Better Together
18 Sombras do passado
Merida estava parada diante da porta do armário já há alguns segundos. Estava procurando opção mais adequada para o que iria fazer em seguida. Olhou para a pequena chave da fechadura do armário e respirou fundo. Precisava de mais alguma coisa que pudesse incriminar Gothel de uma vez e que provasse que realmente havia alguma coisa por trás da fachada de "melhor tia do mundo". Sem pensar duas vezes colocou o pequeno objeto na tranca e virou algumas vezes. A porta se abriu com um rangido que arrepiou a garota no mesmo momento. Cheirava a poeira e madeira velha. Não devia ser aberta há anos e aquele fato só aumentou a curiosidade de Merida para saber o que a tia de Rapunzel queria tanto esconder da sobrinha.
Afastando um pouco do pó que saia do armário com a mão Merida correu os olhos por umas dez caixas muito bem empilhadas e colocadas em cima de roupas antigas e que, pela atenção da garota, também eram caras. Imaginou que eram roupas que Arianna guardara para eventos especiais e para dias específicos. Correu os olhos pelas caixas e abriu a primeira que estava em seu alcance. Era pequena e estava totalmente empoeirada, mas ao abri-la Merida soltou um pequeno arquejo de surpresa. A caixa estava cheia de porta-retratos e fotos de quando a mãe de Punzie ainda estava no colégio. Mas uma delas especificamente chamou a atenção de Merida.
Era uma fotografia onde Arianna e o pai de Rapunzel estavam usando trajes de gala ao lado de Estóico e a Valka, também vestidos elegantemente. Supondo que era a formatura de ambos, Merida observou o outro casal que acompanhava os quatro. Arqueou uma sobrancelha analisando a mulher atentamente. Seu cabelo na foto estava desbotado pelo tempo, mas a ruiva pôde ver que era um de um tom castanho escuro parecido com negro. Os olhos azuis disfarçavam a magreza e o corpo esguio, mas quando estreitou os olhos para enxergar melhor Merida sentiu o coração disparar. O rosto estava mais jovem, sem dúvida, mas a mecha amarela e verde na franja da garota da foto a denunciara.
— Não pode ser... — murmurou olhando novamente dentro da caixa que encontrara. No fundo um pequeno caderno estava enrolado em um pedaço de tecido amarelado pelo tempo.
Ela folheou as páginas com cuidado, reconhecendo a caligrafia, que embora fosse muito parecida com a da foto de Valka e Arianna, tinha melhorado bastante, sem dúvida por conta da prática.
Era um diário. O diário da mãe de Rapunzel.
Passou os dedos com cuidado sobre a capa da pequena agenda imaginando que Rapunzel jamais havia sonhado que Arianna deixara aquilo para que ela o lesse. Sequer deveria se lembrar com clareza de seus pais. Pressionou a única coisa que desejava entregar naquele momento para a melhor amiga contra o peito e quase se esqueceu de olhar as outras caixas que estavam ali. Guardou a foto dentro da primeira folha do diário e prometeu a si mesma que questionaria Soluço quando saísse dali sobre o que realmente era aquilo. Ela se levantou para procurar por mais alguma coisa interessante, mas parou na metade do movimento ao ouvir uma voz familiar, cantarolando baixinho .
Rapunzel. Rapunzel estava chegando e provavelmente Soluço não conseguiria segurá-la por mais tempo lá fora.
Contra a vontade, arrumou a caixa que tirara do lugar e fechou a porta com o mínimo possível de ruídos que conseguiu. Se desesperou quando as vozes se aproximaram e jogou a chave debaixo da porta do quarto de Gothel, disparando em seguida para a porta dos fundos pela qual entrara. Assim que a fechou, Merida viu Rapunzel se despedindo de Soluço que lhe acompanhara até a biblioteca algumas horas antes. Um suspiro de alívio saiu em meio a respiração ofegante de Merida enquanto ouvia os passos da amiga se afastando de onde estava.
Olhou para o diário nas mãos e tudo o que conseguira encontrar. Dentro de si sua mente torcia para que ali houvesse alguma coisa que ajudasse na investigação do acidente e do fim da vida que Rapunzel levara até ali.
—_______
Jack não era o tipo de pessoa que se deixava guiar pelos impulsos. Aquela era a especialidade de Merida, não a dele. Mas aquilo... Precisava contar aos outros. Uma a uma, ele tirou fotos das páginas amareladas com o celular, registrando o que vira. Tinha que sair dali, tinha que contar aos outros.
Jack achou melhor não levar a caixa. O vazio na prateleira alertaria quem quer que passasse por ali, e se Gothel descobrisse que havia algo faltando, provavelmente daria um jeito de eliminar outras possíveis provas. Não, por mais doloroso que fosse, a caixa tinha que ficar onde estava.
Com a cabeça a mil, Jack deixou o porão, agitado e pensando nas coisas que vira. Raramente se deixava guiar pelas emoções, mas naquele momento não raciocinava direito. Cruzava os corredores, distraído, quase sem pensar em onde estava.
Foi só quando ouviu passos se aproximando que ele se deu conta de como tinha sido descuidado.
— Estou dizendo. Ouvi passos no corredor. – Disse um homem.
— Não tem ninguém em casa. Só a loirinha e nós. Impossível você ter ouvido alguma coisa. Não se lembra de que a Gothel mencionou que chegaria tarde?
— Não custa nada checar não é? Você sabe que se algo acontecer com essa menina antes do combinado, nossas cabeças rolarão.
Jack se arrepiou com a frase. Se algo acontecer com essa menina antes do combinado. As vozes se aproximavam a o corredor em que estava lhe pareceu extremamente opressor. Não tinha a menor chance de se esconder ali. Então, Jack fez a coisa mais imprudente desde que havia pisado naquela casa. Escolheu uma porta aleatória e entrou para se esconder.
Ele se virou para encarar o esconderijo. Prendeu o ar sem querer, e não precisou olhar duas vezes para saber a quem o quarto pertencia. O papel de parede delicado e lilás, a cama de dossel, as cortinas douradas com bordado de sóis...
Uma porta anexa se abriu, deixando sair um pouco de vapor e logo em seguida Rapunzel, enrolada em uma minúscula toalha cor de rosa, cantarolando com os cabelos molhados, cheirando a algum condicionador caro.
Jack só conseguiu balbuciar, nervoso, sem conseguir tirar os olhos da bela visão, mas Rapunzel demorou um pouco para nota-lo. Abriu um guarda roupa enorme, tirando de lá um pijama de camiseta e short e uma calcinha cor de rosa rendada. O olhar de Jack se demorou alguns segundos na última peça.
Quando ela finalmente se virou e o viu ali, gritou tão alto que poderia acordar os mortos. Sua expressão confusa e assustada foi de Jack para a porta, esmurrada incessantemente. As vozes dos gêmeos gritavam lá fora, exigindo que ela abrisse para eles.
Rapunzel olhou da porta para Jack, um pouco assustada. Então pensou rápido, correu até a entrada e vestiu um roupão felpudo pendurado em um gancho atrás da porta.
— Só um momento! – Ela gritou para os gêmeos. Ela sinalizou para Jack se esconder atrás da porta e antes de abrir levou um dedo aos lábios. Jack assentiu. Nem era necessário pedir silêncio. Ele não daria nem um pio.
Rapunzel abriu a porta pela metade, dando aos dois brutamontes tempo para analisar a situação e entender que não era o momento apropriado para visitar o quarto de uma garota.
— Boa noite senhores. – ela sorriu seu sorriso mais inocente. – Precisam de alguma coisa?
— Ouvimos gritos. – Um deles respondeu, sem devolver o cumprimento. – Tem alguém aí com você?
— Eu escorreguei no banheiro. – ela mordeu o lábio, parecendo envergonhada. – Mas estou bem, não se preocupem.
Os dois se entreolharam, desconfiados.
— Podem olhar se quiserem. – Ela sugeriu. – Mas vou secar meu cabelo agora, então vai haver muito barulho e eu vou demorar muito. – Rapunzel explicou, frisando a última palavra e jogando a massa comprida e pesada de cabelos por cima do ombro.
Os dois reviraram os olhos um para o outro e saíram, virando a esquina do corredor.
— Obrigada por virem checar se está tudo bem! – ela agradeceu, com um risinho.
Rapunzel fechou a porta devagar e esperou o tempo de três inspirações longas antes de se virar para Jack Frost.
— Obrigado por isso. – ele suspirou, aliviado.
— Jack, o que está fazendo aqui? – ela perguntou, confusa.
— Queria ver você. – Ele mentiu, sentindo-se um pouco culpado por isso.
— E você achou que a melhor maneira de fazer isso seria sem avisar, no meio da noite, coberto de poeira? – ela brincou.
— Tive alguns contratempos para chegar aqui. Belo quarto. – ele desconversou, tentando mudar de assunto.
— Obrigada. Como você entrou aqui? Quero dizer, ninguém te viu, não é? Se minha tia descobre que você esteve aqui, manda matar nós dois.
— Sua tia nunca faria isso. Ela é sua única família e te ama, certo? – Jack ironizou, e Rapunzel ficou olhando para ele, confusa, tentando decidir se a ironia era para valer.
— De qualquer maneira, ela não está em casa. Estamos seguros por enquanto. – Ela assegurou, apenas para ser contrariada logo depois pelo rugido do motor de sabe se lá quantos cavalos do carro da tia. Rapunzel mordeu o lábio. O que faria agora? Não sabia como tirar Jack dali sem ninguém ver. Talvez fosse melhor mantê-lo ali até o dia seguinte, quando Gothel sairia para ir ao shopping fazer compras.
— Eu sou esperada para jantar com a minha tia. Acho melhor você passar a noite aqui, talvez seja mais seguro. – ela voltou ao guarda roupas, vasculhando as gavetas. Puxou um outro roupão macio e toalhas quentinhas. – Preciso secar o cabelo. Se quiser tomar um banho, posso colocar suas roupas na máquina de lavar.
Jack olhou para si mesmo, percebendo que o tom que Rapunzel usou não era apenas uma sugestão. Ele realmente estava empoeirado. Suspirando, ele aceitou, agradecendo as toalhas.
Ele se dirigiu para o banheiro, resignado em cheirar a aroma de flores pelo resto da noite.
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— Francamente, Rapunzel. Me deixar esperando? Está quinze minutos atrasada! – Gothel queixou-se, nitidamente irritada, como se esperar quinze minutos para jantar fosse a pior das ofensas.
— Desculpe, tia Gothel. – ela respondeu, num tom submisso. – Tive um acidente no banheiro e...
— Sim, eu já soube. A sua falta de cuidado não conhece limites. – ela fez cara feia para ela, fazendo uma pausa. – Você se machucou a sério?
— Não, tia Gothel. – Ela respondeu, com a cabeça baixa.
— Que ótimo. Seria terrível se eu tivesse que cancelar meus compromissos para levar você ao médico. Tenho unha e cabelos marcados para amanhã. Esse estresse que você me faz passar me faz ficar mais velha!
Rapunzel não disse nada, e a tia a observou, com a boca franzida em desaprovação. Rapunzel sabia, desde muito tempo, que quando a tia estava naquele humor, era melhor aceitar as coisas de cabeça baixa e responder com humildade. Gothel não gostava de ser desfiada, e responder... Apenas tornaria as coisas mais dolorosas. As vezes, de forma literal. Gothel sentou-se e arrumou um guardanapo elegantemente no colo, fazendo sinal para um dos funcionários servir o jantar. Ao ver que Rapunzel não fez o mesmo, ela praguejou.
— Mas que droga, Rapunzel, a queda te deixou estúpida? Bateu com a cabeça muito forte e ficou ainda mais idiota?
— Não, tia Gothel. – Rapunzel respondeu, olhando a tia.
— Então por que, criatura néscia, você não se senta e come normalmente?
— Eu... Eu estou um pouco dolorida da queda. Eu preferia não me sentar... Se não for demais, poderia pedir para ir jantar no meu quarto hoje?
Gothel soltou um suspiro.
— Certo, certo. Você sabe o caminho da cozinha, não sabe?
Rapunzel pediu licença, desviando o olhar do funcionário que a olhou com pena. Entrou na cozinha com uma expressão neutra, conversou com a cozinheira e a copeira, dizendo que estava com muita fome e se seria possível, só dessa vez mandar o dobro de comida.
As duas assentiram, com ternura. No caminho para o quarto ela tirou as roupas de Jack do seu esconderijo e ajustou a máquina de lavagem e secagem completa, fazendo tudo mecanicamente. Já não conseguia mais evitar as lágrimas rolando, e pensar por que razão a tia a tratava daquele jeito, quando tudo o que ela queria era sua aprovação e seu afeto.
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Jack secou-se com as toalhas e vestiu o roupão quentinho, amarrando firmemente na cintura. Abriu a porta só um pouquinho e espiou antes de sair, vendo Rapunzel encarando um carrinho de refeições. Ela fungou um pouco antes de virar.
— Você está chorando? – ele se aproximou, sentando-se ao lado dela com cuidado.
Rapunzel sorriu, mas Jack não acreditou nem por um segundo naquele sorriso.
— Comecei a espirrar por causa da poeira das suas roupas. Mas já coloquei tudo na máquina e em uma ou duas horas vão estar limpinhas e secas. Você está muito cheiroso – Ela disse, mudando de assunto.
— Você acha? Usei seu xampu para cabelos extremamente macios e brilhantes. – ele disse num tom sério. – A embalagem dizia que esse xampu poderia mudar minha vida.
Rapunzel riu.
— Não creio que seja tão simples assim. Eu trouxe jantar para nós. – ela comentou, destampando as travessas de comida.
— Vou jantar com você? Como em um encontro? – ele brincou, mas a brincadeira tinha um tom a mais.
Rapunzel pensou um pouco antes de responder.
— Acho que seria algo como isso, sim.
Jack sorriu.
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