Between earth and heaven

4 Estou aqui, pequena Hany


Lá estava eu, sentada, perplexa, sem conseguir controlar as lágrimas teimosas que insistiam em vir, com muito esforço consegui desligar a tv, ver Jin machucava, vê-la tão sorridente machucava, sentir sua falta machucava, mas ver que ela havia escondido algo como um ‘’casamento’’, isso reabria aquela ferida em meu coração, que nunca fora capaz de cicatrizar e estava lá desde que eu a perdi.

Lembro-me de tê-la visto com um anel, também me lembro de ter preferido não perguntar sobre.

Arrependo-me.

Talvez se eu houvesse perguntado, ela falaria de bom grado, ou mentiria mais. Eu não sei, parecia que eu não a conhecia mais, pois desde sempre ela dividia os seus mais profundos segredos comigo, e eu com ela.

Jin era linda, seus cabelos castanho mel, demasiado lisos, os olhos cor de mel que combinavam com os fios delicados, ela era alta, tinha feições meigas e um sorriso cativante. Eu por outro lado, tinha olhos em um tom castanho escuro, cabelos da mesma cor que também exibiam algumas finas mexas que eram um pouco mais claras, quase imperceptíveis, notava-se quase sempre a luz do sol, meus fios pendiam até abaixo da cintura, mas quando tomei a tutela de Hany os cortei abaixo das orelhas e os mantive assim desde então, eu era considerada baixinha, mas isso nunca foi um problema para mim.

Eu estava tão confusa, lembro-me vagamente de Jin falar sobre um Jev, não sobre um Patch, mas no DVD era claramente ele, claro, o tempo havia alterado pequenos detalhes, mas nada muito relevante. A única coisa da qual eu tinha certeza era que minha vida havia virado uma verdadeira bagunça desde que Patch a invadira.

Continuei sentada no sofá tendo mil devaneios sobre Patch e Jin, sobre Patch ser o pai de Hany, sobre ele ter voltado para tirá-la de mim, isso explicaria muita coisa, mas que direito ele tinha? Quem esteve presente durante toda a vida dela fui eu, quem acompanhou seu crescimento, desde as primeiras palavras, o primeiro passo, a primeira música, até agora, fui eu, nesses 5 anos ele nem sequer se deu ao trabalho de escrever um carta ou tentar se comunicar, ele nunca esteve por perto quando ela estava doente, ou chorando, eu havia sido tudo que Hany tinha, eu havia sido sua mãe e seu pai, e se ele queria fazer agora o que não fez durante todo esse tempo, sinto muito, eu dispensava, nunca se sabe quando ele irá sumir novamente e partir o coração da pobre Hany.

Foi então que em meio a esses devaneios ouvi alguém entrar pela porta da frente. Era ele, só podia ser ele, continuei lá, imóvel, iria confrontá-lo!

– Chefinha! Me esperando? – Permaneci calada, fitando qualquer coisa a minha frente – Está tendo um dia ruim? – Pude sentir a ironia em sua voz, assim apenas joguei o DVD aos pés dele, os olhos de Patch me encontraram, parecia inquieto.

– Honnie, eu posso explicar... – Ele começou, mas logo eu levantei bruscamente fazendo-o parar de falar imediatamente, caminhei até estar perto dele, mais perto do que eu gostaria, levantei o rosto para encará-lo, tínhamos uma notável diferença de tamanho.

– Explicar o que? – Minha voz saiu mais alta do que eu esperava – Que era tudo premeditado? – Comecei a socar o peito dele a medida que eu falava – Que você sabia bem quem Hany era? – Mais socos – Que casou-se com Jin e a abandonou com uma criança? – A cada soco ele dava um passo para trás – Que depois de cinco anos... – Travei, as lágrimas voltaram – Depois de cinco anos resolveu aparecer e bagunçar a vida da minha filha? – Dessa vez ele segurou meus pulsos.

– Honnie, por favor... – Eu já estava chorando mais uma vez – Eu só ... – E eu o interrompi de novo.

– Você... – Minha cabeça estava uma bagunça, eu não conseguia organizar os pensamentos – Todas as vezes que Hany perguntou porque todas as suas amiguinhas tinham pais e ela não, eu tive que inventar qualquer mentira, dizer que ela tinha um pai que a amava, mas que não podia estar aqui agora – Meus olhos encontraram os olhos dele, eram negros e frios, mas isso não me intimidou – Você não tem nenhum direito de estar na vida dela –

– Honnie, vamos conversar como pessoas normais – Ele desviou o olhar para o chão — tem muita coisa que você não sabe. -

Não consegui falar mais nada, parei de chorar, mas ainda estava tensa, Patch estava sentado a minha frente e eu não tinha nenhuma expressão, estava esperando que ele falasse primeiro.

– Honnie, apenas escute agora, se quiser falar algo, xingar, gritar, depois ouvirei – Pela primeira vez vi Patch sendo sério com algo – Jin era muito importante para mim, ela foi capaz de me tirar da escuridão. Quando eu estava com ela, parecia impossível ser o verdadeiro “Jev” – Ele disse seu aparentemente verdadeiro nome entre aspas – E ela dizia que me amava, era a primeira vez em muito tempo que alguém não me via como uma ameaça, eu nutri um enorme carinho por Jin, mas nunca fui capaz de amá-la, porque eu não sabia, eu não sei, como amar alguém... Mas para protege-la eu fui embora, estar comigo significava perigo para Jin, quando soube de Hany me senti um completo idiota, levei essa culpa por anos, mas eu precisava vê-la – Um sorriso, mas não aquele sorriso irritantemente irônico, um sorriso sincero, pela primeira vez acreditei em suas palavras, mas isso não significava que eu iria perdoá-lo, compreende-lo, ou deixar ele ter proximidade de Hany.

Levantei meus olhos a altura do rosto dele, respirei fundo – Não foi capaz de amá-la e ainda assim a deixava tão feliz, Jin era realmente incrível – Eu senti certa raiva por Patch dizer tais palavras, mas por mais que ele fosse um completo idiota, ele fez Jin feliz, nunca a vi sorrir tão radiante como naquele maldito vídeo – Desculpe, não consigo enxergar em você o pai que Hany merece, nós estamos bem assim, se ela começar a vê-lo como um pai e você sumir para a segurança dela – fiz questão de pronunciar “segurança” em profunda ironia – Minha filha ficaria muito mal.

– Honnie, veja bem, se eu não tivesse a intenção de assumir meu papel, nem sequer viria depois de tanto tempo, ver que Hany está se tornando uma garotinha tão adorável, tão parecida com Jin... Estou orgulhoso da minha filha! –

– Sua filha... – Falei incrédula.

– Honnie, não pode impedir um pai de ficar com sua filha –

– Patch, se um pai quer fazer parte da vida de uma filha, ele o fará desde o começo! –

– Eu me arrependo Honnie, será que não vê? –

Suspirei.

Que monstro eu seria se impedisse Hany de conhecer o pai que ela tanto esperou?

– Patch, você mesmo conte para ela! – Falei retirando-me de perto dele e subindo ao primeiro andar para chamar Hany para jantar.

O dia foi longo, e eu estava exausta, no fundo esperava que fosse apenas um horrível pesadelo, mas não era, a dura realidade estava lá, no andar de cima. Naquela noite levei Hany para dormir comigo, não estava segura de deixa-la dormir sozinha e vulnerável em seu quarto, ainda não confiava em Patch.

O resto da semana se arrastou, cada dia mais tenso que o outro, Patch se aproximava de Hany e eu não podia fazer muita coisa. Agora sabia bem de onde vinham os olhos e cabelos tão negros que Hany possuía.

Dave, meu chefe percebeu certa tensão em mim, tentou conversar, foi muito atencioso, mas preferi ficar calada, como sempre super educado me deixou quieta para pensar na situação, imaginei várias vezes Hany chorando inconsolável por ter ficado sem pai mais uma vez, estava tentando confiar em Patch, mas ele já havia sumido uma vez, o que o impedia de fazer isso de novo?

No domingo, estávamos todos em casa, Patch havia decidido que contaria para ela.

– Hany, será que posso conversar com você? – Eu observava tudo a certa distancia, estava preparada para acolhê-la caso não reagisse bem a noticia, me senti egoísta por no fundo desejar isso.

– Pode sim, Patch! – Ela a sentou no sofá e ajoelhou-se a frente da pequena, ele estava escolhendo as palavras certas, embora a situação fosse difícil, ele não parecia nervoso.

– Hm, o que acha de ter um pai? –

– Eu tenho um papai... A mamãe disse que ele está ocupado, mas que logo virá me ver! –

– E se ele já tiver chegado? – Uma luz se acendeu no rosto de Hany, seu sorriso foi tão grande que os olhos puxados sumiram.

– Você conhece meu papai, Patch? – Ela tinha fortes esperanças.

Patch a fitou cuidadosamente – Estou aqui, pequena Hany – Um sorriso torto surgiu nos lábios dele, foi a primeira vez que vi algo parecido com insegurança no rosto dele.

– Você... é meu papai? – Eu não soube decifrar a expressão dela, parecia estar tentando entender uma lógica complicada. Patch assentiu.

Hany parecia confusa, queria do fundo do meu coração pegá-la no meu colo e tirar ela dali, mas não podia, querendo ou não, Patch era seu pai, e eu não podia tirar dela o direito de aceita-lo ou não.

– Hany, eu não pude estar com você antes... Por favor, me perdoa? – Os olhos dele transmitiam enorme sinceridade, Hany por sua vez não disse nada, por um instante imaginei que ela o empurraria longe e que correria até meus braços implorando para tirá-lo de nossa casa, mas para minha surpresa, ela o abraçou. Abraçou forte e ele retribuiu.

Ao fim do dia eu me sentia abatida, talvez fosse o ciúmes, agora Hany não era só minha, eu não seria a mãe com quem ela sempre contava, agora ela tinha um pai. Um pai que iria mimá-la, talvez mais até do que eu fazia.

Era o final do Outono e a noite era fria, preparei um chocolate quente, Hany brincava com seu pai, ela havia me chamado para participar, mas preferi não me meter no feliz encontro pai e filha, e ainda não havia me acostumado a ideia de Patch ser o novo membro da ‘’familia’’. Com minha caneca em mãos resolvi ir lá fora, olhar as flores... Pensar, era o que eu fazia para organizar as ideias e não enlouquecer.

Já era tarde da noite e eu continuava lá fora, olhando o céu, estava estrelado, dava para ver perfeitamente as estrelas de onde eu morava já que não haviam as luzes da cidade, ou qualquer coisa assim, esses momentos faziam valer a pena minha escolha de moradia afastada do resto do mundo.

Fui interrompida de meus devaneios pelo ruído de uma risada atrás de mim, virei-me e meus olhos encontraram Patch, respirei fundo. “Calma Honn, você está fazendo isso pela Hany, tudo vai acabar bem, você vai se adaptar”.

– Não está meio frio aqui fora? – Ele aproximou-se de mim, eu estava sentada no chão, sentia frio mas gostava.

– Sim, mas é agradável – Falei normalmente, ele sentou-se ao meu lado, parecia procurar algo no céu.

– Honn, pode ver aquela estrela ali, a apagadinha? – Ele apontou, haviam quatro estrelas no mesmo canto e uma delas tinha o brilho um tanto fraco, mas continuava ali, com sua sutil presença.

– Sim, eu vejo – Patch mexeu nos bolsos e puxou um papel que estava dobrado, entregando-o em minhas mãos – O que é isso? – Perguntei sem entender sua ação.

– Um presentinho, em agradecimento por ter permitido que eu pudesse estar com Hany – Ele sorriu, era uma mistura de sorriso brincalhão e sincero, ele tinha muitos sorrisos.

Olhei para ele esperando que fosse alguma brincadeira sem graça e ele fez um sinal para que eu abrisse o papel, assim eu o fiz desdobrando duas vezes, pude ver que era um documento, uma nova estrela que havia nascido a pouco tempo recebera o nome de “Honnie”, o olhei quase sem acreditar, o que eu deveria falar em relação a tal fato?

– Patch... – Eu olhei a estrela mais uma vez, levantando-me do chão, ele fez o mesmo – Não precisava... –

– Sabe, essa estrela passou por muitos estragos para chegar onde chegou, e por cima de todas as dificuldades, ela está ali, brilhando a sua forma e a seu ritmo – Ele tocou meu ombro – Espero que tenha gostado. –

– Eu... Eu gostei muito – Falei completamente sem graça – Mas um obrigado sincero já estaria bom! – Foi então que inesperadamente ele me abraçou forte e protetor.

– Sinceramente, obrigado... – A sua voz grave e baixa saia em perfeita sintonia, eu não sabia como reagir e por um curto tempo retribuí o abraço, mas logo me afastei.

– Não foi nada – Quem era ele? Onde estava o Patch irritante e convencido?

Afinal, acho que enfrentarei tempos bem agitados.