Beyond The Bounds Of Sky

10 Capítulo 10 - Ponto de Impacto


"A força que carrego nos punhos é minha verdadeira justiça"

O sol já brilhava sem timidez nenhuma naquela hora da manhã, sob um céu sem nuvens. A auto-estrada estava vazia naquele horário, enquanto o velho conversível vermelho avançava em velocidade constante.

Era um veiculo de proporções quadradas, um modelo automotivo de dois lugares e um pequeno estofado atrás dos bancos clarões. A capa preta de couro estava presa por tiras sob o porta malas. Na parte de trás, acima da roda traseira esquerda a imagem de um escorpião negro se sobressaia na lataria.

O radio tocava um rock de ritmo pesado antigo, enquanto a motorista batucava os dedos de forma ritmada no volante.

-Fala sério, melhora essa cara!

Os cabelos loiros cor de bronze esvoaçavam pelo vento, embora a mulher parecesse não dar a mínima importância. Usava óculos escuros de grandes lentes âmbar, que não escondia o formato redondo de seus olhos e os pequenos brincos em forma de cruz reluziam a luz matinal. A camiseta sem mangas e ombros preta, com a sigla em branco "R.I.P." ficava colada as curvas sinuosas do seu corpo e dos seus seios fartos. A calça folgada no estilo masculina quase escondia o par de all star azul marinho que pisavam com força nos pedais cinzentos, controlando o motor barulhento. Na parte de trás do ombro direito havia uma tatuagem de uma rosa negra em tribal.

Seu sorriso era tão brilhante quanto o sol, e sua beleza era tão letal quanto seus venenos. Era Sara, a Doku Sasori.

Ela comentava sobre a expressão extremamente séria de Ricardo. O cabelo curto de alguma forma acentuava isso, como a rigidez de um militar. Usava uma camisa branca regata, e uma calça camuflada verde com um tênis comum. Os braços até a altura dos cotovelos estavam enfaixados por faixas brancas e o brasão do Sol descansava ao redor do seu pescoço.

-Não me leve a mal, estou tentando relaxar... — Ele ajeitou os óculos de grau na frente dos olhos azul-topázio — Mas é meio difícil se livrar de toda essa tensão.

Ela riu de forma graciosa e passou a marcha do carro.

-Relaxa cara. Você está assim desde que começamos a viajem, Tem certeza que está tudo bem?

O Guardião do Sol olhou para cima, visualizando o céu azul. Sara havia aparecido antes do sol raiar, buzinando feito uma desvairada, obrigando o pugilista a correr as escadas e se jogar no banco do carona. Os pneus guincharam com a euforia da aceleração e o carro partiu em disparada, ao som dos gritos eufóricos da mulher. E desde então ficara em silencio, recluso em seus próprios pensamentos. Tentava se focar no que faria quanto estivesse na presença dos amigos novamente.

A loira riu e cutucou o braço musculoso dele com o cotovelo. Achava engraçado a seriedade do amigo, mas aquilo de certa forma estava começando a incomodá-la.

-Será que sua cabeça é tão dura quanto seus músculos? — Ela arriscou uma piada. Ricardo se virou e riu com gosto, sendo acompanhado em seguida por Sara.

As preocupações do Guardião do Sol foram varridas de sua mente e a conversa começou a fluir animadamente. A mulher começou a tagarelar sobre seus dias monótonos, como estava trabalhando na área de eventos e da paixão que sentia pelo seu pequeno conversível. Ricardo ouvia cada palavra com atenção, o braço encostado na porta apoiando a cabeça. Se deu conta por fim de como sentia falta de conversar com os velhos amigos.

Em menos de meia hora, o carro já estava entrando nos limites da cidade, escondida por de trás dos morros. Sara girou o volante com leveza e o conversível vermelho deslizou pelo desvio e passou por uma das entradas secundárias da cidade. As vastas plantações de campos e florestas que rodeavam a auto-estrada de duas pistas deram lugar a casas e pequenas lojas, que eram a composição da periferia da metrópole. Ricardo ficou observando as construções e as poucas pessoas que transitavam pela calçada de forma despreocupada e percebeu o quanto sentia falta daquele lugar. Tinha seus defeitos, inúmeros na verdade, mas as lembranças boa enterravam-nos completamente. Eram tantas que iria passar dias inteiros se quisesse relembrar todas elas.

-Discretamente, olhe pelo retrovisor. — a voz rígida de Sara fez o pugilista ser puxado novamente para a realidade. Ricardo virou o resto bruscamente e encarou a mulher. Podia ver o olhar sério por trás das lentes cor de âmbar. — Eu disse para olhar discretamente para o retrovisor, cacete! Tem que parecer natural, sem movimentos bruscos.

O Guardião do Sol assentiu com a cabeça e olhou pelo retrovisor aturdido, sem entender a situação.

A uma distância de dois carros, um sedan preto de vidros escuros seguia o traçado timidamente, muito mais discreto que o conversível vermelho. O pugilista arqueou as sobrancelhas e voltou o olhar para a mulher, dando os ombros mostrando indiferença perante o outro carro. Sara revirou os olhos bufando e virou o volante bruscamente, fazendo os pneus protestarem.

O conversível entrou em uma rua movimentada, ficando a frente de dois carros.

Segundos depois, o sedan apareceu na mesma rota, quase imperceptível.

-Tsc, amadores... — Sara torceu o nariz.

A mente de Ricardo teve um clique.

-Estamos sendo seguidos? — os punhos se cerraram com sua força descomunal.

-Preciso de uma confirmação...

Ela estacionou o pequeno automóvel em uma vaga, rente ao meio-fio, na frente de uma padaria requintada. Deu uma rápida olhada no retrovisor e tirou o cinto, soltando um palavrão. Ricardo também tirou o próprio cinto quando sentiu a mãe da mulher enganchando seu braço e puxando-o mais para perto. Ele fitou a loira com os olhos azuis surpresos, quando sentiu a bochecha dela encostar em seu ombro descoberto.

-Passo o braço em torno das minhas costas. Agora. — não fora um pedido. Fora uma ordem. Ricardo a obedeceu prontamente, a sua pele clara contrastando fortemente com a camisa da mulher — Eles estacionaram do outro lado da rua, a uns quinhentos metros. Vamos fingir que somos um casal despreocupado e que não percebemos que temos um quadrúpede destrambelhado atrás de nós...

Ricardo assentiu, olhando para frente ainda com os músculos tensos. Podia sentir a velha adrenalina irradiando novamente pelas veias. Sara colocou os óculos de sol na altura da cabeça, ainda encostada nos músculos torneados do rapaz, e começou a repassar os passos desde a entrada na cidade.

-Desde quando? — o Guardião do Sol questionou.

-Percebi desde após a entrada da cidade. Nenhum vestígio deles na auto-estrada.

-Quantos no carro?

-Vidros escurecidos. Não se enxerga porcaria nenhuma lá de dentro.

O pugilista refletiu, mas não conseguia chegar a lugar nenhum. Não era a sua área.

-O que você acha?

Sara ergueu a cabeça, mas manteve o corpo próximo ao Guardião. Sua face estava pensativa.

-Se a intenção deles fosse atacar, já teriam feito de alguma forma.. talvez..

Os dois se entreolharam e arregalaram os olhos.

-Macacos me mordam! — Rosnou a mulher.

-A reunião... -as juntas da mão direita dele estalaram pelo esforço — Quem são eles?

-A questão não é essa, Ricardo. — As palavras saíram com certa dose de nervosismo — Como eles descobriram ou a qual grupo pertencem é irrelevante agora. O fato concreto é que eles vão nos seguir até os confins do inferno, mesmo que dessa forma estabanada.

O pugilista revirou os olhos. Ela parecia realmente indignada quanto a perseguição amadora.

-Vamos montar uma armadilha. — Sara deu os ombros quanto a resposta dele. — Não faça essa cara, você sabe que é a forma mais rápida de acabar com isso.

-Claro, claro. Como sempre, vocês homens adoram esmurrar alguém. — Ela fez uma longa pausa, raciocinando e montando o plano que iriam executar. — Vá comprar algo na padaria, Sol. Assim mantemos o disfarce.. Pensarei em algum lugar afastado.

Ricardo abriu a porta e colocou uma das pernas pra fora do veiculo. Tentou se levantar, mas Sara ainda segurava seu braço, sorrindo com ar travesso.

-Que foi agora?

-Dis-far-ce. — Ela aproximou-se e beijou a bochecha dele com um carinho atípico de sua personalidade. Quando Ricardo voltou o foco para o rosto da mulher, se surpreendeu ao encontrar ali os traços dela em forma de súplica, o olhar extremamente apaixonado. — Amooooor, compra um chocolate pra mim vai! Prometo te recompensar muito bem depois...

Ricardo fez uma careta. Tinha certeza de que ela falara tão alto daquele jeito na tentativa vã de que os perseguidores ouvissem. Ou talvez ela estivesse se divertindo com essa situação. O rapaz foi rapidamente até a padaria, pegou a barra de chocolate mais cara e pagou ignorando o troco em moedas.

Voltou ao conversível sem olhar para os lados. Mal teve tempo de se sentar no assento e o carro já arrancou com leveza, com velocidade moderada. Sara estava com o rosto concentrado. Havia pensado em um plano.

-Um lugar perfeito... — murmurou, acelerando o carro moderadamente.

Foi pouco tempo até o centro da cidade, os prédios comerciais ostentando-se contra o céu. O carro vermelho deslizava pelo trânsito entre os carros, enquanto o sedan preto tentava se ocultar nas ultrapassagens. Ricardo estava ficando confuso quanto a seu destino, quando o veiculo subiu subitamente por uma rampa de concreto.

Estavam entrando no estacionamento do maior shopping da cidade.

Passaram pelas galerias iluminadas artificialmente e pelas pilastras com listras pretas e amarelas. Estavam cientes de que os perseguidores estavam em seu encalço, pois o barulho do motor do sedan ecoava pela garagem. Subiram o complexo de rampas quando saíram da área coberta a chegaram a cobertura do shopping, o sol estava ali ferindo o concreto. O conversivel atravessou o estacionamento e estacionou. O carro dos perseguidores estacionou no outro lado do andar.

O vento assoviou rasgando o silencio.

O casal desengatou os cintos.

-Ainda está em forma, Sol?

-Guarde suas palavras para o fim da luta, Doku Sasori.

Saíram do carro e fecharam as portas, voltando os rostos para os perseguidores. Pela postura, não havia duvidas: Já haviam descoberto os inimigos.

As quatro portas do sedan se abriram e quatro homens de ternos negros e óculos escuros se prostraram do lado do veiculo. Suas posturas rígidas exalavam o ar de disciplina. Sara se sentou no porta malas do carro, cruzou as pernas e começou a olhar para as próprias unhas pintadas de preto com indiferença.

-Dez movimentos para mais. — Ela sorriu com malicia.

Ricardo cerrou os punhos enfaixados e ficou com os braços em posição de combate.

-Não estou tão enferrujado assim...

Mas antes que qualquer um dos lutadores avançasse, os quatro indivíduos sacaram de dentro de cada paletó um bastão esférico cilíndrico de aspecto metálico em pequenas proporções. Com um giro, eles cresceram em proporções muito maiores e as pontas ficaram emanando esferas de uma energia vermelho turbulenta.

Ricardo e Sara arregalaram os olhos. Os quatro inimigos eram portadores de Chama.

E não era uma chama qualquer. Era a Chama da Tempestade, que entre os sete tipos é a que possui o maior poder de destruição devido a sua característica: Degeneração. Tudo que a energia de cor vermelho-vivo toca, recebe danos sérios.

O pugilista respirou fundo e retirou os óculos, dobrando as hastes e os jogou para trás. A mulher os pegou com uma facilidade e delicadeza admiráveis.

-É, talvez seja mais de dez movimentos... — Ele voltou à posição de combate no estilo do boxe e fechou os olhos. — Romper o selo.

A Chama de Ricardo, dourada e brilhante como os raios do sol, irradiou do brasão do rapaz e depois se expandiu, se desprendendo e pousando ao lado do lutador de olhos claros. Então começou a crescer, ficando maior que qualquer pessoa no recinto de forma imponente. Quando a energia tomou forma, houve um urro raivoso.

Era um urso dos maiores, os dentes e as garras reluzindo ao sol. O pêlo era de um amarelo queimado e espetado, os olhos brancos olhavam o inimigo com ferocidade enquanto toda sua extensão brilhava com aquela energia dourada. Ricardo estralou o pescoço, reabrindo os olhos. Mesmo após a liberação de sua arma, os oponentes se mantinham impassíveis.

O urso voltou a ficar na forma pura de energia e se separou em dois, envolvendo ao mesmo tempo os dois braços de Ricardo até a altura dos cotovelos. Quando a chama do Sol cessou, o pugilista de um meio sorriso de nostalgia.

Eram duas luvas brancas maciças de combate, com pequenas garras cinzentas nos vãos entre as juntas. Nas costas das mãos, reluziam os símbolos gêmeos do brasão do Sol. Havia duas proteções de metal acopladas as luvas, protegendo apenas a lateral dos braços sendo preso por círculos e tinha triângulos na parte final do cotovelo.

-Venham.

Ricardo avançou em passos largos e os oponentes repetiram o gesto, todos de armas em punho.

O primeiro golpe foi um ataque frontal de um dos bastões de metal. O pugilista utilizou o antebraço direito com a proteção para defender o golpe, sentindo o calor da Chama contaminar o metal. Mal teve tempo de executar um contra-ataque, quando outro bastão passou zunindo próximo a sua cabeça, obrigando Ricardo a abaixar o torso e saltar para trás. Ainda sim, continuou cercado pelos quatro indivíduos. Não podia relaxar nem um segundo.

A energia amarela brilhante começou a se concentrar nos punhos do rapaz, cobrindo completamente a superfície das luvas e outro atacante tentou acertar a cabeça do pugilista num movimento de rotação. Ricardo segurou o bastão de metal, com a mão esquerda e entortou quase sem nenhum esforço, na frente da expressão incrivelmente assustada do agressor. Projetou o braço para trás e esmurrou o estômago do inimigo, fazendo ele literalmente voar para trás e rolar pelo concreto com tal violência que tudo que restou do homem de preto foi um ganido de dor.

Os outros três se afastaram, se entreolhando, perante o que deveriam fazer. Não esperavam aquele nível do inimigo, aquela força não era normal.

Era sobre-humana, graças a Chama do Sol. Sua característica de ativação, entre as principais funcionalidades, tinha o poder de potencializar. No caso do Guardião do Sol, ampliava sua força, que já era grande por causa do seu treinamento, de forma assustadora. Naquele momento, era um elefante contra formigas indefesas.

Ricardo, aproveitando a falta de ação dos oponentes, se movimentou até um deles e lhe executou três socos rápidos com a mão direita. O homem, ciente do poder esmagador de cada golpe, teve de se contorcer ao máximo para esquivar de cada um. Mas para seu azar, o lutador já havia previsto isso e usou um gancho com o punho esquerdo, atingindo em cheio o queixo e derrubando-o sem dó. Mais um para nocaute.

Os inimigos se postaram lado a lado, suando frio com o destino que aproximava. O pugilista voltou à posição de base, os olhos azuis sem emoção nenhuma devido à enorme concentração.

Por fim, decidiram atacar ao mesmo tempo, em sincronia. Aos berros de desespero, correram em direção ao guardião arrastando os bastões, as chamas vermelhas na ponta criando um rastro de fissuras no chão. Ricardo não mexeu sequer um músculo, como se estivesse petrificado. No ultimo momento, antes de ambas as armas riscarem o ar, o Guardião do Sol saltou para frente e segurou ambos pela roupa. Quando aterrissou com ambos os pés no solo, bateu um homem contra o outro com bastante força, girando em seguida o tronco e arremessou ambos os inimigos em seqüência no concreto plano. Eles quicaram feito bolas de borracha.

Antes que o lutador pudesse relaxar e avaliar os estragos, o ronco do motor ecoou por todo o andar. O rapaz loiro suspirou: ainda havia alguém dentro do sedan preto. Ficou observando chateado, esperando o que o carro engatasse a marcha ré e fosse embora. Mas o motorista acelerou para frente, em rota de colisão com o Guardião, com tal velocidade que o carro saiu deixando marcas de pneu queimado.

O punho esquerdo do pugilista começou a brilhar de forma ofuscante, o dourado ficando tão forte que era impossível encará-lo. Parecia uma estrela em combustão. Colocou o pé direito na frente e projetou o punho para trás de forma linear, o foco no alvo que se aproximava com velocidade absurda. Em um calculo arriscado, o loiro baixou o murro berrando a plenos pulmões.

-IMPACTO SOLAR!!!

A parte da frente foi esmagada, a lataria sendo rasgada e o motor foi transformado em migalhas como se atingido por um meteorito. Os pneus dianteiros afundaram no solo, estourando e criando duas crateras. A parte da cabine junto à carroceria traseira envergou para frente com tamanha violência que acabou ficando na vertical e depois se desprendeu da parte da frente, indo ao ar e girando cambalhotas. Caiu perto da construção quadrada que dava acesso ao shopping.

-Está feito. — Disse, enquanto as luvas voltavam à forma de energia e depois se transformando por fim no brasão com o símbolo do Sol. Sara se levantou do carro e começou a bater palmas solitárias, com um sorriso sarcástico.

-Como sempre você é um poço de gentileza... Precisava pegar tão pesado?

-Estão todos vivos... Eu acho.. — O loiro caminhou até ela e pegou novamente os óculos, colocando-os a frente dos olhos claros. — Teremos que limpar essa bagunça.

Ricardo recebeu um tapa audível na nuca, que projetou a cabeça pra frente.

-Nós teremos uma vírgula. Você vai. Eu no máximo vou fazer uma pequena parcela de ajuda... — Ela abriu o porta-malas do conversível, caçando alguma coisa. — Vamos, temos que forjar um acidente. E se você for bonzinho, eu te pago o almoço.

-E quanto aos nossos atacantes...?

O rosto da mulher se iluminou em um sorriso lascivo.

-Eles vão conhecer o terror da claustrofobia no quartinho da limpeza...

Ricardo suspirou. Aquela ia ser uma longa manhã.