Beware of Jack Frost
1 Oneshot
Dentre os trigêmeos, Hamish sempre fora o mais ligado à magia. Não podia sair dos limites do castelo sem ver aquelas luzes azuis como pequenas chamas pairando e chamando-o com suas vozes suaves. Seus irmãos achavam-no apegado demais às histórias fantasiosas que a mãe lhes contava antes de dormirem, principalmente àquela velha história do Jack Frost.
Essa era a ameaça favorita de Elinor quando fazia frio! “Voltem cedo para casa em dias de inverno ou o Jack Frost vai pegar vocês”. Hubert e Harris nunca se importavam quando a mãe dizia isso, pois sabiam que esse era o jeito dela de tentar protegê-los de resfriados ou de se perderem caso ocorra uma nevasca; mas Hamish pensava diferente. Ele era o mais problemático na hora de dormir, pois sempre queria ouvir mais e mais histórias enquanto os irmãos adormeciam nas primeiras frases.
Hamish nunca teve coragem de perguntar para sua mãe ou irmã mais velha se Jack Frost realmente existia. Dentro de si, ele temia a verdade. Temia que a magia fosse somente invenção de sua mãe e que os espíritos não fossem nada mais que vagalumes vagando pela floresta. Por isso preferia manter escondido que na verdade, ele acreditava em todo o tipo de criaturas mágicas. Nunca diria isso ao seu pai, claro, pois o Rei Fergus sempre fora muito cético em relação à magia. Só lhe restava sonhar todas as noites e torcer para que estivesse certo.
X
Todos no castelo diziam que aquele devia ser o inverno mais rigoroso dos últimos anos. A neve não parava de cair e os ventos congelavam os narizes desprotegidos das pessoas. Merida estava de castigo no castelo costurando com Elinor por ter dado todas as maçãs da cozinha para Angus. Hamish, Harris e Hubert passaram boa parte da tarde brincando de pique esconde no castelo até que a ventania parasse e Elinor deixasse-os sair para um passeio pela cidade com a condição de que voltassem imediatamente caso o tempo piorasse.
- Vocês já sabem a história. Se a nevasca começar e não estiverem em casa o Jack Frost vai pegar vocês – a Rainha disse enquanto agasalhava cada um dos filhos com peles grossas. Harris e Hubert correram para fora enquanto Elinor encasacava o último filho.
- O Jack Frost é mau? – Hamish perguntou enquanto a mulher arrumava seus cachos ruivos.
- Sim, querido. É ele quem causa as nevascas perigosas e a neve que acaba com as plantações – Elinor tocou o rosto do filho e olhou em seus olhos azuis.
- Por que ele faz isso? Ele não gosta das pessoas?
Elinor pensou um pouco, então disse que não sabia. Hamish abaixou o olhar para os próprios pés e fez bico. A Rainha beijou a cabeça do garoto e pediu para que ele não voltasse tarde.
Quando saiu, Hamish precisou procurar seus irmãos. Do jeito que estavam eufóricos, já deviam estar correndo do outro lado da cidade. Por onde passava era cumprimentado por lojistas e cidadãos que saíam para caminhar.
Ao chegar no portão de entrada da cidade, saiu e gritou o nome dos irmãos. Então ouviu uma voz respondendo. Olhou em volta, mas não viu nem Hubert nem Harris. Ao invés disso, viu uma luz bruxuleante azul pequena brilhando perto de uma rocha alta. Hamish sorriu para a luz e acenou como se cumprimentasse uma velha amiga. A luz balançou e soltou uma espécie de suspiro.
- Você sabe onde estão meus irmãos? – o ruivo perguntou sussurrando enquanto se aproximava alguns passos. A luz tremeluziu e desapareceu. – Ei, espera!
O brilho reapareceu mais adiante, perto da floresta nevada. Hamish olhou ao redor, mas não havia sinal de vida. O vento voltou a bater frio. Hamish seguiu a luz. Ela desaparecia e reaparecia cada vez mais dentro do emaranhado de árvores nuas e moitas cobertas de neve. O garoto avançou até que teve de parar um momento por causa do vento frio que soprou em seu rosto, congelando a ponta do seu nariz e orelhas. O tempo estava piorando. A luz dançou parada perto de um tronco oco.
- Eu preciso voltar – Hamish disse para a luz, mas esta voltou a tremer e sussurrar com sua voz doce. Ao longe Hamish ouviu sons de passos. – Você ouviu isso? – os sons ficaram mais seguidos, rápidos. A luz girou em torno de si mesma como se estivesse feliz. – São eles!
O pequeno ruivo começou a correr na direção dos passos que se intensificaram. Era como se o dono dos passos estivesse fugindo. Hamish tentou correr mais rápido, estava nervoso, por que seus irmãos estavam fugindo dele? Seria aquilo uma piada? Em meio aos pensamentos, suas pernas curtas se enrolaram entre raízes expostas e o garoto caiu sobre a neve que voltara a cair.
Ele gemeu de dor, provavelmente tinha ralado o joelho. Levantou olhando em volta e gritou enfurecido:
- Harris, Hubert! Parem com isso! – estava cheio de neve, com frio, sozinho e cansado de correr.
- Quem são Harris e Hubert? – uma voz falou baixo perto dele.
Hamish virou a cabeça de um lado para o outro até identificar o dono da voz: um rapaz sentado no galho de uma árvore nua. Ele tinha a pele muito pálida, diferente dos rostos arredondados e rosados da sua família. Seus cabelos curtos balançavam com o vento e eram mais brancos que a neve que caía sobre os cachos do ruivo. E aquele cajado de madeira comprido... Hamish perdeu a respiração por um momento.
- Ei! Seu joelho está sangrando! – exclamou o albino.
E assim que o rapaz pulou para o chão, Hamish só conseguiu arregalar os olhos e gritar o nome da criatura facilmente reconhecível: Jack Frost.
- Você me conhece? Você pode me ver? – um sorriso genuíno se abriu no rosto de Jack Frost. – Isso é incrível.
Hamish cambaleou para trás, assustado. Tinha de admitir que do jeito que sua mãe contava, ele achou que o Jack Frost seria mais assustador, talvez com dentes afiados e garras, mas aquela continuava sendo a criatura que sua mãe sempre alertava sobre.
- Não me machuque – o ruivo disse, mas não saiu nem como um pedido nem como uma ordem.
- Por que eu te machucaria?
Hamish ficou de pé olhando o albino. Ele não parecia ameaçador. Mas se o que sua mãe diz é verdade, com um movimento ele pode criar uma devastação nevada. O vento estava vindo de todos os cantos, a neve começava a formar uma segunda pele em Hamish. Suas pernas enfraqueceram doídas e cansadas. O frio estava derrotando-o. Ele caiu ajoelhado e sentiu a neve cobrindo o machucado no seu joelho. Antes que caísse totalmente na neve, sentiu-se ser segurado e envolvido. Seu rosto roçava em um tecido macio e ele não sentia mais o chão sob seu corpo. Deixou-se relaxar enquanto a temperatura do seu corpo oscilava.
Quando voltou a abrir seus olhos, já estava um pouco mais confortável, recostado no tecido macio mais uma vez. Ao reconhecer os arredores, percebeu que estava sob a sombra de uma pedra inclinada. A neve ainda caía, porém agora calmamente e devagar. O vento havia parado. Olhou para seu lado e viu que estava encostado no casaco macio do albino. E o mesmo olhava para ele com um semblante preocupado, a testa franzida.
- Eu controlei o clima um pouco, me desculpe pelo frio de antes – Jack Frost disse. – Fiquei assustado, a temperatura do seu corpo caiu muito rápido. Como está se sentindo?
O ruivo passou a mão pelos cachos, sentindo-os molhados de neve. Piscou um pouco e se aninhou no casaco do outro. Soltou um “estou bem” baixinho.
- Que bom... Você sabe, eu não sei o que eu faria se você não acordasse. Você é um dos poucos que pode me ver. Não sabe o quanto isso significa para mim – o albino parecia animado.
Hamish sorriu um pouco enquanto ouvia o rapaz falar sobre um garoto sardento que também podia vê-lo que mora muito longe dali. Os poucos ele notou que a “maldade” de que Elinor falava era na verdade a solidão de vagar invisível a todos; e que ele ainda não controlava totalmente seus poderes, o que fazia um momento de euforia repentina virar uma ventania perigosa.
- Se você existe – Hamish fungou e esfregou os olhos. – as fadas também existem?
- Claro que existem. Ontem mesmo um bando delas ficaram furiosas comigo porque eu sem querer enchi a entrada da casa delas de neve. Mas a culpa não é minha. Você já viu a casa de uma fada? São pequenas e tão escondidas que eu achei que fosse só parte de uma árvore – Jack Frost riu enquanto contava como as pequenas criaturas aladas gritaram com ele com suas vozes estridentes.
- Meu pai não acredita em magia.
- Seu pai deve ser um homem muito rabugento – o albino falou e Hamish riu.
- Se os outros não podem te ver porque não acreditam em você, eu posso ver um monstro se acreditar em um? – o ruivo perguntou pensativo.
- Pensamentos são coisas poderosas, Hamish. Tão poderosas quanto palavras ou ações; você deve ter cuidado com o que pensa – Jack ouviu um ronco. – Você está com fome?
- Um pouco – o garoto disse envergonhado.
Os dois sabiam que já havia passado da hora de Hamish ir para casa e Elinor já devia estar se descabelando de preocupação, mas ao mesmo tempo estavam aproveitando muito a companhia um do outro.
- Eu... Acho que você devia ir para casa – o mais velho falou num tom quase desanimado. – Seus pais devem estar te procurando, e você precisa descansar.
Hamish soltou um som descontente.
- Eu sei disso, mas não quero ir embora. Quero conversar mais com você. Preciso saber quantos unicórnios existem no mundo, e se os animais falam como nas fábulas. E eu não quero te deixar sozinho – o ruivo falou emburrado.
- Eu vivi sozinho por muito tempo, posso esperar até amanhã para te ver de novo – Jack sorriu brincalhão. – Vamos ter o inverno inteiro para conversar sobre os unicórnios, não se preocupe. E a respeito dos animais, eu conheço um que nunca para de falar. E sempre que você precisar de mim, só basta me chamar.
O pequeno concordou com Jack levá-lo até o começo da floresta. Em meio ao chão de neve fofa, Hamish ouviu um sussurro familiar. Virou o rosto e viu a luz azulada flutuando sobre uma pedra. O garoto sorriu e acenou para a criaturinha, que girou e sumiu no ar.
- Olhe, a entrada da cidade é logo ali – o albino tocou o ombro do garoto, que olhou na mesma direção por um instante. – Tome cuidado para não escorregar no gelo.
Hamish olhou para Jack Frost por um momento e então o abraçou. Fechou os olhos e sentiu os braços gélidos do outro o abraçarem de volta. O ruivo sussurrou “eu vou acreditar em você para sempre”. Quando o soltou, viu que o albino estava sem palavras.
- Eu vou acordar cedo amanhã para falarmos dos unicórnios. Boa noite, Jack Frost. – o pequeno disse, então partiu para a entrada alta da cidade, onde avistou rapidamente um dos cavaleiros do seu pai, que pareceu extremamente aliviado em vê-lo.
- O Rei e a Rainha estão tão preocupados! Um grupo de resgate já estava quase sendo enviado atrás de você. Onde esteve todo esse tempo, príncipe Hamish? – o homem robusto perguntou, oferecendo seu manto para aquecer o garoto.
- Com um amigo – o ruivo falou seguindo o homem, então virou a cabeça para trás e viu que na entrada da floresta estava o albino Jack Frost, os pés descalços tocando a neve como se fosse um monte de plumas, o rosto virado para cima, os olhos fixados na Lua que brilhava intensa e os lábios sussurrando um “obrigado”.
Notas finais
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