Between Heaven And Hell
1 Capítulo 1 - Today I Found A Friend
Notas iniciais
30 de junho de 1985 – Aberdeen 7hrs
- ALI, ACORDA! ESTÁ NA HORA DA ESCOLA! – Abri os olhos assustada com o escândalo que minha mãe fazia na porta do meu quarto.
- Já estou indo, mãe. Já estou indo. – Resmunguei enquanto levantada da cama e caminhava até o banheiro. Fiz a minha higiene e tomei um banho rápido. Coloquei uma camiseta qualquer, uma calça detonada, um all star em pior estado do que a calça e desci para tomar café.
- Bom dia, mãe.
- Bom dia, meu amor...
- Billie já saiu? – Billie era o meu padrasto. Quando lúcido, era sempre gente boa. Mas, era só exagerar um pouco na bebida (o que sempre acontecia) que virava um grande filho da puta.
- Já...
- Hum. Ok, mãe. Eu acho que vou indo. – Acabei o suco laranja que eu estava tomando, peguei minha bolsa e me dirigir até a porta.
- Só vai tomar um suco, filha?
- É, mãe. Já to atrasada... – Respondi já saindo de casa.
~
Caminhava calmamente até que vi um grupo de meninos em volta de o que seria uma briga. Corri até lá para vê o que estava acontecendo de fato. Eu estava certa: era uma briga. Um menino moreno, alto e grandalhão batia em um garoto loiro, muito menor do que ele. Ambos aparentavam a mesma idade. Não me conformei com aquilo...
- HEY! O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? – me meti na briga e desafiei o grandalhão. Foi a última coisa que eu me lembro antes de tudo se apagar.
~
Abri os olhos devagar, me acostumando com a claridade. Foi quando me toquei que não estava em casa... Nem no colégio. Sentei-me assustada. “Onde diabos eu estou?”, pensei comigo mesma. Comecei a observar o ambiente. Era um quarto bem simples, haviam desenhos colados nas paredes, um armário e uma cama, na qual eu estava sentada. Levantei e me aproximei da parede onde estavam os desenhos. Estava os analisando atentamente, quando fui surpreendida.
- Você está melhor? — Me virei assustada e dei de cara com... O garoto que estava na briga? Sim. Era ele mesmo. O menino que estava apanhando covardemente.
- Ah! Eu estou sim. Mas, o que aconteceu? Como eu vim parar aqui? Quem é você? – Disparei logo todas as minhas dúvidas. Estava morrendo de medo.
- Calma. Não precisa ficar assustada... – Ele riu.
- Mês desculpa... Eu realmente não me lembro de nada. – Ele lia mentes ou o que?
- Eu já esperava que você não se lembrasse... Você levou um murro e tanto. Por que entrou naquela briga?
- Aquele garoto tava de batendo! O que queria que eu fizesse? – Fiquei indignada com pergunta.
- Não se importasse. É o que todos fazem... Mesmo assim, obrigado.
- Não foi nada – Sorri.
Depois de alguns estranhos minutos em silêncio... O garoto desconhecido falou alguma coisa.
- Eu fiz café... Você quer?
- Aceito – respondi.
- Você quer que eu traga até aqui ou... – Nem deixei ele terminar.
- Eu vou com você! – Me sentiria desconfortável se ele trouxesse o café para mim. Afinal, nem visita eu era. Seguimos em silêncio até a cozinha da casa.
- Senta aí... – Ele falou e apontou para um das cadeiras da mesa. E assim eu fiz... Sentei-me na cadeira e fiquei olhando para o chão.
- Acho que ainda não sei o seu nome. – Ele quebrou o silêncio mais uma vez enquanto me entregava uma caneca com café.
- É... Ali. – Eu sorri tímida.
- Hum... Sou Kurt. – Ele disse.
- Kurt, você pode me dizer que horas são? – perguntei.
- Claro. Er... 10 horas e 40 minutos – Ele respondeu olhando para o relógio na parede.
- Meu Deus! Eu estou atrasada! Devia está na escola! – Falei já me levantando.
- Acredito que hoje seja o seu último dia de aula... – Ele disse ainda sentado e indiferente com a situação.
- É sim... – Eu respondi confusa.
- Não vai ter problema se você faltar o seu último dia de aula, vai?
- Hum... Quer saber? Você tem razão. Foda-se a escola. Não gosto de lá mesmo... – Eu disse decidida enquanto me sentava novamente.
- Então, Kurt... Fale-me sobre você – Falei tentando puxar algum assunto.
- A minha vida é chata... Fala sobre a sua. – Ele disse e eu ri.
- Bem, meu pai morreu quando eu tinha apenas dois anos. Minha mãe se casou com o meu padrasto, Billie. É gente boa, mas, exagera muito na bebida...
- Entendo...
- Eu já falei sobre mim... Agora é sua vez.
- Tá bom. Er... Meus pais são separados e eu vivo com a minha mãe aqui. Não tenho amigos e odeio ir à escola porque todo mundo me odeia lá.
- Nenhum amigo? Sério?
- Sério. – Ele disse meio cabisbaixo.
- Ah... Não fica assim. Podemos ser amigos. – Eu sorri
- Você... Você quer ser minha amiga? – Ele me olhou meio surpreso.
- Claro... E porque eu não iria querer?
- Sei lá... – Ele deu um meio sorriso que me deixou estranhamente feliz.
- Então... Como eu devia estar no colégio, não posso voltar para casa agora. O que vamos fazer?
- Decide você. – Ele falou sorrindo como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
- Pelo o que eu percebi você gosta de desenhar. Vamos fazer isso juntos!
- Claro! Vamos.
Acabamos o café e formos para o quando do Kurt. Ficamos lá desenhando, como duas crianças, até as duas da tarde. Conversamos sobre diversas coisas aleatórias, rindo de besteiras, como se fossemos amigos há anos... Não entendi porque ele não tinha amigos. Era uma pessoa ótima! Acho que nunca tinha me divertido tanto. Ele também parecia estar muito feliz em ter alguém para conversar... Mas, como tudo o que é bom dura pouco, o tempo passou voando e eu tinha de voltar para casa.
— Já são duas e meia da tarde... Eu tenho de ir para casa – Falei meio triste.
— Ah... Que pena. Mas, a gente se vê amanhã?
— Claro! – Eu sorri.
— Er... O seu nariz ainda dói? Digo, por causa do murro que levou. – Ele perguntou preocupado.
— Eu nem me lembrava disso! – Rimos.
— Ah, Então, tá bom. — Ele sorriu meio que aliviado.
Ficamos calados por um minuto, olhando um para o outro. Foi realmente engraçado. Até que eu quebrei o silêncio.
— Eu acho que já vou indo... – Nos levantamos do chão e ele me deu a minha bolsa.
— Er... Você quer que eu te leve em casa? – Ele perguntou meio inseguro.
— Pode ser. – Sorri
~
Caminhamos em silêncio até a minha casa, que não ficava muito longe da casa de Kurt.
— Então, eu fico aqui. – Falei por fim.
— Hum... Então... Até amanhã – ele disse e estendeu a mão para um aperto.
— É – Eu sorri e o abracei. Ele pareceu surpreso com aqui mas retribuiu o abraço.
— O dia foi muito legal... Obrigada – Falei.
— Não foi nada... Ali – Ele sorriu.
— Tchau... – Caminhei até a minha porta e ele ficou me observando. Antes de entrar, acenei para ele que acenou de volta e começou o caminho de volta para casa.
***
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