Notas iniciais
Especial para YUKI MAX, minha Onee-chan. Espero que todos gostem, foi feito com amor. ♥

Entre maldições e Presentes

Inutilmente o loiro avançou contra o moreno, tendo seus punhos acertado o espaço onde segundos antes, residia um corpo. Ah, e como ele queria acertar aquele corpo, não? Anos a fio de tentativas. Anos a fio de fracassos. Mas ele sabia exatamente o que aconteceria se conseguisse um vacilo ali. Ah, e como sabia. O moreno também sabia; talvez por isso, o sorriso sarcástico e cínico do informante aparecia sempre que o ex-barman passava perto.

— Heeeh, Shizu-chan, foi quase não? — sua risada estridente se fez soar, irritando ainda mais o guarda-costas. O cigarro que pendia na boca do loiro estremeceu com o sorriso nervoso que apareceu nos lábios.

— Fique parado apenas dois segundos, pulga! — Heiwajima arrancou a placa de sinalização mais perto. Seu rival deixou as mãos nos bolsos da jaqueta preta, que deslizou de seus ombros. Os olhos castanho-avermelhados mais afiados do que nunca; seu sorriso ainda mais petulante do que o loiro já havia visto. Lançou a placa contra o moreno, apenas vendo como o maldito pulava e ousava caminhar sobre ela, pousando há centímetros do lançador.

— Está tão controlado hoje, Shizu-chan... — cantarolou ele, zombando. Mas o guarda-costas hesitou. Maldito segundo de hesitação. Ter Orihara Izaya tão perto fez Heiwajima Shizuo hesitar por 2 segundos. Tempo suficiente para o informante sacar seu inseparável canivete e arrancar fora dois botões do seu colete. Riu enquanto pulou para trás, escapando das mãos do loiro. — Oe oe, Shizu-chan!! Denovo foi muito perto!! — balançou os botões e os agarrou sorridente. — Seria catastrófico ser pego, né Shizu-chan!? — fez bico enquanto negava com a cabeça. Seu hobby era perigoso, o informante sabia, mas não podia medir sua diversão quando se tratava do homem mais forte de Ikebukuro.

— I-ZA-YA!! — o outro berrou, fazendo todo o distrito ouvir sua voz, alertando também às pessoas por perto que, coisa boa dali não sairia; aliás, nunca saía. Não quando se tratava de Shizuo. Menos ainda, quando se tratava de Izaya; e por mais que o loiro odiasse com todas as suas forças usar a violência, era inevitável ficar transtornado quando se tratava daquele moreno desgraçado. — Me devolve isso, filho da puta!

— Oe, vamos com calma, sim? — aquele odioso sorriso foi aberto novamente. Era a provocação. Shizuo sabia. Sempre soube. Vem aqui pulga, vou tirar esse sorriso da sua cara! Não vai restar nada!

E com esse pensamento iniciou uma corrida que, Izaya, por sua vez, transformou numa perseguição. De maneira alguma ele ficaria parado; não enquanto seu pior inimigo corria em sua direção com a mais pura e singela intenção de lhe matar.

— Isso é divertido, né Shizu-chan? — o informante riu descontrolado, desviando de uma moto voadora. Subiu sobre a grade de proteção e pulou sobre o teto dos carros parados no farol, chegando ao outro lado da rua.

— Volta aqui! I-ZA-YA!! — gritou o guarda-costas pulando com um poste de iluminação nas mãos. Lançou-o contra o moreno que desviou facilmente, notando o quanto o objeto afundava na calçada, assustando quem passava por ela. Você é um verdadeiro monstro, Shizu-chan!!, sorriu e correu notando um vulto de cabelos amarelos correndo em sua direção. E por mais que eu te olhe, eu sempre me surpreendo. Tsc.

Em algum ponto da diversão, Simon apareceu para censurar Shizuo, ou talvez Celty; de qualquer forma, eles nunca terminaram aquela perseguição. Bem como nunca terminaram as outras centenas de perseguições. Nunca deixaram o amor distorcido que ambos mantinham guardado, transparecer. E talvez isso tenha iniciado toda essa história. "Quê história?", você deve estar perguntando. Bem, pegue uma pacote grande de pipoca e acomode-se, ela está prestes a começar!

x

Depois de se encontrar com Tom, Shizuo pediu o resto do dia de folga, o que, definitivamente não era do seu feitio. E embora não fosse, seu amigo e empregador, não a negou, dizendo algo sobre " Se você não se sente bem, melhor ficar em casa...", dispensando-o. Soube que aquilo era para não estragar o trabalho, afinal, Tom não gostava quando ele deixava seus problemas pessoais afetarem seu lado profissional.

Enquanto voltava para a casa, pegou outro cigarro no maço e o acendeu, deixando que a nicotina fluisse pelo seu organismo, lhe afastando a adrenalina de algumas horas antes. A pulga deve ter voltado pro inferno, não sinto o cheiro dele!!, constatou. Shizuo imaginou como seria se nunca tivesse que correr atrás do moreno que arruinara sua vida há anos. Imaginou uma vida sem Izaya. Misteriosamente abriu um buraco em seu peito. O loiro sabia quais eram seus sentimentos pelo moreno, e eram puro ódio — ou assim ele esperava que fosse. Ódio pelo homem que lhe atormentava e lhe fez perder o emprego diversas vezes.

Você poderia sumir né, pulga?

Liberou a fumaça de seus pulmões e deixou de lado qualquer pensamento que fosse relacionado ao informante, tudo o que ele queria era descansar. Estranhamente, Shizuo queria cair na cama e dormir. E tão distante dali, em Shinjuku, um sagaz moreno com olhos perspicazes tinha a mesma vontade. Coincidência?

Orihara Izaya abriu a porta de seu apartamento e entrou na sala, dando de cara com Namie Yagiri, que já se retirava. Trocaram olhares em silêncio, e embora os olhos castanho-avermelhados tenham notado a dúvida nos olhos femininos, ignorou-a completamente, dirigindo-se diretamente para seu quarto.

Puxou a gaveta do criado-mudo ao lado da cama e deixou os botões caírem ali, onde ja colecionava duas gravatas do ex-barman. Fechou-a e jogou a jaqueta e a camisa numa cadeira por perto, jogando uma toalha por sobre o ombro.

Entrou no banheiro tirando o resto de suas roupas; pendurou a toalha e ligou o chuveiro, deixando a água escorrer pelo seu corpo. O informante se pegou pensando na época da escola, em como todos aqueles anos tinham sido chatos. Humanos previsíveis. As coisas mudaram quando ele conheceu Shizuo, o indomável. Queria provar para os próprios olhos o que seus ouvidos tanto ouviram, embora talvez, nem a alcunha do homem, nem a curiosidade do moreno tenham feito os dois se encontrarem.

Os lábios do moreno tremeram com um sorriso de canto. Orihara Izaya, o grande e afiado informante, amava os humanos; dentre eles, amava em excessivo um. Humano este que ele sabia que fazia jus ao epíteto de homem mais forte de Ikebukuro. Vida sacana de merda! Apaixonado pelo inimigo? Tsc!

Desligou o registro e se secou, vestindo apenas uma samba canção antes de se deitar na cama. Tudo que ele queria era dormir, e foi exatamente o que fez, deixando sua mente vagar pela sua fria e escura inconsciência.

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Shizuo acordou na manhã seguinte mas não se levantou; para ser exato, sequer abriu os olhos. As imagens de um sonho bizarro ainda o assombravam. Tsc, sempre é uma desgraça sonhar com aquela pulga maldita. Isto é, se é que posso chamar aquilo de sonho!

Deslizou os pés para fora da cama, notando parte de sua nudez. Não me lembro de ter tirado as roupas pra dormir... Ainda que contraditório, pegou uma toalha em seu guarda-roupas — um dos poucos móveis no quarto do loiro — e seguiu para o minúsculo banheiro além da sala. Seu banheiro estava um caco.

Por algum motivo ele se lembrara dos tempos escolares enquanto tomava banho, e a mínima menção ao informante, fez com que o ex-barman perdesse sua calma.

— Odeio aquele desgraçado... — resmungou para si mesmo, notando seu antigo espelho quebrado num canto. Também havia sido obra dele. E a culpa, obviamente era do moreno.

Tomou uma ducha rápida e vestiu suas roupas, presente de Kasuka. Como ele queria que o irmão tivesse orgulho dele...

Seu aparelho celular tocou, mostrando um nome branco flutuando na tela. Atendeu enquanto terminava de vestir seus sapatos.

— Alô?

— Oh, bom dia Shizuo-kun!!

— O que você quer Shinra?

— Aah, bem, não notou nada de diferente hoje? — aquela pergunta era suspeita; quase tanto quanto a ligação do médico clandestino. Olhou para fora de sua janela, olhando o céu meio nublado e o pouco movimento de pessoas na rua. — Não se lembra de nenhuma data especial?

— Deveria?

— Se não notou, lembrará em breve... — uma risada soou do outro lado da linha. — Bem, até mais! — e a linha ficou muda antes que o loiro pudesse dizer algo a mais. Sempre soube que Shinra era estranho.

Dirigiu um olhar rápido ao relógio na parede do quarto. Se saísse agora, não se atrasaria. Pôs seus usual óculos no rosto e acendeu um cigarro, mas tossindo intensamente logo na primeira tragada. Mas que diabos...? Tornou a caminhar para a saída do apartamento e posteriormente à saída do prédio.

As pessoas na rua o fitavam mais do que o normal, seguindo-o com os olhos e cochichando coisas, mas o loiro já estava acostumado a ignorar aquilo. Esperou o farol abrir para os pedestres e notou Celty voar baixo com sua moto negra, no lugar do motor, ouviu o relinchar de um cavalo.

Foi quando passou em frente ao Russia Sushi, que algo lhe perturbou a paz.

— Delicioso! Delicioso! Temos sushi russo!

— Simon! — Shizuo levantou uma mão em um aceno e o grandão lhe retribuiu o aceno com um sorriso.

— Yo, Izaya! — a leve menção do nome fez o sangue do guarda-costas ferver; olhando em volta a procura do informante mas não encontrando ninguém. Virou-se para o homem russo que continuava em sua rotineira entrega de panfletos.

— Foi coisa da sua cabeça Shizuo! — repreendeu-se — Está ficando obcecado por aquela pulga! — o que também lhe fez imaginar se não estava pensando demais em Izaya Orihara.

Conforme passava pela praça central de Ikebukuro foi que o loiro notou uma maior agitação, onde também ouviu a voz mais odiosa do planeta.

— Oe oe, Shizu-chan!! — sem olhar para trás o homem segurou um banco e o puxou no intuito de atirá-lo contra o moreno as suas costas. O que o homem mais forte de Ikebukuro não esperava era que o banco não saísse do lugar.

Estrupiou-se no chão com a mão no banco, enquanto a gargalhada de seu rival soava estridente. Levantou transtornado e tentou denovo arrancar o banco do concreto onde estava preso, mas sem sucesso.

— Quer uma mãozinha, Shizu-chan? — Quando notou de onde vinha a voz, o cigarro preso nos lábios do loiro caiu no chão, fazendo o ex-barman franzir as sobrancelhas.

— Que brincadeira é essa agora, hein, pulga? — Izaya trajava suas vestes negras habituais. Seu sorriso sadista também estava ali, tal como seus olhos castanho-avermelhados cheios de maldade. Embora ele estivesse com a aparência do guarda-costas. O informante deu de ombros enquanto o loiro se enraivecia ainda mais com sua cara de pau.

— Queria saber tanto quanto você!

— Está fazendo uma com a minha cara!? — cerrou os dentes e os punhos, notando os nós dos dedos ficarem brancos. — Porquê você está com a minha cara?

— Posso devolver a pergunta Shizuo? — pela primeira vez em anos, a voz de Izaya pronunciou seu nome corretamente, o que o fez ir até a fonte e olhar seu reflexo na água.

Bem como Izaya, Shizuo também ficou surpreso quando olhou seu reflexo. E aquilo respondia algumas coisas. A ligação de Shinra, o cigarro, Simon... peças estavam se encaixando agora. Shizuo tinha nada menos do que a aparência odiosa do seu pior inimigo.

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— Abre essa porta logo Shinra!! — gritou Shizuo novamente. Ou seria Izaya? Aquela aparência em nada tinha com loiro, ele sabia, ainda assim irritava-se toda vez que algum espelho lhe mostrava seu reflexo. — Não vai querer que eu a abra!!

— Hã... Shizu-chan, você não está mais super forte...

— Cala a boca maldito, ou eu quebro seu pescoço! — se virou para o loiro, ou melhor, Izaya. Massageou as têmporas. Toda aquela merda estava lhe dando dor de cabeça. Tornou a bater na porta. — Shinra!!

Estava começando a se cansar daquela merda toda. Tudo o que ele queria saber era como Shinra tinha feito aquelas malditas plásticas. Porquê Shizuo achava que era coisa de Shinra? Por mais que odiasse a pulga, vieram conversando enquanto trilhavam o caminho até a casa do velho amigo. Shinra também o ligou pouco antes de se olhar no espelho.

Sacou o maço de cigarros do bolso e puxou um para os lábios, dirigindo-se a acendê-lo, quando uma mão com longos dedos tentou tomar dele o isqueiro e o cigarro. Desviou mais rápido do que achou que seria normal.

— Não estrague meus pulmões Shizu-chan!

— HÃ? Eu tenho que fumar para me acalmar, Izaya! — o corpo loiro revirou os olhos como quem lidava com uma criança.

— Não me fode Shizu-chan!! — seus olhos escarlates se estreitaram tornando-se muito perigosos. O guarda-costas soube naquele momento que, se olhares matassem, teria sido fulminado naquele instante. — Sabe, eu não fumo...

Ponderou sobre a situação — que nem era muito a cara do ex-barman. Izaya estava em seu corpo — pura suposição — então tinha sua força, e ele estava no corpo do informante, deixando-o com a agilidade do moreno, que ele por acaso, mal sabia fazer uso. Então estava tecnicamente em desvantagem.

— Certo... — guardou os cigarros — Mas só por quê eu quero, e não porquê você disse algo...

— Sei disso... — sorriso malicioso do moreno se estampou no rosto. — Obrigado, Shi-zu-chan!! — a malícia e o sarcasmo eram evidentes em seu tom de voz, quase palpáveis.

Antes que o homem mais forte de Ikebukuro batesse no informante mais sádico de Shinjuku, a porta abriu e o médico clandestino apareceu sorridente.

— Oe oe! Shizuo-kun, Izaya-k-

— Sem essa Shinra seu maldito!! — Shizuo pegou o amigo pela gola da camisa, chacoalhando-o.

— O que deu em você, Izaya-kun? — olhou de um para o outro — Hã? Por acaso trocaram de guarda-roupas?

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— Eeehh!? Então quer dizer que vocês dois acordaram com os corpos trocados!?

— É, mas você ja sabia disso não? — Shizuo-moreno estava de braços cruzados no sofá de dois lugares com Izaya-loiro do seu lado. — Afinal, você ligou pra gente questionando "algo diferente"...

— Heeh? Não sei o que você que dizer Iza- digo, Shizuo-kun...

— O que ele quer dizer é que acha que a culpa é sua... — Shinra ficou surpreso com a constatação do Shizuo-moreno.

— Claro que não! Minha ligação foi para comemorar meus dois anos de namoro com a Celty!! Mas posso fazer exames em vocês... — a expressão do rapaz parecia mais doentia agora, estritamente interessado.

— Eu dispenso!! — Izaya comentou antes mesmo do amigo terminar a sentença.

— Obrigado, vou tentar alguém que me ajude mais do que isso... — disse Shizuo se levantando do sofá e já se dirigindo à saída.

— Heeeh!? Nem uma amostrinha? — Shizuo rosnou e Shinra apenas sorriu. — Se ao menos Celty não tivesse saído... Bom, espero que consiga o que procura... Em todo caso, se precisarem de mim... Não vou recusar uma pequena amostra... — Shinra disse e o loiro mal deu atenção ao amigo. Ele tem uma namorada sobrenatural e não sabe nada sobre trocas de corpos, tsc! Apertou o botão chamando o elevador assim que saiu do apê do amigo.

— Onde nós vamos agora? — perguntou a voz de Izaya logo atrás e o loiro se virou para ele. Seu corpo era centímetros mais alto que o corpo de Izaya, por isso teve que olhar para cima.

Nós? Não tem NÓS! — Heiwajima o olhou franzindo o cenho — Você é um informante, procure algo que nos ajude ao invés de querer ficar colado em mim!! — o ex-barman fitou as portas do elevador enquanto este indicava subir até a cobertura. — Aliás, acho que isso tudo é culpa sua!!

— Oe, estamos nessa merda juntos!

— Ah claro, aposto que estava se divertindo com o meu corpo... — o guarda-costas não havia notado, mas estava agindo mais como Izaya do que como Shizuo. E quando notou esse pequeno fato teve vontade de se bater.

O elevador abriu as portas e ambos entraram. Izaya apertou o botão que condizia com o térreo.

— Tenho mais o que fazer do que brincar de Godzilla por ai, Shizu-chan... — o guarda-costas apenas bufou, não querendo acreditar em nenhuma palara cuspida por seu rival. — Meu escritório deve ter algo sobre isso... — Shizuo cruzou os braços e olhou para seu pior inimigo. — Podemos procurar algo nos livros sobre o assunto juntos...

— Izaya, se eu não te conhecesse, diria que está tentando me manter por perto!! — Orihara por sua vez amaldiçoou o corpo de Shizuo por ser tão franco em demonstrar as coisas. Diferente de seu enigmático corpo, todos sentimentos eram espalhados pelo corpo, deixando as coisas claras, fosse felicidade, raiva, confusão — e como Izaya testou antes de se encontrar com o verdadeiro dono do corpo, a excitação. Sentiu seu rosto ferver e ele virou o rosto para que o ex-barman não visse a coloração de seus olhos tingidas nas maçãs do rosto.

— Tsc, Cala a boca! — notou um sorriso discreto no rosto moreno — Só estou preocupado com meu corpo!

— Aaah, claro! — sorriu o outro em divertimento.

Desceram no térreo e saíram do prédio do médico clandestino. Ambos com destino à Shinjuku.

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— Acho que encontrei algo... — disse Izaya depois de três horas de busca. Estava sentado atrás de sua mesa enquanto Shizuo vasculhava toda sua estante atrás de algum livro com alguma informação útil. O guarda-costas deu a volta na mesa para poder ver o que o informante conseguiu encontrar a ponto de lhe despertar interesse. Aquele era um fato que Orihara Izaya não entendia bem. O corpo de Shizuo não tinha o cheiro de Shizuo. Sua fragrância favorita encontrava-se ao seu lado, olhando para a tela do computador.

— Sério que você confia nisso? — perguntou o loiro-moreno, tirando um Izaya sonhador de seus devaneios.

— E por que não acreditar... Aconteceu várias vezes com outros casais... — disse ele, não notando a princípio a palavra que havia usado para adotar o relacionamento deles.

— A questão, verme, que não somos um casal!! — revirou os olhos, arrependendo-se de ter aberto a boca. Sua língua tão bem controlada, agora dava nos dentes.

Izaya se levantou da cadeira e olhou janela a fora. Não que houvesse alguma novidade ali. Possivelmente o moreno conhecia cada uma daquelas outras janelas que podia ver, e também conhecia histórias sobre as pessoas por trás delas. Apenas não queria mostrar o rosto vermelho.

— Ei espera... Aqui diz qual é a solução e-

Shizuo parou de uma vez, desta vez corando violentamente sem se importar que Izaya visse sua expressão. Talvez não deixou transparecer o quão abalado ficou por que quis. Izaya também se sentiu ridículo quando leu o que teriam que fazer para ter o próprios corpos devolta.

— Nem ferrando! — protestou o guarda-costas. Izaya quis desviar sua vergonha se aproveitando do constrangimento do loiro. Deixou seu sorriso malicioso aparecer, petulante como nunca antes.

— Oe oe Shizu-chan... — começou risonho — É só uma declaraçãozinha...

— Tsc, o problema não é a declaração, babaca! — ele arrumou o óculos no rosto — É a pessoa! — cretino, acrescentou mentalmente.

— Heeeh?? Shizu-chan tem mesmo alguém que ele ame romanticamente?

— Cala a boca maldito! — cruzou os braços e também encarou o outro — Aliás, você também tem que se declarar...

— Shizu-chan, bobinho, não tem ninguém que eu ame! Menos ainda quem ME ame! — deu de ombros sorrindo como se não fosse mais uma de suas mentiras. Estava voltando a pegar o jeito, mesmo com a exposição de sentimentos que era o corpo do seu amado loiro.

— Oe pulga, não vem com essa! — Izaya riu.

— A pessoa já sabe que eu a amo! — fez um bico e negou teatralmente, fazendo uma veia saltar na testa do loiro. — Embora eu não seja correspondido...

— Não brinca comigo, maldito! — agarrou o pulso dele, surpreendendo-o. — Você já se declarou para a garota que gosta?

— Não! — Não é uma garota, Shizu-chan, seu lerdo!

— Então vamos acabar logo com isso! — começou a arrastar o inimigo para fora do apê.

— Oe Shizu-chan, me larga! — mas o loiro não tinha ouvidos para as reclamações do rapaz. Ele queria seu corpo devolta, isso era um fato, mas valia o preço? Afinal, Izaya também parecia gostar de alguém. Maldito dia que fui me apaixonar por uma pulga problemática! — Vá você se declarar!

— Heeh? Não confio em você, quem garante que eu me declarando você não vai fazer arruaça por ai com o meu corpo?

— Não quero a droga do seu corpo, Shizu-chan!! — não dessa forma!, acrescentou mentalmente. E embora a mentira fosse evidente em seus olhos, Shizuo não pareceu notá-la, justamente por sentir os efeitos daquela frase. A pessoa que ele amava não desejava seu corpo. Deixou um riso baixo escapar. O quão ridículo o monstro de Ikebukuro poderia ser?

— Quem é a pessoa? Diz o nome dela! — A franja negra estava sobre seus olhos, não permitindo ao informante que visse os tons de tristeza daqueles olhos castanho-mel. Heiwajima se virou para ele, subitamente interessado em quem conquistara o coração do informante. O moreno por sua vez riu.

— Vai ameaçá-la de morte, Shizu-chan? — quis soar sarcástico, mas sua voz mais pareceu ansiosa.

— Talvez!

— Hee!? — o sorriso no rosto loiro se desfez no momento que o moreno começou a encurralá-lo contra sua estante. Izaya se sentiu acoado pela primeira vez em anos. Encostou no móvel, completamente rodeado por Shizuo. Resolveu acabar com aquilo. O máximo que aconteceria seria receber um não — ou evidentemente uma surra pelo que faria.

Orihara Izaya diminuiu ainda mais o espaço entre ele e seu próprio rosto selando seus lábios num beijo rápido, tendo em mente beijado seu rival, e ironicamente, a pessoa que mais amava. Olhou para o rosto moreno com os olhos castanho-mel de seu amado, notando certa surpresa.

— É você, Shizu-chan, seu lerdo! — e riu nervoso, temeroso pelo que poderia acontecer.

— Interessante... — a voz de Shizuo soou irônica, quase como a de Izaya soaria se os papéis fossem inversos. O informante o olhou com uma pitada de confusão e indignação.

— Só isso que você tem a dizer?

— Só!

— Que ótimo! — disse sarcástico, tentando não demonstrar que aquela palavra lhe machucou. — Vamos procurar a pessoa que você gosta e acabar com isso! — tinha ficado irritado.

Lembrou-se de todas as provocações de seu rival; nenhuma delas parecia tão ameaçadora agora. Todas tinham um ponto em comum, fosse na escola ou mesmo depois de se formarem: seu rival apenas o provocava quando estava com alguma garota. Pensando daquela forma, pareciam nada mais do que declarações ciúmentas por parte do informante. Heeeh? Izaya com ciúmes?

O guarda-costas por sua vez riu. Uma boa gargalhada como não ria em anos. Entendeu porquê Izaya tornava-se insuportável para irritá-lo de qualquer forma. Mesmo que fossem as expressões do loiro, conseguiu perfeitamente reproduzir as expressões do moreno. Orihara era fofo quando estava com raiva — e Shizuo notou que nunca denominaria aquele homem como sendo fofo. Fitou seus olhos intensa e atentamente, como nunca fizera antes. Seus olhos castanho-avermelhados brilhavam.

— Oe, perdeu algo na minha cara? Ou melhor, na SUA cara? — questionou seu amado, ainda com tons irritados na voz, expressando uma carranca de mal-humor.

Tomou os lábios antes que tornasse a falar alguma coisa. No entanto, diferente do selinho rápido do informante, o beijo que Heiwajima lhe deu foi demorado e carregado de sentimentos, que não teve muita certeza se haviam chego ao informante.

Suas linguas se tocaram e lutaram pela posse da boca, sem se importar quantas vezes ganhava ou perdia. Mordeu brevemente o lábio inferior do moreno e o tomou para si, sentindo os movimentos que faziam, quase como se fossem feitos um para o outro.

— Eu te amo, pulga... — notou um pouco de confusão estampada nas nuances vermelhas, mas também notou alívio, malícia e alegria. Fechou os olhos selando novamente seus lábios num beijo calmo, com línguas enroscadas e mãos apalpadoras.

Quando abriram os olhos estavam com a respiração descompassada e completamente arfantes. Shizuo notou que via agora era seu moreno, seu tão odioso rival não parecia agora, tão odioso. O moreno estava corado e com os olhos semi-abertos, puxando ar para os pulmões pesadamente.

— Acho que deu certo... — comentou por fim e Izaya sorriu malicioso.

— Será? Ainda tenho dúvidas! — passou os braços envolta do pescoço do loiro atraindo-o para ainda mais perto num abraço necessitado.

Orihara preciso daquele gesto como precisava respirar. Shizuo correspondeu abraçando-o e prendendo-o a si. Inalou o cheiro do moreno, afundando seu rosto na curva do pescoço menor. Queria poder ficar ali para sempre.

Acabaram por passar horas beijando-se. Talvez tenham ido para a cama; talvez tenham feito juras de amor. Mas em nenhuma das situações, por mais que fosse uma implicância do loiro ou talvez do moreno, eles se separaram, cada um dormindo em suas respectivas casas; nunca juntos.

***

— I-ZA-YA!! — berrou o ex-barman enquanto jogava uma máquina de venda eletrônica na direção do moreno. A risada estridente do moreno se fez soar provocando o loiro. Por onde quer que passavam, a rua obtinha marcas de sua visita.

Obviamente o dia-a-dia deles era o mesmo. Obviamente a declaração de duas semanas atrás ainda fazia efeito em ambos, de modo que a cada "Suma daqui maldito!!" significava "Quero te abraçar!" e cada " É divertido, né Shizu-chan!?" significava um "Eu te amo!"

Orihara Izaya amava os humanos, e em especial, amava o monstro, também conhecido como o homem mais forte de Ikebukuro. Heiwajima Shizuo por sua vez, descobriu que também sabia o que era amar, e que todo o sentimento que batia forte e latente contra seu peito era nada mais, nada menos do que amor. Amor pelo informante mais perigoso que ja pusera os pés em seu distrito.

Com o tempo, as ruas de Ikebukuro assistiram outras lutas protagonizadas pelos mesmos personagens, umas que não envolviam placas de trânsito nem lâminas atiradas. Mas está, aah sim, está é uma outra história.

Notas finais
Espero que tenham gostado!! Arigato Gozaimasu :3♥♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!