Between the Woods
6 Conheço meus novos (e inusitados) companheiros.
Notas iniciais
Segui Nate através do labirinto de corredores. Não parecia haver nada de novo nele, pelo menos não que eu tenha percebido.
Seu cabelo ainda tinha as pontas vermelhas, ainda vestia o mesmo tipo de roupa e ainda parecia ter algum receio sobre mim, por mais que eu tenha trazido seu casaco são e salvo.
Ele andava com passos rápidos através da multidão que por vezes encontrávamos, sempre desviando das pessoas. Também notei que, ás vezes, algumas pessoas olhavam para ele de maneira estranha, como se ele fosse de outro mundo, ou um mendigo que houvesse invadido a escola. Eles sempre tentavam se afastar quando ele chegava perto.
A maneira como ele havia afastado os valentões, e agora a maneira como as pessoas reagiam à ele... Isso me deixava um pouco pensativo.
Depois de alguns minutos, chegamos à uma grande sala, com várias mesas e cadeiras dispostas de maneira aleatória nela, e em suas brancas paredes, vários trabalhos manuais, como desenhos e pequenas esculturas coloridas. Poucas pessoas estavam lá, alguns lendo, e outros nos seus celulares. Um grupo estava no canto dessa sala. Estranhamente, não havia ninguém perto desse grupo, e aparentemente era lá que Nate estava me levando.
Chegamos perto e eu pude ver com clareza as pessoas à volta da mesa redonda. Primeiro, uma garota bem alta e com cabelos negros também bem compridos estava de pé discutindo com um pequeno garoto ruivo. A roupa da garota era totalmente preta, usava uma saia preta quadriculada e uma calça também preta por baixo. Usava um casaco de couro, e adivinhem, também era preto.
Quando ela se virou, pude ver seu rosto. Ela era branca pálida. Em sua boca havia um Batom bem forte preto, e pude notar que suas pálpebras também estavam pintadas de preto. Ela parecia um cadáver bem arrumado. E obviamente não ia dizer isso a ela.
O garoto com quem a garota estava a discutir estava sentado na extremidade da mesa. Era bem baixo, seu cabelo era ruivo e em seu rosto havia milhares de sardas, que o faziam parecer um mapa das estrelas. Vestia um casaco de lã tricotado, com barras vermelhas e azuis. Ele usava uns grandes óculos quadrado.
O terceiro indivíduo não era tão baixo assim como o último. Sua pele era de um moreno bem escuro. Seu cabelo era marrom escuro e curto. Vestia um casaco cinza com uma camisa verde com uma estampa que não consegui distinguir por baixo. Ele estava mexendo no celular, sem dar muita atenção ao que acontecia à volta.
Todos eles olharam para Nate, e depois olharam para mim com uma cara de quem diabos é essa pessoa? Eu não gosto muito de ser o centro das atenções, principalmente quando parece que as pessoas estão a fazer olhares desse para mim.
— Gente, esse é o Ask, o cara que eu estava contando para vocês – Disse Nate, num tom totalmente neutro, se dirigindo ás pessoas a nossa frente.
Todos eles olharam para mim, sem dizer uma palavra. Podia sentir a tensão no ar.
— O-Olá... – Eu podia sentir minha língua presa na minha boca como se a tivessem colado, depois soldado e por fim cimentado.
Eles continuaram a olhar para mim sem dizer nada. A tensão estava tão forte que era quase sólida no ar.
— Bem, Esta é a Caroline, mas a podes chamar só de Carol. O baixinho é o Steven, e o que tem o celular grudado na cara é o William. – Nate devia ter percebido que se não dissesse nada, ou eu desmaiava ou eles pulavam encima de mim.
— Oi. – Disse a garota, Carol, que continuava de pé. Sua voz era fina, mas bem forte. Não parecia estar muito feliz em falar comigo, porém algo me dizia que ela não parecia muito feliz a maioria do tempo.
— E aí? Na paz? – Disse o moreno, William, que voltara a olhar a tela de seu celular. Sua voz era bem calma e suave.
O único que não havia falado nada era o Ruivo, Steven, que parecia estar demasiado embaraçado para falar qualquer coisa. Ele provavelmente tinha alguns problemas pare se comunicar.
— Ele não consegue, mas está a dizer ‘’olá’’. – Disse Carol, que continuava com o mesmo tom de voz.
— Senhora e Senhores, esse é o mais novo candidato para o nosso grupo. Por isso, devemos fazer a Coisa. – Explicou Nate aos outros. – Espero que não se importe Ask.
— Hã.. De maneira alguma? – Eu disse, tentando entender oque seria exatamente uma Coisa.
Como num movimento combinado os quatro se juntaram num pequeno grupo, um pouco afastado de mim, e começaram a discutir em sussurros. Por vezes algum olhava por cima do ombro para mim, talvez para ter certeza que eu ainda estivesse ali. Eu não saí do meu lugar.
Depois de talvez dois ou três minutos, eles se separaram e olharam para mim.
— Você foi aceito no nosso grupo, mas primeiro, tem que responder a um inquérito. – Disse William, com o mesmo tom de voz anterior.
— Certo... E qual seria esse inquérito...? – Eu pergunto, rezando para que não fosse nada que iria me marcar o resto da vida, ou algo que me fizesse ser atormentado o resto do ano.
— Bem, — William continuou – o inquérito é bem simples. Você tem dificuldades de comunicação, tem dificuldades de se misturar com outros, dificilmente faz amizades, sofreu qualquer tipo de bullying, ou tem gostos completamente diferente dos outros, e por fim, dificilmente alguém quer falar com você sem razão nenhuma?
— Bem simples. – resmungou Nate, olhando para o chão.
Aquilo foi apenas muita informação para mim, mas acho que no final, ele só resumiu a minha vida social ultimamente.
— Sim...? – Eu disse tentando não fazer com que eles me achassem indigno de pertencer ao grupo.
Eles, num movimento muito provavelmente combinado, voltaram a se juntar num pequeno círculo, e continuaram a sussurrar.
Depois de mais algum tempo, eles voltam a se separar.
— Sendo assim, Bem vindo ao nosso grupo, Senhor Ask. – Disse William, novamente. Estou começando a achar que ele é o porta-voz do grupo. Ou que os outros apenas não estejam a fim de falar.
Eles se sentaram novamente na mesa. Nate puxou um banco para mim, para poder se sentar com eles.
— Bem, de onde você é? – Perguntou Carol. Ela havia tirado um pequeno livro de notas, e estava aparentemente pronta para anotar qualquer coisa.
— Portland. Nasci lá. – Eu disse, tentando me enturmar.
Ela pareceu anotar aquilo.
— Primeira vez em Tillamook? – Ela continua a anotar.
—Sim, me mudei para cá anteontem – Eu expliquei.
Ela parou de anotar.
— Está aqui á três dias? – Ela perguntou, um pouco chocada.
— Hã... Fazendo as contas... Sim. – Eu disse, fazendo contas matemáticas extremamente difíceis.
— Isso quer dizer que ele não conhece a área... –disse William, também um pouco chocado.
— Conhece King’s Peak, pelo menos. – Comentou Nate – Foi onde nos conhecemos.
— Podíamos mostrar para ele os lugares, já que ainda falta bastante tempo para as aulas começarem. – Disse Steven. Foi a primeira vez que havia dito algo. Sua voz era um pouco tensa. Talvez ainda estivesse um pouco nervoso pelo fato de eu estar lá.
— Nós podemos usar a nossa passagem secreta – Sugeriu William, que parecia estar ficando bastante empolgado com a ideia.
— Então vamos fugir da escola? No Primeiro dia de aula? Sério? – Falou Nate, no seu canto da mesa.
— F-Fugir? – Eu digo.
Por mais que eu tenha sido aceito extremamente rápido nesse grupo , Eu não estava a fim de fugir da escola. Eu nunca havia feito nada parecido com isso antes, e se alguém soubesse, eu teria muitos problemas.
— Não se preocupe ninguém vai ver. Fizemos isso o ano passado inteiro e ninguém reclamou. – Disse Carol, tentando me acalmar.
— Eu acho que quero ficar – Disse Steven, que não devia apreciar a ideia. Gostei desse cara.
— Ah não. Você vem com a gente. – Exclamou Nate.
Não demorou muito até todos estarem de acordo para me arrastar para lá fora.
Saímos daquela sala e fomos para o lado de fora da escola. Passámos por uns jardins e chegamos até a grade que separava a parte de trás da escola de um pequeno bosque de pinheiros. Todos se aproximaram de um poste de metal, onde as grades se encontravam.
Nate apenas puxou um dos lados da grade, e esta se abriu como uma porta, e um a um nós saímos. Enquanto os outros iam em direção ao bosque, eu me aproximo de Nate. Querendo ou não, ele era o que eu mais conhecia.
—Tem certeza que isso é seguro, Nate? – Eu pergunto chegando perto dele.
— Não se preocupa, já fizemos isso várias vezes e, além disso, vai ser rápido. – Ele disse calmamente para mim. – Só vamos ver alguns lugares mais conhecidos, para não você não ficar perdido por aqui.
Ele soltou a grade, que voltou a sua posição normal.
— Vamos lá?- Ele disse, pegando meu pulso e me puxando para junto dos outros.
Começamos a andar pelo bosque, até darmos com um riacho, que começamos a seguir.
— Onde isso vai dar? – Perguntei para William, que estava ao meu lado.
— Vai dar até uma pequena caverna, que é um ponto turístico pouco conhecido, por isso, está sempre vazio. – ele respondeu enquanto andávamos.
As árvores não eram muito altas. A neve já havia parado de cair, mas continuava muito frio. As margens do riacho estavam congeladas, fazendo com que ele ficasse mais apertado e mais rápido. O chão estava coberto de neve, e as únicas pegadas que se viam eram as que nós deixávamos para trás.
Passado um tempo, pude ouvir Steven anunciando que havíamos chegado. E quando eu vi a caverna estremeci.
Era a mesma caverna do meu sonho.
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