Sinto-me incrivelmente vazio... Após tantos anos de existencia nunca pensei, de forma alguma, que viria a sentir algo tão agonizante; Repentinamente, é como se eu apenas visse a minha vida — Se é que posso chamar isso de vida -correr diante de meus olhos, desde meu passado até meu presente -vez ou outra, parece até que posso ver meu futuro, como se fosse algo extremamente previsível.
É torturante buscar por algo que sabe que não vai encontrar... Ter sua própria mente frustrando-se cada vez mais ao tentar encontrar o sentido de algo tão vago, supérfulo; O sentido da vida de um demônio, que a séculos não tem serventia.
Bem, se servir de alguma espécie de companhia para alguém pode-lhe ser classificado como serventia, talvez possamos começar a falar sobre Dagon, meu amante -Bem, pelo menos é assim que o nomeio.-
Dagon é um tipo excêntrico de demônio, tem uma personalidade irritantemente forte, uma aura imperativa, arrogante e incrivelmente persuasiva. E não, não é apenas porque somos demônios que devemos ser assim, ao todo detestáveis, mas procuro ser indiferente quanto a personalidade terrível do ser que diz me amar.

Amor — Muitos pensam ser um sentimento tão doce e confortável, já ouvi chamarem de "calor que preenche o coração"... Vejo o amor como um terrível monstro de garras afiadas, prontas para lhe agarrar e ferir a qualquer momento, da pior das maneiras, e é por tal visão que não amo e nunca amarei — E prosseguirei mentindo meu amor à Dagon, se necessário, pelo resto de minha detestável existência.

Vivo em um meio frio, pelo que me lembre... São tantos séculos vivendo nesta mesma masmorra que já nem me lembro qual é a temperatura exata de meu escuro lar, onde nem mesmo as inúmeras tochas podem iluminar suficientemente, quem dirá aquecer. É neste meu submundo, minha cela de paredes de rocha cinza, onde as almas condenadas gritam por piedade enquanto são torturadas por seus piores pesadelos, castigadas pela corrupção de suas almas. Seres idiotas os humanos, tão vazios, tão certos de si, orgulhosos dessa raça nojenta, quase como um tipo de praga que destrói a própria vida por gosto.

Odeio os humanos, odeio a mesmice de meu lar, odeio fingir amar e principalmente, odeio o vazio que sinto a todos os segundos, essa maldita agonia.

–Belphegor?

Meus pensamentos foram interrompidos subtamente por aquela voz nada familiar que vinha de certa distância. Dei meia-volta para ver a quem esta pertencia e eis que me deparei à uma beleza que nunca em minha longa existência havia visto, ou até mesmo pensei que chegaria a ver.
O ser tinha cabelos longos e brancos, os olhos claros como se o céu diurno estivesse banhado de estrelas, seus traços eram delicados, sua boca era delineada por lábios de linhas delicadas e seu tom se destacava diante de sua pele cor de marfim... Eu sabia o que era aquela criatura, apenas por sua grandiosa presença, que fazia com que meu coração estremecesse; Tratava-se de um anjo, o primeiro que já havia visto.

–Sim? — Precisei de um momento para retornar a minha compostura para só assim, responder ao ser agora estava á minha frente — O que traz um ser celestial ao submundo?

–Um antigo favor -Ele fez uma pausa para olhar para baixo brevemente enquanto sorria... Ah' aquele sorriso, estou certo de que foi ele o culpado. — Me deve uma de suas almas, já que corrompeste uma das minhas, há alguns séculos atrás.

Se fosse outra situação, creio que o expulsaria do submundo a chutes, porém algo em mim havia atraído-se pelo anjo, quase como magnetismo. Já roubei e corrompi um número extenso de almas, antes fora um modo de me divertir além de ser meu trabalho, mas agora é apenas uma ocupação detestável e sem sentido para mim.

–Me diga seu nome e só então pensarei em considerar seu pedido. — Eu mentia, aquele anjo tinha algo, algo que poderia me fazer cair de joelhos diante a ele, pronto para obedecer a qualquer uma de suas ordens. Sua expressão não foi a mais agradável de todas diante de minha condição, sendo assim tive de insistir, com um sorriso rasgando meu rosto antes sério. — Vamos, diga...

–Hamon... Meu nome é Hamon. -Então era este o nome do tão encantador ser... Era perfeito, não poderia pensar em palavra melhor para nomear a beleza do anjo. -E agora, vai me conceder o que desejo?

–Em breve lhe concederei o que deseja, mas não hoje, á final teu pedido não é um qualquer , tenho de tratar de certos assuntos para realizar devidamente suas vontades.

Hamon não era um anjo muito paciente e não foi difícil percebê-lo; Ele levantou a destra "Assim seja", suas sobrancelhas agora deixavam seu olhar com um ar "tenso". E foi assim que assim ele se foi, antes que eu pudesse perceber, deixando a mim aquele olhar de desaprovação antes que eu observasse o nada ao sentir a velha angústia voltar a inundar meu coração...

–Um anjo, Belphegor? Tsc' Mal posso crer em meus olhos, primeiramente pela visão de um ser de nível tão "superior" -Dagon parou para reproduzir as aspas com os dedos, esteve observando a conversa ao longe, não pude ter ideia do quanto sabia sobre esta- E também por essa sua cara, a cara de um completo idiota apaixonado, que você nem ao menos fez questão de omitir! Sabe que isso é proibido, não é? Terá coragem de se submeter a um amor proibido? Terá coragem de me trocar por... Isso? -Fez questão de deixar clara a repugnância em seu tom de voz.-

–Dagon... -Eu gostaria de rir naquele momento, devido ao fato de minha vida já não ter sentido algum, e a satisfação ao pensar que ser punido por amar um ser celeste seria realmente interessante. — Do que diabos está falando? -Fingi estar incrédulo com as palavras do demônio a minha frente, franzindo o cenho.

Sua cabeça agora estava baixa, mas não o suficiente para que eu não visse as lágrimas inundarem seus olhos, agora não havia nada mais a fazer:

O envolvi em um abraço, o corpo de Dagon encaixou-se perfeitamente ao meu, graças a sua altura inferior a minha e seu corpo magro; Minha destra encaixou-se em sua cintura enquanto a canhota passou a acariciar seus cabelos longos e negros.

–Não irei deixá-lo — Prossegui após um longo momento de silêncio constrangedor — Eu lhe prometo.

Dagon dirigiu suas orbes amarelas cor de ouro, ainda marejadas, ás duas gotas de sangue que compunham as minhas:
–Eu o amo, Bel... -Ele sabia exatamente como me atingir, os movimentos e palavras certas que me faziam estar tão preso a ele, apenas não sabia que eu havia aprendido a "dançar de acordo com aquela sua música traiçoeira"- Espero que esteja me dizendo a verdade.

Optei por mais um momento de silêncio antes de lhe responder. Pensando bem, eu nunca disse "Eu te amo" a Dagon; Quero dizer... Não na forma "Não-recíproca", nunca tomei a iniciativa de mentir tão descaradamente a ele.

–Eu... Bem, eu também o amo, Dagon.

Desta vez, soou menos convincente do que planejei, porém meu amante estava ocupado demais retribuindo a meu abraço como se tentasse quebrar minhas costelas.

Notas finais
~Espero que tenham gostado do primeiro capítulo, o início do caos causado por um amor proibido.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.