Between Dimensions

55 Artificial Dream!


De súbito, ao adentrem a passagem fosforescente, um jardim vasto materializou-se. Prontamente foram recepcionados pelas diferentes fragrâncias das flores silvestres levadas pela cálida brisa sussurrante que os envolvera, acolhendo-os na beleza delicada que apelava aos sentidos místicos e elementares. Não havia nuvens no azul celeste impecável do céu matutino acima deles. O sol fornecia uma iluminação sutilmente alaranjada suave e agradável, descansando na magnífica paisagem e dando-lhes uma resplandecência sobrenatural. Um pouco mais a frente estendia-se um lago de águas puras e cristalinas, como um espelho líquido brilhando em tons esverdeados iguais a preciosas e incontáveis esmeraldas que flutuavam na superfície, de maneira que causava um efeito mágico nele. Pequenas plantas e flores de todas as cores e espécies identificáveis circundavam o terreno, cobrindo-o com uma vivacidade inexplicavelmente poderosa.

Tudo ali transmitia serenidade, um ambiente pacífico que aparentemente era o único local no qual a luz não desaparecera e que conservava o seu fulgor intenso e afetuoso. A escuridão não o profanou com sua presença leviana.

Dante buscou avidamente pela fonte da melódica voz que, surpreendida pela presença, questionou-os de imediato. Avistou a alguns metros, em uma distância razoavelmente segura, uma luz dourada amorfa. Julgando-a pelo modo que vibrava pareceu estar muito ansiosa por uma resposta coerente. Analisou a reluzente indistinta massa banhada em ouro, procurando algo que pudesse identificá-la. A aura que manava era graciosa, contida e bastante familiar. Uma característica pertencente exclusivamente a uma pessoa. Dante andou despreocupadamente para perto do contorno nebuloso feito aquarela fluída, esticando os braços para alcançá-la e trazê-la para seus braços. Tateou o ar sentindo a mudança, a luz dourada retornando a sua forma original, atribuindo um aspecto mais humano e silhueta feminina mais firme ao toque. Facilmente a reconheceria em qualquer lugar, em qualquer tempo, independente da dimensão. Os cabelos castanhos longos dançavam conforme a oscilação do vento, exatamente como se lembrava da última vez que a vira. Seus olhos permaneceram fechados durante todo o processo, concentrada na transição e vagamente adormecida. Ela puxou o ar timidamente, enchendo os pulmões e inspirando o perfume primaveril. Repousou as mãos nos ombros de Dante, apertando o tecido do sobretudo para poder estabilizar-se corretamente, projetando seu corpo para frente o suficiente para as contínuas ondas de chocolate derretido caísse sobre seu rosto.

O mestiço a segurava como se fosse uma criança, suas pernas na altura do peito dele, um dos braços serpenteando seu quadril e o outro suas coxas. Ela estava consciente do contato e do calor, porém manteve-se imóvel absorvendo o ocorrido com calma. Seus pensamentos apreensivos incitando memórias; em algum momento pensou estar mergulhada nas trevas, flutuando em um limbo espiritual e com o que lhe restara de poder montou esse lugar intocado pelas trevas. E eles o acharam e vieram ao seu encontro. Diva lentamente abriu os olhos, piscando inúmeras vezes para afugentar a névoa que embaçava seu campo de visão e focalizando-os em Dante que a aconchegava junto a si. Ele encarava com um sorriso contagiante e satisfeito, querendo monopolizar sua atenção por completo, algo que fazia com muita frequência no passado.

— Vejam só o que peguei — exclamou genuinamente exultante. — Quem diria que aquela luz toda seria justamente você, doçura.

Trêmula tracejou a bochecha dele, sentindo sob seus dedos a textura da sua pele sem se importar com a aspereza da barba mal feita. Isso despertou um estranho sentimento de desolação em seu âmago, forçando um bolo em sua garganta que custava a sair. Dante reconheceu aquele olhar direcionado a ele, tão atormentado e entristecido. Como se duas pedras castanhas salpicados de ouro enxergassem os males inescapáveis do mundo: tudo que não poderia evitar que acontecesse, as dores e sofrimentos deixados em um rastro, injustiças cometidas. Absolutamente tudo lhe ferisse, uma pontada amarga em seu coração. A expressão dela era uma máscara de angústia, os olhos úmidos e límpidos. Cautelosamente a firmou no chão, Diva girou o corpo fazendo o traje diáfano revoar com a movimentação brusca. Endireitou-se, amparada pelos braços do mestiço mais novo disposto a socorrê-la sempre que percebia a perda de equilíbrio da garota, o que eventualmente acontecera.

Ela entreabriu os lábios, encantada.

Ainda movia-se com relutância, com passadas inseguras e cambaleantes. Assim que suas pernas ganharam mais força para ficar de pé sozinha, correu desajeitadamente para Lyana que recebeu com amoroso abraço de reencontro. Renovando a centelha de esperança quase apagada. Lyana afagou os sedosos cabelos afundando os dedos na maciez das ondas que caiam em cascatas nos ombros e costas da jovem, podendo demonstrar todo o amor fraterno reprimido e riu nervosamente. A troca de carinhos foi breve, mas aqueceu o coração de ambas sem a necessidade de palavras. Diva desvencilhou-se dela, beijando o topo de sua testa e seguiu para a última pessoa.

Deteve-se, diminuindo a velocidade e a agitação de suas emoções, realizando um percurso rápido e indeciso. A pele tão pálida quanto do gêmeo mais novo lhe atribuiu uma aparência intimidadora de uma estátua de gelo viva, a aura azul-royal indefinida sugeria que ele era muito mais alto e corpulento que realmente deveria ser. Conhecia-o bem para distinguir qualquer novidade vinda dele, mesmo a mais simples e despercebida a avaliações menos concisas. O par de olhos claros e faiscantes a fitavam com a apatia acima dos traços marcantes, atraentes. Diva ruborizou ao começar a desenterrar velhas recordações que tratou imediatamente de bloquear, enclausurando na parte mais esquecida da sua mente e impedindo seu retorno. Não se atreveu a escavar mais, prendeu a respiração por segundos antes de recuperar o autocontrole e a sanidade. Tem certos detalhes que preferiu que nenhum dos dois pudesse ver em seus pensamentos, bastava o fato de não ter privacidade dentro da sua própria cabeça — que já tinha a bagunça usual — e ser obrigada a compartilhá-los. Poderia, contragosto, classificar-se como um livro aberto para quem quisesse lê-la. Diva guiada pelo impulso emotivo de ultrapassar a curta distância que os separava, tropeçou no suave declive na terra sujando seus pés descalços de terra espalhando com uma lufada irregular de ar folhas e pétalas. Ela sabia o significado da repentina fraqueza: estava sem tempo. A figura sisuda, no qual possuía uma postura impenetrável e autoritária, transpirando cortesia severa estendeu a mão para ela. Diva agarrou-a, sendo puxada para cima e aprumou-se. Pressionou a mão que impediu de desabar.

— Estou feliz que tenham vindo, mas não deveriam estar aqui... — balançou a cabeça no intuito de despertar-se dos primeiro sintomas da invasão, da escuridão invadindo seu refúgio. — Não está certo!

Diva afastou-se de Vergil.

— Não era para estarem aqui! — reforçou sua afirmação, a voz entrecortada em desespero.

— Você diz que está feliz conosco aqui, mas não parece tão complacente com isso — Lyana expôs, olhando com reprovação.

— Sinto muito. — ofegou, imersa em lembranças. — Eu vi as barbaridades que fazia sob o poder dele. Tantas vidas inocentes tiradas... Coisas que nunca faria, mas fiz.

— Não foi sua culpa — Diva ouviu Vergil anuir, porém não amenizou o peso do remorso que se arraigou nela. As lágrimas deslizavam sem parar, Vergil enxugou parte delas e Diva apoiou-se em braços para recuperar a própria compostura. — Dada as circunstâncias, foi tão vítima nisso quanto às pessoas que morreram. É tolice se sentir culpada por ações se nem sequer tinha consciência delas.

Dante pigarreou, atraindo atenção de todos.

— Não é algo que digo sempre, mas ele tem razão. — ele ergueu o rosto dela, seus olhos brilhando pelas lágrimas.

— Estava sozinha e assustada. Sem saber como agir. — confessou, ignorando o ferroar desagradável em seu peito. — E então, quando percebi que era tarde, a escuridão me engoliu. E nisso finalmente entendi. Descobri o meu real propósito: matar... Meu irmão.

— Diva, não precisa arcar a responsabilidade sozinha — Lyana objetou.

— Criei esse lugar para tentar romper a possessão dele. — interrompeu evasiva. — Meu pequeno mundo fabricado...

Fechou os olhos para apreciar os últimos feixes de energia luminosa que não perdera com a violação. Não podia suportar mais tempo, ele destruiria a barreira que impôs para proteger-se. A parede branca rachava lentamente no centro, fazendo a estrutura vacilar com o estrago. O cenário transformava-se a medida que enfraquecia, tornando-se escuro e tenebroso. Impregnado com cheiro enjoativo de morte. O ambiente estava sobrecarregado por uma atmosfera nefasta que flutuava poucos centímetros acima do chão como uma fina névoa gelada. Seu corpo reagiu estático, experimentando as dores lancinantes da corrupção que vinha dele. Querendo afogá-la novamente, para que assim perdesse sua essência e memórias. Travou a mandíbula para conter o grito feroz que ameaçava escapar. Levou as mãos para a cabeça, talvez o ato involuntário pudesse lhe proporcionar um pouco de alívio no tumulto frenético que interferia em seus padrões de pensamentos. Obrigava-se a meditar, ampliar seu poder ao máximo, embora suas condições não estivessem boas para tamanho esforço. Aquele conflito iria enlouquecê-la, mas não recuou ou cedeu. Não teria outras oportunidades para falar com eles, sequer saberia se sobreviveria a batalha prestes a começar. E mesmo que não tivesse mais tanto poder para auxiliá-los, cumpriria ao menos sua vontade. As cores desbotavam, a vegetação morria e tudo em seu entorno escurecia. A brisa doce despontou em uma ventania revolta. Ela sabia que seu estado não estava dos melhores e isso se refletia no modo preocupado que lhe olhavam.

Diva sustentou o olhar sob eles, em total concentração. Inicialmente perplexa e aflita, quase como se seu coração tivesse se partido irremediavelmente em milhares de fragmentos afiados e alojando-se em seu peito e ferindo-a por dentro apenas por vê-los ali, mesmo que a ânsia de compartilhar preciosos minutos com eles fosse impossível de medir. Depois, passado o efeito do espanto, seu rosto endureceu com receio irrequieto e pesar.

— Você são heróis, precisam salvar o mundo... Mesmo que... Tenham que me matar. É o certo a fazer.

— E como acha que alguém pode ser considerado herói, se não puder evitar perder uma vida para poupar outras? — Dante perguntou soando sarcástico.

— Sacrifício também são necessários. — Diva pegou as mãos dos gêmeos que portavam as facas que unidas constituem o Punhal da Dualidade. — Vocês tem que agir ao mesmo tempo para ser eficaz, caso contrário...

Resistiu ao cansaço que drenava a remanescente fonte de sua força. Aguentaria mais daquela tortura para encaminhá-los para o caminho correto. A claridade dourada que tremeluzia ao redor dela como raios de sol, estava obscurecida por uma sombra densa e pulsante, insuportavelmente nefasta e volátil. Parecia lentamente contaminando-a, consumindo-a.

— Vão. E salvem o mundo, é tudo que eu peço. — indicou um portal atrás de si. — Eu fui muito feliz. Vocês me proporcionaram muita felicidade enquanto estivemos juntos e nunca me esquecerei disso. Queria viver muito tempo para poder aproveitá-la, mas... Eu sei que não podemos viver só de sonhos.

— Isso soa como uma despedida Diva — Lyana permitiu que algumas lágrimas fluíssem silenciosamente pelas suas bochechas. — Isso não é uma despedida, entendeu? Não é um adeus!

— Eu não vou desistir tão fácil — Dante prometeu, abraçando-a. — Nenhum de nós vai.

— Sei que não. Mas não ponham tudo em risco para me salvar. Sei que posso contar com o único sensato daqui, não é Vergil?

Não houve resposta.

Sorriu ao vê-los partir para dar um fim a esse caos e determinar o destino dessa dimensão. Um filete de suor brotou em sua testa franzida, como uma pontada de enxaqueca e calafrio percorrendo sua espinha, projetou-se para frente com a mão repousada no abdômen. Olhou para a pele homogênea que se desprendia dos ossos de suas mãos, nem o acelerado fator de cura garantiu que restaurasse a aparência saudável e estável. Seu corpo entrava em colapso, desintegrando-se. Grilhões surgiram presos as suas pernas e braços, inclusive correntes anexadas em suas costas quase privando-a de impulsos físicos. Nem seu corpo etéreo foi respeitado, contudo não consentiu que aquela ideia lhe roubasse a fagulha de esperança que acendera dentro de si.

— Confio em vocês...

O vento rugiu imperativo. Atravessaram o portal, sem desacelerar o ritmo constante e veloz. Uma porta metálica de um veículo veio na direção de Lyana que desviou antes que a atingisse em cheio. O clima em polvoroso era obra dela, no intuito de mostrar que não eram bem-vindos. Carros voavam sobre suas cabeças, prédios jaziam em ruínas, postes caídos sob seus pés, e no epicentro do impetuoso redemoinho estava à casca de Diva. O calçamento deteriorou-se, transformando o sólido em partículas de poeira como se um imenso Poder destrutivo e esmagador estivesse agindo, devastando lentamente. Ela deu um passo inabalável: curtos espasmos acometiam seu corpo e a aura ilimitada cresceu desenfreadamente envolvendo cada célula, fundindo-se a elas.

Era o momento de lutar

Thanatos se interpôs no caminho deles. Os longos cabelos loiros esvoaçantes com o fluxo de ar febril. O semblante calmo e artificial.

— Não estou surpresa ao vê-los chegando tão longe. Obviamente Amon não se encarregaria de vocês. Aquele idiota gosta de se entreter com os adversários ao invés de eliminá-los... — parou a alguns metros dos três convidados, empunhando a katana familiar. — Não darão mais nenhum passo. É o fim da linha pra vocês.