Beyond Kingdoms: The Lemniscus Crystals

7 POV Linna - Capítulo Um "Green eyed presage"


Notas iniciais
Capítulo escrito por Jéssica G. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Os Ciclos da Lua (meses) são dados na seguinte sequência: - Parval - Ra - Tempar - Mohdir - Dekin - Raiho - Boltar - Myckpar - Sly - Lhone - Terug - Phanor

◊ 852 estações após a ascensão da Família Torgu, ciclo lunar de Phanor

A floresta estava agitada fazia noites. Conseguira caçar dois coelhos em menos de 4 horas, já era um recorde. O vento soprava em meu rosto balançando meus cabelos pretos dificultando a visão. O sol já estava quase se pondo quando comecei a voltar para casa.

Eu estava caçando o que seria a minha refeição na floresta perto do rio Tranen Gang que era um dos principais afluentes do pequeno lago Eneidiau Pwll.Geralmente eu pescava nele quando estávamos no verão ou na primavera, mas ele não significava somente uma fonte de alimento para mim, ele era meu limite. Minha mãe dizia que eu nunca, jamais, deveria passar por ele.

Ela me contava de terríveis bestas que espiavam atrás de cada árvore ou de cima delas, à espreita do coitado que passasse por elas. Dizia que os humanos nunca iam ali por causa disso e o motivo de não sermos atacados era pelo simples fato de uma barreira mágica ficar em volta de nossa casa, protegendo-a.

Quando eu tinha dez invernos de vida, eu até acreditava nessa história de fazer qualquer criança dormir. Mas eu agora tinha dezessete e o simples fato de eu não atravessar o rio era por causa das minhas tonturas e desmaios frequentes. Sempre que atravessava não conseguia dar nem 20 passos de distância e eu começava a ficar tonta e a ter alucinações, portanto voltava correndo o máximo que podia.

Quando isso começou a ter uma frequência cada vez maior a cada passo mais distante de casa, falei com minha mãe e ela me dava um chá sempre que saíamos para a vila mais próxima. O que achava estranho era que ela não me dava o chá quando eu ia para as caçadas.

Não demorou muito e logo conseguia ver as pequenas fumaças da chaminé da pequena cabana ao qual morava. Era tudo simples, mas era tudo que tinha para chamar de lar. Quando era pequena ajudei minha mãe a construir um deposito ao lado da casa. Foi trabalhoso, mas no fim deu para guardamos tudo que colhíamos e caçávamos. As duas galinhas e o galo que tínhamos ciscavam a terra a minha volta em busca de alimento. Costumava brincar com eles quando pequena, assustando-os, mas minha mãe me repreendia sempre que me via fazendo isso. Com o passar do tempo pequenas flores brancas e amarelas foram surgindo ao redor da nossa casa colorindo um pouco a área.

Cheguei frente a casa e bati na porta. Fiquei esperando alguns minutos e nada.

— Mãe? — falei alto

Bati novamente e nada.

— Mamãe? — gritei

Então a porta se abrira revelando ela. Não tive nem tempo de perguntar o que estava fazendo, pois logo fui arrastada para dentro. Ela me abraçou enquanto alisava meus cabelos. A mesma era praticamente dez centímetros mais alta do que eu, mas eu nunca a vira envelhecer nem um pouco. Eu a considerava muito bonita com seus cabelos castanhos claros e olhos azuis como os meus. Diferentemente de mim, que tinha cabelos pretos e era um pouco baixa para a idade.

— Já estava ficando preocupada! Onde estava? O que estava fazendo? Sabe que o toque de recolher é ao pôr do sol, criança!

Eu amava minha mãe, mas sinceramente achava que ela exagerava às vezes se preocupando tanto comigo, mas acredito que ela pensava que eu iria abandoná-la como meu pai fez quando descobriu que ela estava grávida de mim.

— Estava na floresta como sempre, mãe. — então levantei os coelhos que ainda estava carregando — Trouxe nosso jantar.

Ela suspirou aliviada, como se um peso tivesse saído de seus ombros. Sabia que ela não aprovava minhas saídas. Mas era isso ou ir à vila. Eu não conseguia ficar sentada o dia todo tricotando enquanto ela cozinhava. Eu gostava de ver o mundo com meus olhos e não com palavras ditadas por minha mãe. A floresta era o meu refúgio e era o mais próximo de liberdade que eu tinha desde que comecei a andar.

— Você sabe que não precisa caçar, Linna — ela suspirou. —Temos comida o suficiente para duas estações.

–Eu sei mãe, mas o inverno está chegando e logo não teremos como caçá-los. Quanto mais guardamos melhor.

Ela assentiu e pegou os coelhos se dirigindo então à cozinha. Segui atrás e me sentei na cadeira de madeira que era um dos poucos móveis que tínhamos. Fiquei batucando a mesa enquanto via-a tirar a pele dos animais e começava a limpa-los para fazer um ensopado.

Passei a desamarrar minhas botas e as coloquei do lado da porta. Tédio era o que eu podia definir naquele momento. Eu sei que minha mãe me limita ao máximo, mas não irei aguentar ficar presa para sempre. Eu já tinha vivido dezessete invernos, na verdade quase dezoito. Eu já podia ser considerada adulta, e sabia muito bem me cuidar sozinha. Mas por outro lado, não iria deixar mamãe aqui, sozinha. Eu só queria que ela pudesse confiar em mim assim como eu confiava em suas decisões. Se pelo menos eu conseguisse convencê-la a sair daqui para que pudéssemos morar em alguma vila próxima como todas as outras pessoas faziam.

— Mãe? —comecei. Afinal porque não tentar? Não tinha nada a perder.

— Sim, querida? —respondeu sem desviar os olhos de seu trabalho

— Porque ainda vivemos aqui? Já não seria uma boa hora de nos mudarmos? — perguntei hesitante, no início

Então a ouvi prender a respiração e vi que ela tencionou os músculos dos ombros, ficando enrijecida.

— Não nos mudamos porque nós não precisamos, minha flor. Temos tudo aqui. Comida e proteção

Suspirei cansada e baixei a cabeça batendo a testa na mesa. Era a mesma resposta de sempre. “O mundo é um lugar perigoso. Estaremos seguras aqui” ou “Este lugar nos provê tudo que necessitamos. Por que mudar isso?” era o que ela falava quando eu a questionava.

— Mas mãe, você não acha estranho que ninguém além de nós duas vive aqui? Sempre que vamos à vila nos tratam como estranhos como se nossa família não tivesse tido um passado por aqui.

— E de fato não teve, filha. — ela respondeu enquanto colocava a panela com o ensopado no fogo — Nossa família vem de um lugar um pouco mais distante, por assim dizer.

— O que você quer dizer com isso?— indaguei. Isso já era um progresso. Quando eu a perguntava sobre o seu passado ou do papai ela se fechava e então mudava o assunto. Nunca afirmei que notava isso, mas acho que ela percebia.

– Nossa família era considerada ameaçadora por muitos. E todas as pessoas que nos conheciam evitavam entrar em contato. Não é pra menos que o vilarejo fique de olho sempre que passamos por lá.

— E porque nos achariam ameaçadores?

Então ela se fechou novamente como sempre fazia. Essa informação era nova. Desde que ela deixou escapar alguns detalhes da vida do meu pai a dois invernos atrás não havia conseguido muito progresso até essa noite.

— Acho que é melhor você ir se limpar — disse, finalmente virando-se para me ver — o jantar já vai estar pronto quando chegar e não quero que fique resfriada.

Suspirando levantei-me, peguei o balde com água quente pendurado na lareira e me dirigi até o quarto onde havia uma pequena banheira feita de madeira. Não era muito, mas era melhor do que ficar pelada no meio do rio e morrer congelada. Peguei na gaveta o sabonete caseiro que fazíamos e um pequeno pano de lã.

Retirei a blusa e as calças feitas de linho e entrei na banheira. Como era inverno não poderia demorar. Peguei o sabonete, molhei-o no balde junto com o pano e comecei a esfregar os dois até que o pano ficasse ensaboado. Passei rapidamente na minha pele; então peguei o pano e o molhei novamente. Comecei então a passá-lo no corpo enquanto pensamentos sobre o que minha mãe havia me dito há pouco tempo, invadiram minha mente.

Nossa família, perigosa? Não sabia mais o que pensar. Será que éramos assassinos, ou talvez traidores de algum reino? Soltei o ar e então passei o pano no rosto enquanto deixava esses pensamentos de lado. Meus cabelos cresciam até a metade das minhas costas e geralmente ficavam com uma aparência ondulada. Não tínhamos pentes nem espelhos para verificar a aparência, então usamos o que tínhamos à disposição: nossas próprias mãos. Comecei a sorrir me lembrando da vez que pensei que o garfo era na verdade uma espécie de pente.

Eu era magra devido às minhas caçadas que eu praticava na floresta. Isso era considerado ruim para boa parte das pessoas que eu conhecia, pois isto indicava más condições de alimentação. Mas eu discordava. Achava esse modo de pensar muito superficial. Ainda estava viva, não estava?

Quando passei o pano pelos ombros, olhei para minha maior dúvida de todas. A incógnita que estava marcada no meu ombro direito. O símbolo de um floco de neve dentro do que parecia ser uma chama. Eu nunca soube o significado deste símbolo e esta era uma informação que minha mãe sempre guardava a sete chaves. Sempre que íamos a vila ela falava para usar uma blusa de mangas longas que cobrissem a marca além de me obrigar a beber o chá que ela fazia. Nunca consegui nenhuma resposta dela. O pior era que eu sabia que ela tinha uma igual à minha.

Lembro-me perfeitamente da noite que a vi pressionar uma barra de ferro quente no próprio ombro. Nunca me esqueci do grito de dor que ela havia emitido. Com o passar do tempo, associei essa marca há um possível símbolo do demônio para que minha mãe chegasse aquele ponto. E o pior era que eu achava que ela estava esperando eu completar dezoito invernos completos para fazer o mesmo processo.

Terminando de me limpar, sequei-me rapidamente e peguei a roupa para dormir em cima da cama. Era a roupa mais quente que eu tinha por ser feita de lã. Vesti-me e passei as mãos nos cabelos prendendo-os com um lenço que eu tinha enquanto ia até a sala.

Minha mãe já estava sentada me esperando como sempre fazia. Duas tigelas com o ensopado se encontravam em cima da mesa. Sentei-me na outra cadeira e então começamos a comer em silêncio.

Quando terminamos, recolhi as tigelas e as despejei na água dentro do pequeno caldeirão o que sempre ficava esquentando na fogueira.

— Hora de dormir, querida. — falou minha mãe, me empurrando para dentro do nosso quarto.

— Eu sei — falei bocejando.

— Foi um longo dia, não foi?

—É — respondi, mas me referindo às respostas misteriosas que ela havia me dado ao invés do cansaço.

Quando chegamos ao quarto me deitei na cama enquanto minha mãe me cobria com um pequeno lençol de lã. Beijou minha testa e então foi até o outro lado da cama e se deitou. Deixou a lamparina acesa e apoiou-se no pequeno travesseiro que dividíamos.

— Boa noite, Linna.

— Boa noite mãe.

Já era meio da noite e não conseguia dormir. Minha mãe provavelmente estava no terceiro sono, mas eu ainda estava agoniada. Minha mente se recusava a seguir o exemplo de cansaço que era meu corpo.

Levantei-me devagar e peguei uma vela do meu lado da cama, que ficava em cima da cabeceira. Fui até o outro lado e acendi a vela no fogo do lampião. Peguei o meu casaco de couro e fui até a sala. Abri a porta da cabana um pouco e espionei o lado de fora. Um silêncio perturbador se instalava na floresta naquele momento. Os únicos ruídos que se ouvia hora ou outra era da canção dos grilos ou pios de corujas. Sai de casa e fiquei sentada na varanda tentando ver um pouco das estrelas. Eu nunca conseguia vê-las pela proibição de nunca sair à noite, mas de vez em quando escapava sorrateiramente só para vê-las.

Suspirei, a noite estava nublada e fria. Vesti meu casaco e olhei para cima. Não conseguia ver nada no céu. Nuvens cinza e negras se aproximavam bloqueando minha visão junto com as folhas das árvores. Voltei minha atenção pra floresta à minha frente. Vi algo de estranho dessa vez. Comecei a ter uma sensação de estar sendo vigiada. Olhei em volta. Nada. Foi então que vi. Uma linda coruja das igrejas empoleirada em uma árvore próxima olhava em minha direção com seus olhos negros como se me observasse.

Nunca havia visto uma tão de perto. Levantei-me devagar e ela seguiu meu movimento com a cabeça. Não sabia qual seria sua reação se me aproximasse demais, mas também não sabia quando ou se conseguiria vê-la outra vez. Fiquei mais uns minutos olhando para ele e então me aproximei cautelosamente e devagar até que estivesse praticamente de baixo dela. Ela era grande para sua espécie. A cara branca em forma de coração e os grandes olhos destacavam-se do resto. As penas da barriga eram brancas enquanto as das asas era amareladas com pintas marrons. Em nenhum momento ela desviou o olhar de mim, como se estivesse me vigiando. Achei que estava imaginando coisas, mas poderia jurar que os olhos antes negros para mim pela distância, agora pareciam um pouco esverdeados, além de uma linha irregular que cortava o lado esquerdo do rosto. Mas, o mais estranho de tudo é que ela não havia voado embora, como achei que faria.

– Oi — falei. Idiotice minha, eu sei, mas a situação já estava meio anormal — o que faz aqui rapaz?

Claro que ela não respondeu, e em vez disso, inclinou a cabeça e soltou um piado como se tivesse entendido a pergunta e respondendo. Ficou alguns instantes me olhando e então girou sua cabeça 360 graus e olhou pra trás em direção à floresta. Quando voltou seu olhar em minha direção, ela deu um pio agudo. Parecia um som de alerta. Como se houvesse algum predador na área. Ela deu outro pio na minha direção como se estivesse me avisando, e então planou para o teto da minha cabana.

Ela deu outro pio, dessa vez não tão agudo, mas mesmo assim, sabia que estava atenta. Não sei o que foi que me fez seguir as instruções daquela bendita coruja, só no dia seguinte percebi que ela salvara minha vida.

Notas finais
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