Between Memories And Oblivion
1 Prologue
Notas iniciais
“Caros Serafins, por meio desta carta gostaria de informar sobre os acontecimentos que se sucederam no campo de batalha. Como minhas mãos foram feridas nesse meio tempo, meu servo, Logan, está escrevendo por mim, e fez as devidas alterações para que pudesse ser entendida ao ser lida.
Pois bem, a princípio de tudo devo lhes dar conhecimento sobre o resultado final da guerra entre anjos e demônios que se sucedeu aqui, na Planície do Adormecer. Nós ganhamos. Duas semanas depois de eu ter enviado um de meus soldados para a capital, Hillyria, nossos exércitos cercaram o acampamento dos demônios. Queimamos todo o lugar e eu mesmo fiz questão de exterminar todos os demônios com Masamune, a espada que destrói a alma desses seres imundos, não deixando que eles renasçam no Inferno novamente.
Porém, ultimamente esta mesma espada começou a afetar minha saúde drasticamente. Começo a achar que ela não deve ser tocada por mãos divinas como as dos anjos e qualquer um que detenha nosso sangue em seu corpo, uma vez que ela própria, ao longo de meu uso dela, queimou minhas mãos. Portanto, estou a enviando junto com este mensageiro e esta carta para que vossa senhoria cuide bem desta arma mortal, pois ela não deve ir jamais parar em mãos erradas.
Agora devo citar que um forte já começou a ser construído no campo de batalha para evitar futuros ataques surpresa por parte dos seres do Inferno. Em breve, grande parte do exército estará em Hillyria. Enquanto isso, gostaria de ressaltar novamente o que se sucedeu durante a guerra.
Primeiramente, gostaria de afirmar que, de todas as guerras que já lutei e liderei, esta foi, de longe, a mais confusa e diferente, principalmente quando levamos em conta os próprios soldados. Estou me referindo, vossas majestades, a um simples anjo chamado Roxas, que me causou mais dor de cabeça do qualquer General Demônio que eu já tenha enfrentado.
Como disse anteriormente, enviei um soldado para a capital, e Roxas era este anjo. Enviei-o com o motivo de ele ter perdido sua sanidade após eu ter matado o que parecia um ex-general do Inferno. Tal anjo ficou tão abalado que tentou me matar e deixou bastante claro que era perigoso tanto para si quanto para aqueles que o rodeavam.
No entanto, antes que aquele dia terminasse totalmente, fiquei cismado por saber o real porquê de Roxas ter ficado tão abalado com a morte de um inimigo, então chamei seu servo, o único que tinha, chamado Sora.
Este, por sua vez, afirmou fatos de que eu já tinha conhecimento, como que Roxas um dia fora “sequestrado” durante a guerra pelo mesmo ex-general demônio que matei, Axel. Este o levou para o acampamento dos demônios e o manteve lá por um tempo. Segundo Sora, Roxas se apaixonou por Axel, de alguma forma, durante sua estadia naquele lugar.
No entanto, Roxas voltou ao nosso acampamento bastante abalado, e não quis cooperar em nada que pudesse nos ajudar a ganhar a guerra, como algumas informações sobre nosso inimigo. Passaram-se vários dias até que ele voltasse ao campo de batalha realmente, por ordem minha. Outra coisa que devo acrescentar é que eu não sincronizava com aquele anjo, e por várias vezes, discutíamos.
Quando chegou aquele dia que eu matei o ex-general Axel, Roxas tentou me matar e por precaução o enviei a Hillyria. Resumindo tudo, Roxas tinha se apaixonado por um demônio... Em toda minha existência eu jamais tinha visto algo assim. Também descobri que a causa de ter se tornado um “ex”-general, falando de Axel, foi que, ao proteger Roxas dos demais demônios no acampamento deles, o ex-general fora condenado a matar Roxas e a voltar para o Inferno, perdendo assim seu posto de General do Sétimo Círculo. Porém, o ex-general não o fez, e para isso, mandou que Roxas fosse embora e voltasse para nosso acampamento, onde ele conheceu Sora e o tomou como servo. Mas agora Axel está realmente morto, uma vez que transpassei-o com a espada destruidora de demônios, Masamune.
Tudo se resume bastante a um verdadeiro drama digno das novelas humanas, do qual agora vossas senhorias sabem.
Altair, Arcanjo da 23º Divisão.”
Os Serafins releram a carta várias vezes antes de mandarem chamar o único sobrevivente do grupo de mensageiros que tinham sido mandados por Altair até a capital.
O anjo entrou na enorme sala, com gazes cobrindo grande parte do corpo e ofegante, ajudado por outro anjo.
-Pode nos dizer o que exatamente ocorreu na sua viagem da Planície do Adormecer até aqui?-Um dos Serafins perguntou calmamente enquanto os outros se acomodavam melhor nos altos tronos de mármore.
-Nosso grupo foi atacado... Por alguma coisa... Não sei o que era... Levaram a espada... Aquela espada... -O anjo respondeu, claramente abalado.
-E como conseguiu sobreviver e trazer a carta consigo?
-Eu... Eu tinha me atrasado para partir... Fui depois e estava... Acompanhando o grupo de longe... Bem longe... Foi quando ouvi... Ouvi os gritos mais a frente... E vi todos mortos... O mensageiro que carregava a espada... Estava morto e... Sem ela... Eu era que carregava a carta... Os demais carregavam cartas dos soldados para... Suas famílias... E amigos...
O anjo estremeceu e se sentou numa cadeira próxima. Sua mão pairava sobre o próprio peito, como se estivesse segurando o coração cansado. Os Serafins mantiveram-se em silêncio, pensando em conjunto. Alguém havia roubado Masamune.
Depois de alguns segundos, o Serafim líder, Kaleo, dispensou o anjo, que voltou ao hospital ajudado por seu amigo. Precisavam reaver aquela espada. As futuras guerras contra os demônios dependiam dela, assim como o fato de que, como Altair havia dito, era algo que jamais poderia parar em mãos erradas.
-O que faremos?-Perguntou Kalleb, com as mãos entrelaçadas no colo.
-Precisamos encontrá-la logo. -Kaleo falou, olhando os outros, no total três com ele. — Mas precisamos manter também este assunto em sigilo. Os ouvintes de Lúcifer estão por todo lugar. Temos que fingir que ainda estamos com Masamune.
-Por que tal decisão, Kaleo?-Kallil perguntou, com seu olhar incisivo de sempre refletido em seus olhos dourados.
-Para que os demônios nos temam e não ousem nos atacar novamente, pelo menos não por enquanto. -Kaleo respondeu, autoritário.
-Teremos que mandar equipes de busca imediatamente. Alguma probabilidade de ela ter caído na Terra?
-Não sei, Kallil, mas não é impossível. Chamem os Farejadores. Mande-os procurarem em todos os lugares, inclusive na Terra.
-Você não acha que os ladrões podem ter sido demônios? E se eles já estiverem com Masamune no Inferno?-Kalleb perguntou novamente, inseguro.
-Leve em conta a proximidade de Hillyria a cena do crime. Não acha que um demônio qualquer poderia chegar tão perto sem morrer, acha? Eu creio que tenha sido algum demônio de alto escalão, ou até um próprio anjo... Ou quem sabe, a própria espada tenha criado consciência e tenha decidido matar a todos.
-Está divagando novamente, Kaleo. Não invente asneiras. -Kallil repreendeu, arrancando uma pena suja de suas asas extremamente brancas. No mesmo momento, outra pena nasceu no lugar da antiga.
-Essa questão é algo que devemos discutir, uma vez que a espada veio do Inferno e foi forjada pelo próprio Segundo Anjo Caído, Sephiroth, cujo não temos nenhum paradeiro conhecido.
-Podemos passar essa questão para outra hora, então?-Kalleb perguntou, encolhendo-se no trono, com a voz tão baixa quanto um sussurro.
-Claro que sim, Kalleb. Por hora, devemos nos concentrar em outros três assuntos mais importantes: O novato que acabou de chegar, o Invasor de Hillyria e o tal de Roxas.
---------------------------------------------------
Moscou, Rússia, ano de 1996
O garoto olhou para baixo, maravilhado com a tenebrosa cena a seus pés. Um corpo jazia diante de si, encharcado em sangue, com o odor pútrido já se apresentando. Tinha matado mais um.
Sorriu, vendo o quanto fora fácil matar aquele homem. O quanto fora fácil descobrir seus segredos e suas fraquezas. Fora tão fácil que até ele, uma criança de apenas 10 anos, conseguiu matá-lo sem mais dificuldades.
O garoto nunca fora uma criança normal. Não, passava muito além disso. Com três anos de idade, perdera sua mãe. Nunca tivera um pai, mas também pouco ligava para isso. Desde então, passou a viver nas geladas e impiedosas ruas de Moscou, sempre procurando por abrigo e por comida, como um verdadeiro rato de esgoto, se bem que o esgoto frequentemente se tornava seu abrigo durante a noite.
Ergueu o braço, limpando com a manga da blusa em frangalhos alguns filetes de sangue que escorriam da sua boca. O homem lhe batera antes que pudesse esfaqueá-lo. Mas não gostava de matar daquela forma. Apreciava uma morte lenta, principalmente quando as vítimas imploravam por piedade, coisa que nunca esteve em seu vocabulário. Ah, ver seus olhos amedrontados e suas vozes fracas apenas pedindo (ou melhor, implorando) que parasse era como uma droga. Viciante. Era como se ele descontasse em alguma coisa todas as mágoas que sofrera no gelo de Moscou.
Quando completou oito anos, matou sua primeira pessoa. Não fora algo intencional, e sim por acidente. O homem era barbudo e estava bêbado, e quando ele veio para cima do garoto falando coisas estranhas e exigindo pedidos mais estranhos ainda, este último ficou apavorado. Estavam num beco escuro, e era madrugada. Não teria como fugir. O homem se aproximou mais, deixando que a garrafa de uísque que carregava caísse no chão, vazia. Atrás de si só havia um imenso muro de pedra, o que significava que ele estava encurralado.
Mais perto ainda, o homem estendeu um dos braços e começou a tirar o casaco rasgado que o garoto vestia, que por sua vez estava apavorado demais para fazer alguma coisa. Já tinha visto coisas assim, de longe, com algumas outras crianças. Já ouvira histórias de adultos que faziam coisas horríveis com crianças, coisas que só deveriam ser feitas com outros adultos. E sabia que o resultado final não era nem um pouco agradável.
Foi então que, de repente, bateu no braço do homem barbudo e o afastou, tentando fugir em seguida pela saída do beco. Adrenalina pulsava dentro de si, e agora não tinha mais tanto controle por seus atos. Era como se alguma coisa, talvez o instinto de sobrevivência, estivesse controlando seu corpo, ansiando apenas por sair intacto dali.
Mas o homem, talvez não tão bêbado assim, agarrou o garoto, derrubando-o no chão e montando em cima dela, esmagando-o com todo aquele peso. O homem soltou um sorriso malicioso. O garoto olhou em volta, com o medo tão grande que quase seria palpável. Então viu a garrafa de uísque vazia a seu alcance.
As mãos do homem correram para a camisa do menor, e este, sem nem pensar, agarrou a garrafa com uma das mãos trêmulas e a bateu contra a cabeça do homem. Imediatamente o vidro se quebrou, causando um grande ferimento na cabeça do homem barbudo, que rolou para ao lado, gritando de dor, indefeso.
O garoto, se fosse uma criança normal, teria fugido naquele exato momento. Mas o garoto não o era, e por isso, na hora sentiu uma emoção tão dominadora que voltou a bater o que restou da garrafa contra a cabeça do homem, derrubando-o no chão, enquanto tentava se proteger do vidro cortante que o atingia sem parar, agora no rosto.
Sangue rubro encharcou o chão coberto de neve. A mesma emoção que o fizera bater no homem, agora o impedia de parar. Em cinco minutos o homem estava morto, mas o garoto continuava batendo. Não sentia mais medo, apenas a adrenalina continuava alimentando aquela emoção. Meia hora depois seus braços doíam de tanto fazer o mesmo movimento.
O sangue cobria suas roupas sujas e rasgadas. Um largo sorriso encheu seu rosto. Foi como tirar uma grande peso de suas costas. Não ligava se aquele homem tinha família, se tinha amigos ou se alguém sentiria falta dele. Não se importava. Apenas adorara a adrenalina e a satisfação que aquela emoção que o tomara lhe proporcionaram. Foi assim que começou a matar.
Seis meses depois, matou outro homem. Este tinha-lhe flagrado roubando algumas frutas de sua mercearia. O garoto matou-o apenas pelo outro tê-lo irritado. Também não fora difícil, já que desde aquele incidente com o homem barbudo, agora sempre andava com uma faca escondida na parte de dentro do casaco.
Aos nove anos, matou dois homens de uma vez. Ambos estavam bêbados, desorientados e indefesos. O garoto então percebeu que já não sentia mais aquela adrenalina de antes, e que nem sentia mais medo. Talvez, afinal de contas, estivesse perdendo seu coração.
Todas as noites encolhia-se nos túneis do esgoto, que lhe protegiam do frio. Lá pensava se não estaria ficando viciado em matar. Talvez, mas novamente, não se importava. De manhã ia sempre roubar alguma coisa para comer, e de vez em quando, via as crianças de sua idade, geralmente acompanhadas de seus pais. Eram todas infantis demais, crianças demais, burras demais. Não sobreviveriam um dia nas ruas. Quem sabe as ruas lhe endureceram o couro e congelaram seu coração.
Meses depois, voltou a matar. Os jornais e a polícia já começavam a colocar os olhos naquelas mortes, mas toda vez que matava, o garoto ganhava mais experiência, e logo sabia dos melhores truques para não ser pego. Tinha um corpo de uma inocente criança, mas uma mente de um adulto, o que facilitava muito na fuga.
Então chegou aos dez anos, e agora, olhava diante de si o homem que matara. O pobre coitado havia o achado dias antes, quando estava indo se abrigar no esgoto. O homem chamou-o então para dormir em sua casa, num pedido claramente inocente e sem a malícia que o garoto conhecia nas ruas. Deveria ser um ótimo adulto. Deu-lhe roupas novas, comida e uma cama quente para dormir, sem nem mesmo conhecê-lo, mas quanto mais o tratava bem, mais aquela emoção que o impulsionava a matar se revelava.
Tentou resistir, e pela primeira vez, não quis matar. Não porque gostava do homem, mas sim pelo fato de este lhe ser bastante útil, oferecendo-lhe um lugar pra ficar. Mas não se controlara e acabara matando-o no meio do almoço, com uma das facas do lugar. Pobre homem. Agora estava estatelado no chão do apartamento, morto, com uma expressão torturante nos olhos.
O garoto foi até os fundos do lugar e achou uma garrafa de álcool, que derramou por todos os cômodos. Havia pistas demais ali, coisas que poderiam incriminá-lo. Quando terminou, pegou uma mochila nas coisas do homem e jogou tudo de útil dentro, não se esquecendo de pegar seu dinheiro.
Não sentia remorso por ele. Apenas pena. Pena por ter acreditado naquele garoto que, aparentemente, era um simples garoto amadurecido bem antes graças as frias e impiedosas ruas de Moscou.
O garoto foi até a porta, preparando-se para sair, mas antes, acendeu um fósforo e jogou-o no chão, logo vendo o fogo espalhar-se por todo o cômodo, alimentado pelo álcool. Passou pela porta e fechou-a atrás de si.
Cinco minutos depois, andava pelas ruas da cidade, calado e impassível como sempre. As pessoas de Moscou já não lhe causavam aquela emoção que o fazia matar. Percebeu também que não eram muitas as pessoas que causavam isso. Tinha que escolher suas vítimas agora, e elas não seriam encontradas ali.
Tendo dinheiro suficiente para viajar, teve a idéia de ir para o país que mais aparecia na TV, país que era famoso por seus assassinos em série, ou seriais killers. Achou o perfil deles muito parecido com o seu próprio. Quem sabe não fosse um serial killer, afinal de contas.
Ao chegar ao aeroporto, foi até o banheiro se limpar mais adequadamente. Já notara que as pessoas confiam mais naqueles que estão mais bem vestidos, que são mais educados e que, logicamente, estão mais limpos. Olhou-se no largo espelho do banheiro do lugar. Tinha a aparência de uma criança normal. Estatura comum para a idade, olhos azuis e cabelos longos loiros, que frequentemente lhe incomodavam, graças a cor. Talvez os cortasse quando chegasse aos Estados Unidos, seu destino. Poderia até pintá-lo de uma cor diferente. Quem sabe... Rosa?
Foi então que uma criança bastante parecida consigo entrou no banheiro, vestindo roupas caras e trazendo uma mochila nas costas. Chupava um pirulito inocentemente.
O garoto sabia que não conseguiria pegar um avião sozinho, agora que prestava atenção. Aquele garoto realmente viera a acalhar. Eram tão parecidos que pareciam gêmeos até, tendo a pequena diferença do garoto ser uns dois centímetros mais alto que o pirralho do pirulito.
O banheiro estava vazio. O pirralho do pirulito deixou sua mochila na bancada da pia e foi se aliviar num dos boxes, enquanto o garoto trancava a porta silenciosamente para que não chamasse atenção do outro, que o ignorou ao passar por ele.
O garoto tirou sua faca de dentro do bolso interno do casaco e esperou o pirralho sair, mantendo a arma escondida debaixo da roupa, mas ao alcance rápido de suas mãos. Logo que o pirralho do pirulito saiu, o mesmo foi lavar as mãos, olhando de relance o garoto, que mantia um sorriso simpático no rosto.
-Ham... Oi. -Falou o pirralho do pirulito, meio assustado.
-Olá. Qual seu nome?-O garoto perguntou.
-Derik. E o seu?
-Marluxia. -O garoto se aproximou para apertar a mão do outro, fazendo-o normalmente. -Vai viajar?
-Sim. E você?
-Eu me perdi dos meus pais. Não sei o que fazer. Mas para onde você vai?
-Pros Estados Unidos. -O pirralho respondeu, deixando clara sua enorme alegria. “Ótimo, esse pirralho realmente foi de grande ajuda”, Marluxia pensou consigo, sorrindo mais ainda.
-Eu queria ir também... Quem sabe um dia, né?
-Aham... Hum... Tenho que ir, senão meus pais vão ficar com raiva...
-Você pode fazer um favor pra mim antes, por favor?
-Claro. O que você que?
-Você poderia trocar de roupas comigo só por um instante? É que eu gostei muito das suas, elas são muito legais! Por favor, deixa eu provar! É bem rápido!-Marluxia implorou. Mesmo que o motivo não tenha sido muito bom, ele sabia que, pelas roupas caras, os pais deveriam ser ricos, e logo, o pirralho deveria ter sido criado dentro de casa e com todas aquelas mordomias, o que significava que ele era inocente demais para suspeitar de alguma coisa. O motivo para não matá-lo logo de uma vez? Precisava das roupas limpas e intactas.
-Hum... Você achou mesmo elas legais? Não é mentira?
-Claro que não!
-Tudo bem, eu deixo. Mas seja rápido, ouviu?
Dois minutos depois, o pirralho estava apenas de cuecas, já logo tremendo de frio. As roupas estavam sobre a bancada, dobradas conforme os supostos empregados dos pais ricos do pirralho o ensinaram a fazer.
-Você não vai vestir? Anda logo, estou com frio. -Reclamou o pirralho, já batendo os dentes, tanto que jogou seu pirulito fora.
-Adeus, Derek. -Marluxia falou, empurrando-o contra um dos boxes e tapando sua boca com uma das mãos enquanto a outra, armada com a faca, transpassava seu peito com habilidade. Aquilo deveria ser rápido e silencioso. Logo o corpo do pirralho não tinha mais vida, sentado em cima da privada, apenas com a roupa de baixo.
Marluxia vestiu suas roupas nele e o ajeitou, fazendo parecer que estava sentado na privada, como se estivesse com uma diarréia daquelas. Vestiu as roupas do pirralho em seguida, trocando até suas luvas pelas dele. O frio natural de Moscou atrasaria a decomposição do corpo, o que lhe daria tempo suficiente para achar os pais do pirralho e sair dali.
Trancou o boxe onde estava o pirralho por dentro, pegou a mochila do mesmo sobre a bancada e olhou-se no espelho novamente. Estava quase totalmente igual a ele, excluindo o fato da altura. Tratou de checar outros detalhes no banheiro, mas como não haviam câmeras ali, estava a salvo, além de que o piso continuava branco e imaculado. Ele mesmo não estava suado nem agitado. Tratou de abrir um sorriso e saiu do banheiro normalmente, calçando os sapatos do pirralho morto.
Olhou em volta algumas vezes, procurando pelos pais de Derek. Talvez houvesse uma foto deles ou seus nomes na mochila. A abriu e viu que lá estavam seu passaporte e outros documentos, assim como uma foto dos pais e do pirralho. A mãe era muito bonita, e o pai, vestido num terno, parecia aqueles empresários. Também havia dentro da mochila um videogame portátil, roupas, notas altas de dinheiro (como um pirralho daquele podia carregar tanto dinheiro consigo?), remédios (que fez questão de olhar se eram de alguma doença que precisasse fingir, mas eram apenas para enjôo) e um celular. Olhou na agenda, procurando pelo número de seus pais, mas não foi preciso.
-Derek!-Uma mulher gritou, abraçando Marluxia como se fosse mesmo seu filho e levantando-o no ar. -Fiquei tão preocupada! Onde estava? Está machucado? Está com fome? Ah, meu querido bebê... -Então voltou a abraçá-lo enquanto Marluxia pensava em como fingir. Recorreu ao básico. Chorar.
-Anna, achou Derek? Ah! Ainda bem que você o achou!-Disse um homem que se aproximou, olhando nos olhos de Marluxia, aliviado. -Onde você esteve, garoto? Pelo amor de Deus, quer nos matar de susto?!
Usando sua voz mais infantil e arrependida, Marluxia falou:
-Desculpe, papai. Desculpe, mamãe. É que eu fiquei preso no boxe do banheiro... Me desculpa, por favor...-E logo começou a chorar mais ainda.
-Tudo bem, Derek, tudo bem... Está tudo bem. O que importa é que achamos você antes de perdermos o vôo.
A mulher soltou Marluxia e o pôs no chão, pegando em sua mão enquanto atravessava o saguão do aeroporto, com seu marido ao seu lado. Se seu filho era burro, os pais eram mais ainda. Que tipo de pais não reconheciam o próprio filho? Não que estivesse indignado com isso, apenas achava algo absurdo. Eles deviam mesmo ser bastante ausentes, uma consequência da riqueza.
Duas horas depois, estavam a caminho dos Estados Unidos da América.
-----------------------------------------------------
Twilight Town, EUA, ano de 2010
Marluxia vestiu seu casaco, saindo de casa e trancando a porta em seguida, atravessando o quintal coberto de neve. Era inverno, e logo precisaria tirar aqueles montes de neve que atrapalhavam a entrada.
Entrou no carro e dirigiu até o Kingdom Hearts, colégio onde seu alvo estudava. Logo soaria o toque, então todos sairiam para retornar as suas casas, mas não seu alvo. Este sempre demorava na sala de aula, talvez copiando as matérias escritas na lousa, já que o mesmo sempre ficava desenhando nas aulas, coisa que pode concluir pelo fato de que o alvo sempre carregava um caderno de desenhos para todos os lugares que ia.
Fazia pouco mais de cinco anos que se mudara para aquela cidade. Lembrava-se bem de quando matara seus supostos “pais” e queimara a casa. Cuidadoso como sempre, fez parecer que fora tudo um acidente, e com os corpos carbonizados, os policiais não puderam identificar as gargantas cortadas. Simples e fácil. Chorou tanto diante da polícia que logo foi tirado da lista de suspeitos do incêndio. Foi então que a idéia de um assassino foi considerada e Marluxia, ou Derek, como chamavam, recebeu ajuda da proteção a testemunha, indo morar em outro estado com outra família que ajudava o governo.
Pouco depois, a polícia anunciou que o responsável pelo incêndio não fora encontrado, e como não havia acontecido mais nada desde então, Marluxia/Derek fora liberado para voltar à cidade onde seus “pais” foram mortos. Como tinha direito a herança, logicamente se tornou milionário, mas ao invés de gastá-la como todo adolescente normal, preferiu gastar somente uma parte, que seria usada para, tecnicamente, sumir do mapa da polícia.
Agora que era tecnicamente um “americano” normal, podendo viver naquele país como um imigrante legalizado comum, precisava agir sem chamar muita atenção. Guardou a maior parte da herança em sua conta e a outra usou para comprar uma casa numa cidade não muito grande chamada Twilight Town, onde viveu desde então.
A casa não era uma mansão, e sim era bastante comum na verdade. Tudo para evitar chamar atenção. Também deve-se acrescentar que, graças a ajuda da proteção a testemunha, Marluxia/Derek pode escolher mudar de nome, e o fez, escolhendo então seu verdadeiro nome como o oficial.
O toque soou e logo dezenas e dezenas de alunos deixavam os portões do colégio, voltando a suas casas. Daqui a cerca de 5 a 7 minutos, seu alvo sairia desacompanhado, coisa que pode concluir pelo fato de que, tanto na chegada quanto na saída, ninguém conversava com ele.
Já fazia um mês que tinha escolhido aquele alvo, e por experiência, dizia que era uma das partes mais divertidas do processo. Mas aquele dia seria especial. Seria quando Marluxia faria contato pela primeira vez com ele. Não estava nervoso, pelo contrário, estava ansioso para que aquilo acontecesse, para ver as reações do alvo.
Olhou no relógio e contou até dez. Não demorou a ver a magra silhueta do alvo deixando os portões do colégio, carregando seu caderno nos braços e com a mochila jeans nas costas. Seus longos cabelos loiros estavam caídos nos ombros desajeitadamente, e seus olhos azuis pareciam cansados como de costume. Sim, era uma garota. Seu nome era Naminé. Tinha 16 anos, adorava desenhar, não tinha muitos amigos, sua cor favorita era branco, tinha pais separados e etc.
Marluxia saiu do carro antes que ela se aproximasse demais e andou em direção a calçada em que ela andava. A jovem andava de cabeça baixa, olhando para o chão como se seus olhos pesassem 5 quilos cada um, por isso, não notou quando Marluxia propositalmente, mas não deixando transparecer, se chocou contra ela, derrubando seu caderno no chão.
Naminé levantou o olhar de repente, assustada, jogada um pouco para trás por causa da força com que Marluxia investira contra ela, mesmo que para ele fosse muito pouco.
-Me desculpe, eu não vi você, eu... -Ela começou a falar, desajeitada, enquanto Marluxia se abaixava no chão para pegar o caderno para depois entregar a ela, com um sorriso simpático no rosto.
-Não é culpa sua, eu também não estava prestando atenção. Queira me perdoar, por favor. -Falou, sorrindo um pouco mais.
-Eu... Ham... Claro, tudo bem... Obrigado por pegar o caderno.
-Qual é seu nome?-Ele perguntou, colocando as mãos enluvadas no bolso da calça jeans, embora já soubesse.
-Naminé. E o seu?
-Marluxia.
Ela riu um pouco, segurando mais o caderno contra o peito.
-Desculpe, é que seu nome é...
-Engraçado? Muitas pessoas já disseram isso, não se preocupe. Então... Você estuda no Kingdom Hearts?
-Sim. Sou do 2º Ano do Ensino Médio.
-É um ano difícil de passar. Tive que subornar uns professores para conseguir.
Marluxia riu acompanhado de Naminé. Claro que aquilo era mentira, pois sempre fora um aluno com notas perfeitas. Aquela conversa serviria apenas para apresentar os dois, então não faria mal contar algumas mentiras.
-Você não é daqui, não é?-Naminé perguntou, sorrindo. Certo de que ela meio que se assustara antes, afinal, você não espera ver alguém que mede quase 1,90, com cabelos repicados cor de rosa e com um sotaque forçado todos os dias, mas até que ele era estranhamente amigável, o que era estranho, já que poucas vezes as pessoas a tratavam bem.
-Não, eu venho da Rússia.
-Rússia?! Sério?! Que legal! Como é lá?
-Posso resumir toda a Rússia em apenas neve, muita neve. E muito fria também. Mas tirando isso, é um lugar legal pra viver. Fiquei lá até os 18 anos então depois vim morar aqui. -Mentiu Marluxia, ainda sorrindo. Era bom dar uma de imigrante que não conhecia muita coisa porque isso indicava que você era ingênuo diante do estilo de vida americano, o que logo aumentava sua simpatia na consideração das pessoas.
-Devia ter umas vistas legais lá.
-Com certeza tinha. Olha, prazer em te conhecer, Naminé, mas preciso ir. Eu consegui um trabalho aqui perto, então acho que vamos acabar nos encontrando logo. -Marluxia passou pela jovem e acenou. -Tchau!
-Tchau, Marluxia!-Ela falou, acenando e andando em direção a sua casa.
O serial killer continuou andando no sentido contrário da calçada até que ela já estivesse bastante distante. Tinha conseguido. O primeiro contato fora um sucesso.
---------------------------------------------------------
Roxas estava de joelhos no chão da praça das Crianças-Anjo, olhando para o rosto do ruivo a sua frente, que apenas o fitava sem entender. Quem era aquele loiro? Como ele o conhecia se ele tinha acabado de “nascer” entre os anjos? E por que ele estava tão triste?
-Hey, você está bem?-Axel perguntou. Não se preocupava realmente com o loiro, mas ele estava com uma aparência tão desolada que ele próprio teve vontade de chorar.
Roxas abaixou a cabeça, olhando para suas pernas. Elas não tinham mais aguentado o peso do corpo quando Axel veio com aquela coisa de dizer que não se lembrava dele. Era mentira. Só podia ser mentira. Mas... Por que Axel mentiria? Afinal, ele ainda o amava, certo? Mas, se ele realmente ainda o amava, por que ainda não o abraçara e o beijara? Será que ele teria mesmo perdido a memória? Como? E afinal, como Axel estava vivo mesmo depois de ter tido sua alma destruída por Masamune?
-Você não vai começar a chorar, vai? Desculpa aí, mas eu realmente não sei quem você é. -Axel falou, tentando amenizar a situação.
As lágrimas vieram aos olhos do loiro, que não se preocupou em deixá-las cair. Era como se aquela ferida estivesse curada, mais ainda doesse. Axel estava vivo, e isso era algo muito bom, mas se ele tinha mesmo esquecido tudo que eles passaram juntos, de que adiantava? Claro que Roxas ainda o amava, mas e se o ruivo não o amasse?
Axel ainda seria o mesmo?
Mais do que nunca, Roxas sentiu vontade de acabar com a própria existência. Aquilo era muito injusto. Primeiro se apaixonara, mas perdera seu amor, então agora ele voltava, mas sem memórias? O que estava acontecendo?
“Seria melhor ele nem ter voltado”, Roxas pensou, depois se batendo mentalmente pelo comentário. Como podia pensar uma coisa dessas?! Estava mesmo louco a ponto de pensar aquilo?!
-Ei, loirinho, fale alguma coisa. -Axel voltou a falar, agachando-se ao lado de Roxas e observando-o com aqueles olhos tão verdes que seria possível perder-se neles caso ficasse olhando demais.
Roxas olhou para o ruivo e, sem pensar, apenas realmente matando a saudade, pulou em cima de Axel, derrubando-o no chão e ficando sobre ele, chorando copiosamente em seu peito.
-Hey, calma, não é pra tanto, loirinho!-Axel exclamou, mas não fez nada para tirar o outro dali. Ele parecia estar mesmo precisando daquilo, então apenas pôs uma das mãos no cabelo loiro do outro e a deixou ali.
Vinte minutos dramáticos depois, Roxas saiu de cima e se sentou na frente do ruivo, esfregando os olhos para limpar as lágrimas. Axel ainda o observava, sem entender como aquele loirinho podia chorar tanto. Será que ele o conhecia mesmo? De onde? Como? Quando? Eram tantas perguntas que o confundiam mais ainda.
-Seus olhos estão vermelhos, loirinho. -Axel falou, por falta de assunto.
Roxas olhou para ele tristemente e abatido, perguntando:
-Você não sabe meu nome?
-Não, eu sei do meu.
-Tem certeza? Tente lembrar, Axel, por favor. Lembre meu nome.
-Olha, eu acabei de “nascer”, então não conheço muita gente. Desculpa, mas eu não faço a mínima idéia de quem você é. Se você não lembra seu nome, bem...
-Eu sei meu nome, apenas quero que VOCÊ lembre! Droga!-Roxas se levantou do chão de repente, subitamente irritado. — Que merda, Axel! Por que você tinha que se esquecer, ham?! POR QUÊ?!
-Hey, não me culpe, loirinho, não é culpa minha!-Axel exclamou, se levantando também.
-É claro que é! É tudo culpa sua, Axel! Tudo! Seu idiota! Maldito! Por que tinha que morrer, ham?! Sabe o que eu ia fazer?! Eu ia no Inferno, Axel! NO INFERNO! E pra quê?! PRA MORRER DO MESMO JEITO QUE VOCÊ! Então aí você volta e SEM MEMÓRIA?! QUE MERDA, AXEL!-Gritou Roxas, agitando os braços no ar e gesticulando sem parar.
-Hey, não venha brigar comigo, eu já disse que não é minha culpa! Quem sabe você não me confundiu com alguém?! Ou quem sabe você não inventou tudo isso?!
-EU?! INVENTAR?! AH, SEU DESGRAÇADO!
Roxas, movido por uma súbita raiva assassina, partiu para cima de Axel com murros e chutes, o que não adiantou muito, já que seu corpo estava totalmente fora de forma e o ruivo era bem maior que ele. Porém, reunindo toda sua força, Roxas deu um murro no rosto do outro, o que causou um fino, mas existente, filete de sangue pelo lábio cortado.
Axel, que nada tinha revidado até aquele ponto, levou uma das mãos até o lábio ferido e ali ficou, olhando surpreso para Roxas.
-VIU?! EU SEI BATER! QUER REVIDAR?! VAI, REVIDA! SEU IDIOTA! ESQUECIDO! INÚTIL! ANDA, ME BATE! ME BATE! TA ESPERANDO O QUE?! ME BATE, MERDA!
Pow.
A única coisa que Roxas viu foi o punho de Axel em sua direção. Depois tudo ficou de cabeça para baixo e ele se achou no chão, caído. Levantou de repente, com a mão no lado do rosto atingido.
-VOCÊ ME BATEU?!-Falou Roxas, já com a voz trêmula.
-Eu não ia bater, mas você mandou! E você me bateu primeiro!
-ISSO NÃO É DESCULPA! VOCÊ TINHA PROMETIDO QUE JAMAIS IA ME MACHUCAR!-Roxas gritou, caindo novamente de joelhos no chão, com as mãos cobrindo o rosto.
Realmente estava sendo muito confuso, mas as emoções que sentia não ajudavam em nada. Estava horrivelmente triste por Axel não se lembrar de nada, mas estava feliz por ele estar vivo, mas também estava com raiva de ele ter esquecido, assim como sentia um grande peso no seu peito, algo que não permitia que ele parasse de chorar. Talvez isso fosse o resultado de meses “desligado”.
-Você vai chorar de novo?! Brincadeira, né?!
-Vá embora!-Roxas exclamou, ainda irritado, mas com a voz embargada de quem chora.
-Quer que eu vá embora? COMO ASSIM?! VOCÊ ME ESTRANHA, ME ABRAÇA, DEPOIS ME XINGA, ME BATE E AINDA ME MANDA EMBORA?!
-É!
-TÁ! MORRA DE CHORAR ENTÃO!
-NÃO! É brincadeira, Axel! Por favor, não vá embora, não de novo! Por favor!
Roxas se levantou e foi até o ruivo, que tinha cruzado os braços e agora olhava o outro como se suspeitasse de alguma coisa.
-Não me deixe, por favor. Eu não tenho pra onde ir, e nem sei onde estão meus amigos... Eu nem sei se quero vê-los agora... –Roxas começou, olhando para o chão, até que ele teve uma idéia. — Você se lembra do Riku? Seu servo leal?
-Ham? Riku? Quem? Não, não sei quem é. Você também é meu servo?
-Não... Eu era... Ham... Outra coisa.
-Um amigo?
-Mais.
-Então, nessa sua fantasia louca, eu era mais que um amigo para você?
-Não é fantasia (e nem é louca), é a verdade! Senão, como eu saberia que você é Axel?
-Não sei, mas deve ter um jeito.
-Eu te conheci antes de você morrer, Axel! Você tinha amigos!
-Sério? Quantos?
-Ham... Sem mim, dois.
-ÓTIMO!-Acrescentou Axel, repleto de sarcasmo na voz e se virando para ir embora.
Roxas o viu se afastar, assumindo aquela expressão desesperada no rosto, que ganhara quando Axel o deixara pela primeira vez, mesmo que aquilo tivesse sido para o seu bem. Doera tanto que Roxas passara a usar constantemente aquela expressão, mas, agora que Axel estava ali, vivo, como um anjo, e tão próximo, era como se aquela expressão houvesse quase desaparecido totalmente. Quase.
Depois de alguns passos, Axel olhou pra trás novamente, para encontrar Roxas com aquele olhar perdido, olhando para o chão, como fazia no manicômio para qual fora depois que Altair, um de seus Generais, o mandara de volta para a capital Hillyria.
Se Axel realmente não se importava com ele, se realmente não se lembrava, o que faria agora? Pelo o que pudera ver, Axel não pareceu demonstrar nenhum pouco de afeto, e nem pareceu gostar do fato de eles serem “mais que amigos”. Roxas sabia que jamais conseguiria conquistá-lo de volta. Da última vez, quem o conquistara fora Axel, e não o contrário.
Além de que Axel não parecia querer as memórias de volta, pelo simples fato de acreditar que elas não existiam. Mas existiam! Foi tudo verdade! Roxas podia jurar pelas próprias asas que foi tudo verdade, e que nada foi um sonho. O amor foi real. Os sentimentos foram reais. A dor foi real.
Mas... Se Axel não queria... O que Roxas poderia fazer?
-Hey, loirinho, você está me preocupando, sabia?-Axel falou, olhando para Roxas de alguns passos de distância.
Talvez devesse deixá-lo. Se ele não o queria, se não queria as memórias... Talvez o melhor fosse deixá-lo viver sua vida. Afinal, poderia doer tão quanto antes, mas saber que o ruivo agora estava vivo era satisfatório o bastante.
-Desculpe. -Roxas falou, deixando que a costumeira tristeza enchesse seu peito. Já estava tão acostumado a ela que nem se importava mais, afinal, foram muitas as horas que somente ela existia.
-Olha, eu não disse por mal...
-Está tudo bem, eu me viro. -Roxas sorriu da melhor forma que pode, sem querer deixar tristeza aparente, mas isso era impossível.
O loiro se virou e começou a caminhar no sentido contrário, com cada passo pesando toneladas. A dor de deixar Axel era imensurável. Talvez ele tivesse sentido aquela dor quando o mandou embora do Acampamento dos Demônios. Mas dessa vez, era pelo bem do Axel. Ele ficaria melhor sem o loiro.
Foi então que Roxas sentiu algo segurando seu ombro, e parou.
-Você pode vir comigo se quiser. -Axel falou, vendo quando o loiro se virou para ele, com aqueles orbes azuis a fitá-lo sem acreditar. -Não sei quem você é, mas acredito que realmente não tenha lugar pra ficar.
Tão rápida quanto viera, a tristeza desapareceu e Roxas sorriu sem dor alguma. Era como se realmente Axel fosse uma espécie de droga, que assim que é ingerida, faz efeito e todas as sensações ruins desaparecem. Assim que Roxas deixa Axel, a tristeza aparece e toma domínio, mas com o ruivo ao seu lado, é como se ele nem existisse de verdade.
Roxas se lembrava de que, com Sora, seu melhor amigo, acontecia uma coisa parecida, mas o moreno não era uma droga tão potente quanto Axel, nem de longe. Talvez por isso, o único que pudesse curar o loiro era o ex-demônio, mesmo que ele não se lembrasse.
Axel começou a andar, e ao perceber o loiro ainda parado, falou:
-Você vem ou não, loirinho?
-Ah, sim!
Roxas correu até o maior, sorrindo. Não se sentia bem daquela forma havia muito tempo.
-Então, qual é seu nome, loirinho?
-Roxas, se você não se lembra.
-Não lembro, e não tem graça um comprimento, já que você já sabe meu nome. Ah, se você for ficar comigo, terá que dormir no sofá da sala, okay?
Roxas sorriu e deixou que uma das mãos caísse e se encostasse na de Axel, que olhou para o loiro, estranhando. Então o menor segurou sua mão e voltou a fitar os olhos verdes do maior.
-Então... Apenas deixe que eu segure sua mão mais um pouco, por favor.
Notas finais
Ah,não esqueçam de mandar as reviews,sim? (SENÃO O ALTAIR VAI ATRÁS DE VOCÊS A NOITE! CUIDADO!).
Obrigada!
Fale com o autor