Between Dimensions
28 The Butterfly Effect!
À medida que ele encurtava o espaço entre nós, eu já sabia o que viria a seguir: a morte solitária. Nunca imaginei que meu fim fosse assim, mesmo que nos últimos meses tenha desafiado a morte inúmeras vezes — nem podia calcular com exatidão. A dor era intensa e atordoadora. Não conseguia acompanhar os impulsos primitivos de sobrevivência do meu cérebro, não compreendi o que deveria fazer e nem sequer lembrava o que me trouxera ali. Tudo se concentrava somente nas dores que pareciam se espalhar sem piedade por cada parte do meu corpo, queimando e rasgando. A razão tentava rejeitar a dor, limpar minha mente e fazer com que, ainda que as chances de sucessos sejam escassas, possa ao menos resistir preciosos minutos para uma fuga. Minha respiração estava irregular e temi que algum ruído escapasse dos meus lábios sôfregos que, de alguma forma, perturbasse o imponente e misterioso ser. Quanto mais lutava para manter-me consciente, mais me empurravam no torpor débil. Um furtivo e poderoso pensamento estabilizou-me, criou uma meta e deu-me ânimo para combater meu estado de sonolência: Vergil. Tinha que encontrá-lo, saber se ele está bem e, acima de tudo, aguentar o bastante para confessar o quão importante ele é para mim. Acho que é de conhecimento universal que no momento em que estamos a beira da morte nossos verdadeiros sentimentos são expostos.
Os sons pesados e rançosos dos passos do ser preencheram o ambiente, como um anúncio de sua presença. Ergui levemente a cabeça para olhar meu algoz, os seus olhos azuis refletiam um fulgor de pura fúria incontrolável e assassina. Aquilo só confirmou meu receio. Ignorando os protestos do meu corpo, force-o com o restante de energia que dispunha para levantar. A criatura largou o cadáver sem cabeça do guardião da Chave no chão, formando uma poça de sangue. Ele caminhava em minha direção sem se conter, sua intenção clara em seus passos determinados. Vários outros sons foram unindo-se, gritos agudos e ásperos, todos vindo de diferentes pontos do local. Havia muito mais guardiões do presumi inicialmente, todos frenéticos e ferozes. O ser olhou desdenhosamente para eles, a quantidade não pareceu intimidá-lo. Usei o braço inteiro para criar um suporte, segurando a lateral do meu corpo para deste modo equilibrar-me de pé.
O meu movimento ativou algum instinto nos guardiões que os colocou em posição de ataque, quase imediatamente, lançando-se para nós. Fechei os olhos, temerosa. No meu estado não ofereceria nenhuma resistência e facilmente eles me fariam em pedaços, porém senti apenas uma brisa carregada de virulentos grunhidos. Surpresa, abri os olhos e vi os guardiões avançarem no ser que ainda manteve a postura imperturbável e indiferente, embora a desvantagem fosse evidente. Aproveitei que eles o distraiam e, com muita dificuldade, arrastei-me para longe. Não arriscaria correr e acabar acarretando a ruptura da fratura. Teria que permanecer em um ritmo que meu corpo debilitado pudesse se adaptar. Apoiando-me nas paredes rochosas, sai do campo de visão daqueles monstros, mas precisaria achar um lugar mais distante para estar realmente segura. Entrei em uma bifurcação com barras de madeira estrategicamente postos para sustentar a parede e o teto, onde também jaziam barris enferrujados e restos do trilho desativado. Um leve e repentino tremor quase derrubou-me e instintivamente olhei por cima dos ombros garantindo não estar sendo seguida. O abalo desestruturou algumas barreiras de sustentação, fazendo uma pequena parcela cair no meio da passagem, o que acrescentou mais obstáculos. Respirando fundo, atravessei-o com o dobro de tempo que utilizaria se estivesse saudável.
Já nem sabia para onde ir, guiava-me por um novo sentido recém-desperto. Mover-me, aos poucos, tornava-se um exercício doloroso e insuportável. No entanto, não poderia me dar ao luxo de parar. Se o fizesse correria sério risco de topar com aquele ser ou guardiões da Chave. Talvez encontrando Vergil a tarefa de recuperar a Chave fosse mais fácil. Ajeitei meu casaco de modo que servisse como uma tipoia improvisada. Mordi o lábio inferior para impedir que meus gemidos de dor ecoassem, e cansada encostei-me em tábuas pregadas ali. Nem me ocorreu que elas fossem quebrar, então quando projetei meu peso nelas, as senti ceder em um estalo seco. Rolei com rapidez e brutalidade no barranco, cercado de rochas. Minha mente não processou o ocorrido, somente a nova dor tortuosa que me incapacitou por completo. Algo quente insistiu em subir minha garganta quase me sufocando, o gosto característico de sangue. Mais uma vez travava uma batalha para ficar acordada enquanto o pouco oxigênio me sugava para a escuridão acolhedora. A fraqueza era demais e quis desistir, simplesmente me entregar ao cansaço. Minhas forças esgotavam-se.
Barulhos altos e assustadores me obrigaram a despertar num solavanco, tão rápido que deu-me vertigem. Ele estava diante de mim, rígido e imaculado. Tive certeza que o objetivo dele era me deixar ciente de que com todos meus esforços não fugiria, queria me subjugar e se deleitar com o prazer da caçada. Gritei furiosamente para mim mesma, indo ao extremo do meu pouco fôlego para usar minhas habilidades psíquicas. Nada funcionava, nem mediante a explosão de adrenalina que entorpecia meus sentidos igual a morfina. O ser frio e inescrupuloso marchou ao meu encontro, e eu desesperadamente finquei as unhas no chão rastejando feito um animalzinho acuado. Tudo que fazia, no ponto de vista dele, deve ser inútil e patético. Esse é o instinto natural de qualquer ser vivo, fazer o possível para adiar a morte. Percebi com desgosto que ele ainda trazia consigo a Chave, apertando-o nas mãos grandes e assustadoras.
De repente, para meu terror, ele traçou delicadamente a ponta das garras em meu rosto, delineando seu formato. Uma atitude humana em meio a predatória sede de sangue que exalava dele. Com a mesma delicadeza, tocou meu pescoço e erguendo-me. Flácida como uma boneca de trapos. Seu aperto começou a ficar mais forte e, o impulso mesclado ao medo, fez com que me debatesse bravamente. Com os olhos entreabertos, através da nebulosidade que escurecia minha visão, fixei meu olhar nos dele. O azul suave era deveras familiar. Já vira antes, mas minha mente não identificava de onde. O fino sorriso diabólico e cruel iluminou as feições sinistras do meu carrasco, que se divertia com a convicção da vitória. Cravei as unhas no braço revestido com uma espécie de couraça escura e leve brilho azul, ainda que o máximo que fizesse fosse arranhões superficiais.
— Em... Contrar... Ver... Gil — sussurrei suplicante. O monstro chacoalhou a cabeça e soltou um rosnado. Seu aperto mais forte, capaz de partir minha traqueia.
— Vergil... Ver... Gil... — o ar mal entrava e meus pulmões não mais aguentariam muito tempo. Uma lágrima solitária escorreu sem minha permissão, o monstro guinchou como se lutasse contra algo invisível. Ou contra si mesmo.
— Diva... — a voz familiar e aveludada chamou. Os olhos azuis que antes mostravam apenas ódio irracional, agora, focaram-se em mim com arrependimento e confusão.
— Vergil? — sorri desolada. Liberta do agarro violento em meu pescoço, Vergil com todo cuidado segurou-me em seus braços.
— Sinto muito. Não pude me controlar. — sua respiração vinha em arfadas contidas, como se qualquer movimento dele fosse me despedaçar. Sua aparência permaneceu estranha e amedrontadora, porém sabendo quem era a pessoa por trás não me causava tanto medo.
Vergil olhou em volta, outro abalo sacudiu a mina.
— Você achou a Chave — disse em tom de brincadeira, embora a circunstância não inspirasse graça.
— Deveria se preocupar em ficar alerta, em vez de pensar nisso. — tossi para desobstruir a garganta. — a prioridade é você. Não estou em posição de pedir isso por quase ter te matado, mas se mantenha acordada.
Assenti exausta.
Analisando nossa situação, meio tonta, reparei que Vergil estava tenso. Não era uma coisa comum, conhecia-o bem demais para saber que a raiz da sua tensão era a ameaça de que aquela parte caísse sobre nós, sendo que estávamos presos. Vergil prontamente deitou-me no chão, posicionando sobre mim. Ele voltara a sua forma humana e não pude evitar me sentir desconfortável com a aproximação perigosa. Meu coração bateu acelerado, quase de maneira descompassada e audível. Temi que ele, devido a proximidade, ouvisse. Um ímpeto me aconselhava a ser franca comigo mesmo e admitir que Vergil tinha muita influência sobre mim, quase como se seus gestos pudessem me encantar. Reprimi a vontade de gemer ao sentir o calor vindo dele e o contato de nossas peles.
Virei o rosto, envergonhada e aflita.
Minhas pálpebras pesavam e para poupar-me de mais trabalho, entreguei-me ao cansaço, delimitando mentalmente que usufruiria poucos minutos de descanso. Desorientada, pisquei aos poucos emergindo na plena consciência, pensando vagamente no tempo gasto no cochilo. Talvez poucos minutos. Engoli em seco ao notar que Vergil ainda, persistentemente, permanecera na mesma posição. Vi que parte das rochas e velhas estruturas desabaram, se não fosse por Vergil ter se posto na minha frente, sem dúvida teria sido esmagada.
Ele me protegeu.
Vergil levantou o rosto para que pudéssemos ficar cara a cara. Meu desconforto não me incomodava mais. Naquele momento, um sentimento de afeto transbordou em meu peito. Queria realmente agradecer pelo que fizera por mim. Um filete de sangue deslizou pela testa dele. Seu semblante sério de sempre.
— Obrigada — murmurei num fio de voz, as lágrimas ardendo em meus olhos.
— Não precisa chorar. Estou bem... — antes que ele pudesse terminar de falar, o beijei. Diferente daquele desastroso beijo que lhe dei para impedir que perdesse o controle, este carregava a imensa e inerente paixão que vinha nutrindo em segredo. Vergil fora pego desprevenido, então sua primeira reação não seria outra senão a surpresa. Não me iludi acreditando que seria um ato que ambas desfrutariam com igual intensidade, sequer pensava que ele retribuiria. Entretanto, Vergil não somente aceitou como ficou voraz e sedento. Era estranho por que na mesma proporção que ele ganhava mais ânsia, meu cansaço aumentava gradativamente. Não pude coordenar meus pensamentos para ver uma relação entre o beijo e minha falta de força. Tive receio de novamente me perder na escuridão e acordar para uma realidade amarga, que tudo não passara de um sonho.
— Vergil... — foi a última coisa que disse antes de apagar.
***
Meus olhos se abriram para uma forte luz que obrigou-me a, imediatamente, fecha-los. Uma mão quente repousou em minha testa, verificando minha temperatura. Acostumando-me com o novo e aconchegante ambiente, vi um tubo anexado ao meu braço e a uma bolsa com soro. Algo se prendia um pouco abaixo do meu nariz e a boca, enviando doses suaves de oxigênio. Recuperando a lucidez, foquei melhor o local desconhecido. A iluminação era fraca, mas agradável aos olhos. Vários equipamentos de rádio ocupavam o espaço, havia armários de aço reforçado disposto próximo a uma mesa bagunçada. Mãos, que a custo afastava, insistiam em me examinar. Elas não transmitiam nada de ruim, contudo, estressada e com a mente trabalhando a mil, o reconhecimento do toque não me relaxava.
— Fique tranquila, Diva — a paciente voz pediu, encarei meio distraída.
Thanatos sorriu.
— Onde estou? — perguntei, minha garganta seca e dolorida.
— Na torre. Na montanha. — exclamou pausadamente para que eu entendesse.
— Como...
— Vergil a trouxe pra cá para que tivesse os primeiros socorros. — procurei avidamente o mestiço, meus olhos varreram toda extensão visível da Torre. Sem sinal dele. — Não se preocupe, ele está bem.
Suspirei.
— Vocês formam uma boa dupla, mesmo que Vergil tenha aquele jeito "lobo solitário".
Ao rir da observação dela, a lateral do meu corpo porejou. A dor me impossibilitou de fazer qualquer coisa que não fosse ficar deitada e parada.
— Por enquanto não faça tanto esforço, sim? — aquilo soou mais como uma ordem que, de fato, um pedido. Mas não vou desobedecer às recomendações de Thanatos.
— Um exame superficial do seu caso revelou quatro costelas fraturas, sem separação condrocostal. Simplificando, sem separação da cartilagem da costela. — explicou com naturalidade e postura de uma genuína médica. — Sem sangramento ao redor da lesão, embora tenha uma pequena perfuração no pulmão. Essa já tratada. Danos internos, mínimos possíveis. Seu fator de cura ajudou bastante, sem ele teria morrido antes de chegar aqui.
— Isso é bem confortador — afirmei zombeteira.
— Aproveite essa disposição toda para deixar seu organismo agir e sem agravar as lesões, relaxe para que os ossos se consolidem apropriadamente.
— Sim, senhora. — dei um fraco sorriso. — Ah, Thanatos, poderia chamar o Vergil?
— Claro, volto logo — dito isso, ela retirou-se. O uivo do vento do lado de fora era o único som na imersa quietude. Pela janela pude ver que a tempestade ganhará bastante força. O tipo de clima hostil que não gostaria de enfrentar. O silêncio não chegou a incomodar, pelo contrário, deu-me a oportunidade de pensar com clareza. Repassando o ocorrido, pude analisar minha atitude e meu impulso para com Vergil. No começo, o constrangimento aqueceu meu rosto, ao lembrar o beijo. Toquei meus lábios relembrando da maciez dos lábios dele. Por alguns segundo, me senti como uma garota que compartilhou a emoção do primeiro beijo com o rapaz que gosta. Meu lado racional me tragou para a realidade, quebrando em milhares de pedaços meu devaneio. O desejo e a boa sensação fora substituída pela raiva e o arrependimento. A maneira como tudo aconteceu fugiu do meu controle e, em hipótese alguma, deveria ter permitido que chegasse tão longe.
Interrompendo minha auto piedade, Vergil entrou. Minha respiração ficou presa e meu coração saltou em batidas selvagens. Ele se ajoelhou próximo ao meu colchão.
— Thanatos disse que queria falar comigo. — anunciou categórico. — E como está?
— Estou bem, Thanatos disse que meu fator de cura me salvou. Claro que devo isso a você também.
— Você não me deve nada. Fiz o que deveria ser feito. — cortou prático. — O importante é que esteja bem.
— Sobre o que houve...
— Não se preocupe, não vai acontecer novamente. Não. Muito mais que isso. Será como se nunca tivesse acontecido.
Doeu, e muito mais do que conseguia admitir. Para ele não teve nenhuma diferença. O que estava pensando? Que magicamente Vergil corresponderia minhas expectativas?
Eu escolhi beijá-lo e ele escolheu apagar da memória. Talvez, em algum momento do futuro essa decisão seja o que determinara nosso futuro. Efeito borboleta, não?
— Por quê? — a pergunta escapou antes que pudesse impedi-la.
— Temos um trabalho a fazer, não devemos permitir que futilidades nos desviem do nosso objetivo.
Apertei o lençol entre meus dedos, a frustração e raiva cresceram em meu interior.
— Você tem razão — me obriguei a dizer. Acalmando meu coração e contendo a vontade de chorar, acrescentei: — Conseguimos a penúltima Chave, o Halo da Lua.
— Já poderemos partir para a próxima Chave. — Vergil pareceu estudar minha reação. — Ou ficamos mais uns dias para que se recupere.
— Não há necessidade. O tempo está correndo e devemos fazer o mesmo. — não quis que minha voz soasse tão ríspido, mas fiquei satisfeita. — E para onde vamos?
— Para o Japão.
Enfim, a ultima Chave.
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