Between Life and Death

8 Capítulo 07 - Lost Creek Trail Ranger


A estrada estreita serpenteava pelas montanhas do Colorado, cercada por pinheiros densos que bloqueavam a luz do sol, criando uma penumbra inquietante mesmo durante o dia. O silêncio da paisagem era interrompido apenas pelo motor do Impala rugindo suavemente enquanto Katherine olhava para fora da janela, sua mente vagando entre o presente e as sombras do passado.

Dean dirigia com o olhar fixo na estrada, o maxilar cerrado. Sam, no banco de trás, folheava algumas anotações sobre os desaparecimentos misteriosos que os trouxeram até ali. Havia algo de errado naquele caso desde o início. Três jovens desapareceram em semanas diferentes, todos no mesmo ponto da floresta.

Os sinais deixavam claro que não se tratava de um simples predador.

— Então, Kath — a voz de Dean a arrancou de seus pensamentos — Já caçamos em florestas assim antes, lembra?

Katherine se virou para ele, observando sua expressão séria, mas não pôde deixar de notar o traço de diversão em seus olhos. Ele sabia que ela se lembrava, de todas as vezes que ficaram isolados no meio do nada, cercados por perigo, mas sempre juntos.

Ela sorriu, um sorriso leve que ocultava o cansaço.

— Eu lembro. E também lembro que você quase foi comido por um lobisomem naquela noite.

Sam bufou, virando-se para frente.

— Isso foi na Geórgia, certo? Uma das muitas vezes que Dean ignorou todos os sinais de que algo estava errado.

Dean revirou os olhos, mas havia um brilho afetuoso em sua voz.

— Eu estava distraído. A culpa foi da lua cheia. E, além disso, você estava lá para me salvar, não é?

Katherine ergueu uma sobrancelha, mas não respondeu. Na verdade, ele estava certo.

Ela estava lá naquela noite, como sempre. Desde que conhecera os Winchester, a vida dela girava em torno deles. Uma híbrida, parte vampira e parte bruxa, Katherine sempre sentiu que não tinha um verdadeiro lugar no mundo. Até que encontrou John Winchester e, mais tarde, Dean e Sam.

Os momentos de silêncio eram sempre uma oportunidade para relembrar. Era como se toda vez que estavam em uma nova caçada, o passado voltasse para assombrá-la, lembranças de vidas e mortes, de sangue e fogo.


A noite estava fria e úmida, o ar da floresta pesada com o cheiro de chuva e madeira molhada. Dean estava deitado no chão, incapaz de se mover após ser atingido por uma das criaturas que estavam caçando. Um lobisomem enorme, os olhos amarelos brilhando na escuridão, se aproximava dele com dentes à mostra, preparado para dar o golpe final.

Katherine sentiu o pânico subir em sua garganta, mas seu corpo reagiu antes que sua mente pudesse processar. Num piscar de olhos, ela se lançou contra a criatura, cravando suas presas em sua carne. O gosto de sangue amargo tomou sua boca, mas ela ignorou o desconforto. Cada segundo era vital para salvar Dean.

A luta foi feroz. O lobisomem rugia, tentando sacudi-la de seu corpo, mas Katherine agarrou-se com força, usando suas mãos e unhas e seu poder para dominá-lo. Quando a criatura finalmente caiu, Katherine estava ofegante, seu corpo coberto de cortes e arranhões.

Dean, por outro lado, olhava para ela com uma mistura de gratidão e... algo mais. Havia uma conexão entre eles que era inegável, algo que ambos tentavam evitar, mas que sempre ressurgia nos momentos de perigo.

— Você… me salvou — Ele murmurou, tentando se levantar.

Katherine limpou o sangue dos lábios, ofegante, e estendeu a mão para ajudá-lo.

Alguém tem que cuidar de você, já que você não faz isso.

E aquele momento ficou marcado como um dos muitos em que ela percebeu o quanto Dean significava para ela. Mas, ao mesmo tempo, também foi quando ela decidiu que manteria distância emocional, sabendo que sua natureza sobrenatural os separava.

— Kath? Você ainda com a gente? — A voz de Dean trouxe-a de volta ao presente.

Ela piscou, afastando a memória, e balançou a cabeça.

— Sim, só estava... pensando.

Dean a observou por um momento mais longo do que o normal, mas não disse nada. Ele sabia que Katherine guardava muitos segredos, muitos fardos pesados para serem compartilhados, e ela sempre foi assim. Mesmo que ele quisesse perguntar mais, sempre respeitou seu silêncio.

— Chegamos — Sam anunciou, interrompendo o momento entre eles.

O Impala parou perto de uma pequena área de estacionamento, onde a trilha para a floresta começava. O lugar parecia abandonado, exceto por algumas fitas de segurança da polícia que delimitavam a área de buscas anteriores.

Katherine saiu do carro, sentindo o ar fresco da floresta invadir seus pulmões. O lugar era silencioso demais, o tipo de silêncio que deixava qualquer caçador em alerta. Ela podia sentir algo... uma presença, algo antigo, primitivo.

Sua pele formigava com a sensação, e seus sentidos sobrenaturais estavam em alerta máximo.

— Vocês sentem isso? — Ela perguntou, virando-se para os irmãos.

Dean olhou ao redor, cerrando os olhos.

— Sim, há algo estranho aqui. Mais do que só um monstro comum.

Sam assentiu, verificando o equipamento.

— Eu fiz algumas pesquisas antes de chegarmos aqui. Desaparecimentos misteriosos nessa área remontam a quase cem anos. As histórias falam sobre uma criatura que caça humanos, algo que vive nas profundezas da floresta.

— Um Wendigo? — Katherine perguntou, já sabendo a resposta.

Sam confirmou com um aceno de cabeça.

— Parece que sim. O Wendigo é uma criatura que, de acordo com as lendas, foi um ser humano que se tornou canibal para sobreviver. Ele se transforma em algo monstruoso, ganhando força e imortalidade, mas perdendo sua humanidade.

Katherine sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela conhecia bem as lendas sobre o Wendigo, uma das criaturas mais perigosas com que já lidaram. Seu poder era vasto, e ele se movia tão rápido quanto qualquer vampiro.

— Vamos acabar logo com isso — Dean disse, pegando sua espingarda carregada com balas de prata e fogo — O negócio é simples. Encontrar o Wendigo, matá-lo, e sair daqui.

Mas algo dentro de Katherine dizia que isso não seria tão fácil.

O Wendigo não era apenas uma criatura a ser caçada. Ele representava a própria fome e sede de poder que ela lutava para suprimir em si mesma. Como híbrida, Katherine sentia constantemente a atração pelo sangue, a magia negra que pulsava em suas veias.

E caçar algo que personificava a fome insaciável só serviria para lembrá-la do monstro que ela mesma poderia se tornar.

A floresta era densa e escura, os galhos das árvores se entrelaçavam acima deles, bloqueando a luz do sol e criando uma atmosfera sufocante. Enquanto caminhavam, o som de gravetos se quebrando sob seus pés ecoava, tornando o silêncio ainda mais pesado.

Katherine caminhava ao lado de Dean, seus olhos atentos aos detalhes ao redor, mas também ciente da tensão que crescia entre eles. Era como se cada passo na direção da caçada os aproximasse de um confronto inevitável.

Eles sempre estiveram em harmonia no campo de batalha, mas havia algo mais profundo que ambos ignoravam, uma barreira invisível que se formava entre suas almas.

— Você está quieta hoje — Dean comentou, sem desviar o olhar da trilha à frente.

Ela deu de ombros.

— Estou apenas focada. Wendigos não são brincadeira.

Dean assentiu, mas Katherine sabia que ele não se referia apenas ao perigo da missão. Ele estava tentando abrir uma porta que ela havia mantido fechada por muito tempo. Mas antes que qualquer um dos dois pudesse dizer mais, Sam parou abruptamente à frente, seu corpo rígido.

— Vocês ouviram isso? — Ele sussurrou.

Katherine franziu a testa, agudizando seus sentidos sobrenaturais.

Havia algo… passos rápidos e leves, como se algo estivesse correndo entre as árvores, mas de maneira furtiva, quase imperceptível.

— Está nos cercando —Ela murmurou, sentindo a presença se aproximar.

— Vamos nos preparar — Dean sussurrou, levantando a espingarda.

E então, o ataque veio rápido, tão rápido que mal tiveram tempo de reagir.

A criatura se lançou das sombras, enorme e distorcida, com membros longos e esqueléticos, pele esticada e olhos brilhantes de fome.

Era o Wendigo. Seus movimentos eram ágeis, quase sobrenaturais, mas Katherine foi ainda mais rápida.

Com um movimento fluido, ela saltou para o lado, evitando as garras da criatura. Suas presas apareceram instintivamente, seus sentidos de vampira tomando controle.

Ela podia sentir o cheiro da carne pútrida do Wendigo, e a adrenalina percorreu seu corpo, alimentada pelo sangue que corria em suas veias. O Wendigo se esquivou da bala de prata com uma velocidade assustadora, desaparecendo nas sombras das árvores como se fosse parte da própria floresta. Katherine ofegou ao sentir a criatura se mover novamente, sua presença cortante e feroz. Ela sabia que lidar com o Wendigo não seria fácil, mas subestimá-lo nunca foi uma opção.

— Maldito! — Dean resmungou, recarregando a espingarda rapidamente — Ele é rápido demais!

Sam, com sua calma habitual, observava o ambiente com olhos analíticos, tentando prever o próximo movimento da criatura.

— Precisamos de fogo. É a única maneira de matá-lo com certeza.

Katherine sabia que Sam estava certo. Os Wendigos eram criaturas quase imortais, suas peles grossas e endurecidas quase impenetráveis por balas comuns. Mas fogo — o elemento purificador — era sua fraqueza.

— Vou cercá-lo — Ela anunciou, já começando a se afastar dos irmãos — Vocês se preparem para queimá-lo.

Dean estendeu a mão para detê-la, mas ela já havia desaparecido entre as árvores, sua velocidade de vampira permitindo que se movesse quase tão rapidamente quanto o Wendigo. Ele bufou, irritado, mas sabia que Katherine era capaz de cuidar de si mesma.

Sempre fora assim — desde as primeiras caçadas juntos, ele confiava na força e nas habilidades dela, mesmo quando se preocupava mais do que deveria.

Entre as árvores, Katherine corria em silêncio absoluto, seus sentidos apurados captando até o menor movimento ao redor. O cheiro do Wendigo era forte, um fedor de carne apodrecida misturada com sangue velho. A cada passo, ela podia sentir a criatura perto, mas era como caçar sombras — o Wendigo era quase impossível de rastrear em uma floresta tão densa.

Ela fechou os olhos por um segundo, concentrando-se em seu lado bruxo. O sangue de sua mãe bruxa corria em suas veias tanto quanto seu sangue vampírico, e, às vezes, ela se esquecia de quanto poder tinha à disposição. Sentindo a energia da floresta ao seu redor, ela deixou sua magia fluir, tentando encontrar o Wendigo.

Houve um estalo à sua esquerda.

Katherine abriu os olhos, virando-se rapidamente, e o Wendigo estava ali, parado a apenas alguns metros de distância. Seus olhos, brilhantes como carvões acesos, a encaravam, cheios de uma fome voraz.

O monstro parecia hesitar por um momento, como se estivesse medindo sua presa. Katherine sentiu o perigo iminente, mas em vez de recuar, avançou.

Ela atacou com a velocidade de um raio, suas presas brilhando à luz fraca que atravessava as árvores. Suas garras rasgaram o ar, mas o Wendigo era incrivelmente rápido, movendo-se para fora do alcance dela com facilidade. A criatura rugiu, revelando dentes afiados e desproporcionais em sua boca grotesca.

Katherine soube que precisava ser estratégica.

Ela não poderia vencê-lo apenas com força bruta — o Wendigo era um predador antigo, movido por puro instinto de sobrevivência e caça. Então, ela decidiu atraí-lo de volta para os irmãos.

Correndo em direção à área onde Sam e Dean estavam, Katherine provocou a criatura, dando-lhe um motivo para persegui-la. O Wendigo caiu na armadilha, avançando com uma fúria quase insana.

A criatura era uma visão de terror — sua pele esticada como couro velho, suas garras longas e afiadas parecendo mais uma extensão da própria floresta, e sua fome era quase palpável.

— Agora! — Katherine gritou, seus pulmões ardendo com o esforço, enquanto corria.

Sam já estava preparado com uma tocha improvisada, enquanto Dean segurava o lança-chamas mal construído que haviam montado antes da caçada. O Wendigo não viu o que estava prestes a acontecer — ele estava completamente focado em Katherine.

Quando ela chegou perto o suficiente dos irmãos, saltou para o lado em um movimento rápido e calculado. Sam agiu imediatamente, jogando a tocha contra o Wendigo, e, ao mesmo tempo, Dean acionou o lança-chamas, liberando uma rajada de fogo que envolveu a criatura.

O grito do Wendigo era horrível, um som que perfurou o silêncio da floresta e fez até mesmo os animais ao redor se calarem. O monstro se debatia, tentando escapar das chamas, mas o fogo se agarrava à sua pele como uma maldição, consumindo-o rapidamente.

Katherine observava a cena de perto, ainda ofegante, suas presas retraídas e seus olhos voltando ao tom castanho natural. Ela podia sentir o calor do fogo irradiando da criatura, e algo dentro dela, algo primitivo, se revolvia com a visão de uma criatura tão monstruosa sendo destruída.

Dean se aproximou dela, ainda segurando o lança-chamas, seus olhos fixos nas chamas que consumiam o Wendigo.

— Você está bem?

Ela acenou com a cabeça, tentando regular a respiração.

— Sim… só um pouco… fora de forma.

Dean sorriu, aquele sorriso típico que sempre trazia um alívio estranho em meio ao caos.

— Você estava incrível, como sempre.

Katherine revirou os olhos, mas o comentário dele a fez lembrar de outras caçadas, de outros momentos em que estiveram lado a lado enfrentando o desconhecido. Apesar de toda a tensão, apesar dos perigos e do constante medo de perder alguém, havia algo reconfortante na maneira como Dean a fazia sentir que, de alguma forma, tudo daria certo.

O Wendigo, agora quase totalmente consumido pelas chamas, caiu no chão, seu corpo carbonizado e irreconhecível. O fogo finalmente apagou-se, deixando apenas o silêncio da floresta e o cheiro de carne queimada.

Sam se aproximou, guardando a tocha.

— Bom trabalho, pessoal. Isso foi... intenso.

Dean assentiu.

— É, mas agora é só voltar e dar fim a essa bagunça.

Mas Katherine sabia que, embora o Wendigo estivesse morto, o verdadeiro desafio estava apenas começando. Ela ainda podia sentir as sombras que pairavam sobre ela e Dean, a tensão que aumentava a cada missão que realizavam juntos. Eles sempre se entendiam nas caçadas, sempre eram uma equipe. Mas havia algo mais entre eles, algo que ambos estavam ignorando há muito tempo.

Dean parecia sentir isso também, pois seus olhos se focaram sobre ela por um momento mais longo do que o necessário.

— Você realmente se superou, Kath.

Ela sorriu, um sorriso leve, mas havia algo a mais em seus olhos.

— Eu faço o que posso. Além disso, alguém tem que garantir que você não morra.

Dean riu, mas sua risada era carregada de algo mais profundo.

— Eu sempre soube que você me salvaria, de um jeito ou de outro.

Katherine sentiu o peso das palavras dele, mas antes que pudesse responder, Sam interrompeu:

— Vamos voltar. Acho que já tivemos Wendigo suficiente por hoje.

Enquanto caminhavam de volta para o Impala, o silêncio entre Katherine e Dean parecia mais carregado do que nunca. Havia tanto não dito entre eles, tantos momentos enterrados sob camadas de caçadas, mortes e sobrevivências. Mas Katherine sabia que o que quer que estivesse crescendo entre eles não poderia ser ignorado para sempre.

Os irmãos Winchester eram sua família, a única família que ela conheceu desde que se tornara o que era. Mas sua relação com Dean... aquilo era diferente, perigoso. Talvez fosse a maior caçada de todas.

Naquela noite, eles dormiral em um motel na saída da floresta, perto de onde haviam estacionado o Impala. A lua cheia iluminava o céu, refletindo a quietude após a batalha. O fogo da lareira crepitava, e Sam estava imerso em seu laptop, buscando informações sobre possíveis novos casos.

Dean estava deitado no outro lado do quarto, as mãos atrás da cabeça, encarando a janela. Katherine estava sentada em uma poltrona perto da cama.

— Você já pensou em parar? — Dean perguntou de repente, sem tirar os olhos das estrelas.

Katherine virou-se para ele, surpresa com a pergunta.

— Parar? Você quer dizer… parar de caçar?

Ele deu de ombros.

— Sim, tipo... uma vida normal. Você já pensou nisso?

Ela ficou em silêncio por um momento, refletindo sobre as palavras dele. Uma vida normal? Para alguém como ela? Uma híbrida, metade vampira, metade bruxa?

Não havia como. Mas, por um breve momento, ela se permitiu imaginar.

— Eu tentei. Eu realmente tentei em Little Peace, mas sempre me senti deslocada — Ela finalmente respondeu, sua voz suave — Acho que pessoas como eu não têm esse luxo.

Dean se virou para ela, seus olhos verdes fixos nos dela.

— Você sempre foi mais do que isso, Kath. Mais do que só uma híbrida.

Ela sorriu, um sorriso triste.

— E você sempre foi mais do que só um caçador, Dean. Mas talvez… talvez essa seja a nossa cruz para carregar.

Dean suspirou, voltando a olhar para o céu.

— Talvez.

O silêncio voltou a cair entre eles, mas dessa vez, não era um silêncio desconfortável. Era o silêncio de duas almas que, apesar de tudo, sabiam que estavam condenadas a caminhar juntas, não importa o quão tortuoso fosse o caminho à frente.

E assim, sob o manto da lua cheia, enquanto o fogo crepitava e as sombras da floresta ainda sussurravam segredos antigos, Katherine e Dean permaneceram ali, lado a lado.

O peso de tantas batalhas, tantas memórias e tantos sentimentos não ditos pairava entre eles como uma nuvem carregada prestes a desabar, mas nenhum dos dois estava pronto para enfrentá-la. Não ainda.

Katherine fechou os olhos por um momento, tentando abafar os pensamentos turbulentos. O silêncio da noite deveria ser reconfortante, mas, para ela, sempre havia algo inquietante na quietude.

Ser híbrida — metade vampira, metade bruxa — significava viver entre dois mundos, e essa dualidade a deixava constantemente em conflito. Os instintos de vampira estavam sempre à espreita, e a magia de bruxa a puxava para um lado mais sombrio.

Ela havia se acostumado a lutar contra esses impulsos, mas em noites como essa, quando tudo parecia estar calmo, o conflito interno ficava mais difícil de ignorar.

Dean mexeu-se ao seu lado, estendendo a mão para alcançar o cantil de whiskey que estava próximo à cama. Ele tomou um gole e passou para ela.

— Você quer um pouco? Vai te ajudar a relaxar — Ele ofereceu, tentando disfarçar o fato de que estava observando-a atentamente.

Katherine pegou o cantil, mas apenas segurou, sem beber. Ela conhecia Dean bem o suficiente para saber que ele percebia o turbilhão em sua mente, mesmo que não dissesse nada diretamente.

Ele sempre soube quando ela estava distraída, quando estava lutando com algo que não podia compartilhar facilmente. Mas eles nunca foram de falar muito sobre seus sentimentos — ambos preferiam o campo de batalha, onde a ação falava mais alto do que palavras.

Ela olhou para o líquido âmbar no cantil e deu um sorriso contido antes de entregá-lo de volta a Dean.

— Se eu quisesse algo para me acalmar, não seria whiskey. Além disso, você precisa mais do que eu.

Dean riu suavemente, pegando o cantil de volta.

— Você tem razão. Eu definitivamente preciso mais do que você. Mas, sabe, às vezes eu só queria saber como é na sua cabeça, Kath.

A pergunta velada pairou no ar, mas Katherine não mordeu a isca. Em vez disso, desviou o olhar, seus olhos escuros fixos na chama dançante da fogueira. Ela sabia que Dean estava se referindo à sua luta interna, à constante tensão que sentia sendo quem era. Mas essas eram coisas que ela não compartilhava, não completamente.

— É complicado, Dean — Ela murmurou, sem realmente se comprometer — Mas acho que todo mundo carrega seus próprios demônios, de um jeito ou de outro.

Dean suspirou, recostando-se no tronco que usava como apoio.

— Isso é verdade. Eu só... me preocupo com você.

Ela sorriu para ele, um sorriso leve, mas com um peso significativo por trás.

— Eu sei. E eu também me preocupo com você. Sempre.

O silêncio voltou, e dessa vez, Katherine decidiu quebrá-lo.

— Sabe, quando você perguntou se eu já pensei em parar... Eu penso nisso às vezes. Não é algo que eu realmente acredito que possa acontecer, ao menos não da forma que eu gostaria, mas eu penso.

Dean olhou para ela, surpreso por ela estar sendo tão honesta.

— Mesmo? Eu nunca imaginei você vivendo uma vida normal. Você sempre pareceu tão...

— Tão o quê? — Ela o pressionou, inclinando-se ligeiramente.

— Tão imortal — Ele disse com um meio sorriso — Como se essa vida fosse feita para você. A caçada, a luta, o sobrenatural… Você parece pertencer a isso.

Katherine riu, mas havia um toque de amargura na sua risada.

— Talvez seja isso mesmo. Talvez eu pertença a isso, Dean. Mas às vezes, eu me pergunto... e se não fosse assim? E se eu tivesse a chance de ser apenas… normal?

Ele a observou atentamente, o silêncio entre eles pesado.

— Eu acho que você se sairia bem em qualquer vida que escolhesse, Kath.

Ela o encarou, sentindo o peso das palavras dele. Havia algo ali, uma espécie de promessa não dita, mas que ambos entenderam.

Eles sempre foram mais do que apenas companheiros de caça. Desde o início, havia uma conexão que eles nunca exploraram completamente — talvez por medo, talvez por causa das circunstâncias, ou talvez porque sabiam que o que quer que existisse entre eles era perigoso. Não apenas para suas vidas, mas para suas almas.

A fogueira estalou, chamando a atenção deles de volta para o presente. Katherine suspirou e se levantou, esfregando as mãos nos braços como se estivesse com frio — o que, claro, não estava. Seu corpo, metade vampiro, não sofria com as temperaturas como os humanos.

— Eu vou dar uma volta. Preciso esfriar a cabeça — Ela disse, lançando um olhar rápido para Dean antes de se afastar.

Dean apenas assentiu, compreendendo. Ele sabia que havia coisas dentro de Katherine que ele nunca poderia alcançar. Mas isso não o impedia de tentar.

Katherine caminhou pelo estacionamento e depois pela floresta, afastando-se lentamente do motel. A escuridão era quase total, mas isso não a incomodava. Seus olhos vampíricos enxergavam no escuro, captando até o menor movimento entre as árvores. A brisa carregava o cheiro da madeira úmida e da terra, algo que sempre a acalmava.

Ela parou ao chegar a uma clareira, sentindo o ar ao redor mais limpo. Fechando os olhos, deixou sua mente vagar por um momento, ouvindo apenas o som do vento e o farfalhar das folhas. Mas mesmo ali, sozinha, os pensamentos insistentes sobre sua natureza e seus sentimentos por Dean não a deixavam.

Katherine não conseguia se lembrar da última vez em que havia se permitido sentir algo tão humano quanto o amor. Talvez tenha sido antes de sua transformação, quando ainda era apenas uma garota normal, vivendo em uma vila remota.

Mas isso parecia outra vida, um passado que já havia sido enterrado há muito tempo. E então, havia Dean — o único que conseguiu perfurar a armadura que ela construiu em torno de si.

Ele era imprudente, teimoso e, às vezes, impossível de lidar. Mas ele também era leal, corajoso e a fazia sentir algo que ela julgava estar além de seu alcance: esperança. No entanto, essa esperança era perigosa.

Eles viviam em um mundo onde perder as pessoas que amavam era uma realidade constante. E, além disso, ela não era humana. Não podia se dar ao luxo de amar como uma pessoa comum.

Katherine sabia que Dean sentia algo por ela, algo que ele também nunca confessaria. Eles haviam compartilhado olhares, momentos, mas sempre acabavam colocando suas emoções de lado em nome da caçada. Era mais fácil assim. Mais seguro.

Mas essa segurança era uma mentira que eles contavam a si mesmos.

Katherine suspirou, abrindo os olhos. Talvez fosse hora de parar de fugir. Talvez fosse hora de enfrentar o que realmente estava entre eles. Ela voltou para o quarto do motel, sentindo o peso da decisão que sabia que estava prestes a tomar.

Quando Katherine chegou ao acampamento, Dean ainda estava sentado ao lado da fogueira, atirando gravetos nas chamas. Sam estava na outra cama, aparentemente dormindo.

Dean ergueu o olhar quando a viu se aproximar.

— Você está bem?

Ela assentiu, sentando-se ao lado dele. O fogo refletia em seus olhos, tornando-os ainda mais intensos. Ela respirou fundo, reunindo coragem para dizer o que estava em sua mente.

— Estou bem, sim… Acho que só preciso descansar — Comentou, se ajustando na terceira cama de solteiro do quarto — Até amanhã…

Katherine se sentia humilhada, a vergonha de não ter falado sobre seus sentimentos era apenas mais um indício de que ela deveria permanecer calada. Não existia nenhum caminho feliz caso ela e Dean desejassem seguir essa jornada juntos.

Dean envelheceria e morreria, seja por imprudência ou idade. Por outro lado, Katherine continuaria de pé, mesmo anos depois de sua morte. Era sofrido demais viver assim… Sem ele.

Notas finais
Espero que tenham gostado!