Determinado tempo de convivência já te dá certas noções sobre a personalidade de um indivíduo, e quando o dito cujo é Vergil as coisas já são diferentes — um abismo mais especificamente. Estamos nessa jornada uns poucos meses e a relação entre nós é um tanto quanto estranha; temos momentos de solidariedade, parceria e significativo afeto. Entretanto voltamos à estaca zero e tudo muda, sua postura enigmática e emocionalmente distante consegue rechaçar quaisquer resquícios de restabelecer uma ligação. Vivemos em mundos distintos e ele nem fazia questão de, pelo menos, observar o meu tão próximo. O caos instalou-se pelos meus pensamentos; ora por questões menores das missões marcadas e por motivos de cunho afetivo. Quem nos visse andando na praça com intervalo de poucos metros um do outro, sem dúvida, nunca cogitaria que estaríamos em um encontro. Geralmente quando duas pessoas saem juntas, há um grau de afinidade ou mesmo intimidade para criar todo o clima para um legítimo encontro — porém com Vergil não tinha nem uma coisa, nem outra. E não era assim que idealizei a ocasião, esperava que fosse agradável para ambos e a atitude de Vergil só demonstrava quão incômodo estava sendo. O orgulho inquebrável e armadura impenetrável que o envolve não possuía fraqueza ou brechas, nem se arriscasse ultrapassa-los poderia alcança-lo. Tendo ele perto sentia o coração transbordar de intencional e inocente felicidade, queria transmitir aquilo e nunca existirá a ínfima possibilidade. Passamos por tantas situações de morte, uma delas lhe custou o braço — já recuperado e ainda cuidadosamente enfaixado —, e isso fortaleceu o crescente carinho que nutri por ele quando nos vimos à primeira vez.

Observei andando a minha frente, a postura altiva e aristocrática digna de um cavalheiro do período vitoriano esbanjando sua superioridade. As passadas cheias de firmeza e confiança palpável, da maneira mais elegante. Os cabelos dele perderam o brilho negro proporcionado pela tintura e retornando a sua cor natural, o incomum tom branco prateado. Percorri o espaço que nos separava e quase bati violentamente nas costas de Vergil quando ele parou, se não tivesse refreado meus pés o impacto seria certo. Minha mente registrou a ação súbita como um alerta e, instintivamente, recuei. Aparentemente ele se dispôs a me permitir andar ao lado dele tal qual se espera de um jovem casal, e via o esforço colossal que exigia a situação. Ele sustentou o contato visual comigo com visível indiferença, eu me limitei a segui-lo desejando nunca ter aceitado a proposta dele. Os anos que ficou naquele lugar sombrio lhe privou de muitas coisa, a mais essencial: a capacidade de lidar com as pessoas. Não digo que seja um troglodita, porém pode-se afirmar ser reservado demais.

— Não se iluda e nem interprete mal minhas ações; sendo mais claro, não pense que pelo fato de tê-la convidado para sair que esteja interessado em você — apontou incisivo, nem se deu ao trabalho de olhar para mim. Senti o rosto arder e o coração falhar uma batida, inúmeras formas de respondê-lo cruzaram minha mente, mas nenhuma era boa o bastante. Depois de puxar o ar com força desmedida para meus pulmões, resolvi não me importar com o comentário insensível dele. O bolo em minha garganta e o torpor gritavam por alívio, querendo se dissolver em lágrimas. Recusava-me a sequer a pensar no assunto. E se sua ideia de melhorar nosso relacionamento fosse essa, já estragou tudo logo antes de conversarmos adequadamente. Apertei o passo bloqueando com toda força que pude, quando se tem habilidades psíquicas fatores externos podem ser facilmente ignorados — ou desligados —, visto que me permite criar uma barreira para me proteger.

A temperatura estava amena e o ambiente calmo, nada ali poderia oferecer riscos então optei por baixar a guarda para apreciar o dia. Tornar as horas na companhia de Vergil o mais agradável possível, ainda que tivesse irritada. Embora tudo esse sentimento fervilhasse por dentro, não entendi a razão para ele ter nascido. De qualquer forma, não permitiria que isso estragasse meu dia.

Acomodamo-nos em uma mesa de uma cafeteira bem movimentada, as pessoas ali estavam — assim como eu, pelo menos — se distraindo da monotonia do cotidiano. Embora o meu fosse mais complicado do que das outras; enfrentar todo tipo de criatura em busca de sete artefatos nos locais mais perigosos em prol da salvação do mundo de uma entidade maligna que permaneceu selado durante muito tempo, o suficiente para que a raiva lhe moldasse e quisesse despertar nessa era. Se me contassem essa história dois anos antes, nunca em hipótese alguma, acreditaria em tal loucura e afirmaria com veemência que seria um bom enredo para um jogo — esse detalhe ainda acho que poderia ser. Atualmente tenho uma lista extensa de circunstâncias improváveis e outra mais longa de todos os seres sobrenaturais que já tive o desprazer de conhecer, inclusive Vergil também faz parte desse mundo perigoso no qual me meti — graças a poderes que possuo. Tirei da minha bolsa um caderno de desenho, um antigo companheiro de jornada. Fazia tempo que não me dava a chance de voltar aos velhos hábitos, dentre eles o de desenhar. Não acho que Vergil se incomodaria de não ser obrigado a manter um diálogo comigo enquanto me entretia com meu caderno de desenho, até por que só o fato de estar comigo já gerava um grau de desconforto. Estava tão absorvida na minha linha de raciocínio que somente com um ruidoso pigarreio da garçonete notara sua presença. Apesar de ter sido arrancada da minha tarefa, não deixei de esboçar um sorriso e pedir unicamente água.

O primeiro desenho que projetei na folha fora de uma das Chaves, mais precisamente a Excalibur que jazia segura sob meus cuidados pendurada no meu pescoço em formato de pingente. E havia no mundo que era péssima, seria em fazer figuras retas e iguais. Perguntei-me se artistas profissionais problemas desse gênero. Percebendo que não ficava do jeito que queria, rasgava a folha e deixava amassada sobre a mesa. Outras seguiram esse mesmo caminho, tornando a pilha de papéis descartados maior. Nenhuma imagem que fizesse no papel funcionava como gostaria e isso me deixava frustrada. E, movida pela vontade inconsciente de desenhar algo realmente bonito, me vi transformando Vergil em meu modelo. Naquele papel coloquei meu esforço e inspiração; o desenvolvimento da imagem de um guerreiro frio e indiferente, trajando um sobretudo azul destacando sua postura ereta e firme, me empenhei em transmitir a dureza de seu olhar através da figura. Em suas mãos carregava uma katana que nomeei como Yamato — um nome que surgiu do nada em minha mente. Sorri ao ver minha obra ficar do modo que desejava, de tão bem feita que julgava um desperdício não poder mostrar ao mundo. Continuei fazendo retoques para compor o que faltava na figura imponente do meu desenho, para finalizar ergui um pouco a cabeça para buscar traços em Vergil para dar algumas melhorias e nesse momento nossos olhares se encontram.

Não pude deixar de ofegar, seja pelo susto ou a vergonha de ter sido flagrada.

— O modelo pode ao menos ver a obra? — questionou me tirando do transe e fazendo olha-lo mortificada. Apesar do tom impessoal e a maneira que se dispôs a suavizar a tensão existente entre nós, não estava convicta se ele agia mais por pena ou se queria tornar-se mais amigável. — É justo que sendo eu o principal envolvido, tenha o direito de ver o que fizera.

— Eu... Não estou te desenhando! — respondi atrapalhada, derrubando algumas bolinhas de papel no chão. — Eu não ficaria te desenhando, por que tem outras coisas para usar como base, você não é uma exclusividade!

— Sinto que esteja me evitando, de certa forma. Peço desculpas pela minha indelicadeza e se lhe fui desagradável. E se você ainda está irritada pelo que disse antes, minha intenção não tinha sido magoa-la — admitiu inexpressivo como sempre, porém bastante sincero. Ele passou a mão pelo cabelo jogando-o para trás, um hábito que adquiriu nesse ínterim e que para mim era desnecessário, pois os cabelos dele nunca saiam do ligeira e impecavelmente espetados. — Só queria deixar clara a situação. David disse que tenho que me esforçar para ser gentil com você, e não é algo que, como já tenha percebido, fácil de fazer. Não é nada pessoal e tampouco te odeio se é isso que pensa...

— Só que você quer arrastar ninguém pelo caos que te rodeia, sente que é perigoso por um motivo que desconhece e não sabe conciliar e lidar com tudo que vem ocorrendo. Você não faz o gênero que teme algo, mas nem sabe nada sobre si mesmo e como agir. Praticamente se desconhece. — minhas palavras fluíram num ritmo melódico e como se tivesse expondo o que via na alma dele, uma certeza tão grande que consegui o feito de deixá-lo sem fala e me fitar de modo diferente. — Todos precisem alicerce para construir suas vidas e planejar o futuro, entretanto Vergil, não precisa de um passado para ter um futuro. Se não ter um passado te causa tanta confusão eu prometo, mais que tudo, que trarei de volta suas memórias! Eu garanto!

Vergil nada disse, apenas me olhou com o semblante mais suave. Eu vi, quase imperceptível, um fino sorriso se formando nele.

— Suponho que não esteja com raiva, não é?

Fiz um gesto um tanto quanto exagerado de negação.

— Então posso ver o desenho? — sua sutileza ao pedir pegou-me de surpresa que não tive como raciocinar o suficiente para formular uma desculpa para não mostrar.

— Certo, aqui está! — entreguei meio contragosto.

— Yamato...! — Vergil sussurrou em uma espécie de transe, seus olhos perderam o brilho e sua expressão tornou-se vaga. Joguei os papéis que deixara espalhado pela mesa e os que caíram no chão dentro do lixo, aproveitando esses poucos segundos para pensar em algo satisfatório para explicar a situação. Vergil parecia tão inerte em pensamentos que ignorava quaisquer estímulos externos como o barulho dos carros no trânsito, as conversas alheias ao seu redor e meu chamado para acorda-lo. Meu desenho ainda encontrava-se em suas mãos e a folha ligeiramente mais amassada.

— Ei, Vergil! — toquei a mão dele e nesse momento, igual a uma besta despertada abruptamente, pegou meu braço com uma força descomunal e levantou-se. David comentou o fato de Vergil ser um meio demônio e ter outra forma, uma mais selvagem e violenta. E além da descrição condizer com os fatos, estávamos rodeados de uma plateia de interessados com a cena se desenrolando, se Vergil chegar a mudar e permitir que sua natureza demoníaca tome posse de si será o fim. O braço enfaixado vibrou de modo suspeito enquanto, para meu desespero, elas arrebentavam. E, movida pelo medo e impulsividade, desajeitadamente o beijei, só então pude experimentar a maciez e o calor dos lábios dele e, de alguma forma, senti como se traísse alguém. Embora não tenha sido um, propriamente dito, beijo cinematográfico não deixava de ser um leve roçar dos nossos lábios. Não ousei me mover um milímetro sequer para não gerar mais percalços como já havia acontecido, e apesar disso, minha tentativa deu resultados. Vergil se acalmou e a tensão que se acumulou em seu corpo fora esvaindo, sobrando seu eu mais tranquilo e controlado. Afastei-me dele recebendo um olhar duvidoso, e tudo que pude fazer para aplacar o constrangimento foi sorrir.

Estávamos quites afinal.

***

Seguimos o passeio em silêncio sepulcral, ouvindo os sons rotineiros das ruas francesas. Não sei se ele ficou com raiva por tê-lo beijado ou simplesmente não queria conversar, Vergil sempre será um mistério indecifrável e eu ainda estava disposta a resolver isso.

Crianças passaram correndo perto de nós, de repente, senti algo transbordando em meu peito e nem compreendi. Observei-as brincando distante e imaginei como seria se tivesse filhos; vê-los crescer, ensina-los tudo que sabia e ama-lo incondicionalmente. Balancei a cabeça afugentando essas ideias malucas de maternidade que surgiram do nada, eu sou jovem demais para me preocupar com esse detalhe.

A brisa cálida trouxe vários perfumes que dançavam pelo ar, nem pude distinguir quais seriam. O sol estava a pino no céu azul celeste, sem nuvens com promessas de clima fechado. Um dia verdadeiramente agradável para passear e esquecer as preocupações inquietantes que não me permitiam minutos de paz e sossego. Queria mais que tudo desfrutar do quanto me for necessário dessa tranquilidade, até estar abastecida para rumar na busca das Chaves remanescentes. A vida que criará uma harmônica sinfonia por todos os cantos cheios de pessoas em suas atividades rotineiras, calou-se por completo ao vislumbrar uma anomalia contorcendo-se no céu, assemelhando-se a um espiral que engolia e se instalava no corrompido e doentio azul avermelhado. Ela era muito familiar para mim, idêntica os fenômenos recentes de pequenas deformações — ainda que nessas últimas semanas nada relacionado fora noticiado. No entanto, essa coisa que se formava possuía o triplo do tamanho atribuído às outras, capaz de tomar o céu inteiro. A reação geral das pessoas fora olhar para cima, examinado o que viam. Excalibur emitiu um suave ressoar querendo ganhar vida, esse era um sinal claro de que nada bom viria e que tenho que me preparar para o que quer que fosse. Vergil em atitude austera colocou-se em posição defensiva.

Desde que tudo iniciou-se, nesses meses vi minha vida correr todo tipo de perigo imaginável, e tinha consciência que significava que a morte me acompanha por onde for. E constantemente venho quebrando a cota de maneiras de morrer, como quase ser destroçada por demônios, uma experiência que nunca exibiria no currículo. O que aprendi muito bem fora o grau de periculosidade de espirais bizarros no céu, se medisse diria que algo extremamente ruim aproxima-se. Esgueirando para fora da distorção em uma velocidade surpreendente, a figura pousou no chão abrindo ali um grande rombo. O caos imperou pelas ruas, da até poucos minutos, pacíficas. Pessoas correram paralelamente em nítido, no mais cruel e exposto do termo, desespero. Gritos irromperam o ambiente, atiçando a criatura grotesca de forma perturbadora, deixando-a frenética. Ela aparentava forma humana, contudo possuía inúmeras cabeças saindo de algum ponto em suas costas e seu tamanho era o muito maior de um ser humano normal. Vergil interveio em direção ao monstro, golpeando-o desarmado e contando somente com sua força fora do convencional — ou no caso fora do normal. A criatura ficou atordoada e tentou um contra-ataque, investindo com suas múltiplas cabeças em diferentes ângulos para que não houvesse tempo de resposta, o impacto seria certeiro. Uma cortina de fumaça subiu, bloqueando meu campo de visão e obrigando-me a ficar em guarda — Excalibur já se auto ativara para me auxiliar. Do mesmo modo inesperado que surgiu, a fumaça fora dissipada por um mudança anormal de vento tal como se tivesse sido cortada ao meio.

Vergil estava imóvel, mantendo sua postura imperturbável e com duas cabeças arrancadas em ambos os lados, fincados no chão por espécies de espadas espectrais num tom azul gélido. Nada acontecera a ele, nem um arranhão. A estranha anomalia no céu estendeu-se, aumentando gradativamente de tamanho. Olhei rapidamente para à Excalibur em punhos, ciente dos poderes nela incumbidos e que era a hora de usar. Disparei com velocidade considerável, não classificaria nos termos humanos, pois corria mais rápido que uma pessoa normal poderia em muito esforço. Saltei de bancos a estátuas até pegar impulso e altura para desferir um corte naquela coisa que persistentemente crescia. Teria alcançado com excelência o auge da distorção e apagado com a Excalibur, porém algo viu uma oportunidade quando deixei um ponto cego, ainda com atenção fixa no céu. O golpe me atingira com violência e força devastadoras, que ao sentir a pressão, pensei por míseros instantes que esmagara meus órgãos e deslocado poucas vértebras. Fora rápido demais para que pudesse assimilar, somente a dor do bruto e truculento choque do meu corpo no chão me despertou. A Excalibur cairá para longe e não poderia alcança-la, eu pude vê-la encravada no chão de pedras daquela praça a uma distância razoável.

Ignorando a fraqueza da carne e falta de fôlego, virei meu corpo no intuito de levantar. Meus joelhos já não suportam e minha coluna não me sustentava mais, ainda projetei meu corpo num impulso fracassado para ergue-se. Tudo que meu corpo se submetia a fazer, lenta e dolorosamente, era mudar de posição no chão. Sofregamente mais uma vez, sabendo que seria uma ação inútil, faço um esforço monstruoso para levantar. Uma estaca impediu que prosseguisse, cravando-se no meu estômago e outras se juntaram a essa, fincando-se em minhas coxas, braços e ombros. Nem pude lamentar a dor no estômago quando novas dores me atingiram em cheio. Pateticamente imobilizada e sentindo o corpo todo pulsar dolorosamente, sabia que aquilo não era fatal, porém não deixava de ser terrível por me deixar desprotegida. Ouvi passo pesados se aproximarem de mim, estava bem consciente do perigo em que me encontrava e vasculhei todas as reservas de planos para me livrar da morte certa.

Uma rajada de vento impetuosa avançou sobre mim, e, de repente, as estacas não mais estavam me prendendo. Todas de desfizeram pela imensa energia. Depositei a mão sobre a ferida mais grave, tentando estancar a hemorragia enquanto o sangue manchava minha camiseta, encharcando-a. A sombra elevou-se imponente e sombria como a encarnação do poder, sobrepujando meu corpo e em seu braço direito empunhando a... Excalibur.

A energia massiva que emanava da espada conectava-se a aura azul do portador, retumbando um intenso poder pelo ar. Nunca tinha testemunhado tamanha força e tampouco, quando a própria Excalibur me elegera, realizei tal proeza com ela. Com dificuldade por conta dos múltiplos ferimentos, sentei-me para ver mais adequadamente a cena no qual não tinha palavras para descrever.

Finalmente a Excalibur aceitara Vergil como seu legitimo portador.