Better Days
15 Capítulo 15
Darcy revirou todas as gavetas, tapetes e pertences que o pai havia deixado na Fazenda Ouro Verde. Abriu cada caixa, procurou embaixo dos móveis, porque tinha certeza que, se aquelas cartas ainda existissem, ele as encontraria no Vale do Café. Archiebald Williamson jamais levaria esse segredo para a Inglaterra.
Quando terminou o quarto de seu pai, Darcy passou a procurar atrás de todos os quadros da casa por algum cofre que não conhecesse. Chegou ao pé da escada e avistou Elisabeta parada, trêmula. Em suas mãos havia dois bolos de cartas, e o coração de Darcy deu um sobressalto.
— Você achou... – ele suspirou, descendo rapidamente.
— Estavam no escritório. – Elisabeta olhava para os papeis.
Suas cartas. Fechadas. Sem qualquer sinal de que foram abertas, ao contrário das de Darcy. As dele estavam abertas, e de repente fazia sentido. As cartas de Darcy foram, supostamente, respondidas por ela. As dela foram respondidas com informações que Lorde Williamson poderia ter, se soubesse que ela estava grávida.
Darcy pegou o maço de cartas, observando a caligrafia delicada de Elisabeta. Sentou-se no sofá e não conseguiu perder mais nenhum segundo. Abriu a primeira, e Elisabeta respirou fundo, escolhendo uma das cartas de Darcy.
“Vale do Café, Setembro de 1910
Meu amado Darcy,
Espero que tenha feito uma boa viagem para a Inglaterra. Sei que combinamos que me escreveria, mas era um assunto urgente. Mal consigo conter a emoção ao escrever-lhe. Meu amor, eu estou apavorada. E ao mesmo tempo, estou radiante. E você deve estar se perguntando o que aconteceu. Bem, prepare-se. Por favor, sente-se.
Darcy, eu estou grávida. Tive sintomas estranhos e fui a uma consulta. O médico foi categórico. Vamos ter um filho... “
Darcy soluçou ao ler as palavras, chamando a atenção de Elisabeta. Ela parecia tão esperançosa, tão feliz. Darcy sentiu o coração apertado, e não conteve seu choro ao ler o resto da carta. Ela contava sobre o filho deles, dizia que estava ansiosa por vê-lo novamente. Mas pedia que, por favor, ele não largasse o curso por sua causa.
“Londres, Outubro de 1910
Estimada Elisa,
Estou tremendo enquanto escrevo esta carta. Não consigo compreender suas palavras. Estava tudo tão bem quando eu sai do Vale do Café, menos de 30 dias atrás. Se suas palavras foram motivadas pelo medo de que eu não retorne, eu lhe asseguro que retornarei. Não há nada que eu queira mais do que vê-la novamente, e segurá-la em meus braços. Por favor, me explique suas motivações. Eu respeitarei seu pedido de não procura-la no Vale do Café, embora meu desejo seja embarcar no primeiro navio. Mas eu a amo, Elisa, e você bem sabe.”
As palavras dele continuavam, mas Elisabeta mal conseguia enxerga-las, com tantas lágrimas em seus olhos. Encarou Darcy, que continuava com a primeira carta nas mãos, e olhos dele encontraram os dela. Houve uma explosão neles, e Elisabeta viu-se correndo para os braços de Darcy.
Ele a puxou para seu colo, passando os braços ao redor dela, segurando-a firme. Seus corpos foram tomados pelos soluços, e as lágrimas eram tão insistentes que desistiram de contê-las. Era uma injustiça tão grande que estivessem ali, naquele momento, passando por aquilo tudo.
Elisabeta puxou outra das cartas, e Darcy fez o mesmo.
“Londres, dezembro de 1910
Elisabeta,
Lhe prometo que esta é minha última carta, conforme seu desejo. Estou surpreso ao saber que você está comprometida com outro rapaz. Tive a impressão, agora sei que equivocada, de que vivíamos uma história de amor. Lhe peço desculpas por ter interpretado mal seus sentimentos, e por insistir tanto, até que fosse obrigada à escrever com todas as letras que não me ama. Meu coração está dolorido, Elisa. Mas eu desejo, em nome de tudo o que sinto por você, que você seja feliz. Não há ninguém no mundo que mereça mais do que você. E por favor, não tenha o meu retorno ao Vale do Café como uma preocupação. Eu não voltarei, e não a procurarei mais.”
Elisabeta passou os braços pelo pescoço de Darcy, e soltou as outras cartas no sofá. Não queria ler aquelas palavras. Não queria sentir a dor que ele sentira por aquelas mentiras. Cada palavra era um tormento, uma lembrança do futuro que sonhavam, e que fora tirado deles sem nenhuma piedade.
Darcy segurava uma foto de Tom, e Elisabeta a reconheceu rapidamente como a foto que enviara. O menino tinha seis meses de vida na época.
“Vale do Café, novembro de 1911
Darcy,
Envio esta foto como recordação. Thomas está agora com seis meses, e acredito que você gostaria de conhece-lo. Entendo que sua vida em Londres é sua prioridade, e não tenho qualquer expectativa romântica. Apenas gostaria que você pudesse conhece-lo, por você e por ele. “
Darcy também soltou as cartas, e afundou-se no abraço de Elisabeta. Choraram pelo passado e pelo presente, choraram pelo futuro que não sabiam como construir. Pelas palavras contidas nas cartas, e pela desconfiança que as mentiras trouxeram. Choraram por terem deixado que palavras mentirosas os abalassem.
— Me perdoe. – ele disse primeiro, e Elisabeta encostou a testa na dele.
— Não, não vamos fazer isso. – Elisa acariciou o rosto dele. – Nós já sofremos demais por esse assunto.
— Mas eu disse tantas coisas... – Darcy lamentou-se.
— Eu também disse. Nós dois erramos. Erramos muito. Conosco, e com nosso filho. – Elisabeta afastou-se um pouco, mas continuou olhando nos olhos de Darcy. – Agora já sabemos o que aconteceu.
— Eu não entendo o porquê... Por que ele faria isso? – ele a envolveu ainda mais em seus braços.
— Nunca saberemos, Darcy. Seu pai levou as explicações com ele. Agora é parte do passado. – Elisabeta juntou as cartas de Darcy e as suas.
E sem pensar duas vezes levantou-se, caminhando até um castiçal com velas. Trocou um olhar com Darcy, e ele assentiu com a cabeça. Elisabeta então encostou uma das cartas, jogando-a em um vaso de metal, e então uma a uma foi consumida pelo fogo, apagando aquela história.
— Eu não sei se seremos capazes de superar o que aconteceu. – Elisabeta aproximou-se novamente. – Se confiaremos um no outro, se existe espaço para uma relação.
— Não há como prever. – Darcy tentou sorrir. – Mas só há uma maneira de sabermos, Elisa.
— Eu sei. E faremos um pacto agora. – Elisa sentou-se ao lado dele. – Sem mais culpados pelo que aconteceu. Dividimos essa responsabilidade, e a deixaremos aqui, nesse dia, nesse momento.
— Por Tom. – Darcy acariciou o rosto dela.
— Por Tom. – Elisabeta sorriu.
— E pelo futuro que teremos. Porque não há dúvidas em mim de que teremos esse futuro.
— Então por Tom, e pelo nosso futuro.
— Por nossa família, minha menina. – Darcy beijou a testa de Elisabeta. – Pelo filho que temos, e pelos outros que teremos.
##
Quando retornaram à casa dos Benedito, Tom já os esperava ansioso, assim como Felisberto e Ofélia. Elisabeta abraçou o filho, e então os pais, e Darcy surpreendeu-se quando Ofélia e Felisberto o abraçaram carinhosamente. Tom contou aos dois sobre o passeio na cidade, e a cada palavra do filho, o coração deles se tornava mais leve.
Foi Elisabeta quem deu a ideia de um piquenique ao ar livre. E arrependeu-se ao ver a falta de opções que tinha em casa. Ainda assim encontrou biscoitos, frutas, algumas empadas e uma garrafa de suco. Foi o suficiente para que colocasse tudo em uma cesta e os três saíssem de casa.
Foram para o mesmo lugar em que tiveram uma das primeiras conversas. Mas, desta vez, Darcy estendeu uma toalha, Elisabeta distribuiu os alimentos com a ajuda de Tom, e a alegria e vivacidade do menino foi levando embora a angústia de suas descobertas. Era como se Tom fosse a chave de sua recuperação.
— E então a avó de Mário estava lá. – Tom continuou tagarelando. – Ela é muito esquisita.
— Josephine? – Elisabeta riu.
— Josephine? – Darcy espantou-se. – Espera ai, ela não tinha morrido?
— Não! – Elisabeta riu mais alto. – Ela fingiu a própria morte.
— Ela aperta as minhas bochechas. – Tom reclamou.
Elisabeta sentou-se, e Tom logo deitou com a cabeça em seu colo. Darcy sentou-se ao lado de Elisabeta, seu corpo próximo ao dela, para que pudesse acariciar os cabelos do filho. Ela encostou-se um pouco nele, o que fez Darcy chegar ainda mais perto. Precisavam daquilo, precisavam recarregar tantas energias.
— Mas encontramos tio Edmundo. – Tom sorriu. – E ele prometeu que da próxima vez vai nadar conosco.
— Edmundo está de volta? – Darcy surpreendeu-se.
— Há anos. – Elisabeta revirou os olhos, sorrindo para ele.
— O papai não sabe de nada. – Tom riu, distraído.
Mas Darcy parou naquele momento, sua mão congelando no lugar. Uma lágrima insistiu em cair, e o silêncio dos pais chamou atenção de Tom.
— Papai, você está triste? – Tom levantou-se, olhando para Darcy com curiosidade.
— Não estou triste, Tom. – ele sorriu.
— Seu pai ficou emocionado. – Elisabeta acariciou os cabelos do filho e segurou a mão de Darcy. – Foi a primeira vez que você o chamou de papai. – explicou.
— Ah, os meus primos chamam os meus tios assim. – ele coçou a cabeça. – Você prefere que eu o chame de Darcy?
— Não, não... – Darcy riu. – Meu filho, você pode passar o dia me chamando assim. Eu juro que não vou chorar todas as vezes.
— Seria muito estranho. – o garoto fez uma careta, lembrando a mãe.
— Seria mesmo muito estranho. – Darcy bagunçou os cabelos dele.
— Como a avó de Mário. – Tom deitou-se novamente, dessa vez com a cabeça no colo de Darcy.
— O Almirante também é bastante esquisito. – Elisa riu.
— Mamãe, você não deveria falar assim das pessoas. – Tom revirou os olhos.
— O que? – Elisabeta olhou para o filho. – Quer dizer que agora o senhor acha que está protegido, só porque o seu pai está aqui?
O garoto ficou em pé rapidamente, e Elisabeta fez o mesmo. Os dois trocaram um olhar desafiador, e então Tom começou a correr, com Elisabeta atrás dele.
— Não adianta fugir. Eu vou pegar você. – ela gritou.
— Não vai. – Tom respondeu, correndo ainda mais rápido.
Darcy observou a cena, com um sorriso no rosto. Seu pai podia ter tentado evitar esse encontro, mas o destino fora generoso. Estava ali, no Vale do Café, um de seus lugares preferidos no mundo, observando seu filho e o amor da sua vida. E o sorriso deles era capaz de acalmar Darcy, fazê-lo esquecer dos tempos de escuridão.
Ele levantou-se, de repente, e piscou para Elisabeta. O sol já começava a descer no céu, e Darcy teve a sensação de que não seria capaz de esquecer aquele momento.
— Em qual time eu tenho que ficar? – ele perguntou, se aproximando deles.
— Do meu! – Tom disse, rapidamente. – Não deixe ela me pegar.
O garoto correu, e Elisabeta tentou segui-lo, mas foi impedida por Darcy. Ele a abraçou pela cintura, a erguendo sem nenhuma dificuldade, e afastou-se um pouco de Tom. O menino os seguiu, fazendo uma careta para a mãe.
— Você nunca mais vai pegar! – zombou. – Meu pai não vai deixar.
Darcy colocou Elisabeta no chão, e os dois se viraram para Tom.
— Porque na verdade eu sou do time dela. – Darcy abriu um sorriso.
— Ah, não! – o menino reclamou, começando a correr novamente.
— Volte aqui! – Elisabeta foi atrás dele, e Tom correu em volta da árvore.
Mas pareceu esquecer-se que Darcy estava ali, porque quando finalmente saiu daquele local, correu diretamente para onde o pai estava. E Darcy o levantou sem nenhuma dificuldade, jogando-o em seus ombros, e caminhando em direção à Elisabeta.
— Pronto, peguei o fugitivo.
— Me solte! – o garoto gargalhou. – Papai, você deveria me ajudar.
— É tarde demais. – Elisabeta se aproximou, com uma careta. – Você não pode mais fugir.
— Não, não! – Tom já não conseguia segurar as risadas. — Por favor!
E então Elisabeta começou a fazer cócegas no filho, que ria sem parar, preso aos braços do pai. Foi aquele o som que trouxe paz para eles. E quando retornaram, mais tarde, com Tom entre eles, de mãos dadas, tiveram a sensação de que estavam no caminho certo.
Não seria tão cedo, e nem tão fácil. Muitos momentos tristes ainda estariam em seu caminho. Mas naquele momento tiveram a certeza de que a pior parte fora vivida naquele dia.
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