Beyond Kingdoms: The Lemniscus Crystals
4 POV Amber - Prólogo "Ashes To The Gods"
Notas iniciais

◊ Oitocentas estações depois da ascensão da família Torgu. Primeira Lua do ciclo Phanor.
Apenas algumas noites antes de atingir Lark'wrym, a última vila estruturada de Enebora antes da fronteira de Andor, as contrações do parto começaram. A primeira Lua de Phanor chegou na companhia do Inverno, que quanto mais ao norte de Enebora mais rigoroso é.
Naj'beorn, a tribo nômade conhecida por seu fervor religioso e pela grande afinidade com o deus da guerra e da brutalidade, via o parto como um ritual sagrado, e como a cultura mandava, deveria ser realizado apenas na presença de mulheres e a céu aberto, onde os deuses poderiam ter o acesso livre à cena de onde os observavam.
As contrações começaram antes do anoitecer, fazendo com que eles firmassem acampamento antes do horário planejado. Normalmente, a criança durava nove ciclos lunares no útero materno, mas a mulher, Glia, deu luz no sétimo ciclo.
A cerimônia estava sendo realizada conforme as regras que regiam a pequena sociedade. O círculo mais externo era composto apenas pelos homens guerreiros de Naj'beorn, que, virados de costas para a cena, batiam em seus escudos talhados ritmicamente. O círculo interno, somente composto por mulheres, rodeava a moça em trabalho de parto e a velha parteira, que compartilhavam as mesmas pinturas referentes à deusa do parto e dos prazeres carnais em seus corpos.
A cantiga guiada pela velha e ecoada por todas as outras vozes femininas era somente quebrada pelos gritos de Glia, que deixava as lágrimas fluírem livremente pelas maçãs do rosto. A criança não estava na posição certa, obrigando a parteira a movimentá-la ainda no útero da mãe.
Qualquer ação contra a dor era extremamente proibida na comunidade essencialmente guerreira, interpretada como uma ofensa direta aos deuses, então só a restava contentar-se em trocar uma dor pela outra, deixando algumas unhas enterradas no solo duro. Quando finalmente fora de seu corpo, o filhote chorou com ferocidade, coberto pelos líquidos viscosos e rubros da mulher.
Dependendo do sexo da cria, providencias específicas seriam tomadas. Meninos tinham seus corpos mergulhados em vinho e símbolos voltados à caça desenhados em suas peles. Já meninas seriam banhadas por suas próprias mães após o parto e batizada de acordo com o ciclo e a lua.
Com a lâmina curva específica para cortar o vínculo da mãe com a criança, a velha parteira gritou, em sua linguagem nativa, o sexo da nascida para que em seguida ocorressem os rituais pós-parto.
As cantigas, que deveriam ser entoadas até o momento em que a criança chegasse aos braços da mãe, tiveram um fim súbito e o silêncio soou estranho a todos os ouvidos da tribo Naj'beorn.
No céu, onde a Lua deveria estar brilhando normalmente, banhando-os com sua luz prateada, naquela noite iluminava todo o ambiente com um tom rubro, fazendo-os estreitar os olhos dentro da escuridão avermelhada.
A tribo estava diante da Kaa’h Visklyc, a Lua de Sangue. Não havia sinal mais claro vindo dos céus.
O silêncio absoluto foi rompido por Glia, que uivou tristemente ao voltar os olhos ao céu. Os deuses haviam se comunicado.
— A menina pertencerá aos deuses! — Gritou a parteira entre os lamentos da mãe. Segurando a criança pelos braços, levantou para expô-la a todos. — Eles a proclamam! Que seja feito o sacrifício de ambas por fogo!
E assim, ouviu-se a tribo inteira gritar em concordância.
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