Between Dimensions
45 Alliance!
Dante meditou, seu olhar desorientado vagando pelo espaço vazio e desorganizado da sua agência. O silêncio monótono e carregado de pressões invisíveis atribuíam ao ambiente um aspecto sombrio e melancólico, quebrado unicamente pelos ruídos da cadeira de madeira que o acompanhara durante tantos anos desde que abriu Devil May Cry e no qual encostou-se e permanecera. Ninguém irromperia pela porta, como geralmente acontecia sempre que resolvia relaxar, para atrapalhar seu exílio auto imposto, o que lhe dava liberdade para refletir e beber sem ouvir sermões. Suas pernas estavam preguiçosamente estendidas sobre a mesa, ao lado uma garrafa de Uísque. Mexeu o copo que segurava em uma das mãos, observando tediosamente o conteúdo marrom agitar-se conforme seu estímulo.
A melhor maneira de esquecer os problemas era afogar em bebidas era o que diziam, mas Dante não usava esse método para tal finalidade por que não funcionava realmente com ele. Embora pudesse ficar embriagado, podia reter memórias com plena consciência ainda que suas ações nesse estado sejam como de um bêbado qualquer. No tempo que atuava como mercenário sob a identidade de Tony Redgrave, no auge da sua juventude, teve uma ocasião que ficara tão bêbado que pediu uma vassoura em casamento*. Dante riu com a lembrança, ainda não sabendo ao certo se achava aquilo engraçado ou se o álcool em seu organismo tivera efeito, distorcendo sua percepção da realidade.
Ingeriu num impulso direto o resto do Uísque no copo, sentindo o sabor forte dissolvendo em sua boca entorpecendo seu paladar. Levianamente chutou a superfície da mesa fazendo a garrafa de vidro voar e pegando no ar, um movimento sutil e preciso. Dante também agarrou um dardo avulso que estava ali, em seguida, num breve intervalo de segundos atirou no alvo atrás de si sem olhá-lo. Levantou-se, derrubando sem querer o porta-retratos da pessoa que não queria pensar, mas que povoava seus pensamentos a cada minuto. Ergueu o objeto, reposicionando no lugar e olhou a fotografia antes de fazer um muxoxo de reprovação. Estava ferido com tudo aquilo, e ela era a vítima inocente e não pôde protegê-la como prometeu, tendo conhecimento disso não podia evitar a dor familiar lhe afetasse, corroendo-o. Florescendo profundamente em seu coração e enraizando-se por ali com seus galhos espinhentos e restritivos.
Andou até jukebox e ligou, emitindo estática de contato mal sucedido. Vendo que não teria outro remédio, o mestiço gentilmente socou o aparelho que tocou uma música alta deliberadamente com o propósito de impedi-lo de pensar. Deitou-se no sofá, quase imediatamente atraindo uma série de lembranças inoportunas e inconvenientes, que ainda que fossem mascaradas pelo peso desagradável induzia-o a uma variedade de sensações prazerosas e viciantes. Elas o intoxicavam, agindo como uma morfina e amenizando as dores que começavam a crescer em seu interior. A bebida deve, de alguma forma, ter ativado um mecanismo que bloqueava o acesso a coisas dolorosas e frustrantes. Nunca esperava ter falhado tanto justamente com alguém importante, a garota que amava. Parecia uma rotina que recusava a abandonar, por mais que quisesse desprender dela. Seria um daqueles carmas que estava destinado a perder todas as pessoas que amava?
Convencendo-se de estar mais sentimental que o comum, tomou em uma só virada a garrafa que levava consigo permitindo que ela fluísse por seu corpo e questionou o que seu irmão diria vendo-o nesse estado deplorável. Ao menos encararia-o de frente e lhe daria uma resposta divertida e igualmente feroz para calá-lo, depois riria da reação dele. Seu humor aos poucos tornava-se mais tolerável.
Usou os braços para apoiar a cabeça oferecendo a si mesmo conforto naquela posição incomoda, seu tamanho não era muito compatível com o do sofá vermelho fosco. Então tinha que se adaptar da melhor forma nele. Dante tentou livrar-se de todo estresse que blindava seu corpo, enrijecia seus músculos e o fadigava rapidamente. Sequer recordava a última vez que dormiu de verdade, não um dos sonos superficiais que normalmente tinha. Ouviu a voz dela chamando-o, rindo e comentando sobre um assunto que ele não se importava tanto, mas gostava de escutá-la enunciar cada frase com sua voz doce. Enquanto estiveram juntos, Diva ia para seus braços e se aninhava no calor deles, procurando abrigo. A garota dourada e cheia de energia que iluminava tudo que estava em seu alcance, como um sol particular. Involuntariamente o mestiço dedilhou seus lábios o nome dela querendo ser pronunciado. Não queria pensar como se ela estivesse morta, repousando eternamente na escuridão, mas seus esforços eram contraproducentes a medida que seus pensamentos lhe traiam fazendo-o acreditar naquela loucura. Um barulho estremecedor estilhaçou seu devaneio. Dante mirou a garota ruiva que acabara de anunciar sua chegada com inquietação.
— Você está com uma cara péssima — debochou, porém Lyana não retrucou. Apenas ficou imóvel, pálida e com os olhos vítreos sem brilho. A bolsa que trazia escorregou de sua mão e caiu no assoalho, e nem isso tirou a mestiça do transe.
Ficava obvio que havia algo atormentando-a. Era como se todo o peso de algo que não soube identificar viesse sobre ela, tão esmagadoras que suas pernas mal a sustentavam de pé. Se ela na estivesse apoiada na porta certamente teria cedido a pressão da gravidade, e caído no chão. Lyana respirou desajeitadamente, ocasionando tosses superficiais para desobstruir sua garganta. Seu corpo não obedecia nenhum dos seus comandos, permanecendo completamente imóvel e seu rosto desprovido de emoções, em estado de choque catatônico. Seus pensamentos entraram em intenso frenesi, rápidos e caóticos demais para que pudesse administrar. Sentia-se desgastada, exausta física e psicologicamente e os acontecimentos dos últimos dias somados ao que Thanatos lhe contara não colaboravam em nada com sua condição.
— Já tem minha atenção. O que houve? — Dante perguntou com tom mais persuasivo e urgente.
Dante acomodou-se no sofá. Lyana inerte não obtinha sucesso coordenar uma frase compreensível para atenuar a curiosidade dele. Puxou o ar e inspirou, buscou fazer uma inspeção em tudo que teria que contar, filtrar o significado e, por fim, encontrar uma lógica aceitável. Lyana já vira o que no conceito humano era fantasia, ela própria de Dante enquadravam-se nesse mundo inacreditável, mas aquilo que descobriu ia muito além dos limites que conhecia, fugia de todos os seus padrões. Nenhum deles sequer suspeitava de algo assim, uma realidade que tinha proporções infinitamente maiores.
— Você... Você... — balbuciou confusa, atropelando as palavras.
— Está claro que me envolve. E agradeceria se fosse direto ao ponto. — cruzou os braços.
Lyana vagou para o ocorrido de minutos antes.
— No seu lugar também não confiaria, só que diferente do que possa supor não tenho motivo para estender desnecessariamente um assunto tampouco ganharia algo mentindo. Além disso... — Thanatos virou-se, uma brisa morna agitou os longos cabelos loiros quase prateados. — Meu propósito é a escuridão. Vivi nela por tanto tempo e só pude conhecer a luz quando as trevas já tomaram por completo meu coração. Não escolhi as sombras, mas não posso negá-la agora que fazem parte fundamental de quem eu sou. Ele é meu amante e meu criador...
Thanatos elevou a mão ao céu, uma aura escura ocluía a centelha de luz que atravessavam seus dedos como um lembrete do seu imutável fardo.
— Contudo fique ciente que para expulsá-lo do corpo de Diva não será uma tarefa fácil. Ela é praticamente invulnerável e como vocês viram, bastante inconstante também. Não se engane pelo comportamento infantil dela, duas almas opostas vivendo no mesmo corpo formou uma personalidade dissociativa*, ainda assim ela é extremamente perigosa.
— E como...? — Lyana soltou meio desnorteada. Usando uma mão, o pecado da Inveja sacou um belo punhal: um lado dourado e outro prateado com vários delicados desenhos gravados na lâmina.
— Esse é o Punhal da Dualidade. — explicou, então dividiu o artefato, transformando um único punhal em duas facas. — Exatamente como eu fiz para separá-las... Elas terão o mesmo efeito na Diva. Se conseguirem chegar perto dela para fincá-lo em seu coração...
Ela engoliu em seco.
— Sem perguntas — exigiu, atirando contra Dante uma faca dourada com desenhos e símbolos intrincados na lâmina que ele habilmente interceptou.
— Sei que seu maior desejo é salvar a Diva, independente dos riscos — Lyana mordeu o lábio inferior, condenando-se por mostrar tanta fragilidade. — Confio em você para realizar essa missão, por isso, use esta faca para destruir a escuridão que habita o coração da Diva.
Dante estreitou os olhos, sua insolência sendo substituída pela dúvida insistente. Milhares de perguntas borbulhavam no cérebro mestiço, através da névoa desfocada combateu a confusão e a persistente certeza de que havia um ponto oculto que Lyana não estava disposta a esclarecer. Admirou o artefato, talvez feito de ouro puro e imaculado. A mestiça se recompôs, enxugando as lágrimas e reprimindo os soluços que escapavam por entre seus lábios. Encurtando o espaço que o separavam, em um gesto fraterno, abraçou Lyana, afagando com carinho as curtas madeixas vermelhas. Ela inicialmente resistiu ao abraço, uma reação típica dela, porém com paciência Dante a sentiu retribuir. Seu choro contido transformou-se em lamentos altos, era como se ela estivesse aguentado toda pressão e agora poderia pôr pra fora o que guardava em sua alma. Ele consolou a baixinho, repetindo palavras de incentivo e afeto.
— Acha que podemos mudar nosso destino? — indagou mais calma.
— Eu não sou adepto ao conceito "destino" que os humanos pregam com tanta devoção, mas se for o caso, podemos mudá-lo. Construir nosso próprio caminho nesse mundo de caos. Lutar contra a maré. Se pensarmos que somos movidos por destino inalterável, estaremos nos limitando a viver sob regras pré-estabelecidas.
Lyana sorriu desolada.
— Está me surpreendendo com uma análise perspicaz, quase duvidava da sua competência intelectual.
— Para você ver que sou mais que um rosto bonito e que tenho vários outros talentos, sua tola incrédula. — brincou em falso tom reprovador, rindo. — Está preocupada com seu destino?
— Não. Com o da Diva. Ela é como Helena de Tróia... Bela e condenada.
Bela e condenada, Dante repetiu reflexivamente.
***
Amon deparou-se com o cômodo impregnado de sangue, liquido rubro vertia pelo piso e respingos sujaram a paredes de tonalidade creme. Deitada na elaborada cama de dossel estava uma Diva imersa em pensamentos, encolhida e nua. Sua pele alva manchada por uma fina camada de sangue ainda fresco. A julgar pelo que via, ela deve ter se irritado com umas das empregadas que tratavam de seu ritual de banho e a matou. O que sobrou do corpo era somente uma massa irreconhecível ante a penteadeira. Conhecendo a aura que entrara no quarto sem ser anunciada, Diva olhou por cima do ombro e retomou sua posição indiferente.
— Você não está sendo razoável, minha querida — Amon sorriu ameno.
— Ela mereceu por não ter seguido a risca minhas ordens... — murmurou sem emoção. — Quero que Thanatos volte. E também desejo ver aquele garoto. Pode arranjar isso pra mim, Amon?
— Seu desejo será atendido. Vou levá-la até ele.
— Primeiro irei me encontrar com o garoto e depois...
Diva sentou-se, revelando mais sua evidente nudez do qual parte de seu longo cabelo encobria. Na proteção de seus braços, pressionado contra os seios a pequena pelúcia Vergil. Não importa aonde ia, levava-o sempre. Eram quase inseparáveis. Amon acertou sobre o que agradaria sua Senhora.
— Ainda estarei com você, Vergil. — ela ergueu a pelúcia, sorrindo primorosamente. — Seremos um novamente, e vou fazê-lo meu cavaleiro como tem que ser.
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