Better Days

8 Capítulo 8


Uma semana havia passado desde que Darcy aparecera na porta dos Benedito. Uma semana desde que o homem que ela costumava pensar que era o amor de sua vida voltara. Bem, é verdade que ele já estava no Vale do Café há mais tempo, e esse foi um motivo de tremenda discussão entre ela e seus familiares.

Não apenas todos sabiam que Darcy estava de volta, mas Ofélia havia inclusive encontrado com ele. Elisabeta viu-se furiosa e alfinetando toda sua família por ninguém sequer mencionar a possibilidade de que ele procurasse por Thomas. E era assim que seu temperamento estava nos últimos dias: reativo, irritadiço, triste.

Nunca preparara-se adequadamente para aquele momento. E se fosse sincera, talvez sequer fosse capaz. Nada a prepararia para o impacto de ver Darcy novamente, da inundação de sentimentos em sua vida. Era como se uma parte dela houvesse despertado ao vê-lo, e ainda não sabia o que fazer com tudo isso.

Acabara de sair de uma discussão com Jane e ao sentar em sua cama mal podia acreditar que fora capaz de brigar com a irmã. Jane era a pessoa mais doce e sensível que Elisabeta conhecia, e apenas tentava explicar que não fora a intenção de nenhum deles esconder tal informação. E ao perguntar como Elisabeta se sentiria se soubesse que ele estava no Vale do Café e Darcy não fosse procura-la, a mais velha das Benedito havia saído da mesa sem olhar para trás.

Foi Felisberto quem entrou em seu quarto, com uma batida leve na porta. Elisabeta rapidamente limpou algumas lágrimas que caiam, e encarou o pai. Felisberto abriu um sorriso compreensivo, mas suas palavras eram claras.

— Você precisa deixar Darcy ver o menino. – ele disse.

— Eu não impedi Darcy de...

— Minha filha, já tivemos essa conversa. – ele sentou-se ao lado dela. – Darcy está respeitando suas regras. Trouxe Tom para casa tão logo o menino apareceu na casa dele. Não veio mais aqui.

— Eu sei. – Elisabeta respirou pesadamente. – Mas por que agora, papai? Darcy teve quase sete anos.

— Elisa... por que não agora? – Felisberto acariciou o rosto dela. – Eu sei que você está inundada de sentimentos, mas...

— Eu não quero impedi-lo de ver Tom. – Elisabeta escondeu o rosto com as mãos. – É apenas dolorosa demais a ideia de conviver com Darcy.

— Você não precisa estar junto.

— Preciso. – ela suspirou. – E se Darcy contar à Tom que é o pai dele? Eles mal se conhecem. Você sabe como Thomas reagiria.

— Elisa, você precisa falar com Darcy. Você está sem controle desde que ele voltou. – Felisberto a puxou para seus braços. – Não é aqui, em seu próprio mundo, que você vai resolver seus problemas.

— Parece que sou uma covarde. – ela resmungou.

— Você não é. Elisabeta, olhe para mim. – ela fez o que o pai pediu. – Você é uma fortaleza. Passou por coisas que fariam a maioria das pessoas desistir. Você é uma mãe maravilhosa. Só está confusa.

Elisabeta deixou as lágrimas caírem. Estava confusa, estava com medo. Não apenas por ela, mas também por seu filho. O menino que jurara amar e proteger, e que não merecia nenhuma decepção.

— Olhe, amanhã teremos a festa de aniversário de Brandão. Todos estarão aqui... – Felisberto arqueou a sobrancelha, sugestivamente.

— Está bem.- ela assentiu.

##

Darcy estava começando a ficar impaciente. Queria ver o filho, queria conversar com Tom. Havia tanto ainda a descobrir, tantas coisas a perguntar. Mas Elisabeta não dera mais nenhum sinal. Quando Thomas apareceu em sua porta dois dias antes, Darcy mal soube como se comportar.

Optou por levar o menino para a casa dos Benedito, com a esperança de que Elisabeta finalmente permitisse que passassem algum tempo juntos. Mas foi recebido por Ofélia, e sequer teve tempo de perguntar por Elisabeta. E desde então esperava por um contato.

Queria respeitar as regras impostas por ela, mas não permitiria que Elisabeta o mantivesse longe do menino. Ainda não sabia como agir, mas cogitava ir a casa dos Benedito naquela casa, e só sair de lá com uma resposta positiva. Por isso foi pego de surpresa quando Mercedes anunciou que Elisa o aguardava no escritório.

Ela estava de costas quando ele chegou. Analisava os livros na estante, sua mão deslizando pelos volumes. Sentiu seu coração acelerar pela presença dela, ao mesmo tempo em que o perfume de Elisabeta impregnava o ambiente. Se fechasse os olhos poderia voltar ao passado, poderia passar os braços ao redor dela.

— Elisa... – ele suspirou, entrando de vez no ambiente.

— Darcy, oi. – o sorriso dela foi um reflexo, diante de tantas memórias que a cercavam.

Darcy sorriu também, e os dois sentiram o mundo congelar por alguns segundos. Como se os últimos anos de suas vidas fossem um pesadelo, como se ainda estivessem em uma bolha apaixonada, onde nada mais existia, nada mais importava. Mas a realidade os atingiu como um raio, fazendo seus sorrisos murcharem.

— Eu devia ter vindo antes... – ela iniciou, em voz baixa. – Estou tentando entender tudo...

— Eu entendo. Tem muita coisa que eu também preciso entender.

Elisabeta respirou fundo, encarando as próprias mãos.

— Não sou capaz de conversar com você sobre tudo o que aconteceu. Não sem iniciarmos mais uma briga. – ela foi sincera.

— Elisa, eu... – ele conteve o ímpeto de se aproximar.

— Você quer se aproximar de Tom, e eu sei o quanto ter um pai é importante pra ele. – Elisabeta tomou coragem pra encará-lo novamente. – Mas não é momento de dizer que você é o pai dele.

— Eu quero conviver com ele. – a voz de Darcy estava embargada.

— Você precisa me prometer que não vai dizer nada. Nós vamos contar à ele no momento certo.

— Mas Elisa, você não acha que é pior? – perguntou sinceramente, e a pureza na voz dele fez com que Elisabeta fosse igualmente sincera.

— Eu preciso saber que você não vai embora. Que você não vai virar as costas pra ele.

Darcy secou uma lágrima que caiu, e viu os olhos de Elisabeta também se encherem de lágrimas.

— Eu entendo. – Darcy suspirou pesadamente. – Mas eu não vou. Eu já cancelei todos os acordos para as vendas de propriedades, já enviei um representante à Londres.

— Você... – ela arqueou a sobrancelha.

— Eu estou transferindo todos os negócios para o Vale do Café, Elisa. – ele disse, decidido. – Não vou perder mais um dia da vida do meu filho.

Elisabeta sentiu as lágrimas correrem, e Darcy não mais resistiu a vontade de se aproximar. Mas deteve-se ao chegar perto dela, retirando um lenço do bolso, que Elisabeta aceitou sem pestanejar.

— Hoje no final da tarde comemoraremos o aniversário de Brandão na casa de meus pais. – ela disse, desviando do olhar dele. – Você será bem recebido.

E então Elisabeta saiu do escritório e da Fazenda Ouro Verde, sem olhar para trás.

##

A mesa no jardim dos Benedito estava lotada de quitutes e guloseimas. As crianças se revezavam para pegar doces longe do olhar severo de Dona Ofélia, e toda a família e amigos mais próximos já estavam espalhados por todos os lados. Não havia nada que Ofélia gostasse mais do que ver a casa cheia.

Elisabeta ainda não havia saído de seu quarto, que de repente foi invadido por Júlia, Helena, Clara e Vitória. Júlia era a filha mais velha de Jane e Camilo, e tinha uma personalidade que lembrava muito mais a avó Julieta do que os pais. Helena e Clara eram as filhas de Brandão e Mariana, e como era de se esperar, eram duas espoletas. Vitória era a mais tímida de todas, sempre no mundo da lua, tal qual sua mãe Cecília, mas sorridente como o pai Rômulo.

As quatro eram as meninas Benedito, em sua versão melhorada, Elisabeta costumava dizer. Talvez porque agora tivessem cinco meninos para conviver, era quase um alívio quando o quarto era invadido por elas, e não pela gritaria e bagunça de Tom, Arthur, Mário, Augusto e Otávio.

Cada um dos netos de Ofélia e Felisberto tinha sua própria personalidade, e era fantástico para todos vê-los crescendo e se desenvolvendo. Arthur era tímido como Jane, enquanto Mário era uma criança independente e inteligente. Augusto e Otávio eram opostos, e o que Augusto tinha de Randolfo, o mais novo tinha de Lídia.

— Tia Elisa! – as meninas gritaram ao mesmo tempo.

— Em que posso ajuda-las? – Elisabeta terminava de arrumar os cabelos.

— Mamãe disse que você precisa ir lá para fora. – Clara disse, esbaforida.

— Tia Mariana disse que vovó vai enlouquece-la. – Júlia riu.

— Mas eu estou arrumando os cabelos. – Elisabeta sorriu.

— Isso não é desculpa! – a voz de Mariana invadiu o ambiente. – Elisa, mamãe está impossível hoje.

— Vovó está sempre impossível. – Helena cutucou a irmã menor.

— Sempre impossível. – Clara balançou a cabeça.

— E vocês quatro podem ir brincar. – Mariana acenou com a mão. – Ou os garotos vão comer todos os doces.

— Ah, não! – Vitória reclamou, e as quatro saíram correndo.

— Meu Deus, elas crescem rápido demais. – Elisabeta sorriu ao ver as sobrinhas.

— Sim, ontem mesmo tínhamos choro de bebê em todos os cômodos. E agora temos demônios por todos os lados. – Mariana revirou os olhos.

— Mariana! – Elisabeta riu alto.

— Mas eu não estou aqui por causa disso. Papai me disse que Darcy virá. – ela encarou Elisabeta com preocupação. – Como você está?

— Apavorada. – Elisa confessou. – Mas combinamos de não dizer nada à Tom por enquanto.

— Então vamos lá para fora. – Mariana sorriu. – Afinal o mínimo é que Darcy a veja deslumbrante e feliz com sua família.

— Mariana... – Elisa ralhou.

— Vamos logo!

A primeira coisa que Elisabeta avistou quando chegou ao jardim foi Tom pegando um doce da mesa principal, quando Ofélia estava de costas. O garoto correu até os primos, mostrando a delícia como um troféu. Mas seus olhos logo encontraram os de Elisabeta e seu sorriso se tornou ainda maior.

— Mamãe! – o menino correu até ela, jogando-se em suas pernas.

— Tom, você vai me derrubar. – disse, em um sorriso. – O que é que você estava pegando na mesa?

— Um doce. Apostamos quem seria o primeiro a ser pego por vovó. Eu digo que é Arthur.

— É claro que será seu primo. – Lídia se aproximou, abraçando Elisabeta. – E então denunciará todos vocês.

— Tia Lídia! Não estrague a brincadeira. – Tom reclamou.

— De qual brincadeira estamos falando? – Rômulo e Cecília se juntaram a eles.

— Nenhuma. – o menino riu.

Rômulo então o levantou sem dificuldade, jogando Tom por cima de seus ombros, até o garoto ficar quase de cabeça par baixo.

— Vamos, me diga! – Rômulo disse, sorrindo.

— Tio Brandão! – Tom gritou, entre gargalhadas.

— Ora, alguém grita por socorro! Este é um trabalho para o exército brasileiro. Vamos, Randolfo! – as palavras de Brandão atraíram a atenção dos outros meninos, e rapidamente todos se juntaram.

— Mas eu não sou do exército. – Camilo juntou-se a eles. – Seremos eu e Rômulo contra o Exército!

— Eu quero ser do exército! – Augusto e Otávio gritaram em coro.

As irmãs Benedito apenas observavam a cena, maravilhadas. Aos poucos o jardim se tornou uma grande brincadeira, e todos os primos corriam livremente, entre gritos e risadas. Rômulo comandava a brincadeira, enquanto todos os outros cunhados participavam.

— Vocês não derrubem a minha mesa! – Ofélia bradou. – Deu muito trabalho.

— Deixe as crianças, Ofélia. – Julieta se aproximou, enquanto Aurélio se juntava à brincadeira.

— Ara, Dona Julietinha. – ela sorriu. – Que bom vê-la por aqui.

— Não perderíamos uma reunião da família Benedito.

Julieta avistou Elisabeta conversando com as irmãs, e pediu licença para Ofélia.

— Elisa, minha querida. – Julieta sorriu. – Eu queria me desculpar por toda confusão que causei.

— Julieta, não precisa se desculpar. – Elisabeta sorriu, sincera. – Você não teria como saber que Darcy viria aqui.

— Eu achei que ele soubesse de tudo. – a mais velha comentou.

— Ele foi comunicado, Julieta. – Elisa suspirou. – Mas eu não quero pensar nisso agora. O importante é protegermos Tom.

Foi nesse momento que Darcy apareceu no jardim, e prendeu a respiração ao ver todo congelarem em suas posições por alguns segundos. Mas logo Felisberto se aproximou com um sorriso amigável.

— Darcy, que bom vê-lo. – cumprimentou.

— Digo o mesmo, seu Felisberto. – Darcy sorriu genuinamente.

— Darcy! – Tom gritou em meio a brincadeira, e correu em direção ao recém chegado. – Você veio para o aniversário do Tio Brandão?

— Pode apostar que eu vim! – Darcy bagunçou os cabelos do garoto, como já era um costume entre eles.

E talvez fosse o sorriso que Tom continha nos lábios, sua forma animada de falar com Darcy. Talvez fosse o brilho nos olhos do inglês, ou a paciência que demonstrou quando todas as crianças se aproximaram fazendo perguntas ao mesmo tempo. O certo era que aos poucos todos relaxaram naquela interação.

Antes que pudessem perceber, Darcy já era um dos mocinhos da brincadeira. Quando levou Tom para seus ombros, fazendo o menino ficar muito mais alto que qualquer um dos outros, até mesmo as irmãs Benedito sorriram. E ao fim da brincadeira, quando Tom pulou nos braços de Darcy em um abraço, Ofélia deu-se por vencida.

— Vamos todos comer! – ela anunciou, com um sorriso nos lábios.

Darcy aproximou-se de Elisabeta apenas na hora da despedida. Sabia o quanto era difícil para os dois a proximidade, e não havia nada que quisesse menos do que incomodá-la naquela noite.

— Obrigado, Elisa... – ele sorriu. – Foi muito importante estar aqui hoje.

— Tom se divertiu. – ela também sorriu.

— Eu também me diverti. Muito. – Darcy tocou seu ombro.

Foi um toque amigável, inocente, mas pareceu queimar os dois.

— Boa noite. – ele disse rapidamente, e ouviu um sussurro em resposta