Beyond The Bounds Of Sky

22 Capítulo 22 - Missão noturna: parte II


Notas iniciais
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Soundtrack(4): http://www.4shared.com/mp3/SJHpOsbw/Soundtrack_4.html

Trem em fuga

“Correndo fora dos trilhos”

O ônibus de lataria amarela virou a esquina, seus faróis circulares iluminando aquela parca rua praticamente abandonada. De um lado da estrada crescia um extenso matagal, dando contrapartida à comprida cerca de metal entrelaçado que delimitava a grande propriedade. O motorista gordinho maltratava o câmbio antigo junto à embreagem, enquanto seus olhos se focavam no retrovisor. Do reflexo, pôde observar os dois únicos passageiros da condução, em pé e já próximos de uma das portas, conversando animados, enquanto se seguravam na estrutura de ferro. O sinal apitou, acusando que desceriam no próximo ponto.

O homem não conseguia imaginar o que aqueles dois iriam fazer em um lugar praticamente inóspito da cidade naquele horário. O trajeto do transporte público apenas passava por ali para fazer a volta e pegar o circuito reverso até a estação terminal. Raramente parava ali. Até porque, era uma região afastada e, de certa forma, perigosa. O homem ouvira no jornal nos últimos dias que algumas gangues estavam usando o local como ponto de encontro.

Analisou ambos os jovens, enquanto desacelerava o ônibus para estacionar rente a placa que indicava o ponto. Um deles era magro e esguio, cabelos loiro-escuros que desciam até quase a altura dos ombros fazendo uma insinuação de ondulado. A franja picotada estava para o lado direito, deixando suas pontas espetadas acima da têmpora. Os olhos eram taciturnos como de um general, de coloração amêndoa, e seu meio sorriso era debochado. Usava uma camisa quadriculada com as mangas dobradas, sobre uma camiseta branca, e calças negras afiveladas por um cinto apertado. Envolto ao antebraço esquerdo, bandagens azuis que ocultavam completamente a pele.

O outro se apoiava apenas na estrutura com as costas, enquanto segurava uma estranha bolsa de lona extremamente comprida com uma alça só. Era apenas um pouco mais alto que o outro, embora a pele fosse mais morena e os ombros mais largos. Os braços eram torneados, tendo no alto do esquerdo a tatuagem do número treze em algarismos romanos estilizados. Os cabelos eram escuros, crespos e rebeldes, e os olhos de uma tonalidade azul-cinzenta peculiar, enquanto ele falava de forma exagerada e em um tom audível. Estava com uma regata negra justa e uma calça jeans com manchas alaranjadas e as bainhas rasgadas.

A condução parou, e as portas se abriram. Eles desceram, e mal saíram do último degrau e o ônibus já havia arrancado pelo asfalto à frente. O moreno coçou a cabeça e fez um silvo com os lábios, enquanto o outro se limitou a colocar a mão nos bolsos.

-O cara ta com pressa.

Um leve menear com a cabeça e os cabelos loiro-escuros dançaram ao ar noturno.

-Não me surpreende. Esta área está sob o domínio de gangues há algum tempo. É insensatez circular por aqui durante a noite. – o estrategista disse, começando a atravessar a rua. O espadachim foi logo atrás, a alça da bolsa enlaçada em um dos ombros. – mesmo os técnicos que trabalham na rede ferroviária não se atrevem a vir para cá. Só utilizam a parte da frente das instalações e dos acessos... Kiba, não diga o óbvio: sim, é por isso que estamos vindo por aqui.

O Guardião da Tempestade fechou a boca, ao ver que Zatch já havia previsto a pergunta que ele iria fazer. Uma leve vento gelado os atravessou, resquício da chuva que acabara há muito pouco, e o espadachim tremeu dos pés a cabeça.

-Eu não me lembrava que esse lugar era tão frio! – reclamou, a voz carrega de sotaque.

O Guardião da Chuva revirou os olhos.

-Cara, não exagera. O clima hoje está no máximo ameno.

O Guardião da Tempestade continuou reclamando baixinho, enquanto colocava a alça da bolsa na diagonal de seu tronco. Em seguida ficou tentando aquecer os braços, esfregando as palmas das mãos sobre eles.

O estrategista sorriu. Era estranho ver o amigo desacostumado com o frio da região. Mas era natural. Ele passara dois anos naquele calor infernal da Região Sudeste. Zatch então estacou, já do outro lado da rua, encarando a grade metálica que cercava a propriedade que eles teriam que invadir. Seus olhos castanhos amêndoa conseguiam visualizar uma série de vagões de trens, a maioria composto por compartimentos de carga e abandonados, sobre um emaranhado de trilhos quase cobertos pelo mato alto que crescia. Fileiras de postes, iluminando o chão com as luzes amarelo-foscas, estavam ordenados por todo aquele grande pátio. Mais atrás, o rapaz conseguiu focalizar um grande pavilhão, também com as luzes acesas.

Kiba estacou ao lado do amigo, bufando pelo desconforto causado pelo vento gélido daquela noite.

-Fritando os neurônios, irmãozinho? – quebrou o silêncio após um tempo, encarando o amigo com seus olhos azul-cinzentos. — Você sempre faz essa cara quando ta matutando alguma coisa, véi.

Zatch confirmou com a cabeça, respondendo em um tom ponderado.

-Vê as luzes, Kiba? – retirou uma das mãos que estava agasalhada no bolso da calça e apontou para frente com o indicador. – Lembra o que o Corvo da ENEO falou? Vazamento de Gás. O procedimento padrão para esses casos é cortar a energia elétrica de, no mínimo, um quarteirão inteiro.

O espadachim coçou a nuca.

-Hm... Mas já sabíamos que era uma armadilha desde o começo, não?

O Guardião da Chuva curvou os ombros, se voltando para o amigo.

-Acho que deveríamos então discutir uma estratégia de como vamos prosseguir daqui por diante. – enquanto falava, Zatch apertava as bandagens azuis que envolviam seu antebraço esquerdo e escondiam sua arma selada. Um minuto de silêncio. Ambos os Guardiões ficaram se encarando por toda esta extensão de tempo, até que o estrategista respirou fundo e baixou o rosto, fechando os olhos. – Por Deus, você não estava simplesmente pensando em ir lá e cair na porrada com todo mundo?

Mais um minuto de silêncio. O Guardião da Chuva ergueu novamente a face, exibindo pura indignação em seus traços faciais, emoldurados por seu cabelo loiro-escuro que caía até quase os ombros. Havia novamente predito os pensamentos do outro Vongola.

-Acertei, não acertei?

-...Véi, se você sabe que acertou, porque fica me cobrando uma resposta? – Kiba olhou para o canto, no vazio, totalmente sem graça. — Ser direto e sem rodeios, esse é o meu lema.

E ser irresponsável também, seu tapado. Zatch grifou essas palavras junto aos próprios pensamentos, enquanto frisava os olhos e encarava o Guardião da Tempestade.

-Cautela, está bem? Sim, nós sabemos que é uma armadilha. Mas não significa que somos obrigados a cair nela. Vamos escalar essas grades com cuidado e tentar fazer o mínimo de barulho.

Após concordância mútua, ambos começaram a subida, enganchando mãos e pés entre os entrelaçados do metal. O Guardião da Chuva tinha grande agilidade e venceu o obstáculo facilmente, passando as pernas sobre a divisa da estrutura e logo aterrissando no chão agachado sem maiores problemas. Seu comparsa, por outro lado, era completamente desajeito quanto a esta tarefa. Quase caiu, quando a grade momentaneamente escapou de seus dedos.

-Merda... – Kiba, ao chegar ao solo, arqueou o corpo e levou as mãos aos joelhos. Não fora um exercício exaustivo, mas o pequeno espaço de tempo que ele teve de tensão a quase cair da cerca fez sua corrente sanguínea acelerar a velocidade bruscamente.

O amigo então aproveitou para esquadrinhar a área em que estavam. Não havia qualquer sinal de vigias noturnos, o que era estranho para uma instalação como aquela. O silêncio reinava quase absoluto, sendo apenas rompido pelo zumbido dos insetos e animais noturnos. Ora ou outra, era possível ouvir sons de automóveis distantes.

-Vamos proceder. – sussurrou o estrategista por fim, começando a se movimentar com o corpo levemente arqueado. Seus passos eram leves e precisos, como os de um felino caçador. Kiba começou o acompanhar, embora tivesse tremenda dificuldade física e mental de acompanhar aquele ritmo pausado. Sua mente estava fervilhando, seu sangue fluindo, sua Chama rugindo pelo ardor do combate.

Por isso estranhou quando Zatch havia trocado as duplas que iriam interceptar as ações da família Gallardo. Realmente, o raciocínio do Guardião da Chuva era completamente plausível: não poderiam se arriscar a utilizar as mesmas manobras de combate. A Décima Geração da família Vongola já havia enfrentado um número de batalhas considerável, mas todos de caráter isolado. Mas uma guerra torna todo o tipo de estratégia completamente diferente.

O inimigo conhecia e reconhecia. Com exceção do Guardião do Trovão, todos os outros já haviam tido experiências de luta contra a família Gallardo. E o estrategista sabia que, para uma pessoa com um intelecto elevado e raciocínio afiado, não era necessário mais do que relatos de peões derrotados para se montar um perfil de combate de um lutador.

Zatch sabia muito bem disso, porque é o tipo de coisa que ele faria. E sorriu, de forma quase prazerosa, ao pensar nessa possibilidade: haveria alguém na família Gallardo com um intelecto a sua altura? Enquanto um sentia um crescente deleite só de pensar em um futuro desafio tentador, o Guardião da Tempestade mantinha-se irrequieto.

Algumas coisas incomodavam Kiba desde a luta com seu Mestre, na qual ele recebera a ajuda da irmã e teve todo aquele desfecho bizarro. Na verdade, essas pequenas coisas já pairavam na sua mente há muito tempo, suspensas em algum lugar vazio que se desmembrava seu subconsciente.

Mas agora, de volta ao lar, estando mais uma vez ao lado de seus companheiros de combate... Aquelas coisas tornaram-se tão pesadas quanto suplícios. Provavelmente, ele era o mais fraco dentre os Sete Guardiões.

Era o único que ainda não havia dominado completamente a arma selada, estar com ela ativada lhe causava danos físicos. Também nunca conseguiu compreender o porquê da necessidade de ter que materializá-la em um “suporte” já existente, ao qual ele utilizava a sua própria espada.

Estamos em um momento crítico... Kiba pode ser substituído por qualquer usuário da Tempestade... Até mesmo pelo próprio Corvo da ENEO...

Parou de andar e endireitou o corpo. Ele e Zatch já estavam próximos um dos vagões desativados, onde o mato crescia fartamente ao redor dos trilhos, utilizando toda aquela grande estrutura de metal para se esconder. O estrategista segurou a borda do vagão e lentamente colocou a cabeça para fora do esconderijo. Ainda não havia conseguido identificar a presença de ninguém dentro do perímetro.

-Posso te perguntar uma coisa, Eduardo?

O Guardião da Chuva se virou, os cabelos loiro-escuros dançando conforme a movimentação da cabeça. Ficou estático, ainda com a mão segurando a borda enferrujada, enquanto arqueava uma das sobrancelhas. Ainda que fossem amigos há mais de uma década, fazia anos que seu nome fora pronunciado pela última vez pelo espadachim. Mais anos ainda, numa entonação tão séria como aquela.

Zatch encarou com os olhos castanhos o Guardião da Tempestade, que mantinha o rosto levemente abaixado, deixando os olhos escondidos pelo cabelo crespo, escuro e rebelde como um oceano violento. Segurava a alça transversal da bolsa com tanta violência que ficava visível os tendões sobressaindo em sua pele morena.

O estrategista pausou a linha de raciocínio que vinha construindo perante o campo de batalha. Parou de pensar no quão excitante seria medir a inteligência contra alguém que realmente valia a pena. Aquele pedido era algo mais urgente do que qualquer outra coisa.

Era feito de um irmão para outro.

O rapaz se recostou no vagão, sendo que apenas parte de seu tronco alcançava a chapa de metal que recobria as paredes da parte da locomotiva. Cruzou os braços, soltando o ar dos pulmões, deixando com que os fios compridos que quase alcançavam os ombros caíssem ao lado do seu rosto. Tomou uma postura paciente, enquanto voltava a falar com o espadachim.

-Bem, ainda que a situação não seja das melhores, acho que você não vai conseguir prosseguir de forma adequada se eu não lhe der a informação que deseja. Pode falar, Tempestade.

Olhou fixo nas feições de Kiba, que ergueu a face novamente e lhe devolveu o gesto com uma frieza absurda por trás daqueles olhos azul-cinzentos. O Guardião da Chuva se viu surpreso: aquele típico olhar racional lembrava muito a si próprio.

-Eu sou o mais fraco dos Sete, não sou? – começou a falar com a entonação de voz firme, sem as oscilações ou qualquer traço de sua personalidade explosiva e tempestuosa. – Estive acordado durante toda a minha recuperação com as Chamas do Sol e me mantive imóvel e quietinho quando a Karol entrou no quarto. E eles começaram a discutir coisas, antes de você aparecer...

As pupilas de Zatch se contraíram, enquanto ele apertava com firmeza os dedos ao redor dos próprios braços e o espadachim lhe contava todo o ocorrido. Quando o outro rapaz terminou, o estrategista ficou alguns longos segundos sem demonstrar qualquer outra reação. Com as novas informações obtidas sobre o real estado do Guardião da Tempestade, demorou pouquíssimo tempo para que seu cérebro executasse todas as equações e analisasse todas as probabilidades. A sua resposta, finalmente encontrada, era resoluta e absoluta.

-Não tenho dúvida. Você é o mais fraco, Igor, sendo isto agravado pelo fato de você sequer controlar a sua arma selada. Mas não sei o sentido desta pergunta agora, se você mesmo já sabia desta resposta faz tempo.

O Guardião da Tempestade então fez algo que o estrategista não havia se preparado para reagir. Simplesmente pegou entre os dedos o cordão metálico que carregava o seu brasão com o símbolo e o tirou para fora da camiseta regata negra. Fitou-o por um momento, antes de arrancá-lo com um puxão. Os elos se partiram e uma marca vermelha riscou o pescoço do jovem de cabelos rebeldes, enquanto ele apertava a arma selada contra a palma da mão.

-Ótimo. Que assim seja. Isso me tira um puta peso das costas, véi. –jogou o objeto na direção do estrategista, que apenas teve que erguer um dos braços para apanhá-lo em pleno ar. A faísca de excitação voltou a se espelhar nas íris claras, e Zatch pode facilmente ver a aura da Tempestade ressurgindo ao redor do corpo do amigo em ondas inconstantes.

O Guardião da Chuva refletiu por um momento o que aquela ação teria como significado. E a compreendeu quase de imediato. Ainda assim, se viu obrigado a uma leve provocação.

-Vou sair daqui antes que me tirem. É realmente isso?

Kiba colocou a mão no pescoço e deu uma forte guinada com a cabeça para o lado, estralando as juntas superiores da coluna vertebral.

-Bem, temos uma missão Senhor Guardião, então vamos terminá-la o mais rápido possível. Estou as suas ordens. – e o suposto ex-Guardião fez uma continência, achando graça daquela situação toda.

O estrategista descruzou os braços, ficando com o olhar sério. Havia compreendido a decisão do espadachim pelas entrelinhas. Ele, apenas aquele que fora seu amigo e criara um laço tão forte de fraternidade ao longo da vida, conseguia visualizar o que realmente o usuário da Tempestade estava querendo dizer.

-Certo então, espadachim inútil. – Jogarei seu jogo, já que isto mostra-se necessário. Pensou, enquanto guardava a arma da Tempestade no bolso da própria calça.

Virou-se novamente, curvando levemente o tronco e saindo levemente da cobertura do esconderijo. Tentou localizar qualquer tipo de movimentação, sem qualquer tipo de sucesso. Ouviu os passos do espadachim da Tempestade logo atrás de si, esperando um comando para avançar.

A amizade dos dois já existia anos antes da família Vongola, até mesmo antes daquele grupo de companheiros serem formados. Kiba e Zatch cresceram juntos, e se tratavam como irmãos. Desde os momentos mais felizes até as brigas ferrenhas. Algumas pessoas até mesmo diziam que um suportava o outro: enquanto Zatch precisava de um coração para pensar de forma passional às vezes, não eram raras as situações que o rapaz de cabelos crespos recorria à inteligência aguçada do estrategista. E justamente por se conhecerem a tanto tempo, o Guardião da Chuva de certa forma não estava surpreso com a atitude do amigo.

Kiba sempre tivera problemas com responsabilidades quando se julgava inapto a uma grande tarefa, ou sentia que não estava conseguindo cumprir as metas estabelecidas para si. Como dito antes, era uma pessoa completamente passional: impulsiva. Então, pelo menos no raciocínio dele, seria mais útil assumindo um papel de subalterno. Ao seguir ordens e não possuindo qualquer posse almejada pelos oponentes, o espadachim poderia se focar apenas no combate e nada mais.

Sem rodeios.

Zatch compreendia isso. Já desistira de tentar entender como o raciocínio lógico do amigo funcionava, e isso acabou por arruinar sua tese de antropologia por correspondência, mas chegou uma conclusão no fim das contas: Kiba era uma das poucas variáveis subjetivas que ele conhecia que não podia ser teorizada ou prevista. Era uma anomalia. Ainda que soubesse seu comportamento habitual gravado na forma de cálculos em sua mente, o Guardião da Chuva não cansava de se surpreender com as decisões que o espadachim tomava. Algumas vezes, chegavam a ir completamente contra os seus padrões de comportamento, mas agora esta já era uma ação recorrente que Zatch passara a considerar.

Uma tempestade inconstante. Nenhum dos Guardiões era a personificação mais bem aplicada do próprio atributo do que Kiba.

Chegaram a um pátio, que ligava as instalações e armazéns aos trilhos e vagões abandonados. Um dos grandes portões estava aberto, de onde saía uma grande locomotiva com vagões de carga e se estendia para vários metros, saindo dos terrenos da companhia. Provavelmente era uma linha direta até o porto da cidade.

Os dois rapazes pararam no centro do pátio. Kiba coçou a nuca, entrelaçado os dedos nos cabelos escuros e levemente encaracolados, enquanto o estrategista colocava a mão no queixo e fitava pensativo todo o ambiente ao redor.

-Nada. Nenhum atacante, ofensiva, armadilha. Estão bem escondidos.

O espadachim farejou o ar, levantando levemente a cabeça para cima. O amigo se virou, soltando o ar dos pulmões e encarando o chão por um momento, colocando a mão na testa. O Guardião da Chuva já havia tentado explicar ao amigo que era impossível detectar odores apurados pelo olfato como o canino, mas Kiba resistia teimoso nessa idéia. O que deixava Zatch mais puto, era que o espadachim da Tempestade acertava diversas vezes.

-O que foi agora, Kiba?

-Sei lá, véi. Sinto algo no ar. Alguma coisa que não está certa.

O estrategista revirou os olhos e passou a mão que estava na testa pelos cabelos, jogando a longa franja para trás e segurando os fios no alto da cabeça.

-Tirando o fato de que este lugar está às moscas em pleno dia de semana, o alerta de vazamento de gás que não existe e todo esse silêncio estranho eu não sei o que pode estar errado Kiba. Vamos, esclareça minha mente. – disse com o tom gélido e de baixo tom como o habitual, embora não tivesse o sentido de ser agressivo. Mas algumas afirmações do outro rapaz realmente mereciam respostas como aquela.

A atenção dos olhos azul-cinzentos voltou para o Guardião da Chuva, em uma expressão mal-humorada.

-Desculpe, Sr. Sou Foda, mas estou apenas constatando um fato aqui.

-Kiba, você nem ao menos sabe soletrar “constatação”. – rebateu Zatch, categórico.

O espadachim trincou os dentes e semicerrou as pálpebras.

-Véi, se vamos começar a discutir sobre isso novam...

Então um estrondoso barulho foi ouvido de um dos prédios adjacentes ao pátio, coisas metálicas caindo e se chocando. Reflexos rápidos, o estrategista já levava a mão ao braço enfaixado pelas bandagens azuis assim como o espadachim abriu vorazmente o feixe que lacrava a bolsa e revelou o cabo da longa katana embainhada.

Ficaram estáticos por alguns momentos, embora os ecos apenas se distanciassem junto ao vento úmido da noite. Ainda sim, ambos não conseguiam tirar os olhos da direção da qual viera o som.

-Filhos da puta, querem me matar do coração? O que foi isso?! –praguejou Kiba, a voz tendo um pico de na entonação enquanto ele se recuperava do susto.

-Fique aqui. Eu vou averiguar. – o estrategista começou a caminhar, os cabelos loiro-queimados dançando conforme suas passadas. O amigo ia retirando a espada de dentro da bolsa, segurando-a pela bainha escura.

-Averiguar? E todo aquele papo de – Kiba então empinou o nariz e começou a imitar a voz do Guardião da Chuva em falsete, fazendo uma careta, afinando a voz nos últimos momentos da frase — “Porque nós temos que ter uma estratégia e mimimimimimi...

Zatch sentiu um leve comichão percorrer seu estômago. Uma vontade louca de meter um chute no meio da canela do espadachim. Mas, como sempre, se conteve a uma abordagem mais sutil.

-Estou justamente sendo racional. Você se move feito um paquiderme, vai acabar denunciando ao inimigo nossa aproximação ao edifício.

Kiba parou por um momento e arqueou ambas as sobrancelhas, exibindo uma expressão confusa.

-Paquiderme? – piscou fortemente duas vezes e a cabeça pendeu lentamente para um dos lados. – O que é um paquiderme mesmo, véi?

O estrategista levou o braço alguns centímetros a frente do peito e gesticulou com a mão três vezes, como se batesse em algo no ar.

-Vai pensando ai, enquanto eu vou lá dentro dar uma olhada. Fique atento, espadachim. – Kiba fez menção de protestar, então Zatch imediatamente apontou o indicador da mão direita para ele, com um olhar duro. – É uma ordem. Não esqueça que você não é mais um Guardião, o que me torna superior hierarquicamente. Fui claro, espadachim?

O rapaz moreno fechou a boca, após fazer um muxoxo insatisfeito. Ainda sim, manteve em mãos a arma dentro da bainha, enquanto observava Zatch se distanciar em direção a uma porta de aço que dava acesso as instalações da ferrovia.

O estrategista andava novamente com seus passos furtivos, sem produzir nenhum ruído. Parecia que a sola dos seus tênis de tracking flutuavam ao invés de encostar no piso pavimentado. Recostou as costas na parede, logo ao lado do arco da porta que possuía uma lâmpada redonda acima de si. A lâmpada piscava, em intervalos regulares, criando um efeito fantasmagórico. Uma mecha de cabelo loiro-queimado ficou a frente do olho esquerdo do rapaz, que apertou os punhos se preparando para a investida. Ergueu lentamente o braço, observando que a porta estava entreaberta e que essa fenda deixava passar um fino feixe de luz do interior. Lá dentro estava iluminado.

A palma da mão posta sobre a superfície metálica. Apenas um leve esforço e a porta começou a se abrir, provocando rangidos audíveis. Ele praguejou mentalmente sobre isso. Mas não ouve qualquer movimentação dentro do cômodo. Zatch então se esgueirou pelo espaço que fora aberto e adentrou o cômodo.

As lâmpadas horizontais e fosforescentes do teto estavam ligadas, embora uma ou duas barras estivessem queimadas. Havia ventiladores nos ângulos retos das paredes, desligados, e diversos arquivos de metal lacrados. Três mesas de escritório com computadores, cadeiras giratórias e pilhas de papéis desordenados. Um pequeno rádio de pilha, de origem duvidosa, tocava sobre um dos armários, sintonizado em uma das estações da própria cidade.

Caminhou calmamente. Adentrou e se postou no centro do recinto, observando em volta, constatando que não havia ninguém ali. Havia um corredor mais adiante, que levava a outras salas e a uma escada giratória, mas o mesmo encontrava-se na mais completa escuridão. Zatch podia apenas ver vestígios de suas formas graças à luz proveniente da sala em que estava.

Esquadrinhou mais uma vez os arredores com os olhos castanhos, procurando algo suspeito. Viu então um copo de material descartável, ao lado de um pacote de biscoitos pela metade, sob uma das mesas. Chegou mais perto, sentindo o inconfundível aroma de café lhe tomar de assalto o rosto, enquanto olhava para o líquido negro dentro do recipiente. Levou a mão esquerda, que possuía o braço enfaixado por bandagens azuis que escondiam a arma selada, acima da borda. Sentiu o calor acariciar a palma da própria mão.

O café ainda estava quente.

-Alguém esteve aqui a menos de cinco minutos. – sussurrou para si mesmo.

Foi quando um alarme soou apenas uma vez, e a estrutura da sala começou a tremer levemente. As paredes vibravam quase que de forma imperceptível, e os armários de metal remexiam inquietos um contra os outros. Os olhos castanhos do rapaz se voltaram novamente ao copo de café. A superfície criava fracas ondulações por culpa do tremor. Algo de tamanho colossal estava se movimentando.

O Guardião da Chuva saiu do edifício em rompante, novamente se dirigindo para o centro do pátio pavimentado. Seus pulmões se encheram com o ar noturno de cerração, a tempo de observar o trem terminando de iniciar sua partida e aumentando a velocidade. A locomotiva puxava seus pesados vagões, enquanto as rodas rangiam contra o ferro, em velocidade crescente. Zatch deu mais alguns passos em direção ao centro do pátio, sem entender o que estava acontecendo ali.

-Kiba, que merda você aprontou desta vez?

Então, sentiu que seu pé havia esbarrado em algo extremamente leve e maleável. Baixou os olhos, conseguindo distinguir naquela parca luz a bolsa de uma alça só completamente aberta e caída no chão.

Ele ficou estático, tentando processar que tipo de informação aquele vestígio continha, quando vozes e berros começaram a ser ouvidos partindo de dentro do prédio.

Um rapaz saiu, com as mãos na cabeça, enquanto um homem mais velho partia logo atrás lhe desferindo uma série de tabefes.

-Tinha que esperar até a hora certa, novato! Não havíamos recebido o sinal ainda!!! – e deu um tapa tão forte que a cabeça do jovem foi projetada para frente, quase o derrubando no chão.

-D-desculpa Chefe! Eu achei que, como o cara já tinha pulado para dentro do vagão, eu poderia dar sinal verde para os homens que estão operando o trem! – e levou um chute tão forte no estômago que o fez soltar um ganido de dor extremamente agudo.

Zatch girou nos próprios calcanhares e ficou com a face voltada aos recém-chegados. Usavam roupas pretas, estampas de bandas, calças rasgadas. Exibiam correntes, barras de ferro, armas brancas. Um inclusive carregava um imenso facão de caça. Cabelos punk, skin-heads, moicanos. Göbel que iria se identificar com aquele bando de arruaceiros vestidos com camisetas baratas e fedendo a álcool vagabundo. Claro, a diferença é que o Guardião do Trovão preferia bebidas importadas.

O estrategista deixou as duas mãos caírem para o lado do corpo, observando a gangue. Havia bastante gente ali para preencher um camburão da polícia, ou até mesmo um corredor de hospital.

O homem que havia espancado o mais jovem tinha os cabelos grisalhos, em corte militar, e algumas cicatrizes no rosto. A barba era farta, e seu fenótipo denunciava que deveria ser algum tipo de veterano de guerra. Usava uma boina verde, com alguns broches envelhecidos, e encarou Zatch com os dentes trincados.

-Veja só, imbecil. Um dos fedelhos ficou por aqui.

-Apresentações são desnecessárias, senhores. – o Guardião da Chuva ergueu os braços, como se pedissem aos arruaceiros que abaixassem suas armas. Eles se entreolharam rindo, enquanto começavam a rodear o rapaz. — Apenas preciso saber qual o motivo da partida daquele trem.

O chefe, o homem mais velho, ergueu o braço direito. Os comentários entre os outros cessaram por completo.

-Guri, você está longe demais de casa se acha que pode falar nesse tom com a gente.

Zatch arqueou uma sobrancelha e repuxou um pouco os lábios para um lado. Uma expressão pacífica de indagação.

-Desculpe, acho que devo diminuir a velocidade na fala para vocês me acompanharem. – disse naturalmente, sem qualquer traço de ironia. Mas por um motivo óbvio, ouve uma chuva de palavrões e xingamentos.

-Deixe eu bater nesse merdinha filho da puta, chefe! Vou quebrar todos dos dedos dele!!!

Um grandalhão chegou próximo ao senhor de meia-idade esbravejando, enquanto manejava uma navalha na direção do Vongola. Zatch permaneceu calmo quanto a isso, ao contrário do chefe: bastou uma cotovelada bem aplicada sua e o sangue começou a espirrar e a manchar o solo em gotículas. O ferido se agachou, largando a arma e segurando o nariz, choramingando que o mesmo havia sido quebrado.

-Você tem culhões, admito. – cuspia as palavras com uma raiva controlada. – Mas como eu disse, está longe demais de casa se acha que pode falar assim com meus rapazes.

-Eu só fiz uma pergunta. E preciso de uma resposta. É um cálculo simples, até mesmo para pessoas com baixo intelecto como vocês.

O homem nada respondeu. Se virou de costas e deu um passo.

-Acabem logo com esse viadinho. Aquela pirralha não falou nada sobre ter que deixar qualquer um que cruzasse nosso caminho inteiro.

Enquanto o homem falava, o olhar de Zatch foi além dos homens que o cercavam. O jovem que havia sido espancado estava sentado no pequeno declive junto à porta aberta, com a mão no local onde havia recebido o chute. O estrategista levou a mão direita e a encostou sobre as bandagens azul-escuras que envolviam seu braço esquerdo. Apenas um era necessário para lhe repassar as informações.

Um homem, com uma camiseta regata justa mostrando a barriga oval e a barba completamente mal feita começou a se aproximar, rindo, enquanto manejava uma faca em uma velocidade absurda.

O Guardião da Chuva apertou os dedos ao redor do tecido em tiras.

-Que azar o de vocês, hoje eu não tenho tempo para ser misericordioso. Romper o selo, Mergulho Súbito.

As bandagens se desprenderam, se expandindo em pleno ar, enquanto a massa disforme de energia azul começou a crescer do braço esquerdo. Zatch agarrou a Chama da Chuva em estado disforme, e a puxou violentamente, criando um grande arco no ar. A Kusari-ganma tomou a forma em movimento, reluzindo em suas correntes cromadas e nas duas foices em forma de pata de falcão em cada uma de suas pontas. Eram três unhas da ave de rapina, embora apenas a do meio projetava a grande lâmina curva.

Enquanto Zatch segurava uma das extremidades, a outra serpenteou no ar e atingiu o braço do inimigo, fazendo-o soltar a faca e causando um corte razoavelmente profundo. Com uma torção, a corrente oscilou mais uma vez no ar, mudando a trajetória da foice e atingindo outro atacante que havia saído da roda e tentado se aproximar do Guardião da Chuva. Bastou apenas um puxão forte do estrategista para recolher a lâmina, e já abriu um talho no rosto do indivíduo.

O Vongola manuseou a arma selada de forma que a corrente passasse por de trás de suas costas, fazendo um meio círculo, enquanto agora cada uma das mãos segurava as foices. Baixou os braços novamente e abriu o arco dos pés, a corrente deslizando pelos dedos enquanto observava os feridos incrédulos e desnorteados. A platéia assistiu quase hipnotizada àquele show de habilidade sem igual. Firmou novamente os punhos, segurando nos elos enquanto a corrente ficou justa em suas costas. As lâminas da Mergulho Súbito pendiam no ar, oscilando afiadas de um lado para o outro.

O chefe havia desaparecido.

-Deixe-me ver. Um, dois, quinze, vinte um. É, já lutei contra uma multidão de roedores mais perigosa do que essa. – um reflexo azulado percorreu a arma de uma ponta a outra. — Preparem-se.

[3]

E a horda avançou de forma totalmente desordenada, entre urros e palavrões. De forma tão abrupta, que os membros da gangue acabavam por se acotovelar uns aos outros. Vinha de todas as direções, o que obrigou Zatch e virar o corpo e a cabeça para observar a própria retaguarda. Bem a tempo de ver uma imensa barra de ferro indo em direção a suas costelas.

Agachou-se rapidamente, colocando um dos joelhos no chão, e girou a corrente esquerda. O movimento repentino libertou os elos que estavam firmes as costas do rapaz, deixando-os no ar. Logo, foi apenas afrouxar os dedos para a foice romper o ar como um míssil, passando por entre as pernas do atacante enquanto ele errava o golpe horizontal. Olhou para baixo, preparando para uma nova investida, quando Zatch urrou pelo esforço e travou o músculo, recuando a lâmina lançada novamente para perto de si.

Pequeno detalhe. Ela havia se enroscado no tornozelo de um infeliz.

Foi apenas um puxão e o homem caiu, derrubando mais três em meio ao desespero para evitar a queda.

O Guardião da Chuva então largou a corrente e usou a foice que estava na mão esquerda para cortar o tendão de Aquiles do homem que estava à sua frente. Muito sangue jorrou no concreto, enquanto a barra de ferro caiu no chão e o estrategista se movimentou ligeiramente para o lado, afrouxando o aperto que ainda estava no tornozelo do caído mais à frente.

Havia sido um movimento tão veloz que muitos inimigos não visualizaram a movimentação dos elos de prata.

Zatch deu novamente um puxão na arma selada, enquanto se erguia e emendava um chute rotatório no rosto de um oponente, erguendo a perna para o alto. O corpo funcionou como uma engrenagem, puxando a foice distante novamente para perto de si. Claro que no caminho desgovernado, ela foi causando uma série de cortes em quem estivesse por perto.

Enrolou parte da corrente na mão esquerda, deixando menos espaço de folga entre as duas lâminas da Mergulho Súbito, o que fez os elos ficarem tensos. Quando parou novamente, os cabelos loiro-queimados caíram sobre o olho esquerdo, deixando apenas a pupila direita à vista.

Um olhar calmo, analítico. Um caçador satisfeito por encontrar ali um número farto de presas, que poderia abater sem remorso.

Dois avançaram para tentar um ataque frontal. O Guardião da Chuva deu um passo para o lado, esquivando de uma estocada frontal com o facão de caça. Jogou a foice da mão direita de forma pendular, de forma que os elos prateados da corrente se afrouxassem e envolvessem em uma volta o braço do marginal. Antes que ele forçasse a kusari-ganma para se livrar do aperto, Zatch deu um forte puxão para baixo, ao mesmo tempo que erguia a perna dobrada.

Um estampido surdo e o joelho do rapaz atingiu com força a cabeça do homem, que curvara o tronco com a técnica do Vongola. O estrategista então rapidamente se jogou com as costas no chão, enquanto um machado de incêndio passou a centímetros do seu ombro, e colocou o pé direito sobre o abdômen do homem que acabará de ferir. Soltou o braço dele, no exato momento em que o arremessava com violência pra cima das massas.

Com as costas rende ao solo, segurou no cabo das foices e forçou os próprios cotovelos contra a corrente da arma selada, de forma que elas ficaram rijas na extensão de seus braços. Assim pode defender de dois pés de cabra que tentaram lhe acertar o peito. O impacto fez o metal cromado da Mergulho Súbito marcar a pele do estrategista e ele trincou os dentes de dor, mas suportou os golpes. Fincou então as pontas afiadas das lâminas nos pés dos agressores, atravessando os calçados e trespassando a carne como se fosse papel. Gritos de dor, enquanto o Guardião da Chuva pegou impulso com as pernas e se ergueu.

Pulou mais uma vez para trás, puxando a corrente e soltando as foices. Os homens caíram no chão, tentando estancar o sangramento enquanto choramingavam. Gotículas vermelhas, abundantes nas afiadas superfícies curvas e prateadas, ganharam o ar noturno e mancharam em alguns pontos as vestes do estrategista.

Os inimigos começaram a se dispersar, vendo que estavam mais se atrapalhando naquela formação em grupo. Zatch acompanhou a movimentação de alguns, enquanto novamente passou a corrente por de trás das costas e começou a rodar as duas foices em alta velocidade.

Estava ciente que, a cada minuto que passava, o trem se distanciava cada vez mais. E que, provavelmente, Kiba estaria fazendo algo desnecessário e espalhafatoso. Não gostava de recorrer às Chamas com pessoas comuns, mas aquela era uma situação crítica.

A Chama da Chuva, de um azul vibrante e aspecto vítreo como água, começou a emanar do centro da corrente até as suas pontas. Com o efeito da rotação, espirais reluzentes tomaram conta dos arredores do corpo do estrategista. Os delinqüentes se entreolharam, pasmos com aquela cena estranha e quase sobrenatural. Os cabelos de Zatch balançavam conforme a dança das foices, e seus olhos castanho-escuros reluziam o espectro de energia.

-Revoada de Outono... – sibilou.

A energia azul formou espirais, se contorcendo contra as correntes e se concentrando nas duas lâminas gêmeas. A Chama da Chuva então passou a transbordar, fazendo com que a rotação deixasse um fino rastro incandescente em forma de linha. Quando o rapaz começou a desordenar as lâminas para diversos lados, movimentando os braços, parecia que ele estava sendo envolvido por diversos feixes azuis quase transparentes como água.

Sem o chefe para dar as ordens, os membros da gangue ficaram confusos no primeiro momento. Zatch então resolveu tomar à ofensiva. Levou a perna esquerda para trás, flexionou-a para pegar impulso e saltou. Ao ar, conseguiu observar com a visão periférica que alguns inimigos estavam se movimentando em sua direção, manejando suas armas rudimentares. O rapaz então aproveitou a rotação e desprendeu a corrente dos dedos, deixando que a foice ganhasse o ar e aumentasse de velocidade pelo movimento. A corrente criou um arco de quase cento e oitenta graus, e a lâmina zuniu no ar deixando o fino rastro de luz em sua trajetória. Essa energia se dissipava poucos segundos depois, como se evaporasse.

Acertou em cheio o torso dos dois atacantes, talhando a carne e fazendo o sangue vermelho jorrar. E mal a lâmina passou, deixando o reflexo de Chama no espaço que percorrera, e os inimigos tombaram no chão quase que de imediato. Seus olhos estavam arregalados, e se movimentavam para todas as direções, a boca torta sem produzir nenhum som. Estavam completamente imobilizados. Tentavam movimentar o corpo, mas os músculos estavam pesados e sem força nenhuma para se levantar.

A propriedade da Chuva: serenidade. Era como se os corpos estivessem completamente sedados.

Mas a onda de ataques estava longe de cessar. Como um temporal que cai subitamente em uma tarde de verão, ele caiu sobre os inimigos. Zatch aterrissou um dos pés e logo girou o tronco, movimentando a mesma lâmina mais uma vez e a lançou para cima. Caiu, atingindo certeira a clavícula de um desavisado. Puxou a corrente e quebrou o osso do homem, quando outro sujeito golpeou o estrategista com um taco metálico e bastante pesado.

O Guardião da Chuva, dotado de uma imensa habilidade e uma agilidade perfeita, enrolou a corrente folgada no braço esquerdo, apenas executando um leve movimento giratório com o membro. Utilizou novamente como forma de bloqueio, mas o grandalhão já estava esperando por essa.

Agarrou a corrente da kusari-ganma, quase desequilibrando o rapaz, enquanto soltava uma sonora gargalhada e erguia novamente a arma branca. Pronto para desferir mais um golpe.

-Peguei você, fedelho.

Zatch encarou-o nos olhos, com a expressão calma e inabalável. Nem sequer alterou o tom de voz quando falou.

-Lâminas de Rapina.

A Chama da Chuva cintilou velozmente pela extensão da corrente e se projetou para fora, criando em cada elo uma réplica de pena de falcão rígida, voltada verticalmente. Elas trespassaram a mão do sujeito, que gritou ao receber o choque, que largou a Mergulho Súbito se afastando em largas passadas. Largou a arma rudimentar e segurou o braço que havia sido atingido, observando com os olhos vidrados a palma da mão. Aparentemente não havia nenhuma marca na superfície da pele, mas os músculos sofriam de espasmos violentos.

-Minha mão! O que você fez com a minha mão?!

Caiu de joelhos, enquanto Zatch manuseava as foices com habilidade. Suas lâminas riscavam o ar com linhas incandescentes, marcando a atmosfera com uma obra abstrata. Quando o homem se prostou à sua frente, o estrategista girou o corpo, enquanto levantava a perna. Bastou apenas um chute giratório, e o oponente beijou o concreto com uma feia escoriação na boca.

-Aquele que carrega a serenidade, levando os inimigos da família para longe como uma benção... – os olhos castanhos reluziram, enquanto mais três inimigos se aproximavam pelas costas do rapaz. – Eu não destruo, neutralizo. Não crio perdas, apenas anulo os fatores. A vida se baseia em cálculos e em leituras, tudo que preciso é apenas interpretá-los para chegar ao resultado perfeito...

Deixou as correntes se desprenderem do antebraço, segurando uma das mãos na foice esquerda e a outra na metade da extensão da corrente. A lâmina riscou o ar, deixando seu rastro de energia azulada, quando o Guardião da Chuva enterrou sua ponta no vão entre a quinta e a sexta costela de um dos vândalos, dando um forte puxão para que ela penetrasse na carne e ficasse rígida. O seu urro de dor tirou a atenção dos dois comparsas de cima do Vongola, que correu na direção deles e lhes passou por trás, prendendo-os com a corrente prateada e espremendo-os uns contra os outros.

-Torrente do Verão...

A Chama da Chuva acumulada nas lâminas da Kusari-Ganma cintilou, assim como a água espelha a luz do sol em dias de Janeiro, e se infiltrou nos elos prateados. O metal tornou-se momentaneamente azul, antes de toda aquela energia acumulada ser repassada para os corpos presos. Eles receberam um choque violento, entrando em convulsão e espumando pela boca de forma febril. Zatch precisou apenas de um puxão para libertar a foice e recuar novamente a arma para si, tirando o apoio dos derrotados e os deixando cair no sólido como sacos de carne sem vida. Uma exposição tão violenta de Chama da Chuva como aquela era suficiente para deixar uma pessoa em coma por algumas semanas.

Novamente retomou o cabo da arma entre os dedos, apertando-o sutilmente. Passeou o olhar pelo campo de batalha, onde agora só havia feridos. Inconscientes.

Outro detalhe sobre a Revoada de Outono. Conforme as lâminas se movimentam, vão deixando rastros de Chamas da Chuva, que ficam “transbordando” devido à grande quantidade enclausurada em um lugar só. As linhas ficam no ar brilhando por algum instante, depois desaparecem sem deixar vestígios. Elas se dissipam em partículas menores, invisíveis a olho nu. Porém elas continuam com a força ativa por mais alguns minutos em pleno ar. Criam então uma “cortina” ao redor de uma área próxima ao manipulador, como se o ar ficasse mais denso.

Ao entrar em contato com outra pessoa, as partículas são rapidamente absorvidas. Um usuário de Chama, que possui o corpo já acostumado com o fluxo intenso de espectros de onda, vai apenas sentir o corpo ficar cansado de forma bem mais acelerada após vários minutos. Mas para uma pessoa comum, é praticamente uma overdose. Mesmo os que se mantiveram apenas na região periférica do embate, caíram ao chão, sonolentos, e desabaram em um sono profundo.

Não havia mais ameaças, então o estrategista relaxou a respiração e o os ombros. Sentia o peso incomodo nos músculos pelo uso prolongado das Chamas. Entre os Guardiões, era o que possuía a menor reserva interior dentro de si. Mas se orgulhava do fato de ser o único a usar de forma consciente e com cem por cento de aproveitamento. Sua atenção voltou aos trilhos. Não havia mais sinal do trem que partira, nem sequer no horizonte.

Gritou um palavrão, quando jogou a arma selada no ar. Com um clarão azul, ela se tornou o belo falcão de penas brancas, com exceção das eriçadas e azuis que ficavam no topo da cabeça. O bater de suas longas asas fazia o ar ao seu redor tremeluzir, enquanto seus olhos negros e penetrantes observavam o próprio dono.

-Siga os trilhos e encontre o trem!!! Auxilie o Guardião da Tempestade caso for preciso! Fui claro?!

A ave soltou um estridente som, confirmando com a cabeça, e virou o corpo para voar em disparada pela escuridão da noite. Zatch então voltou para a direção contraria, caminhando com passos rápidos na direção de respostas.

O novato ainda estava sentado debaixo do arco da porta, abraçado aos próprios joelhos, o queixo encostado também sobre eles. Dormia. Havia sido influenciado também pelo efeito da arma do Guardião da Chuva.

Não havia tempo para gentilezas. Tinha que descobrir o que havia naquela locomotiva, e não tinha tempo a perder.

Pegou o rapaz pelo colarinho e o levantou com violência, fazendo um imenso esforço. O indivíduo acordou assustado quando suas costas bateram na parede das instalações, e ele ficou branco feito papel ao ver os olhos castanhos do estrategista lhe encararem logo abaixo da luz que havia sobre o arco da porta. Os cabelos ondulados de Zatch estavam parcialmente colados sobre sua própria testa, suor proveniente do pequeno exercício que ele realizara. Isso só servia para deixá-lo mais amedrontador.

O rapaz tentou escapar, mas o estrategista o empurrou mais uma vez contra a parede sólida, causando um baque surdo. O indivíduo estava tremendo de pavor. O Guardião da Chuva ergueu os punhos que seguravam a gola, apertando o pescoço do encurralado.

-Sensatez é uma das virtudes que eu mais admiro em um ser humano. Sugiro que você use-a, ao contrário de seus colegas ali. – fez um gesto para o lado com a cabeça, indicando os corpos desfalecidos rentes ao concreto. Os olhos vidrados do novato pareciam que iriam saltar pelas órbitas. – Então, o que havia naquele trem e onde está o espadachim?

Afrouxou o aperto e deu dois passos para trás, se afastando. Sabia que não havia mais necessidade de empregar força ali: o terror psicológico já estava instaurado naquela mente fraca.

O novato massageou o próprio pescoço, a mão visivelmente trêmula. Gaguejou algumas vezes devido ao nervosismo da situação, sem conseguir tirar os olhos dos outros marginais que se mantinham inconscientes.

-A gente tava no bar... Bebendo e arrumando briga, como sempre... A mulher veio então, aquela gostosa. Os rapazes começaram a se engraçar, falar coisas grosseiras, provocar. Sem respeito nenhum. Até o Navalha relar no cabelo dela... – a voz dele se perdeu, como se ele estivesse mentalizando a cena do ocorrido novamente. Piscou fortemente algumas vezes, e só então finalmente pode voltar a olhar para o estrategista. – Ela quebrou o braço dele com um movimento muito foda, parada estilo Bruce Lee, ‘tá ligado? Ai todo mundo queria bater, gritando muito alto... O Chefe acordou e apareceu do segundo andar... Ela foi falar com ele... E propôs a “parada”.

Foi deslizando as costas na parede, até cair sentado no chão. As duas mãos seguraram firmes em tufos de cabelo, quase arrancando-os, enquanto ele continuava a falar tudo o que sabia.

-Uma porrada de grana fácil, ela disse. Apenas manter os funcionários da via afastados, ela daria um jeito na polícia. E, qualquer pessoa que invadisse de fininho, não poderíamos fazer nada, apenas esperar que eles entrassem no trem. E então puxar a alavanca. Mas ai... Eu me antecipei... E agora o chefe vai me matar.

Mas quando o novato ergueu os olhos de novo, o estrategista já tinha virado as costas e saído andando em direção aos trilhos em passos apressados. O jovem se levantou, confuso e berrando, enquanto corria atrás do Guardião da Chuva.

-Onde você está indo?! – urrou a voz esganiçada, enquanto os pés desviavam dos companheiros desacordados. Chutou sem querer a costela de um deles, praguejando baixinho enquanto ouvia o ganido de dor. Sangue coagulado havia sujado a ponta de sua bota. O Guardião da Chuva estacou, virando parcialmente o corpo, enquanto encarava friamente o seguidor.

-Preciso ajudar o espadachim. Pressinto que ele vai se meter em encrenca, pra variar. – disse calmamente, e já estava pronto para tomar seu caminho quando o franzino já estava próximo de si.

-Mas, assim, do nada?! Nem vai sair no braço comigo, trocar uns socos, algo assim?

-Isso é completamente desnecessário. — Zatch se virou de novo, revirando os olhos. Cruzou os braços, passando o olhar de cima a baixo sob o corpo do novato. Era nítido que ele não tinha a menor aptidão física de um combatente. – Você não me agrediu, e está com medo demais para sequer tentar fazer isso.

O rapaz iria argumentar algo, mas se calou ao ouvir as palavras finais do Guardião da Chuva. Baixou o olhar, chateado.

-Só... Não queria dar motivos pro chefe brigar comigo de novo, ‘tá ligado? Vai parecer que eu fugi, na hora da luta, como um covarde... Como s....

O mundo girou, quando ele recebeu em cheio uma cotovelada na boca por parte do estrategista. Cambaleou para trás e acabou trombando em um dos feridos, o que fez cair no chão. O lábio começou a sangrar, enquanto o novato tentava focar a vista borrada, estatelado no chão. Lágrimas de gratidão começaram a se formar em seus olhos.

-Seus colegas estão inconscientes e sedados, devido à técnica da minha Chama da Chuva. A dor foi drasticamente reduzida, e o fluxo de sangue também está mais lento que o normal. Assim, as feridas mesmo mais graves podem ser facilmente tratadas e nenhum deles sofre risco de vida. Quando puder ligue para uma ambulância ou chame os bombeiros... Sei lá...

Zatch se virou bufando, encarando os trilhos que se estendiam à sua frente e desapareciam na escuridão.

-Só detesto ver homens fracos tentando parecer fortes.

Então, uma forte luz arrebatou seu rosto, obrigando-o a proteger os olhos escuros com um dos braços levantados. Falou um palavrão, ficando sem ação por alguns segundos, tentando entender o que era aquilo.

Tudo estava sacolejando, as paredes iam e vinham conforme a movimentação do vagão vazio. O interior era quase escuro, apenas iluminado pelos fachos momentâneos e artificiais das luzes que provinham de fora e adentravam nas fendas horizontais. Demorou um tempo para o rapaz se acostumar àquele balanço todo, era difícil firmar as pernas e se manter de pé. Ainda sim, algumas vezes seu tronco era jogado para frente com tanta violência que a katana longa de duas mãos era tida como necessária para se apoiar.

-Puta que pariu.

Seus olhos claros percorreram os arredores. Estava completamente vazio, assim como o anterior no qual Kiba havia pulado para dentro. Antes do trem dar a partida. A força da tração o derrubara no momento em que as rodas começaram a se movimentar, e quando ele havia se levantado novamente a velocidade já era grande demais para se saltar para fora. Iria capotar contra o chão maciço e quebrar pelo menos um terço de seus ossos.

Confuso, tentou primeiro entender o que havia acontecido: Zatch fora porta à dentro, e o rapaz pensou ter ouvido um eco metálico vindo através daquele grande caixotão de chapas metálicas. Deu um passo na direção do vagão, percebendo que havia um meio de adentrar em seu interior, mas relutou por um momento. Talvez fosse mais prudente esperar o estrategista voltar, discutir um plano de ação e só então proceder com cautela...

Deu um cascudo forte na própria cabeça, produzindo um baque surdo e fazendo uma careta, quando novamente voltou a caminhar. Deixou a bolsa que guardava a katana longa cair no concreto, enquanto segurava firmemente a bainha da arma branca. Subiu com certa dificuldade para dentro do espaço.

E agora, menos de quinze minutos depois, estava completamente só em um trem em movimento passando de vagão em vagão. O espadachim estava tentando chegar até a locomotiva, onde acreditava que deveria haver um dispositivo para refrear o trem, embora não fizesse a mínima idéia do que fazer quando chegasse lá. Na verdade, apenas uma coisa zumbia irritantemente dentro de sua cabeça.

A voz do Guardião da Chuva falando um milhão de palavrões.

-O Zatch vai ficar muito puto comigo...

Chegou ao final de mais um vagão e forçou a alavanca para baixo. A pesada porta provocou um rangido de ferro já gasto e Kiba a puxou para trás. Imediatamente, como tinha acontecido nas outras duas vezes, uma corrente de vento absurda e gelada abateu sobre seu rosto. Os cabelos escuros, rebeldes e crespos, foram arrematados com a força da rajada e começaram a se remexer para todos os lados, inclusive com algumas mechas indo sobre a linha dos olhos do rapaz.

Mas ele já estava preparado para isso. Agarrou com força a alavanca e firmou as pernas. Arrastou lentamente a sola do tênis até sentir que havia chegado à beirada, onde apenas um elo conectava os dois vagões. Abaixo, apenas os trilhos passando velozmente, iluminados por faíscas aleatórias soltas pelas rodas da composição.

Levou a outra perna para frente em um arco exagerado. Os olhos ainda não conseguiam enxergar nada, então ele tinha que calcular a diferença do espaço com o mesma distância que havia nos outros dois últimos vagões pelos quais havia passado. Soltou o ar dos pulmões devagar, quando sentiu que havia conseguido colocar o pé sobre a outra extremidade.

Então, um súbito solavanco criou um desnível entre as duas plataformas e Kiba vacilou. O corpo começou a envergar para frente e o espadachim começou a agitar os braços para tentar recuperar o equilíbrio.

A katana longa acabou por prender sua ponta em alguma extremidade da parede metálica. De imediato, o rapaz forçou os músculos do braço e utilizou a arma como apoio. O vento ainda açoitava o corpo de forma feroz, as calças jeans folgadas esvoaçavam nas canelas. Girou o tronco e levou a mão livre até a superfície gélida, tateando em busca da alavanca que abriria a porta. Quando a encontrou, fez tudo em um movimento só: forçou-a para baixo, desprendeu o ponto de apoio de seu enclave firme e jogou o corpo para frente, deixando todo o peso sobre o ombro para abrir a porta.

As pesadas dobradiças chiaram como gritos de dor e, se em primeiro momento ela demorou a se mover, repentinamente abriu por completo. O espadachim da Tempestade caiu de joelhos no chão da locomotiva, ouvindo a corrente de vento rugir às suas costas, apoiando a katana de duas mãos embainhada e com a lâmina enclausurada tocando o piso. Os braços nus estavam arrepiados, e o cabelo mais bagunçado do que nunca. As pálpebras ainda estavam fechadas, mas o rapaz sentia o estranho incomodo luminoso em seus olhos.

Abriu-os devagar e seu azul-cinzento refletiu as fileiras de luzes ligadas nos ângulos retos do teto do vagão, como poderosos holofotes. As únicas aberturas além a porta entreaberta eram as clarabóias no teto que serviam como duto de ventilação.

O rapaz se levantou e seu olhar ficou afiado. Os traços faciais ficaram rígidos e seus caninos apareceram de relance quando ele respirou de forma mais profunda. Encarava o outro extremo do vagão, encarava aquele sorriso provocante.

-Já estava me deixando impaciente, Vongola. – o timbre de voz suave fazia melodia com as palavras. Ela falava de um jeito engraçado.

-Veja por esse lado, véi, pelo menos você trouxe sua própria cadeira pra ficar sentada. – ele retrucou em resposta, os dedos torcendo a bainha com tamanha força que os tendões ficaram nítidos sob a pele.

A mulher estava ali parada à sua frente, sentada em uma antiga cadeira estofada e desgastada. Usava vestes negras, que faziam um contraste forte com sua pele demasiadamente branca. Um vestido com alças finas que realçava o busto, o decote coberto por um elegante xale negro ao redor do pescoço. A cauda longa descia salientando suas pernas cruzadas, deixando amostra apenas as botas de couro cano longa e com plataforma de vários centímetros. Os braços estavam envoltos por luvas que se estendiam da base das falanges até quase a linha do ombro, deixando os dedos e as unhas pintadas de negro à mostra.

A maquiagem em seu rosto era bem pesada, realçando seus traços angelicais. Os olhos verdes estavam envoltos de uma fina linha negra, deixando a cor extremamente vívida e as sardas ao redor em evidência. Os lábios finos estavam pintados em um tom vermelho provocante e o cabelo estava preso com um belo grampo de prata incrustado de pedras azuis, formando uma onda em sua nuca. As mechas azuis da parte da frente rosto escorriam soltas, levemente retorcidas, emoldurando sua expressão facínora.

-Deixe me adivinhar. Uma armadilha. – o rapaz deu alguns passos para frente. A movimentação do trem não deixava seus passos completamente seguros.

A mulher sorriu complacente. Uma ninfa ainda, não deveria ser mais velha do que o próprio espadachim da Tempestade. Os olhos aguçados dele puderam verificar que havia algo preso na parte de trás da cadeira, ainda que ele não soubesse identificar o que era.

-Oui, admito que foi um plano um tanto... Bobo, cherry. Mas, você ainda está aqui, não está?

Kiba frisou os olhos, compreendendo de onde provinha essa forma engraçada dela falar. Mas que meleca de sotaque francês era aquele? Ainda que fosse, o jeito que ela falava era extremamente familiar...

O espadachim demorou alguns segundos para retrucar.

-Eu sou um imã de armadilhas. Sabe, elas... Hã... Simplesmente caminham na minha direção. Portanto eu cansei de tentar evitar.

-O jeito que você fala o “R”... Você não é daqui, não é? – esperou pela resposta por algum tempo, mas o rapaz parecia não estar tão solícito assim para participar de uma conversa. – Vamos lá, um pouco de conversa não faz mal a ninguém...

O espadachim deixou um dos pés apoiado mais à frente e estendeu ambos os braços. Uma das mãos segurava o cabo da katana, enquanto a outra ia lentamente desembainhando a mesma. O metal forjado da lâmina começou a reluzir enquanto era libertado pelas mãos do Vongola.

-Sabe o que dizem sobre os homens... – a bainha saiu completamente da extensão da lâmina, e ele a jogou para trás. Deixou o braço que segurava a katana cair lentamente para baixo, enquanto o tronco envergava levemente. As mechas escuras do cabelo caíram sob a linha de seus olhos, os músculos dos seus braços ficaram rígidos. Deixou a outra mão escorregar também ao cabo da arma, enquanto a moça contemplava a cena sorrindo. Era fácil reconhecer uma postura de ataque tão óbvia. Mas vários metros separavam ambos. -Somos péssimos ouvintes.

-Non non non, acho que você non está fazendo isso certo, cherry. Não pode simplesmente vir correndo em minha direção brandindo uma espada e achar que vai conseguir me acertar.

Como uma labareda, a Chama da Tempestade se alastrou desde a lâmina até a prancha da arma de corte. Seu brilho voraz e de intenso vermelho iluminou todo o vagão, projetando sombras nas paredes e deixando os contornos do corpo do rapaz ainda mais acentuados, inclusive a marca negra, agora quase disforme, em seu ombro esquerdo.

-Pense duas vezes.

Os olhos verdes ficaram arregalados.

-Garou Ryu, Presa da Lua Crescente!!! – vociferou o rapaz, movimentando com força e precisão a espada em um movimento de arco para cima com as duas mãos.

As Chamas se desprenderam da arma e criaram uma imensa crescente, avançando em combustão velozmente na direção de Jéssica. Quando alcançaram o outro lado do vagão, queimaram de tal forma que ficaram incandescentes, a luz tão forte que deixou Kiba sem conseguir enxergar por alguns segundos.

O tom vermelho bruto foi se dissipando em pleno ar, e a nuvem de poeira criada pelo impacto também. Havia sido aberto um rasgo na lataria, rodeada por uma gigantesca marca de fuligem, e a cadeira havia sido reduzida a destroços.

Kiba baixou a espada, sentindo o solavanco do trem trespassando seu corpo em espasmos violentos. Segurou a arma em posição neutra, enquanto mantinha o olhar fixo.

-Você é rápida. Considerando que escapou de um ataque de larga escala em um ambiente de menos de dez passos de largura... – a voz arrastada do espadachim estava mais séria do que o de costume, mais seca. Não era mais o espalhafatoso e despreocupado conhecido pela família Vongola.

A moça o encarava, com a expressão indecifrável. O rosto estava analítico, mas havia certa fome cruel naqueles olhos verdes. A borda da cauda do longo vestido estava com vários buracos e pequenos resquícios de Chama da Tempestade queimando lentamente, prova de que a roupa havia resvalado no golpe de Kiba. Segurava entre os dedos algo comprido e fino, escondendo atrás das costas, sem que o moreno conseguisse distinguir o que era. Mas era muito parecido com o que havia atrás da cadeira minutos antes.

-Há quanto tempo não vejo um céu tão cheio de estrelas...

As palavras dela fizeram uma corrente elétrica passar por todo o corpo do rapaz. Ele ficou chocado, sem acreditar no que acabara de ouvir, até que a realidade o trouxe de volta. Os dedos apertaram com mais violência o cabo da katana.

-Elas sempre estarão lá, para aqueles que buscam sua orientação... – ele frisou os olhos azul-cinzentos, com uma expressão agressiva. – Você conhece o Código.

Um sorriso extremamente sedutor surgiu no rosto daquele anjo diabólico. Com um puxão, ela rasgou parte da cauda já semi destruída, revelando as fortes pernas bem torneadas e a cinta-liga negra. Suas botas altas se movimentaram sobre o piso feito de chapas de metal, enquanto ela revelava o que estava carregando: uma espada curta, oriental e de dois gumes, de uma coloração azul metálica muito bela.

-Treize. É o número marcado ai no seu braço, cherry? O “Amaldiçoado”.

Kiba soltou o ar, baixando a espada e relaxando um pouco os músculos. Nada havia mudado: a mulher continuava inimiga, ainda que também fizesse parte do Priorado. Mas sabia também que havia certas etiquetas que ambos deveriam seguir a partir de agora.

-E o seu? Se é que você realmente é um Cavaleiro...

De imediato, a moça levou a mão ao xale que cobria o próprio pescoço e o puxou delicadamente, revelando o decote. A tatuagem dela não era tão grande quanto a do próprio espadachim, e era difícil enxergar qual de fato era o número com as luzes precárias do vagão.

A mulher pareceu que entendeu o recado.

-O número que representa a força e a paixão, número Oito.

“O Estandarte. Assim como Zenáculo me informou...”

Ela então levou um dos dedos à frente dos lábios pensativa. O trem remexeu bruscamente mais uma vez, e ambos tiveram que firmar as pernas para conseguirem se manter no lugar. Por fim, a mulher cruzou os braços, sorrindo.

-Você é do Sudeste, não é? O sotaque é realmente parecido, cherry. – Kiba não respondeu a pergunta, apenas deixou o olhar fixado sobre ela. — Oui, acho que isso responde a minha pergunta.

A mulher diminuiu a distância, e o rapaz ergueu a espada novamente na defensiva.

-Katana longa, Chamas da Tempestade. Você deve ser o Guardião espadachim, não é?

Ele ergueu os ombros, pura expressão de escárnio.

-Não, cara errado. Sou apenas um simples espadachim mesmo.

A mulher arqueou a sobrancelha, sem tirar o sorriso dos lábios.

-Simple é uma coisa que está longe de ser uma característica sua, Amaldiçoado. Tatuagem com algarismo romano no braço, uma espada de duas mãos... É engraçado que é uma descrição que não bate apenas com o Guardião da Tempestade Vongola... Como também com o líder dos Bandanas Negras, do Sudeste.

Mais um momento de silêncio.

-Você é a segunda pessoa em dois dias que me fala algo parecido. –Kiba coçou o pescoço e olhou para o lado por um momento, desconcertado. –Acho que tenho um rosto comum, sei lá. Sabe como é véi, ta virando moda ultimamente carregar um espadão por ai...

Ela deu uma gostosa gargalhada, abafando com as costas da mão livre. Insuficiente para dissipar aquele clima de combate eminente. Ainda que ambos não estivessem adotando posturas agressivas, qualquer sensitivo sentiria as Chamas se agitando dentro dos corpos, como um animal que espreita prestes a atacar.

-Conheço sua história também, garota. Correm boatos que você deixou um dos Sentinelas em estado de semi-morte, apenas para tomar o seu lugar... – o rapaz disse com os dentes trincados.

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-Oh non, fui descoberta... – ela mordeu o lábio inferior, fingindo vergonha pela revelação da verdade. Ergueu a espada chinesa, que também estava embainhada e a colocou a frente dos olhos, como se avaliasse a arma com carinho. – Oui, está certo.

Kiba não conseguia afrouxar o aperto dos dedos que enlaçavam o cabo da própria arma. Estava forçando tanto os músculos que a lâmina tremia fracamente em riste. Lembrou-se das palavras que seu próprio Mestre o havia advertido, naquela mesma manhã.

Parece que uma Iniciada destruiu completamente um dos homens de confiança da família Gallardo para tomar seu lugar... Não sei quais são as reais intenções dessa estranha, mas suas ações estão mexendo com os nervos de pessoas influentes dentro do Priorado. Eu não sei o que isso significa, Kiba, apenas posso lhe afirmar uma coisa”.

Ele soltou o ar lentamente, lembrando das instruções claras deixadas por Zenáculo.

“Não tente enfrentá-la e meta o pé o mais rápido que conseguir”.

-Em que nível você está, Cavaleiro? – a pergunta dela, tão imprópria para a situação, pegou Kiba de surpresa por um momento.

Ele engoliu em seco.

-Você sabe a sina de um Amaldiçoado. E do que eu preciso fazer para me tornar um Mestre.

-Então hoje é seu dia de sorte, cherry. Não sendo nem um Mestre e nem um Guardião, não há razão nenhuma para eu lhe matar. Mas entenda... – ela fez um movimento repentino, fazendo a lâmina cortar o ar com um zumbido. — Terei que pelo menos fatiar algumas partes da sua roupa para dizer que “lutamos”.

O espadachim da Tempestade arregalou os olhos, fazendo uma cara de espanto tão clara quanto à água. A seriedade de sua voz falhou por um momento, e ele falou do mesmo jeito enérgico que era de seu costume.

-Comé que é?! Ta de sacanagem comigo, irmãozinho? O que você quer dizer com isso?!

-Eu não estou interessada nesta guerra travada pela Gallardo. Que se dane aquela chienne e seus joguinhos estúpidos de poder. Estou apenas neste cargo de Sentinela a fim de me aproveitar da influência e dos contatos para meus reais objetivos... Matar todos os Mestres do Priorado.

A tremedeira nas mãos do rapaz cessou por completo. Sua respiração ficou pesada. E antes que Jéssica pudesse dizer mais alguma coisa, a longa lâmina da katana foi manejada verticalmente na direção dela. Os reflexos da estranha eram ágeis, e ela conseguiu se esquivar do golpe dando um passo para o lado e envergando o corpo. Mas o fio da lâmina girou noventa graus e Kiba moveu a arma lateralmente. Ela teve que usar a própria espada curta, em posição contrária e usando o antebraço de apoio, para barrar a lâmina.

O espadachim forçou o corpo contra ela e a moça cambaleou alguns passos para trás. Sentia o músculo doer pela pressão da força incomum daquele homem.

Ele jogou o corpo para frente. As armas tremiam devido ao conflito de forças. A jovem fazia uma expressão de dor e esforço, enquanto encarava os dois olhos azul-cinzentos. Refletiam uma fúria desigual.

-O que você quer dizer com matar os Mestres do Priorado? Perdeu a noção, mulher?! – a voz veio rugindo do fundo da garganta enquanto ele gritava. Precisou apenas de um último esforço e a empurrou para trás com violência. No mesmo instante, enquanto o corpo havia se deslocando para trás, a lâmina da espada dela foi saindo da bainha por completo. A desconhecida nem se deu o trabalho de recolher a bainha, deixando-a no ar, enquanto deu um pequeno salto para trás.

O braço havia ficado um pouco dolorido.

-Stupides... Não gosto de macular a lâmina de minha jian com sangue desnecessário. Mas você está pedindo por isso.

Kiba voltou a ficar em posição neutra, ainda que não conseguisse firmar os pés muito bem por causa do movimento do trem. Rapidamente, seus olhos passearam de um lado para o outro. Estava no centro do vagão, mas o espaço era estreito demais. Teria que tomar um imenso cuidado com a movimentação e ficar próximo a parede.

-Você fala na cara dura que vai matar integrantes da Ordem e quer que eu fique aqui de braços cruzados...?! Caô. Esqueceu completamente do juramento, não foi?!

Ela respondeu de forma ríspida.

-Você não sabe de nada, rapaz... Mas não irei poupá-lo se tentar atrapalhar meus planos.

A mulher respirou fundo e fez movimentos graciosos com os braços juntamente das pernas. Artes Marciais. Deixou a lâmina rija para frente, enquanto o outro braço mantinha-se dobrado próximo ao corpo.

Kiba também movimentou os braços, deixando a katana deitada na horizontal, rente a linha do central do rosto. Fechou os olhos por um momento e respirou fundo. “Estou sem arma selada, não sou mais um Guardião. Essa espada dela é muito peculiar, provavelmente já é a forma liberada... Não posso me conter. Terei que queimar toda a minha Chama da Tempestade contra essa mulher...”

Fagulhas rubras saíram da empunhadura da espada de duas mãos, antes do metal ser incendiado completamente pela energia devastadora. Mais uma vez seu brilho coloriu o ambiente em tons vermelhos violentos, iluminando inclusive a pele pálida da moça.

-Venha. – o sorriso de Jéssica era desafiador.

O espadachim berrou, dando um passo a frente e executando um corte horizontal. Imediatamente a mulher deu um longo passo para trás, esquivando-se por alguns centímetros e sentindo a lufada quente da energia degenerativa passar perto de seu corpo.

Jéssica emendou um chute, erguendo a perna esquerda e aplicando um golpe seco contra o ombro desprotegido do Vongola. O ataque dele havia sido um arco longo demais, tendo que projetar ambos os braços para completar o semi-círculo. Isso deixou a lateral do seu corpo quase completamente exposta. O impacto do golpe fez Kiba perder o equilíbrio por um momento, então o trem deu mais um solavanco.

O espadachim quase foi ao solo, cambaleando para o lado, tendo que apoiar a mão e a katana no chão para conseguir se manter em pé. Quando ergueu o rosto, já era tarde demais. A mulher lhe deu um segundo chute, agora frontal, que o acertou no meio do tronco.

As costas do rapaz foram violentamente de encontro à parede. Ele sentiu o ar ser expulso dos pulmões, mas não esmoreceu. Tentou golpear mais uma vez a mulher, mas ela era ágil demais. Conseguiu mais uma vez desviar da lâmina envolta de Chamas da Tempestade, e deu uma forte cotovela contra o braço do rapaz. A força dele se esvaiu, afrouxando os dedos do cabo da espada e fazendo a energia rubra perder força e se tornar apenas um eco fantasmagórico do que fora. O rapaz soltou um palavrão, até ela bater com a palma da mão livre sobre o braço atingido.

A katana teve a trajetória bruscamente alterada e flanqueou a parede de metal. A lâmina trespassou metade da superfície, ficando emperrada. Kiba tentou dar um puxão para libertar a lâmina, mas foi insuficiente. As Chamas se extinguiram, quando ele percebeu que elas estavam derretendo a liga metálica ao redor da arma e a prendendo ainda mais.

-Merda.

Jéssica avançou. O espadachim ainda manteve um braço estendido e segurando o cabo da arma, e usou o outro braço para bloquear outro soco da mulher. Mas ela já havia emendado uma joelhada contra seu estômago.

Por mais que o Vongola tentasse defender, a ofensiva era rápida demais. A Iniciada golpeava com socos e chutes, sempre um segundo adiantada do movimento de defesa dele. No último golpe antes de fechar a sequência ela, que carregava a espada virada ao contrário na mão esquerda, acertou em cheio o cabo no rosto do rapaz. Sangue respingou pelo chão, quando ele sentiu o lábio inferior ser ferido.

Um filete rubro escorreu do canto da boca do rapaz. Teve que se escorar na parede para não desabar, mas não pode evitar curvar o corpo por causa da dor. A mulher se afastou, girando a jian no próprio eixo e deixando a lâmina apontada na direção contrária ao próprio corpo.

-Sua técnica é grosseira, diria até mesmo vulgar... Sua espada é larga demais, o que lhe confere uma mobilidade travada, e você não tem nenhuma noção de combate corpo a corpo... Um típico espadachim, cherry. Se você perder a espada, está simplesmente acabado...

Kiba levou a mão ao local atingido pela joelhada. A dor estava lacerante, e ele ofegava forte com o rosto voltado aos próprios pés. Podia ver as gotas de sangue caindo lentamente no ar, manchando a estampa de seu tênis converse. Sentiu o dedo indicador dela sobre o próprio queixo, erguendo seu rosto, enquanto a lâmina mantinha-se apontada para o meio de sua testa.

-Igual a todos os outros Cavaleiros que já encontram... Tão confiantes com suas habilidades em armas que, quando se vêem em uma situação sem elas, não passam na verdade de ratos indefesos... Fáceis de matar...

A unha dela roçou na pele do rapaz, marcando-a, quando ela novamente recolheu o braço junto ao corpo. Seus olhos verdes se voltaram para a própria espada, admirando sua beleza.

-A primeira coisa que aprendemos na Ordem... “Sua espada é seu orgulho”. Essa é uma das máximas dentre os Cavaleiros... Mas você e os Mestres a vêem apenas como um instrumento genocida, algo para causar a morte... Olhe só para sua katana: a lâmina maltratada, cheia de marcas de combates anteriores... Compare com a minha, ornamentada e bela, praticamente imaculada. Não é uma arma: é uma dádiva de misericórdia...

-Orgulho...?

Ele endureceu o queixo, trincando os dentes. O sangue os estava manchando em um vermelho profundo. O músculo ferido se contraiu, os dedos que seguravam no cabo da Insólita ficaram cravados.

-Cê... É uma pessoa muito estranha garota... Dar um valor tão grande para o seu Orgulho... – respirou fundo. Já conseguia sentir mais firmeza nos pés. Estava pronto parar preparar um contra-ataque.

Ela arqueou a sobrancelha. Girou levemente o pulso, deixando a prancha da espada refletindo as lâmpadas toscas do lugar. Um brilho doentio trespassou o azul metálico.

-Oui, cherry. São estes os delírios de um homem morto?

-Não. Só acho essa parada de orgulho uma babaquice. Eu não me importo de destroçar meu orgulho... Para vencer uma batalha e ajudar meus amigos...

Ele forçou a espada, puxando o cabo em sua direção. A lâmina começou a sofrer a forte tensão, quando Jéssica percebeu o que ele estava tentando fazer, rapidamente manejou a jian para atacá-lo.

Kiba recuou e ergueu o braço, dobrando levemente o cotovelo. O corte na vertical raspou em sua pele e riscou a parede com violência. Aproveitando a chance, o rapaz colocou a outra mão para segurar a arma e a sola do tênis em uma das lâminas. Jogou o corpo para trás, usando o pé apoiado como contra ponto.

Um estalo.

Antes que Jéssica conseguisse acertar o Vongola, a lâmina da katana partiu. O embalo do trem, somado ao peso de Kiba, arremessou o espadachim para trás, fazendo-o cair no chão. Imediatamente ele dobrou as pernas e as jogou para trás, dando uma cambalhota dolorida, para se por novamente de pé.

Levantou-se como um bêbado em final de festa, mas estava novamente no combate. Os pontos atingidos pelos golpes dela ainda estavam doloridos, mas ele só via nisso um motivo a mais para continuar a luta.

Havia perplexidade no olhar daquelas belas íris verdes.

Na cabeça de Jéssica, não havia nexo nenhum no que ele acabara de fazer.

-Round 2... – o espadachim limpou o sangue que escorria do canto da boca com as costas de uma das mãos. – Vamos nessa.

[4]

Kiba avançou, agora segurando a espada quebrada ao meio apenas com uma das mãos. As Chamas da Tempestade novamente se acenderam ao entorno da lâmina, parecendo agora estar sendo consumidas com muito mais violência. Ele executou um corte horizontal, e Jéssica novamente articulou o corpo para se esquivar. Mas desta vez fora diferente.

Ela sentiu uma leve ardência na pele próxima a trajetória do ataque dele, e então encarou com o canto dos olhos o próprio peito. Logo abaixo, próximo ao abdômen, havia uma linha escurecida. Como se um ferro em brasa tivesse momentaneamente sido posto sobre o tecido.

“A Chama dele está mais poderosa?! Como isso é possível?!”

E antes que ela pudesse golpeá-lo, Kiba já havia retrocedido o ataque e tentava um novo golpe na vertical. A moça se viu obrigada a recuar um largo passo, incomodada com o calor infernal que agora emanava da lâmina.

-Antes... de usar a katana de duas mãos, meu estilo de combate se baseava em duas wakizashis em posições diferentes. São espadas curtas. Pelo visto, até os ratos podem ferir com suas presas, né véi?

Os movimentos estavam mais rápidos e a Chama da Tempestade, mais brutal. Com a mão direita, Kiba desenhava diversos cortes no ar em extrema velocidade, já que agora o peso e a extensão da arma agora lhe permitiam uma manipulação mais ampla. O espadachim ministrava golpes curtos e desordenados, deixando Jéssica a mercê de quase ser atingida. Ela se desdobrava e se movimentava agilmente para se manter o máximo afastada da lâmina, mas apenas o calor incendiário estava deixando marcas em suas vestes e queimaduras superficiais logo abaixo em sua pele.

Mas, em meio à onda de ataques incessantes da Tempestade, ela compreendeu porque a batalha havia tido essa reviravolta.

“A Chama não está mais poderosa, ele simplesmente está mantendo a mesma quantidade de queima do que antes... Porém, antes ele estava envolvendo uma arma de duas mãos... Agora, ela diminuiu mais da metade da extensão. Significa que a energia está mais densa e instável.”

O espadachim girou, após tentar golpear horizontalmente. Jéssica viu ali uma abertura, e projetou o braço para trás para aplicar um soco. Mas Kiba não parou a rotação e novamente ficou de frente para a garota, a katana quebrada levantada atrás de seu corpo pelo braço dobrado.

Um berro voraz e rouco surgiu das profundezas da garganta do Vongola, quando ele baixou o punho a toda velocidade e força para baixo. A mulher não teve alternativa a não ser bloquear com a jian, jogando lâmina contra prancha, usando a mão livre para apoiar na outra extremidade da espada.

O impacto foi fulminante. Jéssica foi arrastada alguns centímetros para trás. Kiba colocou a palma esquerda sob o braço estendido, forçando ainda mais a espada quebrada contra a adversária. Ela podia sentir a lâmina começando a superaquecer, enquanto as labaredas que escapavam daquela massa de energia instável corroíam partes do tecido da roupa dos combatentes.

“Ele deve estar sofrendo com esse calor infernal tanto quanto eu... Como não retrocede? Esse estúpido não tem medo de acabar morrendo?!”, pensou ela, tentando achar uma forma de se afastar dele. A brincadeira havia acabado por ali, a jovem precisava lutar sério se quisesse não se machucar mais com aquele lunático.

Sentiu os dedos arderem. Sua própria jian estava começando a ficar em brasa. Fechou os olhos verdes, concentrando-se. A safira atada à tira de couro estava escondida em um bolso interno de seu vestido, próximo as costelas. Achou que não haveria necessidade de usá-la, mas havia se enganado terrivelmente. Bastava incitar de forma simples sua própria Chama interior que o selo se romperia, o simples pulso causado pelo atrito das energias iria separá-los bruscamente. Isso daria chance de Jéssica empunhar sua arma selada e golpear, provavelmente de forma fatal, aquele inconveniente.

Bem, ela demorou mais pensando nisso. Porque quando ela reabriu os olhos depois dos poucos segundos de reflexão, seu corpo foi arremessado para trás com muita força. Observou incrédula, enquanto as mechas dos seus cabelos tingidos esvoaçavam no ar e o tempo parecia estar quase parando.

Kiba havia liberado a Chama da Tempestade de forma violenta, usando o fragmento da lâmina como catalisador. Isso causou uma micro-explosão, quase completamente direcionada para Jéssica. Ela, que estava aplicando uma força contra a energia envolta no aço, e que tinha o menor peso, foi quem recebeu a maior carga. Como seus dois braços estavam sendo utilizados para segurar a jian como defesa, eles foram jogados para os lados com o movimento do rapaz, deixando o peito dela completamente desprotegido. O tronco foi caindo para trás, sem que os pés conseguissem apoio.

Nesse meio tempo o Vongola aproveitou a chance e deu um passo à frente, flexionando os joelhos e se agachando com uma perna para frente. Segurou firmemente o cabo da espada partida com as duas mãos, levando-as para baixo da linha da cintura e próxima ao joelho que estava quase rente ao solo. Seus olhos azul-cinzentos fitavam a mulher nos olhos, com o sangue seco trincado próximo ao maxilar.

“Posição de rotação... Esse golpe... Foi o que derrotou aquele esquadrão inteiro...”

-Garou Ryu... – o murmúrio baixo e rouco parecia o anúncio da abertura das portas do inferno. A Chama da Tempestade voltou a irromper o ar, envolvendo a katana partida como uma praga, queimando tão violentamente que o tom vermelho estava quase se transformando em branco.

Um golpe definitivo.

Ergueu-se, usando apenas um pé de apoio e começou a rotação. Iria desprender as Chamas da Tempestade enquanto girasse o corpo, fazendo com que elas criassem um tornado expansivo. Jéssica estava completamente desprotegida. Se apenas a pressão causada por toda aquela inconseqüência havia lhe causado ferimentos leves, um golpe daquela magnitude seria...

-Uivo da Lua Ch...

O corpo do rapaz perdeu o equilíbrio. O vagão havia feito uma curva extremamente fechada para a direita. O rapaz, que dependia do apoio momentâneo o precário de apenas um dos pés, tombou para trás, e sua lâmina riscou o chão metálico liberando a Chama da Tempestade. Uma nova explosão rubra separou ambos.

Jéssica apenas caiu no chão e rolou até bater na parede, sofrendo algumas escoriações. O espadachim, por outro lado, voou contra o teto e bateu violentamente a lateral do corpo. Em seguida desabou no chão com todo o peso da gravidade. Os restos da Insólita lhe escaparam dos dedos, indo parar em algum canto obscuro do vagão.

A combustão ergueu uma nuvem de poeira, que demorou a se dissipar pelos poucos pontos de ventilação que havia pelo local. As marcas da batalha haviam se mantido, principalmente pelo Uivo mal executado. Rasgos acobertavam o metal, deixando o ar úmido noturno começar a invadir lentamente, junto com o assovio produzido pela velocidade.

Kiba tossiu violentamente. Sentia o corpo completamente moído e o ombro provavelmente estava quebrado. Nem de longe, havia quebrado seu recorde de tempo sem ferimentos. Algo quente escorria de sua cabeça, umedecendo seus cabelos crespos. O ouvido zumbia, e sua audição estava temporariamente prejudica.

A nuvem de poeira foi se dissipando, revelando a sombra que novamente se erguia de pé. Um brilho azulado emanava de sua mão direita coberta de fuligem e marcas de queimaduras de primeiro grau.

-“Amaldiçoado, aquele que alcança sua glória sob as asas da morte”. Você faz jus ao numero que carrega e a missão que lhe foi dada, Treze...

O espadachim tentou se erguer, mas os músculos não respondiam. Jéssica caminhou lentamente até sua direção. Os cabelos estavam desalinhados, as roupas tão carcomidas que era fácil identificar traços de sua lingerie. Havia certa rispidez na voz da mulher, mas nada que tirasse o sadismo de seu sorriso.

-Estou queimada, arranhada, suja e dolorida... Unchiffon sale... Mas nada disso vai se comparar ao estado que eu vou deixar depois de acabar com você completamente... – a luz azul nas mãos dela estava começando a tomar forma. Os pontos haviam se separado em dois em suas mãos.

Tudo que ele pode fazer foi assistir a aproximação dela, em passos vacilantes.

Então, um estrondo acometeu a lateral contrária de onde os dois se encontravam. Foi tão forte que sacudiu por completo o vagão, quase o tirando dos trilhos. A Sentinela cambaleou para frente, e a ativação da arma selada cessou. Ela imediatamente levou a mão à jian que estava presa às próprias costas, se virando para encarar o que estava ocorrendo.

Um arpão gigante havia trespassado a parede, no formato da ponta de uma flecha. Jéssica ficou sem palavras, enquanto Kiba arqueou uma das sobrancelhas antes de ser acometido por mais um acesso de tosse.

-Mas que...? – ela grunhiu, já irritada de como tudo havia saído do controle.

Então, o objeto se partiu em três, soltando o vapor de seu interior. Em seguida, começou a se separar lentamente, exercendo tamanha força que foi dobrando a parede e abrindo um buraco. O dispositivo ia se estendendo, os canos longos e lubrificados separando-se do centro, até criar praticamente uma porta na lataria do vagão.

Jéssica pode observar que aquilo estava conectado a algo.

Do outro lado, havia um imenso veículo emparelhando com o trem, ficando lado a lado, percorrendo a estrada paralela.

Um segundo chiado e o dispositivo se liberou do cabo que fora lançado, retrocedendo rapidamente a forma perfurante e caindo no chão até desaparecer de vista. Pela abertura, um homem literalmente aterrissou agachado, tendo os ombros sendo segurados por uma imensa ave de rapina.

O recém-chegado se levantou, segurando na borda de metal irregular. Seus cabelos castanhos esvoaçavam por causa do vento, parte dele lhe encobrindo parte do rosto. O falcão recolheu as asas, impassível, enquanto ele berrava a plenos pulmões para ser ouvido.

-QUANTAS VEZES EU TENHO QUE DIZER PARA NÃO SAIR POR AI SE METENDO EM ENCRENCA, CACETE?!

Notas finais
Oui - Sim
Non - Não
Cherry - Querido
Treize - Treze
Simple - Simples
chienne - cadela
Stupides - Idiota
Jian - Espada da indumentária de luta chinesa
wakizashi - similar a katana, porém mais curta. Utilizada como arma secundária ou no ritual de suicídio conhecido como Seppuku
Garou Ryu - Caminho do Lobo
Soundtrack 1: Cap 21
Hiji Zuru Style, da OST do anime Samurai Champloo
Soundtrack 2: Cap 21
Ro-Sham-Bo, da OST do cartoon Megas XLR
Soundtrack 3: Cap 22
Battle theme (versão guitarra), OST do RPG Final Fantasy VI
Soundtrack 4: Cap 22
Unavoidable Battle, OST do RPG Persona 3