOS ÓCULOS?! COMO VOCÊ ACHA QUE EU VOU TE DEIXAR SAIR DESSA DEPOIS DE TUDO, SEU MALDITO?!

O Vongola ergueu Mjönir no ar, pronto para ir até Marcello e lhe golpear. Mas o homem de fraque deu uma pequena cutucada no chão com a bengala para chamar a atenção e depois olhou diretamente para o Guardião do Trovão.

-E se eu entregar o real plano de Letícia Gallardo para vocês?

O rapaz moreno e de cabelo preso simplesmente estacou, deixando o pesado martelo levantado para cima, os olhos castanhos arregalados. Xande simplesmente continuou com a mesma expressão de sono, embora escutasse atentamente as palavras de Marcello e deixasse de sobreaviso uma das mãos próxima às bolsas que guardavam as agulhas.

-Q-que tipo de ser imundo é você?! Não existe sequer honra ou um vínculo com os Gallardo?! –Ricardo de início gaguejou, incrédulo com aquele homem. Para alguém como o pugilista, que se via na obrigação de seguir uma vida correta e sem degradar seus valores, aquela atitude era algo impensável. –Pensei que você trabalhasse para ela!!!

A indiferença que ele exprimiu enquanto respondia ressoava como irritante para o trio que representava a Vongola.

-Sigo as ordens da Rainha, claro, mas não pense que só por causa disso eu devo arriscar demais meu pescoço por causa dela. Prefiro sair desta vitória sem nenhum arranhão e com a chance de poder matá-los em uma melhor oportunidade...

Göbel voltou a ameaçar uma investida gesticulando o martelo no ar.

-Esse bastardo está mentindo!!!

O integrante da ENEO respirou fundo, estufando o peito, e começou a caminhar na direção de Marcello. Ergueu a palma da mão aberta na direção do Guardião do Trovão, pedindo um momento.

-Não acredito que ele esteja blefando. Este cara parece ser o tipo de pessoa que não se importaria em passar a perna em alguém para utilizar de benefício próprio.

-Eu acho que o cara está certo, Göbel. –concordou Ricardo, mesmo com o desgosto evidente. Viu que o amigo iria protestar, então rapidamente cortou sua deixa. –Ele utilizou a Sara como escudo humano... Não é um lutador como nós. Apenas alguém que gosta de ferir os outros.

-E vamos simplesmente deixar ele ir embora? –o outro Vongola rebateu, ranzinza. A dor de cabeça estava piorando, e cada vez mais ele estava perdendo a cabeça com todo aquele falatório.

Marcello escondeu o contentamento por ver que sua manobra estava surtindo efeito. Já estava conseguindo sentir o gosto do Martini que iria saborear ao sair dali...

-A decisão é de vocês, podem me espancar até a morte aqui, ou evitar uma catástrofe... –ele girou a bengala no ar, em um movimento gracioso. A última palavra deixou os Guardiões tensos: poderia haver uma catástrofe pior do que tudo que acontecera nos últimos dias?

Por fim, Leo e Ricardo se entreolharam. Sara estava em segurança, o Gallardo praticamente neutralizado. A moça talvez precisasse de tratamento médico e o pugilista ainda tinha que averiguar sobre aquele osso fraturado. Se, apesar de tudo isso, eles conseguissem uma pista sobre o próximo passo de Letícia Gallardo, valeria a pena deixar um verme como aquele escapar.

-Merda. –resmungou Göbel, selando a Mjiönir e o transformando novamente no brasão adornado da corrente de bronze.- Se isto for um blefe, eu arrebento a cara dele com as mãos nuas.

Xande se aproximou do Sentinela, com as mãos próximas às suas agulhas de forma ameaçadora.

-Comece a falar. –sentenciou o paramédico. –Se o fizer, deixaremos você partir sem nenhum arranhão.

-Tem a nossa palavra. Porque Honra é algo importante para nós. –disse o pugilista, ajeitando a Doku Sasori nos braços.

Marcello fez um gesto de mesura com a mão, em completo sinal de ironia. Depois, começou a falar. Seu nervosismo havia se dissipado por completo ao ver que iria conseguir escapar dali em segurança.

-Como eu disse antes, eu vim até aqui com a missão de obter as armas seladas de vocês dois para a família Gallardo. Contudo, este não foi o real objetivo de nossa pequena operação. –ele riu de forma lasciva.

-Pare de rodeios. –ralhou Göbel irritado. –Você mesmo disse que estamos sem tempo.

-Perceberam que estou só aqui, meus caros? Claro que foi bolado todo um circo para vocês aparecerem, subornando autoridades e funcionários para atrair vocês para esses lugares distintos... Mas nunca foi nossa intenção realmente tomar a arma selada de vocês à força. Afinal, dois de seus Guardiões já haviam provado que não estávamos lidando com inimigos comuns...

Referia-se ele a Zatch e Jô, quando neutralizaram completamente três inimigos com uma estratégia só.

-Então, era necessário uma outra tática para adquirir posse do legado dos Anciões, tanto as Sete de Firenze, quanto o conteúdo misterioso da urna... Uma troca, para ser mais exato. Uma que vocês não pudessem recusar em hipótese nenhuma.

Um silêncio opressor emoldurou o espanto no rosto de Ricardo. Göbel levou uma das mãos à cabeça por causa da enxaqueca, enquanto Xande simplesmente bocejou.

-Quanto vale a vida do seu Chefe?

-Calma, fica sentado.

-PORRA, DEIXA EU LEVANTAR.

Ploc. Um peteleco na testa.

-PORRA, DOEU!

-Você quer parar de gritar?

-EU NÃO ESTOU GRITANDO.

Ploc. Mais um peteleco na testa.

-...Tá. Parei. –resmungou.

-Ótimo. Você já está todo arrebentado. Se continuar assim, o sangramento não vai parar. –o outro atou melhor a bandagem improvisada, ao redor do ferimento na cabeça. Se afastou, encarando o amigo, tentando não pensar em como ele estava parecendo uma versão maltrapilha de Rambo, sentado na traseira da carreta.

-O que é? –questionou Kiba, colocando a mão no ombro dolorido pelo impacto.

Zatch colocou as mãos na cintura, deixando o ar escapar pela boca. Agora, depois que haviam saído do vagão parado que fora separado da locomotiva e deixado largado aos trilhos, sentia que podia descansar.

-Estou tentando contar... –ele passou a mão sobre a cabeça, jogando as mechas de cabelos castanhos que caíam em sua testa para trás e as segurando ali no topo. — ...quantas vezes eu tenho que salvar esse seu rabo maldito de confusão.

O espadachim ferido, sentado na beirada da carreta e com as pernas soltas no ar, ficou encarando o estrategista com seus olhos azuis-cinzentos frisados, como se o estivesse desafiando.

-Pare de falar como se isso acontece toda hora, véi...

Zatch arqueou a sobrancelha.

-Aquela vez que a gente tinha que encontrar a casa do Ricardo...

Kiba fez uma expressão de escárnio.

-Ahn, claro. Me culpe por ter um péssimo senso de direção. –ralhou o moreno, cruzando os braços e olhando para o lado, como se sentisse ofendido.

-Ou o problema envolvendo o forno microondas...

-Eu não sabia que é proibido esquentar lata de molho de tomate lá dentro!

-E aquele caso envolvendo a Car....

-OK, VOCÊ VENCEU! –bradou o espadachim, gritando tão alto novamente que as feridas de sua cabeça latejaram.

Ploc.

E Kiba cruzou os braços emburrado e olhou para o lado. O estrategista deixou os cabelos livres e soltos novamente, colocando ambas as mãos no bolso.

Então, um grande homem se aproximou de ambos, acompanhado de um fétido aroma de charuto e de um grande buldogue branco com manchas negras.

Quando é adjetivado de grande, é porque o cara era enorme. Se você olhasse de costas, no escuro, acharia que estava pronto para esbarrar num armário.

Era corpulento. Daqueles perfeitos para serem leão-de-chácara de boates. Usava um pesado casaco de aviador no tom pardo, revestido por baixo, e com o imenso símbolo da ENEO em um dos ombros. No conjunto, botas de couro marrom e uma camisa com estampa de marca de cerveja. Usava um boné daqueles com a aba quase formando um “U”, vermelho, escrito em letras garrafais: “Como está o seu dia? Foda-se, eu não ligo.” E para completar, emoldurando o rosto de traços arredondados e a barba por fazer, havia um grande óculos Ray-ban de lentes negras e com aros prateados.

O cão latiu roucamente e sentou-se sobre as patas traseiras, deixando a língua cheia de saliva pra fora da boca. Suas feições caídas davam a impressão de que estava em um completo tédio sempre.

Zatch se virou para o recém-chegado. Kiba apenas o encarou de soslaio, ainda carrancudo.

O grande caminhão que estava estacionado na estradinha ao lado da via férrea era dele, onde a dupla Vongola descansava. O espadachim da Tempestade estava sentado na carreta, com a grande porta lateral aberta. Estava tão escuro ali que era impossível verificar o que havia lá dentro, além de especular que seriam um monte de caixas entulhadas e empilhadas. E só.

O homem deu mais uma tragada no charuto e soltou a fumaça, rindo deveras.

-Perseguir o trem realmente foi divertido, chapas. Tinha esquecido como vocês da Vongola conseguem ser tão doidos. –e riu novamente.

Zatch arqueou a sobrancelha.

-Obrigado mais uma vez o auxílio, ENEO. Se você não tivesse aparecido para uma carona, eu não iria alcançar o trem a tempo... E obrigado pelo guincho. Você tem uns equipamentos bem interessantes.

O homem deu umas porradas na lataria do caminhão negro, que ecoaram pela noite. Exibia um sorriso de orelha a orelha.

-Equipamentos e Transporte. Essa é minha função junto aquele povo, chapas. E não precisa me agradecer não... –o cachorro interrompeu o dono com mais um de seus latidos.-... as ordens do Corvo são as ordens do Corvo. E ele fica uma fera quando suas ordens, e de sua dama, são contrariadas.

O grandalhão riu de novo, e algumas cinzas do charuto caíram desfalecidas ao chão. Kiba anuiu os ombros e curvou o tronco pra frente, colocando a mão sobre o ferimento da cabeça. Zatch relaxou um pouco, esvaindo a tensão, agora que seu melhor amigo estava novamente a salvo e, mais importante, ao alcance de sua vida para que não fizesse cagada.

Mas era cedo demais para isso.

Da cabine do grande veículo, cheia de parafernálias e mostradores dinamarqueses, o rádio começou a bipar. Alguém estava tentando se comunicar com o veículo do transportador Marcel, aquele que carregava a força bruta da Chama do Trovão.

E acredite, não eram boas notícias.