Better Days
3 Capítulo 3
Quando Darcy chegou para a reunião com Julieta, alguns dias depois, foi tomado pela surpresa. Esperava encontrar aquela mulher séria, enlutada, que não tinha tempo ou paciência para conversas sobre a vida. Em seu lugar estava alguém muito mais jovem, com cores claras e uma aliança brilhante em seu dedo.
Recebeu Darcy com um abraço e um sorriso, antes de convidá-lo para entrar, e como em quase todas as suas reuniões, apresentar a ele uma mesa lotada de quitutes. Darcy salivou apenas em pensar em todas as combinações de sabores que estavam diante dele, e mesmo surpreso aceitou de bom grado o convite da Rainha do Café.
— Me desculpe por recebe-lo apenas agora. – ela sorriu. – Já estou na cidade há alguns dias, mas estava com muita saudade de minha família. Lembra-se de meu filho, Camilo?
— É claro. Fomos colegas em algumas cadeiras. Nunca mais o vi, está agora no Vale do Café? – perguntou, genuinamente curioso.
Ele e Camilo nunca chegaram a ser grandes amigos, mas tinham uma relação cordial. Se sua memória não falhava, voltara ao Brasil na mesma época que Darcy retornara à Europa. Mas, pelo que recordava-se do rapaz, não diria que era um homem do campo.
— Sim. Camilo casou-se com Jane Benedito.
Darcy não percebeu seu sorriso murchar, mas isso não passou despercebido à Rainha do Café. Sabia bem da antiga relação de Darcy com Elisabeta.
— E me deram dois lindos netos. – Julieta manteve o sorriso, desviando o assunto. – Mas me conte de você, Darcy. Como tem sido sua vida? Seu pai costumava falar pouco de você.
— Imagino que não haja muito a ser dito. – Darcy sorriu, educado. – Retornei à Europa e fiz alguns cursos de aprimoramento. E nos últimos anos estive cuidando dos negócios dos Williamson na Inglaterra.
— E como é estar de volta ao Brasil? – Julieta servia-se de um pouco de café.
— Bastante diferente do que eu esperava, confesso. Mas espero resolver todas as pendências e retornar à Inglaterra o mais breve possível.
— Pretende retornar? – Julieta pareceu surpresa. – Quando recebi seu telegrama me perguntei se estaria finalmente disposto a retornar ao Vale do Café.
— Não há nada que me prenda ao Brasil. – disse, com um sorriso triste. – Vivi muitas histórias no Vale do Café, mas está tudo muito distante agora.
— Nunca entendi suas escolhas. – a mulher tinha um olhar severo, que logo suavizou. – Mas acredito que precisamos respeitá-las. Vamos aos negócios?
Discutiram por mais de duas horas acerca dos rumos da ferrovia e dos cafezais que tinham em parceria. Darcy estava decidido a transferir estes negócios para a Rainha do Café, e apenas para ela. Por isso decepcionou-se ao ouvir de Julieta que só poderia realizar essa negociação dentro de alguns meses.
Sua estadia no Vale do Café parecia cada vez se estender mais, e isso o deixava frustrado. Era cada vez menos provável que passasse todo aquele tempo sem ouvir sobre Elisabeta, ou sem saber sobre sua vida. Ao longo da conversa com Julieta já ficara sabendo mais informações do que gostaria à respeito dos Benedito.
Sabia que a saúde de Ofélia e Felisberto ia muito bem, e alegrou-se por isso. Soube de Jane, Camilo, e seus filhos. Moravam em uma Fazenda menor, perto da propriedade dos Bittencourt. Foi informado por Julieta que Mariana e Coronel Brandão estavam casados, o que o surpreendeu imensamente.
Foi também informado que Julieta agora era esposa de Aurélio, e que Ema, a melhor amiga de Elisabeta, morava em São Paulo com o marido e os filhos. Eram apenas pedaços da vida daquelas pessoas que um dia foram parte de seu futuro, mas cada desdobramento fazia com que Darcy sentisse ter perdido uma parte importante de si mesmo.
Quando Darcy saiu da casa de Julieta sua mente já girava com tantas informações. Após o encontro com Ofélia, ele evitara ir à cidade. Passava a maior parte do tempo em sua propriedade, mas naquela tarde as paredes pareciam ganhar vida, e Darcy sentia-se sufocado por lembranças.
Lembrava-se das festas da cidade, dos bailes, das madrugadas que passara com as irmãs Benedito, com Elisabeta em seus braços. Conseguia imaginar Jane, a doce Jane, com seus filhos. E lembrava-se de quando conversavam sobre crianças, de quando imaginavam os filhos das Benedito correndo pela casa de Ofélia.
Não era difícil imaginar que Elisabeta também tivesse filhos. Era mais velha do que Jane, e com base em suas cartas, estava comprometida com um casamento naquele mesmo ano. Era doloroso comprovar o quanto a vida de todos parecia ter seguido os rumos planejados, exceto a sua.
Depois de Elisabeta nenhuma mulher fora capaz de fazê-lo sonhar. Tivera um ou dois namoricos, mas quando a relação ficava mais séria, Darcy acabava por terminar tudo. Não conseguia imaginar sua vida ao lado de alguém que não fosse Elisabeta, e seus olhos rebeldes, sua forma de encarar a vida.
A amava, e profundamente. O maior obstáculo de estar no Vale do Café era que esse amor sufocado era trazido a superfície a todo momento. Aquecia seu coração para segundos depois a realidade se abater sobre ele. E já aceitara, há algum tempo, que não superaria seu amor por Elisabeta Benedito.
Mas precisava esfriar a cabeça, por isso viu-se saindo de casa novamente e cavalgando até uma parte tranquila da cachoeira. O livro que estava lendo estava em um de seus bolsos. Amarrou Brisa em uma sombra, e desceu as pedras rapidamente, com uma agilidade que nem sabia que ainda podia ter.
Dobrou a barra das calças e da camisa, e respirou o ar puro do Vale do Café. A queda d’água ficava longe dali, e o som era apenas da água correndo tranquilamente. Era seu lugar preferido para banhar-se com Elisabeta, e perdera as contas de quantos piqueniques realizaram ali.
A medida que as páginas do livro iam sendo viradas, Darcy viu sua ansiedade diminuir. Sua mente já estava dominada pela história que lia, e aos poucos os pensamentos sobre Elisabeta e os Benedito ficaram em segundo plano. Pelo menos naquela tarde pretendia esquecer a realidade.
Pouco tempo depois, porém, aqueles gritos e risadas que já estavam se fazendo habituais invadiram seus ouvidos. Darcy levantou os olhos do livro apenas para ver aquelas crianças, que parecia encontrar em todos os momentos em que pedia paz, aproximando-se, uma a uma.
— Senhor Darcy! – o pequeno Arthur acenou, fazendo-o sorrir e acenar de volta.
Estavam novamente apenas os cinco meninos, que logo deixaram parte das roupas jogadas pelo local e entraram na água. Darcy finalmente respirou aliviado, pois esta era uma parte bastante rasa e com pouca correnteza, e era bom ver que os garotos não estavam metidos em nenhuma confusão.
Os meninos riam e jogavam água um no outro, sob protestos de uns e promessas de vinganças de outros. Darcy os observava com curiosidade. Viviam uma vida muito mais simples do que a dele, caçando travessuras e andando livremente pelos campos do Vale do Café.
Perguntava-se sobre seus pais. Tinha certeza de que não imaginavam as confusões que aprontavam, do contrário haveria sempre algum adulto a tiracolo. Mas eram crianças espertas, e Darcy não se surpreenderia se cegassem os adultos, buscando novas aventuras e desafios.
Voltou à sua leitura, agora com um som ambiente muito menos pacífico, mas com um sorriso no rosto. Ao menos até sentir alguém o observando, e ver diante de si o líder dos meninos, Tom.
— Tom, como vai? – disse, estendendo a mão para o garoto.
— Senhor Darcy! – o garoto apertou sua mão.
— Você pode me chamar apenas de Darcy.
— Certo... Quando eu posso ver a Brisa? – o garoto perguntou, arregalando um pouco os olhos.
— Você pode ver Brisa a qualquer momento. – Darcy ergueu a sobrancelha. – Montar Brisa apenas quando sua mãe deixar.
— E se eu disse que minha mãe deixou? – perguntou, esperançoso.
— Eu preciso que sua mãe me diga isso. – Darcy sorriu.
— Mamãe anda ocupada escrevendo coisas. – o garoto bufou. – Tem sido trabalhoso tirá-la do escritório.
Darcy riu das expressões do garoto.
— Trabalhoso, é? – Darcy coçou a cabeça.
— Eu sou o homem da casa. – o garoto cruzou os braços, sério. – Eu tenho que cuidar dela.
— Então sua mãe tem sorte de ter tal segurança. Sua mãe escreve coisas, como um trabalho?
— Escreve para o jornal da capital. – deu de ombros. – Vovô diz que sou pequeno para ler o que ela escreve. Eles me dão livros de crianças.
— Ler é um hábito bastante saudável, Tom. – Darcy elogiou.
— Você gostava de ler quando era do meu tamanho? – o menino perguntou, curioso, olhando para o livro que Darcy tinha nas mãos.
— Eu sempre gostei de ler. Também gostava de tocar piano. – Darcy recordou-se.
— Não sou bom no piano. Mário e Júlia sabem tocar melhor do que eu, e Augusto sabe cantar. Os outros ainda são pequenos. – e o tom dele fez Darcy perceber que algo naquilo incomodava o garoto.
— E não há nada que você saiba fazer melhor do que seus amigos?
— Eu já sei escrever e fazer contas. Os outros ainda não conseguem. – o garoto disse, orgulhoso. – E nado muito bem, meus tios dizem que sou um peixe. E também sei cavalgar sozinho.
— Viu, só? – Darcy sorriu, e então reduziu a voz. – Todos tem talentos diferentes. Eu só aprendi a nadar quando já era adulto.
— Verdade? – o menino ficou surpreso.
— Onde eu morava não havia rios como aqui. Alguns amigos costumavam rir quando cheguei ao Vale do Café, e foi só então que aprendi. Mas ainda prefiro manter os meus pés na terra.
— Nadar é muito fácil. – o garoto cruzou os braços, orgulhoso de si mesmo.
— Mas não o piano. – Darcy provocou.
— Mamãe diz que não preciso me preocupar. Se treinar bastante posso ser bom também.
— Sua mãe sabe das coisas, garoto. – Darcy sorriu. – E quando conseguir autorização, você sabe onde me encontrar.
O menino sorriu e novamente Darcy teve aquela sensação de familiaridade. Mas antes que pudesse ligar os pontos, Tom já corria em direção aos amigos, entrando no rio em meio a risadas.
##
Os garotos chegaram disfarçadamente à casa dos avós. Nenhum deles havia pedido permissão para ir ao riacho, e esperavam que ninguém percebesse. Por isso fizeram silêncio ao subir as escadas, mas antes que pudessem abrir a porta, a voz da avó foi ouvida.
— Onde os senhores pensam que estavam? – disse, séria, fazendo os cinco pularem.
— No rio. – Arthur respondeu, prontamente, fazendo os outros resmungarem.
— Arthur! – Tom o repreendeu. – Vovó, nós estávamos na parte rasa onde o tio Brandão sempre nos leva.
— Com a autorização de quem, sob a supervisão de quem? – ela irritou-se.
— Mas, vovó... – Tom tentou argumentar.
— Nada de mas. Estão todos de castigo. Sabem que não podem ir sozinhos. – resmungou. – Era muito mais fácil ter cinco meninas. Olhem suas primas, comportadinhas, brincando de bonecas.
— Meninas são chatas. – Mário reclamou.
— Não fazem nada divertido. – Augusto acrescentou.
— E a senhora sempre diz que minha mãe dava trabalho. – Tom a desafiou.
— Mas será que tinha mesmo que ser linguarudo que nem sua mãe, Thomas Benedito? – ela cruzou os braços.
— Deixa o menino, Ofélia. – o avô chegou com um sorriso.
— Felisberto! – Ofélia resmungou. – Eles estavam no rio!
— Tom já explicou que estavam onde Brandão os leva. Não tinha perigo nenhum. – Felisberto disse, calmamente.
— Você vai estragar esses meninos, Felisberto. – Ofélia entrou em casa reclamando, enquanto os garotos continham os sorrisos.
Assim que a porta se fechou, o avô virou-se para os cinco.
— Não façam mais isso. Querem matar sua avó e suas mães de susto? – disse, em tom sério.
— Desculpe, vovô. – todos disseram, em coro.
— Jane já esteve a sua procura, Arthur. – Felisberto sorriu. – Vou deixa-lo com sua avó Julieta. Sua irmã já está lá.
— Vovô! – o garoto reclamou. – Nós íamos jogar agora.
— Amanhã. – Felisberto sorriu. – Os outros podem entrar. E Tom, sua mãe está furiosa com você.
— O que foi que eu fiz dessa vez? – o menino resmungou.
— Saiu sem avisá-la. – o avô sorriu. – Sabe que sua mãe está preocupada, por favor a avise quando sair, sim?
— Mamãe agora está sempre escrevendo. – o garoto reclamou, enquanto os primos entravam em casa. – Como ela sabe que eu não avisei, se nem presta atenção?
— Thomas, Elisabeta está terminando o livro. – Felisberto se aproximou, acariciando os cabelos do neto. – São só alguns dias...
— Eu queria passar mais tempo com ela. – o menino olhou para o chão.
— Então não seja orgulhoso como sua mãe, e vá dizer isso para ela.
Tom pensou por alguns segundos antes de entrar em casa. Caminhou decidido até o escritório de Elisabeta, batendo na porta antes de entrar.
— Mamãe? – o menino chamou.
— Tom! Meu amor, onde você estava? – Elisabeta respirou aliviada.
— Eu fui para o rio com meus primos. – ele olhou para baixo.
— Nós já conversamos sobre isso... – Elisabeta deixou os papeis, virando-se para o filho.
— Eu sei. Me desculpe. Vovô já falou conosco. Eu não vou fazer de novo.
Tom se aproximou da mãe, e Elisabeta sorriu, acariciando o rosto dele.
— Você é a coisa mais preciosa do meu mundo. – beijou a testa do filho. – Pare de fazer coisas perigosas e me enlouquecer.
— Mamãe! – o menino reclamou.
— O que foi? Você não quer ver sua mãe biruta? – Elisabeta fez cócegas no menino, beijando sua bochecha ao mesmo tempo e arrancando risadas dele.
— Para! – ele pediu, entre gargalhadas.
Elisabeta puxou Tom para seu colo, de repente, e pegou os papeis que estavam em sua escrivaninha.
— Veja, está quase tudo pronto. – disse, orgulhosa. – Sei que estou trabalhando demais ultimamente, mas eu prometo que as coisas vão melhorar.
O menino aninhou-se no colo da mãe, e suspirou.
— Tudo bem. Mas será que podemos passear amanhã?
Elisabeta sorriu, apertando-o ainda mais. Não era fácil criar uma cabecinha tão parecida com a sua, mas fazia o melhor que podia.
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