Better Together
7 Quebrados
Depois de usar o celular de Jack para ligar para o pai de Soluço, os três decidiram que seria melhor para Soluço esperar na secretaria. Havia muita gente lá fora e a confusão atraiu atenção demais. Sentaram-se em um banco comprido no corredor, em frente à secretaria da escola. Jack se encarregou de enviar uma mensagem para Elinor, avisando onde estariam. Os trigêmeos estavam sentados bem no meio do corredor, brincando com o que parecia ser um jogo de cartinhas de personagens de algum desenho.
Nem Merida, nem Jack e nem Soluço tinham vontade nenhuma de falar. Cada um deles estava imerso em seu próprio silêncio sombrio e pensativo depois da cena no estacionamento. Por sorte Estóico chegou alguns momentos depois, praticamente correndo no corredor em direção a ele. Merida deu uma boa olhada nele. Esperava que o pai de Soluço fosse ao menos um pouquinho parecido com ele, mas Estóico e Soluço nem mesmo pareciam ser parentes. Exceto pela cor dos olhos, os dois não pareciam ter nada mais em comum.
Estóico era alto, troncudo e musculoso, tinha uma barba grossa e cabelos compridos amarrados em um coque. Seu rosto era marcado por sobrancelhas grossas e abaixo delas o olhar de um homem que estava acostumado a ser obedecido. Ao contrário de Soluço, Estóico não tinha lábios finos, e seu cabelo era ruivo escuro, assim como sua barba.
Ao vê-lo, Soluço deu um suspiro aliviado, apoiou as mãos no banco para se levantar, mas parou ao se lembrar que não conseguiria sozinho. Esperou seu pai vir até ele, pacientemente.
Quando o alcançou, Estóico segurou os ombros do filho, olhando profundamente em seus olhos, como se eles se comunicassem sem precisar de palavras.
–Estou bem, pai. Não estou ferido. Só arranhei os cotovelos na queda. Nenhum dano causado. – Soluço explicou, sendo prensado imediatamente em um abraço assim que a última palavra escapou dele.
Nos braços de Estóico, Soluço parecia ainda menor e mais indefeso, se é que aquilo era possível. Talvez fosse apenas por que Estóico fosse um homem enorme.
Passos apressados chamaram a atenção de Merida e seus irmãos e ela se virou para ver Elinor correndo em sua direção. Sua mãe exibia uma expressão preocupada. Ela cobriu a distância que as separava em poucos segundos, segurando o rosto da filha como se temesse que ela fosse desaparecer.
– Ah Merida! Você está bem? Me disseram que houve um acidente... – ela perguntou, preocupada, olhando-a de cima a baixo
– Estou bem, mãe. Graças ao Soluço. Ele me empurrou no último instante. – Merida explicou, fazendo um gesto de cabeça na direção de Soluço.
Elinor se voltou para ele e segurou suas mãos. Soluço corou instantaneamente. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Elinor foi mais rápida.
– Eu lhe agradeço imensamente. Se houver alguma coisa que eu possa fazer... Não está ferido, está?
– Estou bem, só alguns arranhões, nada sério.
– E você perdeu a prótese. – comentou Jack, atraindo um olhar de curiosidade de Elinor e uma carranca de reprovação de Soluço
Elinor se virou para ele outra vez e finamente notou a barra da calça dobrada pra que não arrastasse no chão.
– Oh... Eu ficarei mais do que satisfeita em pagar pela reposição. – ela se ofereceu, prontamente.
– O plano de saúde cobre. – Estóico explicou. – E de qualquer forma é uma coisa boa. Soluço não gostava mesmo daquela prótese.
– Pai! – Soluço protestou, mas Estóico apenas deu ombros.
O gigante ofereceu a mão direita para Elinor.
– Estóico Haddock.
Elinor apertou a mão dele, sua mão pequena e delicada quase sumindo dentro da de Estóico.
– Elinor Dunbroch. – Ela apertou a mão dele, tirando um pequeno cartão de visitas da bolsa e entregando-o em seguida – Se houver alguma coisa que você precise, por favor, entre em contato comigo.
Estóico correu os olhos pelo cartão de visitas com números de telefones escritos em belas letras douradas, com um fundo creme.
– Claro. – ele murmurou, ainda concentrado no cartão de visitas.
Merida foi até Soluço, sentado no banco e com uma expressão pensativa.
– Então... Quando nos veremos de novo? – Ela perguntou.
Soluço ergueu os olhos para ela.
– Talvez em uma semana. A fisioterapeuta vai tirar minhas medidas e depois talvez leve uns três ou quatro dias para minha prótese ficar pronta. – Soluço explicou.
– Três ou quatro dias? – interrompeu Jack, chamando a atenção de Elinor e Estóico. – Você vai perder muita matéria!
– Tenho certeza de que Merida não vai se importar em ajudar com isso. — Elinor disse — Se não for inconveniente para vocês, ela pode passar na sua casa após as aulas para que Soluço não perca as lições. – a mulher lançou um olhar significativo para Merida, como se dissesse que aquilo era uma ordem, e não uma sugestão. – Não é mesmo, querida?
Jack olhou para Merida, esperando que ela tivesse um ataque ou algo assim, mas surpreendentemente, ela apenas assentiu, um pouco corada.
– Claro! Quero dizer, depois do que você fez por mim... Não vai ser nenhum problema, de maneira nenhuma. – disse Merida.
– Isso seria muita gentileza sua. – Estóico agradeceu. Então tirou uma caneta e um bloco de anotações do bolso, e escreveu alguma coisa, arrancando a folhinha e entregando a Elinor em seguida. – Esse é o nosso endereço.
Elinor leu e assentiu para si mesma.
– Nós somos novos no bairro, mas se não me engano é bem perto da nossa casa. Não se preocupe, Soluço, Merida estará lá assim que sair da escola. – ela sorriu com simpatia para ele. – Agora, por favor, me perdoem, mas realmente precisamos ir. Deixei a loja aos cuidados dos funcionários, então...
Estóico assentiu.
– Então, até amanhã, Soluço? – Merida sugeriu, mordendo o lábio.
Ele sorriu para ela.
– Até amanhã. – ele confirmou, despedindo-se.
_____
No dia seguinte, Rapunzel não apareceu para a aula, o que deixou Jack com um mal humor sombrio e calado. Só falou com Merida uma única vez, para dizer que tinha enviado uma mensagem para ela e que, como resposta, Rapunzel havia dito que estava doente e que não poderia ir à aula naquele dia.
Merida não soube dizer se o silêncio de Jack a irritava ou não. É claro que ela odiava aquele ar zombeteiro dele o tempo todo, como alguém que parecia saber de uma piada engraçadíssima, mas se recusasse a contar aos outros o final. Era estranho para ela ver Jack naquele humor. Ele parecia frio e profundo, como um daqueles lagos que congelam no inverno e que não se consegue ver qual a profundidade. Quieto, frio, e sombrio. Desde que seus pais tinham se casado, Merida nunca o tinha visto naquele estado de espírito.
Abanou a cabeça e franziu a testa para si mesma. “Você não sabe o que quer, Merida. Quando finalmente esse idiota resolve te deixar em paz, você fica inquieta desse jeito.” Ela pensou. Ela deu uma olhadela rápida para ele, por cima dos livros, se recusando a admitir que se preocupava um pouquinho com ele.
O silêncio era quase excruciante e sem Rapunzel as aulas pareceram demorar o triplo do tempo para passar. Merida teve que admitir que sentia a falta dela. Quando o último sinal tocou, dispensando-os para irem embora foi quase um alívio.
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Com uma ou duas voltas a mais, Elinor conseguiu finalmente encontrar a rua em que Soluço morava. Ao achá-la, andou com o carro bem devagar, conferindo os números das casas um por um. Merida estava tão concentrada buscando a casa certa também que quase levou um susto ao ouvir Jack falar com ela.
– Ela comentou comigo que é vizinha dele. – ele disse, num tom de voz sério. Não estava olhando para ela enquanto falava, encarando a rua com olhos distantes. – Se você puder...
– Claro. – Merida assentiu. – Pergunto ao Soluço onde ela mora e dou uma passada lá, para ver se está tudo bem.
– Obrigado. – Jack respondeu com um suspiro, encontrando os olhos dela por alguns segundos.
A intensidade da preocupação que Merida viu nele a fez desviar o olhar.
– Achei, Merida. Número quatrocentos. É aqui mesmo. – Elinor comentou. – Por favor, não se esqueça de me ligar. Eu venho buscar você quando terminarem.
– Certo mãe. – Merida disse, já abrindo a porta.
– Até mais tarde, querida. – Elinor se despediu.
Merida caminhou a passos lentos parando na soleira da porta. Tocou a campainha uma vez e esperou. Mal seu dedo deixou o botão, ela ouviu um latido grosso e o som de patas vindo em direção á porta.
– Já estou indo. – Soluço berrou de algum lugar lá de dentro.
Ela inspirou fundo, alisando as roupas para tirar qualquer amassado. Alguns segundos depois, Soluço abriu a porta. Estava vestindo uma bermuda azul escura e uma camiseta preta, com os dizeres “Night Fury” escritos em verde. Um chinelo solitário no pé direito. Seu cabelo estava um pouco úmido e Merida notou que ele devia ter acabado de tomar banho. Estava apoiado em uma muleta.
– Olá... – Merida cumprimentou, meio sem jeito.
– Olá, Merida. – ele fez um gesto com a mão livre. – Entre, por favor.
Merida entrou, dando uma breve olhada na casa dele enquanto Soluço fechava a porta. As paredes eram pintadas de verde cor de musgo e os móveis confeccionados em madeira escura. O chão era todo em madeira escura e polida. Haviam armas antigas nas paredes, como machados e lanças, fazendo parte da decoração. Merida pensou em alguma palavra para tentar definir o que vira, mas não veio nada.
– Bem masculino, não? – Soluço perguntou para ela, com um meio sorriso.
Merida sorriu, sem saber o que dizer. Então alguma coisa gelada e molhada tocou sua mão e ela se virou com o susto.
– Desculpe. Esse é o Banguela. – Soluço explicou.
O cão era enorme, todo preto, com olhos verdes inteligentes. Não era de nenhuma raça que Merida conhecesse. Na verdade parecia alguma mistura maluca entre Pit Bull, Labrador e Mastim Napolitano. O cão olhou para ela e inclinou a cabeça, curioso. Merida estendeu a mão que ele havia cheirado e Banguela a farejou, obviamente descontente por não achar nada para comer. Merida se ajoelhou, sorrindo para brincar com ele, mas Banguela não parecia muito interessado em nada além de checar os bolsos da blusa dela com o focinho, desistindo quando não achou nada. No fim, deu um pulinho e lambeu o rosto de Merida, derrubando-a. Saiu correndo em seguida, deixando Merida no chão e Soluço mais do que descontente.
– Banguela! – Soluço o chamou, mas o cão já estava longe. – Me desculpe por isso, Merida.
– Tudo bem. – ela riu. – Eu adoro animais. Nunca pudemos ter na nossa antiga casa. Então meu pai me levava a um haras e tinha um cavalo que... – ela se interrompeu bruscamente, franzindo a testa.
Soluço notou o desconforto dela e tentou mudar de assunto.
– Bem. O Banguela você já conheceu. Quer ver o resto da casa? – ele sugeriu.
Merida fez que sim.
Não tinha muito mais do “resto da casa” para ver. Havia uma sala com uma televisão enorme e camisas de times famosos de futebol americano em quadros, penduradas nas paredes. Todas eram autografadas. Um sofá em couro legítimo, de três lugares. Um lavabo para visitas. Uma cozinha pequena, com os tons predominantes de cinza claro e azul escuro. Havia um segundo piso, onde o chão também era de madeira escura e polida e as paredes também eram cor de musgo. O quarto de Estóico ficava lá, no mesmo corredor do quarto de Soluço.
Merida não sabia o que esperar do quarto de Soluço. Talvez por ter vivido boa parte de sua vida com três irmãos mais novos, ela imaginasse que seu quarto seria tudo, menos arrumado. Estava acostumada ao tipo de arrumação deles, aquele tipo que, se olhasse uma única vez, acharia satisfatório. Mas se espiasse embaixo da cama encontraria meias sujas e fedorentas, xícaras, pratos, uniformes de futebol manchados, brinquedos, revistas e sabe se lá mais o que.
Mas não viu nenhuma bagunça. O quarto de Soluço era criteriosamente limpo para o quarto de um garoto. Não havia nada debaixo da cama, e a porta do guarda roupas não estava praticamente explodindo de coisas bagunçadas. O chão ali era de madeira mais clara, possivelmente cerejeira. As paredes eram brancas, com exceção de uma em um tom verde claro, cor de folhas novas – a cor dos olhos dele.
Havia uma bancada enorme, cheia de desenhos e essa era a única parte do quarto que parecia desorganizada. Soluço habilmente juntou tudo em uma pilha enquanto ela olhava o resto. Um tapete marrom redondo, grosso e felpudo logo abaixo da janela, tão grosso que Merida se sentiu tentada a se deitar nele. Assim que ela pensou nisso, o som de patas no corredor a fez se virar, e como um raio, Banguela atravessou a porta e foi direto para o tapete, como se mostrasse a ela que ali era a cama dele. Ele rolou no tapete, de barriga para cima enquanto Merida acariciava seu pescoço.
– Acho que agora está tudo em ordem. – Soluço anunciou, puxando uma cadeira para ela.
Merida deixou Banguela no chão e tirou a mochila das costas, separando as lições que Soluço teria que estudar.
– Quer começar por matemática? – ela sugeriu.
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Quase duas horas depois Merida e Soluço tinham revisto toda a matéria daquele dia. Enquanto guardava os cadernos na bolsa, Merida se lembrou de algo e virou-se para Soluço.
– Ah... Eu nunca te agradeci por ter... Você sabe, me salvado. – Merida disse, olhando-o nos olhos.
– Aquilo? Não foi nada. – Soluço fez um gesto de desdém. Seu rosto ficou pensativo por alguns segundos. – Não pensei que o que Jack disse te irritaria tanto. Sobre nós dois. – ele acrescentou, com cautela.
– Não! Não foi o que ele disse! – Merida explicou, gesticulando furiosamente. – É que ele é sempre assim. Sempre faz piada com tudo.
– Rapunzel me contou que ele não conheceu a mãe. – Soluço disse baixinho. – Talvez essa seja a maneira dele de lidar com isso, assim como a sua é... – Ele se calou, desviando o olhar, constrangido.
– O que mais Rapunzel te contou? – Merida perguntou.
– Bem... Jack disse a ela que você perdeu o seu pai, e a sua casa. Essas coisas acabam nos marcando, de uma ou de outra forma.
Merida se calou por um instante, amaldiçoando Jack por expor a vida dela para uma garota que tinha acabado de conhecer. Mas surpreendeu-se por não estar brava com Rapunzel. Ela simplesmente falava muito, não podia evitar. Deve ter deixado aquilo escapar em algum momento que Soluço estava ouvindo e ela não estava presente.
– Jack nunca conheceu a mãe. Você perdeu o seu pai. Rapunzel perdeu os dois pais no mesmo dia, em um acidente de carro. E eu... perdi minha mãe e uma perna em um acidente também.
– Eu... – Merida começou, mas Soluço não a deixou terminar.
– O que eu quero dizer... – Soluço disse, dando um tapinha na perna esquerda, com um meio sorriso. – Nós estamos todos quebrados, de alguma forma. Mas quando eu olho para você, Merida, eu vejo alguém que está tentando se isolar. Não faça isso. Você pode se apoiar em nós, você sabe.
Merida sorriu e segurou a mão dele.
– Obrigada. Agora eu sei.
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