Between Dimensions
60 Epilogue: A New Tomorrow!
O letreiro em neon destacava-se na noite barulhenta com agitada movimentação. Pessoas iam e vinham desfrutando dos prazeres que somente após o pôr do sol podiam saciar, sem pudores: bares funcionando com a clientela ávida servindo-se alegremente de todo tipo de bebida de teor alcoólico, ocasionalmente ocorrendo discussões por algum desentendimento com algum bêbado arruaceiro. As boates, com letreiros ainda mais chamativos e coloridos em fluorescência, acaloradas com o fluxo contínuo de pessoas aproveitando a música e o ambiente cheio de corpos suados dançando, show de luzes e fumaça adocicada. Não era comum ter tanto burburinho do lado de fora em um dia de semana, mas não perderia tempo tentando buscar uma explicação para elas.
Sem chamadas com incidências ligadas a demônios que geralmente tinham um número razoável em determinados horários — ainda que não fosse uma estatística estável — como agora, onde a escuridão da noite providenciava um disfarce natural, particularmente tornava a agência silenciosa bastante monótona. Desde que estava no ramo, um dos que as pessoas classificavam como loucos e corajosos para executar o trabalho, sabia mais ou menos como tudo funcionava e ultimamente tem sido difícil.
Contudo, havia manchetes e várias informações em noticiários sobre criaturas assassinas que se alimentavam de sangue e vísceras, mutilavam os corpos das vítimas de modo que ninguém mais os reconhecia — nem a perícia tinha identificado —, provavelmente uma legião de demônios atuando separadamente para não atrair atenção indesejada. As distorções não eram mais citadas, como se nunca tivessem existido. Diva conseguiu apagar qualquer rastro do caos de dois meses atrás, além de consertar as fissuras no espaço e no véu dimensional danificado, fez com que todos sequer lembrassem o que realmente aconteceu, parecia mais que o mundo voltara aos eixos. Justificava o fato de não ter sido mencionado em nenhum jornal também. Como resultado dessa ousada empreitada, a garota hibernou um mês inteiro, recuperando-se dos ferimentos e do cansaço físico e mental. Ele a acompanhou durante esses dias que esteve adormecida, aguardando pacientemente que despertasse. Talvez esse estado fosse natural para seres como ela, um processo de restabelecimento. Nunca desvendaria esse mistério, principalmente por não conter em nenhum lugar muitos dados a respeito do clã dela.
Passado o curto período de hibernação, Diva não recordava de absolutamente nada depois de ter encontrado com o irmão. Nem mesmo sobre o incrível Poder que ultrapassava as leis da restauração e habilidades de cura que a obrigou a cair em um sono profundo. A primeira coisa que fez ao recobrar a consciência, algo que involuntariamente impulsionou Dante a massagear a bochecha com a lembrança da dor, fora dar um soco duro nele. A força empregada nele tinha sido o suficiente para nocautear um humano com um único golpe, mas como Dante não se enquadrava como um, no máximo tirou um pouco de sangue. A garota não estava simplesmente irritada, e sim furiosa — ainda achava eufemismo o termo tão fraco como aquele, mas não pensou em outro que se adequaria com a situação. Não tiraria a razão dela para querer bater não somente nele como em quase todos os presentes no dia.
Antes de retornarem a essa dimensão, Diva pediu para que mantivessem a guarda e relatar assim que possível qualquer coisa que descobrissem sobre Sebastian. Em dois meses não havia nada, nem reportagens, nem intermediários que pudessem se encarregar de conseguir informações. A conclusão que chegou era de que eles agiriam em segredo e sem pistas, andariam as cegas. Diva, por outro lado, optou permanecer no mundo dela enquanto acalmava os ânimos, resolvendo se deveria ou não contar aos pais a verdade certificando-se de que ficassem cientes do que o futuro reservava. Não ficou tempo o bastante para descobrir se ela tivera êxito no assunto, pois quase foram enxotados com a alegação de que ela arrebentaria a cara deles se ficassem — uma prova irrefutável da ira bem fundada. Os anos, contudo, beneficiaram Dante para que enxergasse por trás da fachada de durona e mandona que ela formou para si. Ele viu o quão apavorada estava e que o receio de deixar de ser ela mesma com tantas revelações a atormentavam, no fim das contas Diva tem estado fragilizada. Não a condenaria por se sentir perdida e deslocada. Garantiu que caso ela perdesse o juízo iria tratar disso e trazê-la a razão, lançando a luz da racionalidade nela. Acima de tudo faria o possível para impedir que ela carregasse todo o peso da responsabilidade sozinha. Se a tal Guerra Santa é inevitável que Diva viesse a se expor em uma batalha que consequentemente reduziria a humanidade à zero, embarcaria junto com ela.
Vergil assumiu a postura compenetrada, exalando frieza glacial.
— Tem certeza? — Dante inquiriu pela milésima vez.
— Tenho. Absoluta. — Vergil contestou, crispando os lábios visivelmente impaciente com a insistência.
Dante suspirou.
No momento, seu maior desafio era convencer Vergil a morar ali, mesmo que seja temporariamente. O gêmeo mais velho possuía um gênio difícil de lidar, tampouco de persuadir, então seus planos de querer fazê-lo mudar de ideia falharam miseravelmente. Diferente de si, o irmão não pretendia desenvolver o contato interrompido, tentar recriar uma afeição familiar perdida. Para Vergil, seu repertório repetitivo soava mais enjoativo aos ouvidos que substituiu as frases carregadas de fraternidade reprimida por questões mais sérias, como trabalharem juntos. Viverem como Devil Hunter. Vergil negou a proposta, mas aceitou a moradia por não ter outro lugar para onde ir. Dante levou esse pequeno avanço como uma vitória, quem sabe com a convivência influenciaria as escolhas do mestiço mais velho. Por hora aceitaria de bom grado, recepcionando-o com cortesia.
— Será como nos velhos tempos.
A impressão inicial de quando Vergil olhou o letreiro irritantemente brilhante — com escárnio amargo em “Devil May Cry” —, pensou na futilidade do irmão ao nomear sua agência, loja, ou seja lá o que era. De certa forma, ele nunca teve um senso de orientação bom muito menos para tomar as próprias decisões.
O som ruidoso emitido pelas dobradiças da porta ao ser aberta ecoou pelo espaço. Gael entrou sem cerimônia atravessando a entrada e com sua usual apatia, um traço de personalidade que não pertencia nem a ele nem a Diva — apesar de afirmar que ela tinha mudado muito nesse ínterim —, mas seria facilmente atribuído a Vergil, encurtou a distância entre eles. Seu semblante suavizou a medida que se aproximava, até não sobrar nenhum resquício de insensibilidade. Gael estudou Dante e lentamente focou em Vergil, ele inclinou o corpo ligeiramente para frente em um gesto mudo de reverência diante do seu mentor. Dante percebeu o significado daquilo, embora nunca admitiria em voz alta não gostou muito da afinidade de Gael direcionada ao irmão mais velho que não o incluía — nesse estreito circulo de conexões familiares.
— Bem vindo de volta garoto — Dante declarou, Gael apenas assentiu. Durante os dias que estiveram cada um por conta própria com seus problemas para solucionar — que diretamente não os envolvia necessariamente —, o garoto aproveitou para alterar uma das características de todo descendente de Sparda: o cabelo prateado. Os sedosos fios estavam tingidos de uma tonalidade de castanho mais claro que os de Diva, dando um aspecto mais de ruivo natural que o objetivo original que era ser moreno. Isso acentuava suas feições pálidas e definidas enquanto o cabelo caia descuidadamente pela testa. — Mudou o visual?
— Aquela cor chamava muito atenção. — escovou os cabelos para trás imitando Vergil. — Mas também não estou acostumado que mexam no meu cabelo, quem geralmente fazia era minha mãe ou a Trish ocasionalmente. Por isso meu senso de estética não é muito afiado. — Gael relembrou a cena estranha que se viu preso. — Lyana me apresentou uma cabeleireira que ficou tão impressionada com a cor prateada natural que fez umas perguntas bem... Peculiares. Uma delas foi se os pelos do resto do meu corpo também possuíam a mesma tonalidade.
Dante riu.
— Ainda bem que no futuro não tenho esse problema — Gael deu de ombros. — Logo essa cor sai e volto ao normal.
— Conseguiu? — Dante questionou, a expressão de Gael endureceu minimamente.
— Sim. Todo esforço valeu a pena. — mostrou um tipo de bússola serviria para armazenar os fragmentos das memórias da mãe de Gael, projetando-se acima dela uma rosa branca completa com todas as pétalas em perfeitas condições — a materialização física das memórias dela. Gael não contou detalhes mais relevantes da missão que o ocupou nesses anos no “passado”, explicou superficialmente suas motivações e aparente melancolia da sua tragédia pessoal com a mãe fragmentada e uma das irmãs perdida.
— Estou mais tranquilo quanto ao meu retorno. — fechou o mecanismo do artefato com um sorriso secreto.
— E sua mãe?
— Na mesma. Não fala. Não faz nada sozinha. Ela é um bebê que precisa reaprender tudo, ao menos com as memórias de volta, ela recuperara a própria consciência. O retorno do mundo dos mortos quase lhe roubou toda sua essência. — capturou uma fugaz imagem da jovem mulher com a mente de criança que outrora tinha sido sua amada mãe.
Tocar no assunto machucava o garoto, Dante não podia ser indiferente ao sofrimento dele e com cautela arquitetada iniciou um nova conversa.
— Você esteve desaparecido. Sua ajuda teria feito a diferença para salvar a Diva, talvez — brincou. Gael arqueou uma sobrancelha em descaso.
— Eu sou uma incógnita no espaço-tempo. Em outras palavras, um viajante do tempo. Não posso me envolver diretamente em nenhum evento no passado. Isso causaria uma alteração no futuro, inclusive apagar minha existência. Existem as leis da física aplicada para sustentar esse fato: Teoria do Caos, paradoxo temporal. — esclareceu com desdém, seu tom cortante. Então, seus olhos adquiriram um brilho divertido e ele ergueu os braços em falsa rendição. — Mas nada me impede de auxiliar nem que seja um pouco. Afinal, quem vocês acham que facilitou o acesso ao jornalista? Ou informou a Trish e Lady onde deveriam ir?
— Você é traiçoeiro garoto.
— Sou prático e estratégico. — emendou cético. — Coisas que certamente não fazem parte do seu vocabulário, Dante.
A resposta incisiva não era novidade vinda do rapaz, já se acostumara a relação meio hostil dele. Gael podia manter uma máscara de gentileza com todos, menos quando se tratava de Dante. Eles pareciam nutrir um afeto singular e provocativo um para com o outro, também nunca ouviu uma vez sequer Gael chamá-lo de pai. Uma decorrência do afastamento afetivo deles.
— Eu preciso voltar. — dito isso, estendeu a mão desenhando no ar um portal, uma abertura no continuum espaço-tempo, normalmente associada a filmes e livros de ficção científica. — Ah, antes de ir... Aconselho a deixar a porta aberta — Dante franziu a testa intrigado com o conselho. — Nos vemos em breve. Muito em breve... Pai.
Mortificado, tudo que Dante conseguiu fazer fora acenar vendo o jovem desaparecer no portal azul-safira.
— Pai, huh? Não foi tão ruim assim — Dante analisou exultante. — Em breve...?
Irrompendo pela porta dupla, derrubando-a com o impacto abrupto, em alta velocidade uma moto desgovernada — que quebrou a linha de pensamentos de Dante — invadiu o escritório. O rugido ensandecido do motor sendo alimentado pelo fervor impaciente do condutor, foi se aquietado. O ar era preenchido pelo odor picante e agridoce do combustível e de borracha e madeira queimada, resultado da freada repentina e, ironicamente, habilidosa que guiou o compacto veículo para perto da mesa de Dante. O motoqueiro estacionou ali com tranquilidade que presumia não se sentir intimidado no local, como um velho conhecido. Pela maneira que a roupa justa com cores específicas de branco — mais escuro, quase cinza — e o dourado acobreado se adaptavam as curvas femininas com sensualidade identificou de imediato quem seria a convidada. Vergil também não esboçou surpresa ao vê-la. Ela concentrou-se em uma demorada inspeção emitindo um bufar abafado pelo capacete. Seus dedos deslizaram pela superfície da mesa removendo uma quantidade de poeira que a obrigou a bater as mãos enluvadas.
— Essa espelunca não mudou muito. — observou com sutil desagrado. — E você não fez o mínimo esforço para manter esse lugar em ordem, não é, Dante?
— Eu fiz o que posso — rebateu rindo.
— Nada você quer dizer. É um belo de um retrocesso. — ela retirou o capacete, balançando a cabeça. Os longos cabelos castanhos caíram em ondas livres pelas costas dela, Diva ajeitou algumas mechas rebeldes que emolduravam seu rosto e soprou alguns dos fios selvagens caiam em seus olhos. Seus momentos eram graciosos e lívidos.
— É bom estar de volta. Senti falta desse lugar. Só não posso dizer que senti falta da bagunça.
Dante levantou, contornando a mesa.
— Essa é a sua casa — disse e um sorriso iluminou as delicadas feições de Diva.
— É um bom começo. Agora somos um trio? — Diva lançou a Vergil um olhar brincalhão quase sedutor.
— Não confunda as coisas — Vergil cruzou os braços. — Não estou trabalhando com ele.
— Eu estou tentando mostrar ao meu irmão as vantagens de ter uma parceria comigo. — Dante repousou um braço nos ombros de Vergil descaradamente.
— E tem alguma vanta... — a frase morreu na boca dela, um violento desdobramento de ar explodiu as vidraças das janelas. Pedaços de vidro forraram o chão e o cheiro de carne queimada invadiu suas narinas. Ela olhou por cima dos ombros a absurda quantidade de demônios concentradas em todas as aberturas forjadas pela explosão. Com Devil May Cry destruída pela... Milésima vez?
— Temos um pouco de diversão — Dante afirmou em deleite. — O que acham de estendermos a eles o tapete de boas-vindas?
Diva sorriu contagiada. Vergil deu muxoxo, mas não evitou sentir-se motivado a lutar. Os três tomaram a frente, prontos para rematar o trabalho.
— Esse é o final, acho que já pode rolar os créditos.
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