Sophie e John se assustaram, quem provocaria a própria morte? Olhou para ele e o abraçou e quando a criatura disse que tinha muitos atrás deles, ela lembrou de seu sonho, eles subindo aquela colina com dezenas de monstros atrás deles.

Ela o beijou e abraçou. Para mostrar-lo que eles estavam juntos nessa. Sophie olhou em volta e as pessoas que ainda haviam permanecido no local, estavam andando normalmente como se fosse normal um garoto de catorze anos segurar uma espada apontando para a garganta de alguém.

Não tinham mais nada para fazer ali, precisavam ir embora, cada dia longe do tal acampamento era mais um dia de vulnerabilidade. Porém a dificuldade maior não era matar os monstros, até porque nisso eles já estavam bons. A dificuldade maior era chegar ao tal acampamento. Eles não tinham dinheiro nem nada.

Sophie precisava pensar em alguma solução, John estava demasiado nervoso e ansioso para isso. Eles tinham que sair dali, precisavam continuar, ela pegou na mão de John e disse:

– Vamos andando.

Eles foram andando pelas ruas de São Franscisco. Seattle, onde moravam, não chega aos pés de onde estavam. Seattle fica perto de Vancouver, Canadá. Não é um lugar calmo, mas também não é tão grande e movimentada quanto São Franscisco. Sophie estava totalmente atenta. Atenta às pessoas na rua, porém o barulho dos carros fazia ela se sentir transtornada. Mas ainda assim, atenta.

Precisavam pensar em um plano para conseguir dinheiro, até roubar passou pela sua cabeça. E definitivamente não era o melhor plano. Sophie então lembrou que sabia todos os dados da conta bancária da mãe. “Acho que ela não dará falta de uns mil dólares” pensou Sophie. E então passou a procurar uma agência do banco onde sua mãe tinha a conta.

Após andarem por algum tempo Sophie achou. Lá estava ela, a Money Time. O prédio era grande, com a fachada toda espelhada, o que desanimou Sophie, até porque ela estava acabada. Ao entrarem, sentiu um alivio. O ar-condicionado que havia dentro da agência refrescava todo o ar. Sophie falou para John sentar e esperá-la.

O gerente era um homem boa pinta, engravatado, cerca de cinquenta anos e estava falando ao telefone quando Sophie se aproximou. Ele levantou o dedo pedindo um minuto.

– Ok. Te ligo depois — disse o gerente desligando o telefone — sente-se por favor.

Sophie se sentou. Ao que parecia, o gerente era normal.

– O que deseja? — perguntou

– É que eu estava viajando junto com a minha mãe, na hora de irmos embora não tinha mais lugar no mesmo vôo, então ela foi, e me mandou vir até o banco sacar dinheiro da conta dela para comprar minha passagem — respondeu Sophie

– E quem é o rapazinho que entrou com você?

– Meu namorado, ele veio junto.

– Entendo, então ao que me parece não será uma quantia muito pequena.

– Bom, é. Minha mãe pegou o voo para Seattle faz umas duas horas, e mandou eu só ir depois que ela já tivesse chego, para ela poder me pegar entende?

– Entendo perfeitamente senhorita…

– Highwind, Sophie Highwind.

– Venha comigo srta. Highwind, seu namorado não deseja vir conosco?

– Não, ele prefere ficar descansando.

Sophie seguiu o homem até um escritório, passando antes por uma sala onde ele pegou duas bolsas de couro. Ao entrarem em outra sala o homem sentou-se em uma mesa e pediu para Sophie sentar a sua frente.

– Bom, srta. Highwind, preferi vir para cá para podermos fazer a transação mais sigilosa possivel.

– Por isso a das bolsas.

– Exatamente, muito bem observado. Bom, é que de uns tempos pra cá, muita gente está sendo roubada após a saída do banco. Não tem nenhum outro lugar onde possamos guardar um tanto do dinheiro?

– Tem a minha mochila e a mochila do meu namorado.

– Se importa de ir lá pegar?

– Claro que não.

– Certo — ele apertou um botão no telefone — Carmen — devia ser sua secretária — Acompanhe a srta. Highwind enquanto ela busca algumas coisas com o namorado.

A porta se abriu, uma mulher apareceu e convidou-a a sair e ir até lá. Ela a acompanhou até onde estava John, que estava tão distraído que nem percebeu que Sophie se aproximava.

– Amor? — perguntou Sophie

– Ah oi, estava um pouco distraído — respondeu John

– Então eu preciso das mochilas. Para colocar o …

– Ah sim, mais porque você não sugere que ele te de um Cartão de Crédito com um certo limite?

Sophie não havia pensado nisso, era uma ótima ideia, mas decidiu levar as mochilas mesmo assim para o caso do gerente não aceitar a ideia do cartão.

Ao voltar para a sala do gerente, ele estava lá esperando-a:

– Ah, agora sim.

Sophie não entregou as mochilas, mesmo que ele tenha estendido a mão para pegá-las.

– Bom Sophie, posso chamá-la de Sophie? — Sophie assentiu com a cabeça — Bom Sophie, precisamos dos dados de sua mãe, a titular da conta, você sabe eles?

– Sei sim.

– Ótimo, então, Nome?

– Susan Highwind.

– Cidade?

– Seattle

– Estado?

– Washington

– Endereço?

– Rua das Vitórias, 354

– Quantia?

– Por volta de seis mil dólares.

O gerente se assustou com a quantia, mas continuou digitando.

– Então senhor…

– Gomez.

– Então senhor Gomez, sabe o que é, eu conversei com o meu namorado e nós chegamos à conclusão de que preferimos, se fosse possível, ter ao invés do dinheiro um cartão, com uns dez mil dólares de limite.

Sophie aumentava cada vez mais a quantia, mas não se importava; sua mãe tinha uma boa quantia no banco, além do emprego de médica, elas ainda recebiam a pensão pela morte do pai de Sophie, que até duas semanas atrás ela pensou ter sido um fuzileiro naval que morreu servindo no Iraque.

O gerente disse que não só era possível como muito mais seguro, mas disse que ia demorar um pouco mais. Sophie então perguntou-o quanto tempo demoraria.

– Umas cinco horas, por que?

– Ah, é que então eu ia pedir ao senhor uns mil dólares para eu e meu namorado irmos procurar um hotel e descansar um pouco.

– Ah ok.

Ele sacou mil dólares e entregou a Sophie que colocou-os dentro da mochila. O gerente a acompanhou até o lugar onde John a esperava e se despediu. Sophie deu a mão para ele e disse:

– Vamos descansar um pouco.

Eles saíram pela porta giratória e o sol logo entrou em contato com eles fazendo com que Sophie apertasse os olhos enquanto sentia o suor escorrer por suas costas.

– Vamos andar e procurar por algum Hotel — disse Sophie.

John assentiu e nisso os dois saíram a procura de um lugar para descansar. Eles andaram por alguns quarteirões a procura de um Hotel, após cerca de meia hora caminhando encontraram um Hotel, era um prédio alto, bonito, talvez fosse caro, mas Sophie não se importava, queria era relaxar.

– Que tal esse? — perguntou a John.

John olhou para o céu, até o final do prédio e disse:

– Pequeno, não?

Sophie riu.

– Vamos entrar.

Os dois passaram pela porta e Sophie não pôde deixar de mostrar sua surpresa:

– Uau! Será que conseguimos ficar aqui apenas com mil dólares?

– Claro que sim, minha querida.

O homem apareceu atrás de Sophie. Ele era magro, porém em boa forma, tinha cabelo grisalho e um sorriso um tanto quanto irônico. Ele estava de terno, parecia o gerente do Hotel.

– Desculpe-me, mas quem é o senhor? — perguntou Sophie.

– Sou o gerente do Hotel Coliseu. Mas vocês podem me chamar de Mercúrio

– Olá, senhor Mercúrio — respondeu John que ainda não havia se tocado.

Sophie ficou boquiaberta e então o filho de Poseidon entendeu o que o homem havia dito. Ela começou a fazer uma reverência; era a primeira vez que ambos conheciam um deus pessoalmente. Mas Mercúrio estendeu a mão.

– Não se preocupem, não precisam fazer isso. Embora eu goste muito de ser reverenciado — Disse o deus do comércio

O deus olhou para o horizonte pensativo e nenhum dos dois semideuses ousou interrompê-lo. Após alguns instantes, ele próprio rompeu o silêncio.

– Enfim, crianças. Podem ficar no meu hotel por mil dólares. Ordens de Júpiter, sabem como é.

Sophie engasgou.

– Ordens de Júpiter? O que Zeus quer conosco?

Mercúrio riu.

– Primeiro: aprenda a distinguir melhor os lados dos deuses; acredite em mim, não são a mesma coisa. Segundo: vocês realmente não fazem ideia de seu destino, certo?

Nenhum dos dois respondeu pois estavam chocados demais para isso.

– Eu sou o deus dos caminhos, e posso ajudá-los na sua jornada, mas peço que aceitem a minha hospitalidade. Posso ajudá-los melhor se estiverem descansados.

Os dois continuaram boquiabertos e silenciosos.

– Bem, vou levá-los a uma suíte. Sigam-me.

Eles se entreolharam e, após um instante, seguiram Mercúrio.

***

A suíte era imensa. Quase do tamanho da casa de John. Como poderiam ter várias daquela em um local que não parecia ser tão grande? O quarto era um retângulo de, pelo menos três mil metros quadrados. As paredes eram pintadas com uma coloração bege antiga. Como se o quarto tivesse aparecido antes do hotel.

No meio da parede à frente da porta havia uma grande cama com dossel, com dois criados mudos de cada lado e uma TV na parede oposta, com o suporte ligeiramente inclinado; no canto esquerdo havia uma mesa com quatro cadeiras e uma poltrona daquelas que faz massagem, enquanto no canto direito havia uma porta que provavelmente dava para o banheiro.

– Uau! — Sophie deixou escapar.

– Sim, uau — respondeu Mercúrio — Essa é a nossa suíte presidencial. Aproveitem, eu já mando o serviço de quarto.

E, com isso, saiu do quarto.

Sophie e John ficaram estupefatos observando o local por mais alguns minutos tentando acreditar no que viam. Há menos de um dia eles estavam clandestinamente em um navio, e agora eles estavam em uma suíte presidencial, de um hotel de luxo. Diferença mínima.

– Bem, — disse Sophie — vou tomar um banho. Estou exausta.

– Certo, vou deitar e ver os canais da TV.

Quando Sophie abriu a porta do banheiro, quase caiu para trás. O banheiro era quase do tamanho do quarto, tinha uma banheira de hidro-massagem e era detalhado com fios de ouro. John correu para o banheiro quando viu Sophie cambaleando.

– O que… — então John viu o banheiro e fez o mesmo.

– John… — disse Sophie em uma voz seduzente — não sei se conseguirei tomar banho nesse banheiro enorme sozinha… Me acompanha?

Sophie começou a tirar a roupa lentamente e John apenas encarava-a, até q um momento começou a tirar as suas também. Em poucos instantes eles já estavam dentro da banheira.

***

Após três horas de banho, eles finalmente saíram do banheiro e deram de cara com um Mercúrio furioso em frente a porta do quarto.

– Eu disse que já voltava com o serviço de quarto. Então eu volto com os criados e ouço essa pouca vergonhice no banheiro. — Mercúrio colocou a mão na testa e suspirou — Enfim, agora faltam duas horas para vocês irem pegar seu cartão de crédito, pelo o que eu saiba.

John e Sophie estavam pálidos, mas mesmo assim Sophie perguntou:

– C-como você sabe disso, senhor Mercúrio?

– Sem essa de “senhor”, por favor. Só Mercúrio. E como eu sei? Bem, eu sou o deus dos viajantes e do comércio, então é difícil eu não saber de alguma coisa.

Os dois continuaram pálidos.

– Oh, pelo amor, não precisam fica assim. Não contarei pra ninguém… Embora eu ache que seus pais já saibam, porque são dois deuses onipresentes, mas enfim.

Sophie enrubesceu, ficou tentada a perguntar quem era seu pai, mas sabia que o deus não iria responder. John olhou pro chão.

– Bom, ainda assim, o que vocês vão comer? Podem pedir o que quiserem. — perguntou Mercúrio como se nada tivesse acontecido. — Ainda temos muito que conversar.

– Bem, — dise Sophie se recuperando da vergonha e do choque — quero arroz, filé e fritas com suco de laranja.

– Ah, uma lasanha cairia bem pra mim. E Coca-Cola.

Mercúrio revirou os olhos.

– Vocês podiam muito bem ter pedido caviar ou outra coisa mais sofisticada, mas tudo bem. Continuemos.

Sophie e John seguiram o deus até a mesa no canto esquerdo do quarto e sentaram-se com ele.

– Bem, crianças, vocês sabem que terão um destino repleto de aventuras e desafios, certo? Quando chegarem no acampamento vocês não serão bem recebidos…

– Por quê? — interrompeu John.

–Você vai descobrir em breve. E não me interrompa, por favor.

Nesse momento a campainha do quarto tocou e John foi abrir a porta, de onde entraram dois garçons com os pratos pedidos pelos dois e mais uma embalagem branca longa.

– O que é isso? — Sophie perguntou a Mercúrio.

– Um presente do seu pai. Abra. — disse o deus com um sorriso de encorajamento. — Já foi de uma irmã sua que morreu em combate. Ótima semideusa.

Quando abriu o pacote, Sophie encontrou um bracelete. Não era grande coisa, só uma corrente de elos de prata polida. O pôs no pulso e nada aconteceu.

– Era para acontecer alguma coisa? — perguntou Sophie ao deus.

– Quando precisar, grite “Aegis”. Vamos lá experimente. — respondeu Mercúrio.

– AEGIS!

O bracelete se expandiu virando um escudo enorme de bronze. Parecia feito especialmente para ela. Na frente tinha uma figura horrenda, que Sophie logo identificou como sendo a medusa. Teve medo de olhar, parecia tão real.

John, com o susto de ver aquela figura no escudo, deu um passo para trás. Sophie percebeu que até Mercúrio estava incomodado com aquela figura.

– Uau! — exclamou Sophie.

– Parabéns, você é a nova dona do escudo mais temido de todos os tempos — disse-lhe Mercúrio.