A expectativa da viagem não me permitiu uma noite de sono adequada, mas já me habituara a isso. O dia anterior tinha sido turbulento e exaustivo, não vou dizer que preferia esquecer ou desconsiderar o que acontecera, por que a partir disso abri um novo capítulo na minha vida e de tudo que posso realizar. Eu alimentava uma empolgação de que essa missão possa ser muito agradável e convencer-me de que conforme as realizássemos com sucesso poderemos adquirir certos acréscimos que beneficiariam a ambos, no caso eu e Vergil. “Dividir e conquistar” é o meu novo lema, afinal. Ainda há muito sobre o nosso passado a ser desvendado e ao passo de que essas atribuições impostas como pagamento prometiam ser um preço razoável pelos novos conhecimentos e informações, e serviriam para restaurar e discernir certas coisas que já me confundiriam demais. Para mim a escolha era definitiva e correta, em outros termos, meu objetivo é só estar pronta para qualquer inesperada situação e realizar o que David impor para nós.

E durante o período de adaptação ao plano e suas diversidades, analisei cuidadosamente nossos papéis nessa trama — se agirmos conforme o esperado não teremos problemas. O lado negativo tinha sido preparar o necessário para ter comodidade na tarefa empregada a nós, e é claro não fora uma tarefa fácil; tive que inventar uma série de desculpas para meus pais, pois se preocupavam com a possibilidade de eu sumir novamente — o meu desaparecimento de dois anos atrás os deixaram paranoicos —, quanto a Alexis omiti certos detalhes, por que a grande capacidade analítica dela poderia ser prejudicial, Lyana foi a única pessoa que não avisei e também queria me afastar dela, não que a odiasse só precisava dar um tempo. Na verdade, a intenção era me distanciar de tamanhas limitações — que me prendem e tiraram um pouco da liberdade para agir em prol do que necessitava — e evitar que aqueles mais ligados a mim ficassem angustiados ou se ferissem. Digamos que a ideia principal é priva-los do caos em que minha vida tornara-se, e também me daria espaço para repensar tudo que houve.

Vergil aparentava uma tranquilidade invejável enquanto arrumava as malas, as vezes o observava para ganhar um pouco de entusiasmo e confiança. Sua atenção estava focada clinicamente na organização, porém isso não o impediu de me flagrar em determinados momentos. A minha reação em relação a isso era sempre a mesma, sorria constrangida e dava de ombros. Apesar do jeito minimamente hostil e frigido, nunca me tratou com grosseria ou se incomodou a meus estranhos hábitos que aplicava a ele. Confesso que por um motivo que desconheço, compartilharmos o ambiente é reconfortante e extremamente familiar, não me cansaria de passar horas a fio perto dele. Vergil transmitia a mim o que precisava nessas circunstâncias adversas — sendo a paciência e harmonia —, um verdadeiro pilar para me dar apoio. Esse sentimento que acabei nutrindo em meio a convivência com ele, deve ser a motivação que me movia para arriscar tanto enfrentando algo que não compreendia muito bem — dando um sentido concreto a expressão "tiro no escuro". Se existiu uma centelha de desconfiança entre nós, esvanecera por completo. Conseguimos em menos de uma semana que pessoas, geralmente, não podem em um mês. Dividir o mesmo propósito aproxima muito mais que o esperado.

As armas correspondentes a mim deixei por último, pois toca-las me despertavam sensações bastante opressoras e desgastantes, e em compensação me confortava com a certeza de ser forte para lutar e alcançar meus ideais, ainda que tiver que usar métodos mais agressivos para obtê-los. Até um ano atrás, nunca sequer me imaginaria em uma posição como essa; a de uma caçadora. E questionara a razão do meu destino por estar levando-me por caminho repleto de espinhos, e ao fazê-lo recordava do hospital e o branco mental nas incontáveis tentativas de lembrar. Nada mudou desde aquele fatídico dia. A oportunidade de virar o jogo chegou e não desistirei dela. Faria esse esforço valer a pena, seja pelo suor derramado ou que arriscar.

Vergil passou alguns minutos olhando para a katana após recolher suas malas, seu semblante calmo trazia um olhar abatido. Se para mim que não possuía uma ínfima parcela de memórias o vazio era devastador, imagine não ter nenhuma lembrança da vida toda e o quão terrível deve ser. Reaprender sobre si e moldar uma nova personalidade não era algo que classificaria sendo maravilhoso.

Depois de pegarmos a bagagem partimos para o aeroporto, onde teríamos que marcar a maçante burocracia que nos dava liberdade para realizar viagens internacionais. David realmente pensou em tudo, tanto pelas documentações exigidas quanto para acessibilidade. E aproveitei para rever o plano e as informações da missão: teríamos que nos infiltrar num renomado colégio cujo propósito é encontrar um dos sete artefatos conhecidos como "Chaves". Exatamente dessa forma; sete chaves em sete lugares do mundo. Fomos direcionados a zona de embarque após esperarmos poucos minutos até nosso voo ser anunciado. Fiquei muito receosa por conta das armas que levamos e acabarmos sendo barrados na alfândega, talvez o fato de termos passado sem grandes complicações tenha sido uma ajuda de David e da tal organização que trabalha. O nervosismo cresceu a medida que nos aproximávamos do avião, meu medo sem dúvida não é um bom companheiro de aventuras. Tentava não prestar tanta atenção nos aviões que seguiam seu curso, somente guiava-me meio distraída e buscando coragem para enfrentar o que viria. Por sorte meu assento e de Vergil eram juntos, assim fiquei mais calma com ele perto de mim.

Eu já tivera experiências com viagens de avião antes, de férias com a família — em todas entrava em pânico. O real problema não é o voo propriamente dito, pois além de oferecerem conforto a bordo e ser bastante tranquilo ao se estabelecer num determinado ponto, geralmente ficava relaxada o suficiente para dormir o caminho todo. No entanto, uma das partes que detestava vinha a ser justamente a decolagem. Nesse curto espaço de tempo no qual nos preparamos para voar, deixavam-me tensa e nervosa — o coração a mil e a cabeça pulsando, dolorida. O ruído das turbinas, de forma alguma, eram apreciáveis aos ouvidos. Além de incomodas — nada mais amedrontador que aquele rugido quando este ganhava vida —, elas proporcionavam a constante impressão de estar prestes a explodir e a engolfante sensação de ser pressionada contra a o assento enquanto o avião depreendia-se da gravidade atormentava-me. Fiz o possível para Vergil não perceber minha patética situação, disfarçando da melhor maneira.

As horas pareceram arrastar-se infinitamente lentas demais a bordo, nem pude mentalizar um mantra para estabilizar meus nervos. Estava tão ansiosa para sair do avião que o pouso fora rápido. Eu não soube explicar se o cansaço é o estado natural de um voo extenso ou se este seria reflexo dos efeitos da mudança de ritmo e país, o famoso Jet Lag. Minha energia drasticamente reduzida e a vontade de dormir quase entorpeceram meus sentidos, contudo mantive-me forte para seguir o resto do percurso. Surpreendeu-me por termos que pegar um trem para locomovermos ao lugar desejado, até por que, tirando a visão meio ignorante, nunca cogitaria ir de trem — e alguém ainda viajava nisso?

Pegamos nossos lugares e pude visualizar o interior, não era muito diferente dos que via em filmes. As poltronas confortáveis, uma virada para outra e as grandes janelas que mostravam a paisagem em borrões. Vergil distraia-se lendo um livro e decidi dormir, então me cobri com uma manta e ajeitei-me numa posição confortável. Meus músculos já protestavam de exaustão e em terras firme, tive a segurança de expulsar as barreiras que blindavam meu corpo e sucumbir ao chamado do mundo dos sonhos.

Os indícios de vivenciar outro dos convencionais devaneios eram claros. Os pouquíssimos passos da insanidade ou não, ainda conservava uma diminuta esperança de que nelas fosse capaz de extrair uma imagem útil, mas continuaram sendo somente isso.

A diferença de abrir os olhos ou mantê-los fechados, conclusivamente, são as mesmas: a escuridão está tão presente que a impressão que dava era de ser engolida por ela. Um sussurro denunciara minha companhia, ardente e magnética. Procurava em uma parte da minha mente o significado desse sonho, por que nunca tivera semelhante. Disso, soube, que representava muito para mim, embora não entendesse. Respirei fundo ao sentir algo quente ser suavemente pressionado em minha pele, roçando suavemente pelo pescoço, explorando cada detalhe e exalando o perfume. Instintivamente tombei minha cabeça para trás para dar mais acesso a seja lá quem for, estava tão extasiada na corrente de sensações prazerosas que tomaram meu corpo que nada importava, além do que sentia — contexto egoísta. Mãos hábeis tocaram delicadamente minha cintura, traçando um rastro incendiário em minha pele, como se temesse quebrar, embora a força que exercia sobre mim não fosse o bastante para me machucar. Causar ocasionais marcas, talvez. Pude notar que havia traços de possessividade na forma que beijava meu pescoço e seguia caminho até meu abdômen ou o sutil aperto nas minhas coxas, mesmo não oferecendo resistência conseguia sentir o controle que possuía sob mim. Em determinado momento, ele posicionou-se sobre mim e o calor do contato da pele dele intimamente próxima a minha despertou uma sensação de plenitude e imensa satisfação. Queria mais do que ele me fornecera, algo que nem pude assimilar. Lentamente abri os olhos, esforçando-me para ver através da névoa que embaçava meu campo de visão. Aos poucos as imagens ganharam nitidez, e tive que me conter para não gritar devido ao choque.

Vergil? Pelos céus, é ele?

O homem era absurdamente idêntico a Vergil. A semelhança em si era somente sobrenatural, e sim também inacreditável. Os incomuns cabelos prateados (que ele teve que pintar de preto para não chamar atenção no processo de infiltração), aqueles lindos olhos azuis celestes cujo o poder e fascínio hipnotizavam e eles fixos nos meus, o vibrante sorriso que iluminava suas feições quase o transformara num ser inumano inalcançável. Ele inclinou-se para perto, nossas respirações mesclando-se e poucos centímetros para alcançar meus lábios.

Despertei num solavanco, batendo a cabeça no processo. Praguejei mental mente, afagando o local dolorido. A dor não substituiu a surpresa, sendo que minhas percepções sensoriais estavam seriamente abaladas devido ao susto.

— Algum problema, Diva? — Vergil perguntou, sua expressão amena.

Fitei-o, aturdida.

— Não... — menti, evitando trocar olhares com ele. Escovei meus cabelos para trás, visando arruma-los. Independente de ser um fruto da minha mente confusa, não pude negar que aquilo foi bom e ainda estranho, sem saber definir qual teria que considerar. E nos minutos que passei refletindo, tive lampejo e olhei para Vergil sustentando uma expressão de calmaria. Ele realmente deu a entender que sentiu uma ligeira preocupação, porém seu temperamento não era o que chamaria de fácil traduzir. De todo modo, optei por, primeiramente, estabilizar meus batimentos cardíacos que estavam rápidos demais. Entre pausas e profundos exercícios de respiração, Vergil voltou a ler o livro que identificara sendo um de temática histórica, mais especificamente da história da arte. A leitura deve ser deveras interessante para reter sua atenção. Aprendi mais uma coisa nova dele: uma amante assíduo de livros e busca por conhecimento bastante abrangente. Fiquei demarcando os mínimos gestos e nas particularidades existentes nelas, e inevitavelmente recordava do sonho. A realidade me atingiu com força, embora ainda não estivesse convicta. Tudo que experimentei nele era tão real quanto estar nesse trem, às sensações a flor da pele e o sentimento inexplicável que crescera no inusitado momento. Desde que Vergil apareceu na minha vida tudo mudou; sem sonhos macabros, visões sem sentido e vazio sumiram. Estar com ele me fazia bem, então aproveitaria os momentos que tivermos juntado.

A inquietação sufocante se agitou dentro de mim, e ao invés de permanecer no assento que designara para mim, sentei-me do lado de Vergil e acomodei-me ali, repousando a cabeça no ombro dele e encolhendo-me. Vergil não reclamou, na verdade, minha atitude não lhe despertou nada, tudo que fizera fora observar minhas ações. Mas sem sua recusa, continuei assim.

— Não é nada. — assegurei.

O colégio St. Vincent Millay servia como uma espécie de internato, embora seguisse uma forma de disciplina mais aberta em comparação as outras. Inclusive ainda aderiam costumes de obrigatoriedade de uniforme e o toque de recolher. A entrada podia se ver a grandiosa construção bem conservada, apesar de claramente tratar-se de edifícios antigos. A classe e distinção são sinônimos a bela arquitetura cujo era estrategicamente envolto por uma vasta vegetação bem cuidada, flores de diversas cores enfeitava o ambiente e exalavam seu doce aroma no ar. Viam-se pessoas curiosas com a nossa chegada parando suas atividades para nos observar passando, elas conversavam sem disfarçar. Éramos a carne nova, os estranhos no mundo novo e pelo visto seremos o assunto por um longo tempo. As coisas e demonstravam ser paradas e quando surgia uma novidade, basicamente, transformavam em um evento de grande importância. A coordenadora nos recebeu cordialmente, uma alusão nítida do grau de polimento exigido, falando sobre os métodos de ensino, alas acessíveis para alunos — e professor no caso de Vergil —, falou de algumas regras e durante o trajeto reparei no símbolo proeminente em pontos específicos e lancei um olhar afirmativo a Vergil. Fomos direcionados a dois prédios e separei-me de Vergil, onde se dividia o trajeto para o dormitório masculino e feminino. Consequentemente deteríamos o mínimo de contato possível, embora tornasse nosso trabalho ligeiramente mais complicado, um lado positivo vinha a ser que deste modo cobriríamos um perímetro maior na exploração e investigação do local. Permiti que fosse guiada para o dormitório onde passaria o ano letivo após as aulas, a maioria das alunas ocupavam-se e poucas estiveram presentes para me recepcionar. Havias tantas peculiaridades quanto às escolas que frequentei no período escolar: a rigidez para o cumprimento das condições impostas, a valorização das boas maneiras, e não menos preponderante os hábitos e relação com as pessoas. Paramos em uma das portas, ao lado uma plaquinha com meu nome e outro, da minha companheira no qual compartilharei o quarto. Depois de me informar os horários, a coordenadora deixou-me. Lá dentro o local era limpo e arejado, prateleiras de livros se destacavam, janelas altas no qual a luz adentrava e espalhando tons de amarelo e laranja pelo cômodo, duas camas e suas respectivas escrivaninhas e em cima de uma delas encontrava-se o uniforme que, contragosto, usaria para poder atuar como aluna. A ideia de retornar ao ensino médio não soava nem um pouco tentador, se aparentasse mais idade poderia ter me apresentado como professora. As matérias impostas seriam mais fáceis para mim, para uma garota que já está no nível universitário e se passar por uma estudante de terceiro ano, de certa forma, teria uma vantagem. Coloquei as poucas malas que trouxe no chão ao lado do que supus ser minha cama e, de repente, algo cruzou a porta com a velocidade e violência de um raio. A garota pequena lembrava-me uma delicada boneca: os cabelos ruivos e o rosto pálido e salpicado de sarda, os óculos grandes que quase ocupavam metade de que rosto, este em formato de coração.

— Uh... Desculpe-me, estou a-atra-trasada. — ela curvou-se na tentativa de buscar ar, respirava pesadamente. — Eu me enrolei um pouco. Estou exausta, muito exausta!

— Tudo bem — dei um sorriso amarelo.

— Seja bem vinda! Sou Cassandra Kelley, mas todos me chamam de Cassie. Muito prazer em conhecer, e espero que sejamos ótimas amigas!

— Prazer Cassie, meu nome é...

— Alexandra Sheldon, eu já sei. Antes que pergunte — aproximou-se sorrateiramente, seu tom confidente: — Eu roubei suas informações da secretaria, aliás, também sobre o lindo professor Dimitri. — adicionou deslumbrada.

— Bem, fica até mais fácil assim.

— Vai ser divertido compartilharmos o quarto! Estou muito animada!

Pisquei atônita.

Cassie é exatamente o tipo de pessoa que me acostumara, energética e carinhosa. Não teríamos problemas na questão de convivência.

— Oh, é melhor que se apresse antes que nós nos atrasássemos.

Mal cheguei já era esse alvoroço, tenho que me adequar à rotina deveras limitada e acelerada. Assenti e peguei meu uniforme, partindo para o banheiro a fim de ter privacidade. Ajeitei o minúsculo interfone e, recebi a primeira chamada de David.

— Como está indo o progresso da missão?

— Conseguimos nos infiltrar com sucesso, sem nenhum obstáculo. E inclusive já sabemos que aqui é o lugar certo, há figuras da primeira Chave por todos os cantos.

— Pressupõe que sim. Fique alerta e continue com o bom trabalho, Srta. Valentine.

— Obrigada! — ouvi o som que indicara que David desligou a comunicação. Relutante, vesti a saia cinza, a camisa branca e o resto do vestuário que constituía o — indiscutivelmente sem graça — uniforme. E uma última olhada no espelho para checar alguma anormalidade e sai. Cassie auxiliou na organização do material necessário para a aula e me puxou animadamente para fora. Os corredores ainda continuaram vazios e silenciosos, o sol brilhava gentil no céu perfeitamente azul enquanto cruzamos na passarela aberta que se permitia uma ampla vista do jardim apinhado de rosas vermelhas para o outro prédio, a brisa refrescava o calor e espalhara meus cabelos. Cassie tagarelava sem parar e, compeli para diminuir o ritmo até, finalmente pararmos. Ela estranhou minha atitude, porém permaneceu ao meu lado.

— E esse símbolo, o que é? — questionei, apontando para uma das estatuetas presentes ali.

— Ah, é o que representa nossa escola: o famoso Halo do sol, o símbolo da luz. — afirmou confiante, seus olhos radiosos.

As dúvidas cessaram por completo, temos pistas da primeira Chave. Agora só teríamos que usar de influência para conseguir descobrir a localização do artefato, de fato, o cuidado e prudência seriam redobradas. Cassie me mostrou onde ficava a classe da primeira aula, todos me encaravam quando entrei. Pareceu que alguém tivesse mexido no interruptor. Em seguida, Vergil — com a identidade de Dimitri — chegou e sussurros e gritinhos histéricos irromperam o ambiente soturno. Cassie sentou-se na cadeira ao meu lado, e uni-se ao grupo de admiradoras do novo professor. Elas suspiravam, outras mais ousadas mirava-o com cobiça. Os poucos homens na sala, torceram o nariz. A população masculina sentia-se ameaçados pela nova beldade, principalmente por ofuscarem sua presença e atraísse com facilidade a atenção feminina. Notei que na cadeira distante havia uma garota isolada, todos pareciam ignora-la.

— Quem é ela? — inquiri baixinho.

— Ah, ela é Sofia Wolsen. Não vou entrar em detalhes, mas houve uns boatos e meio que ela é mal vista por aqui.

— Entendo. — observei a jovem solitária, senti-me maternal e solidária para saber as causas de tanto sofrimento. Por um segundo, preciosos segundos, nossos olhares se encontraram, eu sorri numa falha tentativa de transmitir serenidade e intenção amigável. Ela atrapalhou-se e retomou sua atenção à explicação de Vergil, e fiz o mesmo. Para um homem que mal se lembrava do passado, Vergil possuía todos os atributos para exercer a profissão de professor de modo impecável: sua postura respeitosa, seu jeito de lidar com os alunos e como todos se mantinham atentos a cada coisa que instruía. Literalmente capturava os holofotes para si.

Acompanhei as lições mais rapidamente, o ritmo eu pude seguir confortavelmente. A maioria das matérias já tinha visto antes, então não chegava a ser um problema — fora o tédio por interpretar uma estudante que devesse manter a linha de raciocínio das demais pessoas da "minha idade".

Na hora do almoço, recolhi-me em uma mesa mais reclusa e Cassie que levou a serio a questão de sermos amiga e ficou comigo. Descobri que o único momento que ela ficava quieta é justamente quando comia. Casualmente, no meu tempo livre longe das intervenções escolares, procurava chances para falar com Vergil, contudo todas se tornaram nulas e impossíveis de realizar. Por um instante, a frustração e desapontamento borbulharam dentro de mim feito um agente químico a ponto de ebulição. Conformei em ficar distante, mas na parte que destinara a mim, perpetrarei o melhor para concluir. Ainda tive a esperança de ver Vergil nem que fosse de relance ao término das aulas. O resto da tarde passou num borrão, nada significante incidiu e enquanto percorria os incontáveis corredores, tratei de memorizar certas localidades que julgara ser suspeita — e para criar um mapa mental caso me for indispensável.

Suspirei profundamente, o exaustivo horário implicou em uma forte enxaqueca e desencadeou a preguiça, esta sendo uma velha companheira. Desanimava recordar que amanhã terei de repetir o processo, não vai ser moleza a missão. O nosso desempenho tinha sido promissor, esperava que seguisse dessa forma.

O sutil fulgor prateado da lua penetrava a vidraça e oferecia ao quarto um encantador aspecto através de sua radiante energia, os objetos tomavam suas devidas formas menos sombrias no qual a escuridão as submetera. Cassie que sucumbira no mundo dos sonhos repousava no confortável e bagunçado leito, sua respiração leve e ritmada evidenciando seu estado de completo letargo. Eu invejava a facilidade que ela possuía para cair no sono, por que para mim existia inúmeras interferências que me impediam de dormir. Vivenciei situações fora do contexto da normalidade, e somente agora tendo que encarar tudo ocorrido sozinha a ficha gradativamente desmoronava. Esses constantes pensamentos me perturbavam a ponto de perder a vontade de dormir, restando unicamente contemplar a beleza do céu estrelado. Segurei meu pingente que continha meu precioso anel, apertando-o entre os dedos. Carregar esse delicado adereço me proporcionava segurança e a sensação de estar acolhida, eu não tinha ciência do motivo de tal sentimento, mas era o meu porto seguro, representava algo muito importante. A gentil brisa que invadira o cômodo pela diminuta fresta, trazendo o tecido do vestido colar a meu corpo. Examinei melancolicamente o ambiente até pousa-los no pequeno dispositivo sobre minha cama, piscando. Vacilante, aproximei o comunicador do ouvido para receber o sinal e assim permitir que iniciasse a transmissão, logo escutei chiados e estáticas desagradáveis antes de estabelecerem adequadamente a recepção.

— Diva? — a voz de David ecoou do outro lado.

— O que houve? — indaguei baixo para não despertar Cassie.

— Fico feliz em tê-la encontrado ainda acordada. Presumindo: você tem um novo objetivo de extrema gravidade por hora, este equivaler a de grau 5. Alvo encontra-se na torre leste, elimine-o.

— Vamos com calma, explique melhor, não pode simplesmente me ligar tarde da noite me ordenando fazer algo sem dizer os detalhes e procedimentos corretos.

— Minhas sinceras desculpas, Srta, Valentine. Vou explicar o mais breve possível: o irmão de Vergil conseguiu descobrir nossos passos e por conta disso, creio que estará pronto para atrasar a missão.

— Não seria melhor pedir ao Vergil, o irmão é dele afinal.

— Não, isso causaria danos para os envolvidos. Vergil pode perder o controle ao confrontar o irmão. Você é a última chance para detê-lo.

— Entendo, mas não sei nada de combate. Como vou lutar?

— Não se preocupe com isso, confio que dará um jeito. Então o elimine o quanto antes.

— Farei o possível. Desligando! — e em clic a transferência teve fim. Abri a mala sobressalente, visando o conteúdo. Recolhi o coldre, em seguida, ajustando-o a meu corpo e guardei as armas nelas. Articulei um plano de ataque e que teria a ser feito para obter o sucesso, pensei na quantidade de pentes carregados de munição e se seriam suficientes. Eu não planejava atirar, na verdade, esperava nem usar as armas. Para poupar tempo, decidi permanecer de pijama. Eu senti que era capaz, ao menos, fazer o alvo recuar. Guinada com fervor da adrenalina, vaguei taciturna pelos corredores e caminhos adjacentes que interligavam à torre. A escuridão do mesmo modo que servia como uma aliada era também uma ardilosa inimiga. Ela favoreceu e muito a minha camuflagem, porém em determinados momentos atrapalhou-me. Corri o mais rápido que a inapropriada roupa me permitiu, evitando o máximo as distrações da noite. A localidade da torre era remota e a probabilidade de alguém escutar tiros é mínima — embora ainda existisse. Ao entrar dei de cara a uma sinuosa escadaria, apesar de descontente com o obstáculo segui em frente. Uma das pistolas em punhos, mirava qualquer coisa que indicava prenúncio de ataque — ou assustava-me. Avancei com mais velocidade ao chegar ao topo, e foi naquela noite que finalmente pude ver o homem de vermelho das minhas visões. Ele pareceu consciente da minha presença, entretanto não se virou ou sequer mexeu-se.

— Não se mova! — apontei a pistola em sua direção.

— Gostaria de saber quando teremos um encontro que você não queira atirar em mim.

— Pode ser que hoje seja seu dia de sorte e não te encha de buracos! — rosnei em escárnio. — Vire-se devagar!

— Certo, tudo que quiser doçura. — sem pressa o homem girou, dando-me um total vislumbre de sua aparência.

— E então? Podemos conversar como dois adultos civilizados... — ele fez menção de diminuir a distancia que mantinha-nos separados, continuei focando nele prestes a puxar o gatilho. Em resposta a minha postura, ele ergueu as mãos em rendição sustentando um sorriso de canto. — Ou faremos do jeito difícil. Você escolhe, doçura.

Notas finais
Eu sei, estou preparada então me crucifiquem depois dessa MWAHAHA xD As coisas vão esquentar por que não há nada mais interessante que aumentar ibope com pancadaria, ainda mais do, até o momento, shipper favorito da saga HUAHUAHUAHUA xD Façam suas apostas; quem vencera essa disputa? Isso e muito mais... Não é no Globo Repórter não, só no próximo capitulo mesmo u-u Quanto a essas Chaves serão futuramente melhor explicadas. Até a próxima!