Beyond The Bounds Of Sky

16 Capítulo 16 - A queda de Camelot


-Eu juro: quando eu sair daqui, vou atirar no seu traseiro, Ricardo.

O pugilista arqueou as costas suspirando e segurou a cabeça entre as mãos. A respiração ainda estava irregular e a adrenalina estava demorando para baixar no sangue, restando apenas para que o Guardião do Sol escutasse as reclamações de Sara ao seu lado.

Estavam lado a lado em uma pequena sala, sentados em um banco de concreto olhando um corredor escuro e mal iluminado do outro lado das barras de ferro. Ainda que estivesse falando palavrões a torto e a direito, o braço da Doku Sasori ainda tremia. Aquele dia conturbado estava acabando com seus nervos. Quando finalmente parou de falar de forma não tanto polida, ela encostou a cabeça na parede fria e encarou o teto com seus olhos castanhos.

-Ricardo... Será que o Yure ficará bem?

Não houve resposta de imediato. As mãos firmes e claras do rapaz primeiro desajeitaram o cabelo loiro curto e arrepiado, enquanto ele mantinha uma expressão de incerteza.

-Também gostaria de saber.

O coração de ambos batia descompassado. Mal colocaram os pés na Torre do Vigia e já haviam sido jogados para dentro daquela cela úmida, o Guardião ainda tendo a arma selada apreendida.

Bastaram os ecos de passos no corredor para que ambos se despertassem de suas preocupações. Sara endireitou o tronco e ficou com a expressão séria, a franja deslizando lateralmente pelo seu belo rosto. Ricardo se levantou e logo se posicionou a frente da amiga, os músculos dos braços rígidos como rochas.

E a silhueta esguia saiu da proteção das sombras, projetando seu corpo em meio as luzes foscas e amareladas. A mulher mantinha o capuz sobre o rosto, sendo apenas possível ver seus lábios contornados com um vibrante batom vermelho. Ela parecia levitar sobre seus saltos, e embora tivesse leveza e graça em seus movimentos, Ricardo e Sara não conseguiam relaxar de jeito nenhum.

A Sucessora emanava algo ameaçador. Algo que mesclava admiração e terror, beleza e opressão. Luxúria e morte.

-Creio que devo pedir que se acalmem, enquanto ainda averiguamos os fatos, Guardião do Sol e Doku Sasori.. –ela levantou uma das mãos e tentou abafar um risinho prazeroso com o pulso cheio de pulseiras. Era evidente que estava achando toda a situação um tanto interessante.

-Preciso saber como o Yure está. –a loira disse entre dentes, as unhas fincando nas próprias pernas tamanho a tensão. Parecia que estava prestes a enlouquecer, um passo de cada vez em direção ao precipício.

Então o pugilista fez um movimento drástico e girou parcialmente o tronco para trás, esmurrando a parede de aspecto antigo com força. Sara arregalou os olhos e encarou o rapaz sem entender nada. A mercenária estava prestes a soltar um dos seus delicados palavrões quando viu o sorriso de contemplação no rosto de Mariana.

-Mas que porr...?

-Ela pode mexer com nossa percepção e sentimentos a distância de uma forma assustadora... A técnica dela deixa o ilusionismo do Jô no chinelo...-Ricardo disse, com a mão fechada ainda encostada no ponto onde ele havia golpeado.

-E você, ao perceber que estava sendo afetado por minha Chama da Névoa, se colocou a frente da garota para ficar dentro do foco dela e golpeou a parede. A dor em sua mão causou uma carga nas sinapses do seu corpo e isso te libertou do começo de minha manipulação. Ao mesmo tempo, seu movimento brusco deixou a mente dela em estado de alerta por ter sido algo inesperado. E isto também a libertou de minha manipulação. –por uma fração de segundo ela levantou o rosto, deixando visível os olhos escuros penetrantes. – Fascinante.

Sara arqueou a sobrancelha. Ricardo por outra lado recuou o braço e segurou o punho, enquanto o girava para estalar a juntas.

-Não, eu apenas fiquei nervoso e resolvi socar a parede mesmo. –o pugilista retrucou quase de imediato. A loira fez um movimento de reprovação com a cabeça, mas era inegável que ela havia achado graça da cena pelo seu sorriso cínico. A Sucessora, por outro lado, ainda mantinha o ar de interesse. –Exigimos saber como nosso amigo está, agora!

Mariana caminhou sutilmente até próximo as grades que as separavam dos prisioneiros e segurou uma das barras firmemente

-Cuidado com o tom, Vongola. –repreendeu a Sucessora, perdendo qualquer traço de graça ou sutileza de outrora. –Eu sou a Portadora do Esquecimento, dentre os Sete Caminhos. Yure pode tratá-los como iguais, mas isso ao meu ver é heresia. Está é minha casa, seguindo as regras do Conselho de San Dracone, e vocês a invadiram sem qualquer pudor. E eu só estou pedindo um pouco de SILÊNCIO!!!

A cela emudeceu. Sara sentiu o sangue gelar quando uma nova torrente de terror invadiu sua mente. Ricardo também se calou, enquanto observava o corpo de Mariana completamente envolto em Chamas da Névoa, fazendo com que o ambiente ganhasse uma forte tonalidade índigo.

“Essa onda de Chama... É surreal...”, pensou o pugilista com os dentes cerrados. Pouco a pouco o fluxo de energia foi entrando em rotação lenta e declinando, se espalhando pelo chão na forma de milhares de aranhas que percorreram todas as direções até se apagarem.

O sorriso voltou para a face da ilusionista, ainda sendo insuficiente para dissipar a tensão.

-Seu Chefe está conversando com o Guilherme neste momento, e ele próprio indicou um médico capaz para resolver a ferida de seu amigo. O que lhes resta agora é esperar, Guardião do Sol e Doku Sasori.

E com os mesmos passos leves e sutis com os quais ela se permitiu chegar, Mariana voltou pelo mesmo corredor ao qual havia chegado deixando que sua silhueta desaparecesse na escuridão. Ao ver que estavam novamente sozinhos, Sara perdeu completamente o estupor que havia se apoderado de sua mente.

-Ok. Quando eu sair daqui, juro por Deus que vou atirar no seu traseiro e no dela, também.

O ronco do motor cessou, enquanto o brilho das incontáveis estrelas que se ostentavam no céu era obstruído pelas luzes artificiais da cidade. Carros transitavam pelas ruas principais próximas, enquanto a caminhonete estacionou a frente de um sobrado de aspecto antigo, igual a muitas outras como os da daquela região de morros e arvoredos. As janelas estavam fechadas e não havia sinais de movimentação na casa. No outro lado da calçada, um jovem casal de namorados passou andando comentando sobre o clima e sobre o estranho acidente com um automóvel, que ocorrera no shopping mais cedo.

Kamila batucou os dedos na direção, enquanto olhava pela janela para a residência. Mesmo que não quisesse demonstrar, estava difícil esconder o nervosismo que a acometia. Por outro lado a Guardiã da Nuvem estava com os pensamentos distantes, em coisas perturbadoras.

-Então, parece que não tem ninguém em casa... –a ruiva suspirou, encostando a cabeça no apoio do banco enquanto fechava os olhos. Minutos depois, reabriu o direito e encarou a amiga, estranhando não ter recebido resposta. –Karol?

A morena virou parcialmente o rosto, sem qualquer alteração na expressão.

-Hum? Disse alguma coisa?

-Você parece estar fora de órbita...E isso não é saudável para situações assim, você sabe.

Karoline respirou fundo, enchendo os pulmões de ar, e encostou a testa na janela de vidro. Pelo reflexo quase invisível, Kamila pode ver a Guardiã mordendo o lábio inferior.

-Novamente, estão nos caçando como animais. Yure está em estado crítico, e todos temos que lutar por nossas vidas... As vezes, eu amaldiçôo o dia em que todos nós concordamos em ser a Décima Geração.

A ruiva ficou em silêncio. Nunca havia conhecido alguém tão determinada quanto a chefe do comitê de disciplina, mas sabia que aquilo estava sendo barra demais para ela. Não havia nada mais importante para a Nuvem do que os Vongola, por isso foi a que mais sofreu com a separação, e por isso ela preferia resolver tudo sozinha e de forma independente: para que ninguém mais se machucasse. Kamila então desatou o cinto de segurança e passou o braço direito por trás do pescoço de Karoline, puxando-a delicadamente para perto e encostando a cabeça na dela.

Eram amigas a tanto tempo. Não, mais do que isso. Era fraternidade. Ela entendia a dor da Guardiã como se fosse sua. Sabia as palavras de conforto certas que ela precisava, mas antes que pudesse proferir qualquer coisa, alguém se pronunciou.

-Palhaçada.

Elas continuaram imóveis, mas as íris castanhas de Kamila se focaram para além da silhueta de Karoline. Ela observava parcialmente Kiba encostado na parte de lateral do carro, com os braços cruzados e olhando para cima.

-Vamos fazer como sempre fizemos: encontrar os imbecis, dar uns pontapés e voadoras bem distribuídas e mostrar qual é o real poder da Vongola. É inútil ficar nos lamentando pelo que já somos. –aquelas palavras tão cheia de significados, sendo ditas naquela voz com falta de seriedade preocupante, fizeram Karoline se recompor. Kamila se afastou dela, observando enquanto ela soltava o cabelo e arrumava a franja diagonal.

-Ainda não entendo como suas palavras podem ter toda essa eloqüência, afinal elas vêm de você, Igor. -O rapaz apenas respondeu com uma risada. A ruiva se limitou a sorrir. Karoline abriu a porta do carro, colocando uma das pernas para fora. –Não temos tanto tempo de sobra assim, vamos logo.

Kamila saiu logo em seguida e contornou o veículo. O espadachim manteve-se encostado na lataria lateral, observando o sobrado. Ela pode ver uma sobriedade preocupante naqueles dois olhos azul-cinzentos.

-Carregue minha espada por favor, Kamila. Ainda não consigo segurar nada direito nas mãos.

-Não vou permitir que lute nesse estado, aniki. –a Guardiã da Nuvem sentenciou, sem se virar, enquanto caminhava em direção ao pequeno portão de ferro que dava em direção ao abafado jardim em péssimo estado de organização.

O Guardião da Tempestade suspirou, enquanto a outra moça arqueou uma sobrancelha.

-Lutar? Pensei que estávamos aqui justamente para nos refugiarmos.

-Meu antigo mestre é meio... Surtado.

Ela pegou a longa katana na parte de trás do carro, e assim ambos seguiram os passos de Karoline. Dando uma rápida olhada para as mãos de Kiba, foi possível ver que ainda havia marcas de queimaduras feias e algumas pequenas escoriações. Os dedos estavam arqueados, imóveis.

-Está doendo?

-Hm...? Ah, um pouco. Mas já to quase acostumando. Ai depois fica suportável.

Subiram os curtos lance de escadas até a varanda da casa, onde a morena já esperava a frente da porta. Quando os três estavam ali reunidos, bateram a porta.

Uma, duas, três vezes. E não houve resposta.

-Eu disse antes que parecia não haver ninguém em casa. –Kamila suspirou, anuindo os ombros enquanto segurava a arma de corte com ambas as mãos e junta ao corpo. Mas os guardiões não falaram nada. Mais batidas na porta. E o som de passos começaram a ser ecoados de dentro da casa.

-Eu me resolvo com ele, fique tranqüila.

-Quer que eu lhe recite o estatuto do Priorado? Você sabe que ele não é obrigado a nos ajudar. –a morena cruzou os braços e começou a bater o pé direito no chão de forma impaciente. –Uma vez marcado, rompe-se todos os elos entre Cavaleiro e Iniciado.Você mesmo me disse isso, esqueceu?

-Eu sei, eu sei. Mas quero pensar que ainda posso considerá-lo um amigo.

-Claro, que bela amizade a sua. “Oi mestre,tudo bom? Escuta, como tem um exército no meu encalço pra me arrancar o couro, posso me refugiar aqui?”. Eu bateria a porta na sua cara... Com convicção.

-Você sempre arranja um motivo pra me bater com convicção.

A ruiva arqueou a sobrancelha enquanto o espadachim olhou para cima bufando. Os passos estagnaram do outro lado da porta. Os três voltaram a atenção para a porta de madeira branca, que com um clique surdo da trinca começou a se abrir em rangidos.

Kamila teve que se segurar para não rir.

Um homem magro, de altura mediana, encarou o trio em meio ao silêncio, piscando forte duas vezes com os olhos castanhos claros. O tronco levemente curvado estava encoberto por um roupão azul estampado com elefantes e no canto dos lábios havia um cachimbo de madeira escura que lançava bolhas de sabão no ar. As mãos estavam nos bolsos próximos do abdômen, enquanto o cabelo liso estava completamente desalinhado assim como a franja que deveria cobri parte do rosto. Porém, a atenção da ruiva não saía dos pés com as meias alaranjadas com as pantufas de coelhinhos cor-de-rosa.

-Mestre. –Kiba falou em um tom sério, completamente diferente de como era de seu costume. Ele abaixou levemente a cabeça em sinal de respeito, sendo copiado por Karoline em seguida. Kamila também o fez, sem retirar as mãos da espada do Guardião da Tempestade.

O homem tirou uma das mãos do bolso e levou até o cachimbo, o retirando da boca. As bolhas cessaram e ele arqueou a sobrancelha.

-Não é toda a noite que encontro dois Guardiões Vongola na soleira da minha porta, ainda mais junto de... Bem... Não sou mais seu mestre, Cavaleiro. Você já recebeu sua marca.

A morena apenas olhou com o canto do olho esquerdo para o irmão, com um sorriso ácido. O rapaz fingiu não perceber a ironia e continuou com os olhos azul-cinzentos focados naquele que o havia ensinado tudo sobre o que ele havia se tornado.

-Vim como um amigo, não como seu pupilo. Ainda que velhos hábitos não mudem nunca.

-Então creio que haverá tempo para uma bebida. Três anos e todos já somos de maior agora não? –o tom amigável se apoderou da voz do dono da casa enquanto ele virava as costas e se adentrava para o corredor escuro. –Você sabe o caminho, Igor. Leve suas amigas até lá enquanto eu tento parecer apresentável.

Os três não esperaram muito para atravessar a porta e fechada. Aquele era um corredor estreito, com um apenas um armário e uma cômoda com uma garrafa de Black Label e alguns copos finos. Ela chamou a atenção de Kiba em um lampejo de raciocínio, que fez um movimento rápido com os olhos para a ruiva. Kamila não entendeu de imediato, mas ao prestar atenção no gesto repetido pelo Vongola ficou confusa.

Traga a garrafa.

-Aconteceu algo? –Karoline, que estava mais a frente no corredor, se virou com os braços cruzados. Antes que houvesse a chance de uma réplica por parte da outra mulher, o espadachim se adiantou para que seus passos fossem seguidos.

-Esse lugar não mudou nada... Garotas, venham comigo.

As empregadas já estavam terminando o turno da noite, e apenas as luzes secundárias dos corredores estavam ligadas. Tudo estava com um aspecto sombrio, as sombras fantasmagóricas se projetando nas paredes. A secretária parou debaixo da porta do escritório, ajeitando os óculos, o cabelo ainda impecável mesmo após um dia inteiro de trabaho.

-Precisa de mais alguma coisa por hoje, chefe?

Do outro lado do cômodo com as luzes apagadas, os olhos azuis de Casagrande voltaram a atenção a moça. Ele estava atrás da escrivaninha, com uma pilha de pastas sobre a superfície de madeira iluminadas por uma grande luminária de luz fosforescente. O homem fez um movimento com a mão direita, de quem estava sendo interrompido em meio a algo muito importante.

-Pode ir Milena. Não precisarei mais de seus serviços hoje.

Ela curvou levemente a cabeça em sinal de respeito e deu meia-volta, indo em direção a saída.O líder da família Cavallone respirou fundo, retornando a atenção para os relatórios de seus espiões e informantes de toda aquela parte do estado. Eram dados perturbadores, sobre centenas de tropas de mercenários se movimentando junto de armas, suborno de governantes, corrupção na polícia.

Uma família com tanto poder e influência quanto aquela contra um bando de novatos e arruaceiros. Claro, o nome Vongola era lendário em todo o submundo, devido a 9ª Geração da família. Porém todo seu poder e influência ficavam restritos a eles, enquanto a 10ª geração havia começado sua caminhada do zero. Em contrapartida, por serem desconhecidos aos olhos do mundo, os Anciões viram ali a oportunidade de depositar suas esperanças e seus conhecimentos em um grupo de jovens que ainda tinham muito a aprender. Por isso eles receberam as Armas Seladas.

Uma brisa gélida atravessou o escritório, fazendo as portas gêmeas rangerem levemente. Calmamente Casagrande fechou a pasta, estralando os dedos das mãos. O silêncio pairava, mas ele sabia que era nele que se escondiam as anomalias mais perversas.

Levou a mão debaixo da escrivaninha na velocidade de um raio, e de lá retirou um revólver de um compartimento secreto. Engatilhou a arma, apontando para a escuridão.

-Não é muito educado se esgueirar dentro dos aposentos em que um homem se mantém lendo um bom livro. Saia das sombras.

Uma risada, clara e suave como cristal, saiu do desconhecido.

-Quanta indelicadeza, para quem veio fazer uma visita, Cavallone.

A mulher saiu das sombras, vagarosamente. Usava um casaco de couro negro, aberto até a altura do pescoço, com as mãos no bolso. O jeans era rasgado na altura dos joelhos, e as botas curtas ecoavam no piso. A pele clara contrastava com o tom escuro da roupa, e os cabelos tingidos de vermelho caiam por além dos ombros emoldurando o rosto da jovem, que rodeava a casa dos vinte. Seus olhos castanhos olhavam Casagrande com uma calma inabalável, ainda que tivesse um cano de 38 apontado para si.

-Seria educado me oferecer uma bebida. Embora eu prefira algo mais refinado, como um cappuccino.

O homem arqueou a sobrancelha, o braço ainda estendido com a arma na direção do meio do tórax dela.

-Sem cafeína para você, Gallardo. O que você veio fazer aqui?

Os olhos castanhos dela percorreram o ambiente, passeando pelas miniaturas e estantes de livros que se espalhavam pelas paredes. Ele se levantou, sem tirar o revólver da direção do alvo, os olhos cravados nela.

-Esfrie a cabeça. Eu vim apenas para uma conversa amigável. Não trouxe ninguém comigo. –a mulher voltou a atenção para ele, dando os ombros.

-Conversa amigável? Não me faça rir. Seus cães de caça atacaram uma família aliada minha hoje, sem contar na tentativa de assassinato de um dos Sucessores. Acho que já passamos do estágio de “conversa amigável” a muito tempo.

Ela se limitou a suspirar, passando a mão por uma das mechas que desciam pela lateral do rosto. Realmente, não estava muito afim de uma conversa.

-Onde eles estão, Cavallone? E seu envolvimento nesta batalha será apenas está única resposta. –ela o encarou, tirando as mãos dos bolsos da jaqueta, revelando as unhas pintadas de negro. Tinha três pequenas tatuagens em forma de estrelas próximas ao punho direito. Ainda que Casagrande não tenha percebido, ela segurava um fino cordão de prata sem pingente com vários pequenos penduricalhos em toda a extensão. Uma pulseira.

Tiago respirou fundo

-Eu não sei. E mesmo se soubesse, jamais deixaria você colocar as garras neles... Letícia Gallardo.

Ele disparou o tambor inteiro do 38 contra ela, o som da pólvora explodindo ecoando por todo o andar do prédio. Ele gritou um palavrão, no exato momento em que todo o cômodo começou a brilhar com uma poderosa torrente de Chama do Céu.

Um belo sorriso se formou nos lábios dela. Encantador como a morte.

-Não sabe o tamanho do erro que cometeu, Tiago Casagrande.

O revólver caiu no chão, enquanto o homem sentiu a respiração ficar mais pesada, o ar rarefeito.

“Isto é...”

-Então, sentindo nostalgia, Igor?

-Este lugar ainda me dá calafrios.

Kamila,. Karoline e Kiba se encontravam no meio de um grande salão circular, ostentado por imensas pilastras e concreto negro. A ruiva estava impressionada:um espaço gigantesco como aquele no subsolo de uma simplória casa suburbana. Parecia até que havia sido transportada para outra dimensão. Em cada pilastra havia um número romano em prateado, doze no total, junto a pesadas tochas para iluminar o local. Figuras de criaturas mitológicas de todos os tipos e de antigas culturas se misturavam em painéis nas paredes. No chão, uma réplica do mapa do Velho Mundo. Ao fundo, havia um pequeno altar de pedra onde jazia uma fina espada de duas mãos, muito semelhante a um sabre, com dizeres em gaélico.

-A Sala Circular. É mais mórbida do que eu pensei. –a morena cruzou os braços, o único olho castanho que conseguia ver analisando as figuras pitorescas feitas em grafite.

-Desculpe fazê-los esperar.

O Mestre desceu as escadas circulares que davam acesso ao lugar. Agora vestia uma camisa social branca, sapatos Mocassim e uma calça negra. O foco dos três jovens se voltaram para ele. A Tempestade e a Nuvem estavam mais a frente, deixando a ruiva parcialmente encoberta segurando com dificuldade a katana e a garrafa de uísque. Ainda que ela ainda não soubesse o por quê.

-Podemos conversar agora, Zenáculo? –sentenciou à morena, cruzando os braços. O homem caminhou mais alguns passos em direção a eles, ajeitando a gola da blusa social. – Ainda que eu ache um erro ter vindo até aqui.

Antes que pudesse haver uma resposta, foi Kiba quem se adiantou.

-Preciso de sua ajuda, Mestre. Estamos sendo perseguidos por um bando de lunáticos...Se pudermos ao menos nos refugiarmos aqui por está noite, já nos será de grande ajuda. Eles tem batedores espalhados por toda a cidade a nossa procura.

A postura de Zenáculo era misteriosa. Ele ficou em silêncio, ouvindo a súplica do antigo pupilo com os traços do rosto exibindo reflexão. Karoline o encarava com certa desconfiança, enquanto a ruiva apenas mantinha-se calada. Por fim o homem passou a circular o trio, sendo acompanhado por seus olhares.

-Como está seu amigo, Yure? -Kiba arregalou os olhos, em nítida surpresa. O homem apenas fez um gesto com a mão, exigindo que o espadachim da Tempestade continuasse em silêncio. –Posso não estar neste “mundo” de vocês, mas achei que alguns fatos desses últimos dias um tanto quanto incomuns... Acidentes misteriosos, grandes movimentações nas rodovias federais... Cheiro de mercenários a quilômetros. Alguém como eu desconfiaria fácil de alguma coisa. E alguém como eu acharia fácil as informações necessárias. Por quê não me surpreendo em vê-lo enrascado mais uma vez, garoto..

-Não sabemos o que houve com o Yure... Ou como ele está agora. –Karoline baixou o olhar por um momento, respirando fundo para afastar os agouros de sua mente. –Apenas estamos pedindo que nos deixe ficar aqui por uma noite, até que a busca por nossas cabeças diminua.

-E ser visado como um alvo primário também? -Ele parou com um dos pés apoiado no primeiro degrau do altar, observando o sabre reluzir as chamas das tochas.

Kiba adiantou-se em dois passos.Zenáculo encarou o Guardião da Tempestade com a expressão impassível.

-Mestre...

-Enquanto você era meu pupilo, Kiba, eu tinha a obrigação de instruí-lo e protegê-lo. Mas isto foi a muito tempo atrás. Eu já tenho trabalho demais para esconder minha real identidade junto do segredo do Priorado. Quando você recebeu a marca, sabia que estaria só contra o mundo.

-Mas não trata apenas de mim, e sim da minha família! Pensei que pelo menos continuaríamos sendo amigos após aquele dia.

-Pode chamar de egoísmo, mas isto é preservação. -Zenáculo se virou e Kiba bufou irritado. Ele não pode ver, mas um sorriso de satisfação se formou no rosto do antigo mestre, que ajeitou a franja que caía sobre parte o seu rosto. –Entretanto, eu sei que você não vai aceitar uma simples visita e ir embora pacificamente. Não é do seu feitio.

Kamila ficou sem entender, mas Karoline segurou o braço do irmão antes que ele respondesse. Apertou com força, quando ele tentou se soltar.

-Nem pense nisso. –ralhou a Guardiã da Nuvem na forma de um sussurro, com irritação na voz. Ele virou o rosto, encarando ela com os olhos azul-cinzentos de forma agressiva também. A moça podia ver uma tormenta se formando naqueles tons claros. –Vamos embora.

O espadachim se manteve observando os traços do rosto dela.

-Os termos de sempre? –disse em voz alta, sem desviar o olhar.

As unhas de Karoline começaram a lhe ferir a pele. Ela fez um movimento negativo com a cabeça, mas ele não se sensibilizou com o pedido dela.

-Estou curioso para saber o quanto seu estilo, agora que está usando uma katana longa de duas mãos. Qual o nome dela? –a voz de Zenáculo ecoou por todo o grande salão, enquanto ele desabotoava as mangas da camisa e as dobrava com paciência ainda de costas para os outros presentes.

A Guardiã da Nuvem suspirou, soltando o braço do irmão, erguendo o punho vagarosamente e golpeando o peito do Guardião da Tempestade de forma trêmula. Virou-se por fim, se afastando dele. Kamila se adiantou na direção de Kiba, ao ver que ele a chamava movimentando uma das mãos feridas.

-Você vai lutar... Contra seu Mestre?

-O Priorado tem a máxima de que a justiça sempre está nas mãos o correto. Acho que você pode entender onde vai parar a prática. Abra a garrafa, por favor.

A ruiva deixou a espada no chão e tratou de abrir o uísque. Mal ela retirou a tampa e o rapaz lhe tomou das mãos, jogando a bebida alcoólica nos ferimentos nos punhos e nas mãos. Fez uma careta de dor, sentindo a pele arder como se tivesse derretendo, enquanto a amiga observava a cena perplexa.

-O que você pensa que está fazendo? –questionou, transtornada.

-Álcool mata germes não mata? Estou apenas tentando ser um pouco higiênico... Embora este seja um desperdício lastimável. Que o Décimo jamais saiba disso... –os traços de dor ainda mantinham em seu rosto enquanto ele entregava a garrafa novamente a moça, até ele retirar a camiseta azul com estampas de caveira. Kamila virou um momento para trás, mas Karoline só estava encostada em uma das pilastras e de braços cruzados, com cara de poucos amigos. Estava realmente chateada.

Kiba então deu um puxão forte na roupa, a ponto dos músculos dos braços ficarem rígidos, e refez os gestos incontáveis vezes até criar tiras de tecido grosseiras. Enrolou as nas mãos dos punhos as palmas, na forma de bandagem improvisadas, e se agachou para retomar a espada para si.

-Kiba... Você vai mesmo lutar assim? -Ele deu os ombros, pegando a garrafa mais uma vez, e virou ela. O uísque desceu queimando sua garganta como labaredas de fogo. Ao terminar ele soprou o ar e respirou fundo, os globos oculares avermelhados pela dose da bebida. Kamila fechou os punhos, preocupada. –Isso é insensatez!

-O dia que eu começar... A ser sensato, vai ser o início dos dias em que eu jamais voltarei a empunhar uma espada.

E o rapaz se virou, partindo para a direção contrária da ruiva. A moça já havia identificado as bandagens no meio do tronco dele, o curativo com sangue seco dos pontos que ela mesma havia suturado e agora deviam estar a ponto de se abrir. Em toda a extensão de suas costas, havia incontáveis cicatrizes desde as omoplatas até próximas da linha da cintura. Lâminas, perfurações, marcas. Ainda assim, não era nisso ao qual os olhos castanhos de Kamila ficaram mais tempo observando.

Em seu braço esquerdo, no ponto mais alto, havia uma grande tatuagem. Um número em algarismo romano.

Treze.

-O nome dela é Insólita. Yami e Yoru foram destruídas, assim eu usei alguns estilhaços para refazer esta. –o rapaz desembainhou a espada, revelando a extensão de sua lâmina. Zenáculo tomou posse do sabre e se virou, fazendo um movimento de rotação com o punho. O Guardião da Tempestade jogou a bainha para o lado, tomando o cabo da arma com as duas mãos enfaixadas e ficando em posição defensiva. Zenáculo apenas sorriu e desceu os últimos degraus, quando Kiba deu um berro e correu em direção ao antigo mestre, a espada ao lado do corpo pronta para executar o corte diagonal. O outro espadachim fez o movimento reverso.

As lâminas se chocaram, e o ar tremeluziu. Kamila foi logo se juntar ao lado de Karoline, observando em choque o amigo atacar e defender em uma velocidade frenética.

-Eu tinha me esquecido... Do quanto dói ver meu irmão lutar. –Karoline levantou o olhar novamente, observando o combate. Podia ver claramente Kiba se esforçando o máximo em cada golpe, enquanto Zenáculo apenas fazia movimentos calmos e precisos. Estava se divertindo.

Kamila sentiu o coração apertar. As palavras da amiga soaram pesadas, por algum motivo. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ouviu-se um baque surdo: Kiba havia sido violentamente desequilibrado por um dos bloqueios do mestre e arremessado para trás, as solas do calçado sendo arrastadas no chão. O rapaz curvou o corpo, baixando a katana e levando uma das mãos a ferimento suturado no tronco. Ele arfava pesado, enquanto um filete rubro escorria vagarosamente.

Podia ver em seus olhos as pupilas contraídas. Havia algo nebuloso naquela cor cinzenta: algo que fez a ruiva sentir um calafrio, por algum motivo. Karoline respirou fundo, e continuou a falar.

-Quando ele ergue essa espada, parece que nada mais importa além do combate. Ele é muito impulsivo... Não se preocupa consigo mesmo.

Enquanto as palavras se desenrolavam em tom de profunda tristeza, o Guardião da Tempestade alavancou para mais uma investida, tentando uma estocada contra o peito de Zenáculo. Habilmente o outro espadachim deu um passo no momento certo para o lado e tentou um golpe de cima para baixo contra o braço de Kiba. A resposta foi rápida: o moreno girou o corpo rapidamente e se agachou, levando a outra mão ao cabo da espada e apoiando o lado cego da lâmina no ombro, barrando o corte.

-Fala como se eu não o conhecesse, Karol...

-Desgraçado cabeça-dura...

-Até parece a irmã.

As duas se entreolharam por um momento. A ruiva não pode evitar de curvar os lábios em um sorriso contido, enquanto a morena arqueou as duas sobrancelhas devido as palavras petulantes.

-Se fosse qualquer outra pessoa, eu juro que voaria no pescoço. Você tem sorte de ser minha melhor amiga, Kamila.

Kiba jogou o peso do corpo e girou a katana, abrindo espaço entre ele próprio e o oponente, mas não teve tempo para emendar um golpe de sequência. Zenáculo pegou o impulso com a perna esquerda e aplicou um chute horizontal. O Guardião da Tempestade largou uma das mãos do cabo e retraiu o antebraço, absorvendo o impacto. Então o homem girou o corpo no ar e atingiu em cheio o pescoço com a ponta do Mocassim pelo lado contrário.

-O que está esperando? –e Kamila nem precisou terminar a frase.

O espadachim caiu no chão, a arma frouxa nos dedos. Seu mestre logo pousou suavemente no solo e girou o sabre no eixo, fazendo uma rotação perfeita. A meta do combate era uma só: desarmar o inimigo.

Quatro passos os separavam.

O sabre foi levantado acima da cabeça. Kiba tentou reagir, mas havia sido tomado de uma ligeira tontura devido a violência do chute. A visão borrada não lhe permitia ver o brilho do metal,nem a distância que ele deveria se locomover para escapar do golpe. Então um grito feroz irrompeu o ambiente e Zenáculo se virou.

Para o próprio bem. Porque um trem descarrilado estava voando em sua direção.

Karoline arrancou o colar do próprio pescoço enquanto começou a passada veloz. Em um flash turquesa, a alabarda se materializou em sua mão direita, bem a tempo para que a moça girasse-a acima da cabeça três vezes e atacasse com um corte horizontal com as duas mãos bem espaçadas no bastão. A força do impacto foi tanta que, mesmo com o bloqueio perfeito, Zenáculo foi arremessado dezenas de metros para trás e arrastado até bater em uma das grandes colunas da Sala Circular.

Kiba observou a cena, ofegante e em silêncio. Encarava as costas da irmã, segurando a arma na diagonal atrás do corpo, os cabelos esvoaçando levemente após o movimento desenfreado. Ele fez uma expressão de escárnio, embora houvesse um resquício de empolgação nos seus olhos.

-Desde quando... Você resolveu se meter nos assuntos do seu irmão mais velho?

-Ora, cale-se. Se depender de você, ficaremos nisso a noite toda. Ou até seu Mestre parar de bancar o bonzinho.

A morena se virou e o rapaz balançou a cabeça, na tentativa vã de arrumar os fios rebeldes. Os dois olhares se encontraram.

-Não vou permitir que continue lutando nesse estado... Sem minha ajuda. –Karoline sentenciou e girou a alabarda no ar uma vez, antes de batê-la no chão na vertical. O rapaz se limitou a arquear a sobrancelha e ela repetiu o gesto de forma quase idêntica.

Teimosia era quase um sinônimo para o sobrenome Camargo.

Kiba estendeu o braço para ela, segurando firme no cabo da espada com a outra mão.

-Eu acabaria com ele se não estivesse com esse maldito ferimento que você fez ontem, Karoline. –o Guardião da Tempestade falou entre risadas, enquanto a irmã o ajudou a se levantar. A Guardiã da Nuvem revirou o único olho visível, com a ironia de sempre.

-Claro, claro.

Os dois se posicionaram lado a lado, as armas em riste e as expressões voltando a ficar sérias. Zenáculo girou o sabre, massageando o punho dolorido.

-Sua força é espantosa, garota. –as palavras saíram calmamente da sua boca, e seus traços faciais ainda exibiam serenidade. Parecia não se importar com a nova adversária. A atmosfera estava ficando mais carregada, parecendo minutos antes de um cataclismo profundo. –Não é contra as regras pedir ajuda a um aliado, claro. Mas confesso que isso me decepciona e muito, Igor.

A mão de Kiba tremeu levemente, e sua irmã sabia que as palavras do outro espadachim tinham o intuito apenas de provocar fúria. O rapaz de cabelos ondulados era explosivo demais. Isso aumentava seu poder de destruição, claro, mas também era sua ruína para quem soubesse dessa sua fraqueza. Porém, para a surpresa de ambos, ele relaxou os músculos e respirou fundo.

-Pois meu maior orgulho... É lutar ao lado de pessoas que eu confio. –e sorriu de forma sincera, voltando a segurar a espada com as duas mãos em um ângulo agudo. – Mana, não evoque sua Chama contra ele. Se fizer isso, somos desqualificados na hora. Este é um combate de armas e habilidade. Um combate entre Cavaleiros do Priorado.

Karoline concordou com a cabeça e fechou os olhos por um momento, esvaziando a mente e tentando controlar a respiração. Aquele era um inimigo sério, diferente de tantos que ela havia enfrentado nos últimos dois anos. Um inimigo digno de cair pelas mãos dela.

Quando reabriu o olho, sua íris castanha estava diferente: mais vívida.

-Song 2, Blur. –a morena disse calmamente, enquanto caminhava alguns passos para o lado, fazendo movimentos precisos com a Arma Selada da Nuvem. Kiba andou na direção contrária, apoiando a longa lâmina no ombro. Zenáculo se manteve parada e observando os movimentos da dupla. Estranhos por sinal.

Karoline batia levemente a sola do pé direito contra o solo.

Kiba mexia a cabeça em movimentos repetitivos, de forma sutil.

Os dois faziam isso em estranha sintonia. O Cavaleiro ficou sem entender o que haveria ser aquilo, até que compreendeu. E foi neste exato momento em que o ataque começou.

Os dois irmãos correram em paralelo, iniciando uma sequencia de ataques devastadores. Enquanto a moça golpeava com a alabarda na horizontal, contra o peito do oponente, Kiba tentava um ataque giratório contra a lateral do corpo. Os golpes se encaixavam, fazendo com que Zenáculo tivesse que defender com a lâmina do sabre e se contorcer para não ser atingido. Após vários ataques os irmãos recuaram vários metros do alvo, circulando-o. Karoline manuseou a Arma Selada com alguns movimentos repetidos, a lâmina zunindo em pleno ar, enquanto Kiba apoiava a katana no ombro e bagunçava o próprio cabelo.

Os olhos afiados de Zenáculo ainda podiam ver que ambos estavam usando algum tipo de marcação de tempo. A Guardiã da Nuvem ainda batia um dos pés no chão, e o rapaz ficava mexendo o dedo indicador livre como se estivesse batucando.

Música. Uma idéia simples, na verdade. Basear os ataques e as combinações conforme as batidas de um ritmo pré-estabelecido. Quanto mais pesada a trilha sonora, maior era a violência do ataque. Com uma música com alternância então, resultava que a investida ia e voltava repentinamente.

Então os guardiões voltaram a atacar, desta vez de lados opostos. A lâmina da alabarda deslizou perfurando o ar na forma de uma estocada. Zenáculo golpeou o cabo da arma com a prancha do sabre, desviando sua trajetória. Mas logo teve que girar o corpo em meia-volta e erguer o fio para bloquear o ataque vertical do antigo pupilo. Faíscas voaram e os irmãos novamente encaixaram uma sequencia desenfreada, ataques diagonais seguidos de cortes rápidos. O Cavaleiro estava conseguindo defender com maestria por um triz, até que na última tentativa e golpes Karoline esperou que o irmão fosse barrado pelo mestre. Com as armas se chocando, Kiba jogou o peso do corpo contra Zenáculo, quando a irmã tentou uma nova estocada. O Cavaleiro simplesmente tirou o corpo para o lado e fez quase Kiba cair, enquanto estava pronto para anular novamente o ataque da Guardiã da Nuvem. Mas a morena fez um movimento diferente. Com uma leve torção dos pulsos, ela fez o cabo da arma oscilar e rodar, girando no sentido anti-horário e passando da linha defensiva.

A lâmina rasgou o tecido da camisa e talhou o antebraço do Cavaleiro.

Kiba e Karoline se afastaram novamente, enquanto Zenáculo observava o corte que havia se marcado. Era fino, mas por pouco ele não havia tido que largar a arma. E perder o embate.

-Por um triz. –ela bufou, vendo o filete rubro manchar a lâmina de sua arma. –Não errarei na próxima vez.

-Não haverá próxima vez, queira me desculpar. Acho que acabou a brincadeira. –a voz continuava serena, mas o tom não era mais tão amistoso. Kamila pode ver próximo ao corte, o número dois em algarismos romanos grafados na pele. Era muito semelhante ao que o amigo possuía.

Então aquela era a marca do Priorado? Isso explicava as doze colunas e seus doze desenhos... Mas então porque não havia o número treze?

O Cavaleiro girou o punho da arma, causando um clique. O sabre se dividiu em duas e do interior do cabo saiu duas pequenas argolas de prata. Kiba respirou fundo, ciente de que agora iriam realmente enfrentar a força de Zenáculo. Colocando um indicador em cada círculo de metal, o homem começou a girar as lâminas velozmente, em uma velocidade tão absurda que as formas ficaram distorcidas.

O Guardião da Tempestade deixou a espada em posição defensiva, respirando fundo.

E o oponente avançou contra ele. Karoline correu logo atrás, acreditando que poderia pegar Zenáculo pela retaguarda. A primeira investida veio, e a lâmina da katana longa foi posta para aplacar o corte.

A força da rotação foi tão grande que repeliu a arma do espadachim quase que de imediato. O rapaz se desequilibrou por um momento, e teve que se jogar no chão para não ser atingido. A segunda lâmina iria entrar em rota de colisão com o seu tronco, mas a morena projetou a ponta da alabarda e impediu o ataque por pouco.

Mas a força centrífuga também a repeliu de forma brusca. Karoline não esperava aquela reação e acabou por ter a Arma Selada arremessada para cima, quase escapando de suas mãos. Então seu único olho que podia enxergar avistou Zenáculo movimentando o braço para trás e o zunido do metal vindo em sua direção. Não havia como escapar. E naquela velocidade, sem dúvida iria ser um ferimento dos feios.

-KAROLINE!!!!!!!!!

Então um clarão ofuscante vermelho irradiou sobre todo o Salão Circular, sobre os olhos espantados de todos.