Between Dimensions
11 Shakespearean Tragedy!
Que abra-se as cortinas para o reencontro infernal, esta noite promete ser a mais violenta e perturbadora possível. Uma digna tragédia shakespeariana. Quanto a mim é claro, resta o papel de espectadora. Sou nada mais que um mero impasse nessa reunião sombria, refém do acaso, cuja certeza inegável de que havia uma antiga história de ódio e poder existente entre ambos.
Eu tinha uma meta pré-estabelecida que, entre outras ainda a serem incluídas, me trouxera aquele espetáculo justamente nessa fatídica noite. Agora, no entanto, tudo parece ter sido armado pelo destino deveras traiçoeiro. Um jogo que ganhará outra peça cuja importância era duvidosa. A luz ofuscante proveniente da iluminação do palco trazia um aspecto encantador a figura masculina, e percebendo que minha atenção focalizava exclusivamente em si, ele sorriu. O calor fluente daquele gesto me tirou a concentração, exercendo uma poderosa influência sob mim. E a prova concreta estampava as feições dele, orgulhosamente deliciando-se com minha reação. E, quase imediatamente, ecos de uma raiva sem sentido martelavam em minha mente. Ela era nítida, palpável e entorpecente. Embora lutasse contra esse sentimento sorrateiro que, para mim não tinha motivo tampouco coerência para pressionar meu cérebro, voltava mais potente e atordoava-me pela brusquidão. Fui obrigada a repelir a fúria que insistia em crescer, mas não poderia dar ao luxo de esquecer o que realmente é essencial, ainda que minha mente estivesse atordoada demais para pôr em ordem o incidente.
De certa forma, suspeitara que os caminhos se cruzariam desde que soube da existência do gêmeo de Vergil, porém nunca que fosse tão breve e em um circunstância nada agradável para nenhum dos envolvidos. Estava convencida de que meu pressentimento não tinha fundamento, vejo que não me enganara. Eu sentia-me estranha, pois atrás de mim uma voraz criatura contorcendo-se para buscar uma vítima, ao meu lado Vergil imóvel e a diante de nós a cópia exata dele. A falta de ação de Vergil deixou-me severamente preocupada, essa atitude é pouco natural vindo dele. Outra onda de raiva arrebatou-me, e pude me dar conta que aquilo não surgia de mim, mas de Vergil. A fúria dele era tanta que eu poderia senti-la como se fosse originaria de mim, também degustá-la em sua plenitude, e o transtorno de não completamente entender a natureza de tal mágoa. Nesses conflitos internos, tive certeza que, de fato, não era ódio que ele sentia. Perturbação sobre as palavras de David, talvez. Afinal, os anos que esteve naquele lugar terrível teriam sido graças ao irmão. Puxei-me para minha própria mente, perguntava-me se as habilidades telepáticas conferiam esse tipo de contato com as mentes próximas, um poder que excede a fronteira da privacidade. Eu precisava aprender muito e nem teria quem se dispusesse a auxiliar-me.
O corpo maior que sofreu uma mutação devidos aos danos infligidos, transformou-se numa forma bizarra de vários tentáculos ladeados por incontáveis dentes curvados mais pontiagudos que os anteriores e predispostos a massacrar qualquer ser vivo. A impressão que tive ao presenciar a mutação era de que a criatura possuía inteligência para concluir que com um novo aliado, consequentemente, um novo risco e sua opção segura seria a evolução. As balas de pistola já não surtiam mais o efeito desejado, pois a superfície da criatura era uma couraça extremamente resistente. Ainda assim, descarreguei um pente inteiro de balas nele alimentando a esperança de estilhaçar essa camada protetora. O irmão de Vergil sacou duas pistolas e disparou sem pudor fazendo o que não pude, rompendo a áspera barreira da pele do monstro agonizante. Protegi meu rosto para impedir que o sangue e restos respingassem em mim, pelo que escutei entre intermináveis e ensurdecedores barulhos de tiro atingindo algo sólido; a criatura urrou até que em meio a frenéticos espasmos morreu.
Olhei enjoada para o cadáver deformado caído aos meus pés, mal identificava se aquilo já fora uma criatura viva. O odor poroso invadiu minhas narinas, e meu estômago ameaçava despejar o que tinha dentro, para piorar minha cabeça doía horrores. O gêmeo sustentava um legítimo sorriso de escárnio, embora visse uma leve confusão naqueles olhos azuis tão belos. Notei as diferenças significativas em ambos: ele trajava um sobretudo vermelho, seus cabelos poucos centímetros mais cumpridos que o de Vergil e mantinha-os livres para emoldurar seu rosto, seu desleixo era visível ao ver a barba mal feita. E da mesma maneira que me atraía a Vergil, algo também — ou mais — me ligava a esse. Alguma parte racional deixava implícito que o magnetismo presente era puramente pela semelhança.
Eles se fitavam fixamente, como se estivessem se reconhecendo após um longo tempo. A cena me trazia uma sensação de dejá vu.
A pressão no ar aumentou pulsante e fria. Controlava minha respiração para não sufocar perante tamanho poder pairando no ambiente, tornando-o rarefeito. Meu coração batia descompassado e os pulmões ardiam pelo simples exercício de inspirar e expirar, tal qual escalar uma montanha na máxima velocidade que era permitido para chegar no pico mais alto, onde a atmosfera não era suportável. O adversário em comum não existia mais, então se tivesse algo para ser resolvido, preveria que seria entre os dois. O silêncio instalou-se rápido e enigmático enquanto eu tentava acompanhar os fatos; emergindo de Vergil uma densa e agressiva aura azul, cobrindo-o. Em resposta a hostilidade, a aura vermelha fervorosa ascendeu-se. As duas energias opostas geraram um perigoso atrito, a rivalidade tangível. Observei-os por alguns minutos sem me mexer, buscando uma razão lógica para isso: a iminente disputa, que se limitava em mútua troca de olhares. Havia duas forças esmagadoras prestes a colidirem, e eu me encontrava no centro dessa disputa.
— O que vai ser irmão? Não mereço nem um abraço? — ironizou petulante. A katana de Vergil riscou no chão, sua lâmina afiada tremeluziu.
— Vergil, não o leve sério! — pedi, ignorando a massa repulsiva sob meus pés e andando para junto de Vergil. Toquei a mão que segurava firmemente o cabo da arma, os dedos seriam capazes de esmagá-lo pela enorme compressão que fazia.
— Talvez ficasse mais interessante se colocar um objeto valioso em jogo — disse indolente, revelando o delicado artefato com o desenho da ave mitológica Fênix. — É isso que procuram, não é?
Engoli em seco.
— Diva saia daqui — Vergil proferiu imperativo, seus olhos adquirindo um brilho motivador. — A reunião familiar pode ficar agitada — ele olhou de soslaio para mim, sua expressão dura e impassível — Se ficar poderá se ferir. É ideal que não esteja aqui, para sua segurança.
— Tudo bem, eu não poderia ajudar muito — assenti apreensiva e melancólica, suspirei profundamente. — Se cuide, por favor!
— Não tem por que se preocupar, vou ficar bem. Agora vá!
Não queria discutir sobre o assunto, até por que sendo a única família de Vergil, o correto é que o próprio resolva a situação da melhor maneira. Entretanto, para atravessar o corredor do hall para sair do local teria que, obrigatoriamente, passar pelo homem. O jeito é arriscar. Impulsionei minhas pernas para acelerar os passos, crente que minha empreitada teria sucesso.
— Onde pensa que vai, doçura? — ele agarrou meu braço, forçando-me a encará-lo. O sorriso pretensioso e descarado desenhado em seu semblante. A proximidade agitou-me por dentro, uma avalanche desmoronou em meu estômago enquanto o ar começou a ficar escasso ao meu redor. Uma voz soou em minha mente, repetindo dezenas de vezes que perigo implicava estar tão arriscadamente perto demais dele. Contudo, ela o chamava: clamor de dor, carinho e inegável atração que espancara minha mente. Dante, a voz sussurrou, esse é o nome dele. — Você é a convidada de honra, não é certo sair antes do evento principal!
— Me larga! — vociferei aturdida, tentando desvencilhar do aperto dele. Aconteceu tão rápido que mal tive tempo para raciocinar. A descarga de adrenalina deu coragem para desferir um tapa certeiro nele, o golpe forte o fez virar o rosto. O sorriso não sumira, pelo contrário, ampliou-se. Temi que tivesse atiçado algo nele que o irritasse, principalmente por ter o esbofeteado e revidasse. Estava aterrorizada demais para sequer respirar, temendo que se um único som escapasse dos meus lábios ele me atacasse em retaliação. No entanto, não queria demonstrar que sua presença me causasse tormento. Meus músculos congelaram de pavor, e friamente o olhava audaciosa.
— Não é como se não esperasse por isso, apanho de mulheres com mais frequência do que imagina. — esclareceu, esfregando a bochecha atingida com a não livre. Dante estrategicamente girou-me para frente, a vertigem desestabilizou meu equilíbrio e se não tivesse pondo firmeza em minhas pernas teria, praticamente, despencado no tapete vermelho. Vergil via a cena distante, os olhos semicerrados e escuros como de um felino. Desajeitadamente, recuei alguns passos, ciente de que se refizesse todo o processo para passar por Dante, ele iria interferir. Sua postura indicava que era um homem de ações drásticas, exatamente como acabara de agir comigo, sem rodeios. O atrevimento dele produziu em mim uma mistura de medo e respeito rancoroso, algo que definitivamente não compreendia.
— Pensando melhor no assunto, tenho uma proposta que pode ser satisfatória para todos — incitou, claramente divertindo-se da nossa defensiva. — Negócios de família, irmão. Como nos velhos tempos.
— Faça sua proposta, irmão. — a última palavra saiu arrastada e falsamente natural, forçada. Vergil, aparentemente, estava desacreditado.
— Primeiro me explique um detalhe, importante, devo dizer. — Dante cruzou os braços, o sorriso desapareceu dando lugar a uma expressão séria que não combinava com a personalidade dele. — Como está vivo? Depois de anos, por que agora?
— Não sei a razão disso tampouco me importa, mas nada seria possível sem a interferência dela — meneou a cabeça, desdenhosamente para mim. — Essa garota me trouxe de volta.
Dante fitou-me, um sorriso quase imperceptível formando-se em seus lábios.
— Eu deveria saber que tinha mão sua nisso, doçura.
— Pare de me chamar assim! — esbravejei nervosa. — Diga o que quer! Não estou com humor tolerante para provocações!
Ele ergueu as mãos em falsa rendição.
— Então vou direto ao ponto: eu posso dar essa coisa — jogou o brasão para o alto e pegou em pleno voo — e em troca você vir comigo.
— E se não aceitar? — Vergil interveio, crispando os lábios em desprezo. — Levando em consideração que não ganhará nada com a garota.
— Ah, isso é uma negativa? — Dante riu, visivelmente jogando conosco. — Creio que somos rivais nisso também?
— Não seja ridículo, há coisas mais importantes que seus instintos primitivos, Dante. — por alguns segundos, Vergil surpreendeu-se ao relembrar o nome do irmão. — Isso é entre nós dois.
— Ora irmão, nada melhor que um belo trunfo. Se vamos lutar novamente que dessa vez tenha algo para ser disputado.
— Seu cretino! — urrei, partindo para cima de Dante. — O que quer com esses joguinhos? Não sou um brinquedo no qual possa usar como bem entender!
O riso forjado transformou-se em dura expressão de repreensão.
— Não estou aqui para jogar, vocês estão começando uma bagunça que terei de resolver. Se, como no passado, tiver que pará-lo por meio de um combate, Vergil, que seja. — muniu-se a pesada espada que carregava nas costas, ostentando sua praticidade. Dante delicadamente empurrou-me para fora de seu caminho, olhando para Vergil com a mesma frieza lançada a ele. — As circunstâncias nunca mudaram, estamos destinados a lutar sempre.
Dante marchou para o amplo palco, as luzes o seguiam como se ele fosse parte do elenco principal. O choque das duas forças tornou o ar mais pesado, frio e inóspito. Os dois irmãos prestes a travar um combate mortal. Aquilo só me confirmou que estavam dispostos a realmente brigar, embora Dante se mostrasse mais langoroso a possibilidade de um confronto, Vergil também hesitava, mas seus orgulhos nunca se permitiriam ceder. Eu não entendia que sendo irmãos pudessem querer tanto a destruição um do outro, a rixa existente parecia um prazer compartilhado, ainda que após o ocorrido de hoje tenham visto que as coisas não deveriam ter chegado a esse ponto tão extremo. Havia relutância envolvida, embora não fosse uma justificativa poderosa o bastante para pará-los. Quando as lâminas se riscaram, meus olhos não conseguiram captar movimentos com tamanha velocidade, a pressão repeliu o que estava em volta. A capacidade dos dois e a descarga de poderes seriam potentes para devastar Carnegie Hall, se prosseguirem nessa insanidade comparada aos estragos que seriam capazes aqui, devastaria Manhattan inteira. E eu não poderia deixar que, além de se matarem, destruam a cidade e machuquem pessoas inocentes.
— Os anos não te fizeram bem, Vergil — Dante declarou em deboche, afastando-se do adversário.
— Não estamos brincando, então não há razão para nos conter. — Vergil enunciou estoicamente, avaliando a lâmina da katana.
— Parece que finalmente estamos de acordo com algo. Não leve para o lado pessoal, irmão.
Tudo que fiz fora tentar, inutilmente, proteger-me usando meus braços para criar um escudo. As rajadas de vento ocasionadas pelo impacto jogaram os instrumentos e parte do que instalaram no palco em várias direções, quebrando-as. Os assentos mais próximos sucumbiram, sobrando somente destroços, pedaços de madeira e concreto que voavam e choviam pelo ar. O majestoso hall de concerto pareceu chacoalhar, eu ainda tive tempo de me preparar psicologicamente antes de cair no chão. A tremenda dor atingiu meu ombro no qual depositei meu peso na queda. A dor fora súbita, terrível e paralisante. Algo muito mais forte que uma contusão no osso da região do ombro, era como se tivesse quebrado costelas também. Entretanto não desmaiei, ainda que a dor fosse insuportável. Não podia me dar esse luxo. Com um pouco de esforço e ignorando o pulsar nas costelas, engatinhei para me colocar de joelhos, meus músculos doloridos e rígidos e utilizando um braço para sustentar meu peso, olhei para o palco — ou que restou dele —, mas não acreditava no que via: inacreditavelmente a aparência de Dante e Vergil estavam completamente diferentes, não classificaria o que se tornaram como "humanos". Nem encontrava palavras que os descrevessem adequadamente. Eles detinham as lâminas das espadas com as mãos, formando uma resistência de forças e o impasse.
— Parem... — não havia sido um grito exasperado como gostaria, e sim um fraco engasgado choramingo de uma mulher debilitada. — Parem... Parem...
A dormência atenuou-se lentamente, e para compensar o alívio pensamentos de receio jorravam em minha mente, pois me sentia responsável pelo rumo que as coisas tomaram. Balancei minha cabeça, precisava achar um jeito de cessar esse confronto que caminhava pela inevitável destruição conjunta.
— Parem! — gritei a plenos pulmões, a explosão de calor veio do centro do meu corpo e espalhou-se por cada nervo, fluindo ardente e prazeroso. Minha mão estendida emitia o brilho dourado de antes, porém mais resplandecente. Duas correntes originárias do poder dourado prenderam-se nas mãos dos dois homens, que imediatamente voltaram suas atenções a mim.
— O que estão fazendo... Terá sérias consequências! Há pessoas que poderiam se machucar!
Eu sabia que meu corpo já evidenciava sinais iniciais de uma fraqueza inexplicável, mal aguentava manter esse poder no auge, mas minha motivação me conduzia a suportar um pouco mais, perseverando na fé de tê-los impedido. Uma crise de tosse seca se iniciou e não conseguia acreditar como, de alguém que tinha uma condição de saúde e fora ter se machucado, estar tossindo loucamente. Eram dores demais para assimilar: minha cabeça latejava incessantemente, meu corpo rígido e débil e meus pulmões que ardiam. Sufoquei-as, mordendo o lábio inferior. O gosto de ferrugem na boca despertou a ânsia de vômito. Dante fora o primeiro a fazer menção para vir a meu socorro, porém Vergil o conteve travando seu caminho com a katana. Eu teria rido se não estivesse tão péssima.
— Até o momento que nos encontrarmos novamente, isso ficara comigo. — Dante anunciou tenso segurando o artefato, visivelmente preocupado. Em seguida, saltou elegantemente para o andar superior. Era estranho identificar tal sentimento em um homem que nem conheço, e no fundo queria vê-lo outra vez, não somente para pegar a Chave, mas por me sentir tão fascinada. E estava com raiva, uma mistura complexa e insana.
Vergil que retornou a sua aparência humana me amparou.
— Droga! Perdemos a segunda Chave! — reclamei sôfrega, forçando meu peito a parar de tossir.
— Teremos mais chances da próxima, Diva.
— Uma calorosa reunião de família, não é? — brinquei, limpando o rastro de sangue que escorria pela minha boca.
E, pela primeira vez, vi um sorriso torto iluminando suas feições.
***
Sinceramente não estava pronta para o fracasso dessa missão. E não estou confiante em partir em outra.
David não disse nada a respeito do ocorrido enquanto explicava a localização da terceira Chave. Ele tinha uma confiança absurda no nosso desempenho, embora não tivéssemos obtido sucesso. Eu agradecia sua compreensão, até por que não estava com humor para discutir. Desde o incidente em Manhattan, evito comentar algo relacionado a Vergil. Não o questionei sobre nada — mesmo com a curiosidade a flor da pele —, por que sei que ele também precisava de espaço para digerir. Os dois dias que se passaram foram empregados somente para debater com a equipe de David e arrumar nossos novos pertences. Aproveitei esses dias de calmaria para testar minhas habilidades e confirmei minha teoria de que as dores e tudo que se engloba são derivadas ao uso deles, era como se estivesse “selada” e não poderia ultrapassar as restrições dessa regra. Deve ser o preço para tê-los em posse e não me custava em pagar — apesar dos efeitos colaterais, parecem que vai me matar.
Eu ainda pensava no encontro com Dante, ele deu a entender que me conhecia e isso me intrigava. Haverá próximos tenho certeza, e estarei preparada para ele. Por enquanto terei que limpar minha mente, para só depois avaliar o caso.
Até momento teria que focar unicamente em caçar a terceira Chave, de todas, ela é a essencial e a mais poderosa.
A lendária Excalibur.
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