Beta - The Play [Fanfic Interativa]
27 O Demônio & Aspargo
Notas iniciais
O Demônio & A Luz
Lolipop chegou, mas Charlie não conseguia parar de pensar em Abigail e em Aline. Eram duas pessoas diferentes e ao mesmo tempo iguais. Seria possível um demônio habitar o corpo de um anjo? Lolipop sabia quem Abigail realmente era? Mesmo querendo saber a resposta, Charles não disse nada, pois não queria que ninguém mais soubesse disso, além dele. Era um segredo que guardaria até o fim, pois talvez custasse a vida de Abigail.
De repente sentiu nojo de tê-la por perto. Afinal ela tinha enganado todos somente por seu orgulho e seu capricho. Tinha largado seu namorado e deixado sua vida somente para que os outros não a vissem como um demônio. Isso era horrível. Como um ser podia ter tanta ganância e ignorância.
Por fim, tratou de subir no dragão alado de Lolipop.
Enquanto isso, os pensamentos o inundavam, e ele não conseguia mais visualizar a mesma Abigail, quieta, fria, irritada.
Virou outra pessoa.
E ele não conhecia esta pessoa.
E nem queria conhecer.
Isto era... Ruim?
º º º
Talvez Charles nunca mais lembre-se de como foi subir até as nuvens: horrível. Assim que passou por elas, se esqueceu da sensação de enjôo e de estar sendo sugado por um aspirador gigante. A aurora era maravilhosa. As cores irradiavam pelo céu. Não era azul, simples e doentio, eram violetas, rosas, vermelhos, laranjas... Infinitas cores. As estrelas era vivas, elas voavam de todos os lados, para todas as direções. A Lua e o Sol estavam um do lado do outro, a chuva era em câmera lenta, e sim, chovia céu. As cores iam pingando do céu. Assim que os pingos lentos tocavam sua pele, um brilho da mesma cor coloria o lugar onde tinha pingado, e então desaparecia. As estrelas às vezes também caiam, e logo voltavam a voar, como se não se fatigassem por tanta dançaria.
- Bem vindo a terra dos anjos, Charles. – sorriu Lolipop. – A terra maravilhosa.
Charles tinha a boca aberta num “UAU”, porém quando os olhos caíram em Abigail, que estava quieta e sem se mover, ele se lembrou de tudo e logo a surpresa foi deixada de lado e a irritação se instalou. Estava irritado com ela. Sentia que ela tinha mentido para ele, embora não fosse a verdade, afinal tudo o que Abigail fez foi contar a verdade, não mentir. Mas mesmo assim ele não conseguia se convencer de que ela fosse a boazinha da história.
Quando o dragão pousou numa nuvem que flutuava mais alto que as outras, Charles percebeu que ela tina uma casa com jardim e uma chaminé de onde saía uma fumaça vermelha escura. O cheiro das rosas vermelhas do jardim era contagiante. Porém não havia estátuas nem bancos para quem quisesse passear pelo jardim. Na verdade não havia caminho, tudo era um mar de rosas e espinhos. Somente um cainho de pedra reto levava até a porta da casa. Era preciso andar pelo reto e nem muito para a direita nem para esquerda, pois corria o risco de se arranhar nos espinhos.
Atravessaram o jardim e subiram a varanda que não tinha escada, era somente tábuas de madeira que tomavam o lugar do caminho de pedras. Lolipop bateu na porta, e esta se abriu com um rangido.
- Bem vindos ao centro de magias Dora & Flora! – um gato branco e felpudo pulou de trás da porta. – Entrem!
Lolipop pegou o gatinho no colo e o levou para dentro, abrindo espaço para os outros também entrarem.
- A Dora está esperando-os no caldeirão! – o gatinho saltou do colo de Lolipop – Até mais, forasteiros!
E desapareceu num piscar de olhos.
Lolipop continuou andando, como se já soubesse exatamente onde estava tudo. Ela seguiu por um corredor onde tinham várias portas, porém uma delas estava fortemente fechada. E foi nesta que ela parou.
- Dora! Pode abrir a porta, por favor? – ela gritou.
Mas nenhuma resposta. Por fim, resolver tentar abrir a porta. Quando ela tocou a maçaneta, a porta se abriu sem nenhum problema.
Os três, cautelosos, adentraram na sala. A porta se fechou atrás de deles. A primeira coisa que Charles notou foi o chão. Não havia chão, porém ele ainda conseguia pisar. O chão era um mapa gigantesco de todo o reino Montte, com as terras de Chama do Oriente, Demônio das Trevas, Dragão Dourado e Asa Branca. As paredes e o teto eram feitos de céu noturno, cheio de estrelas das mais variadas cores. Cometas, plantas, ciclones negros... Tudo que você pudesse imaginar estava passando diante de seus olhos. E bem no centro, havia um caldeirão. O caldeirão da bruxa era cinzento e havia um cajado grande dentro dele, servindo de colher para mexer a gororoba verde que havia lá dentro. A bruxa estava em frente a uma estante coberta de livros. Os cabelos ruivos lhe caíam como tufos da cabeça cheia de verrugas. O nariz era bem desenhado e meio arrebitado, com sardas e pintas pelo rosto inteiro. Os olhos eram escuros como duas flores de barro. Vestia uma roupa mal-acabada e nenhum chapéu de bico, como Charles esperava. Os sapatos tinham saltos pequenos e não faziam barulho ao andar.
A bruxa Dora tentava pegar o último de livro da estante. Quando conseguiu, soltou um suspiro e o tirou de lá. Abriu o livro e leu alguma coisa qualquer coçou o queixo e jogou dentro do caldeirão algumas ervas que Charles não soube reconhecer. No mesmo instante o caldeirão ficou vermelho sangue e ela abriu um sorriso vitorioso.
- O que vêm fazer aqui, crianças? – ela se virou para os três. – Balas, chocolate, chiclete? Ou então queriam um coleguinha para brincar de pega o anjo?
- Nós viemos pedir a senhora que deixe o Charles mais forte – Lolipop respondeu.
- Oh, sim, eu já sabia. Mas estou falando com ele.
- Eu? – Charles encarou a bruxa. – Não entendi?
- Até aqui quem ditou as regras foram suas companheiras, mas e você? O que você quer? Quer mesmo se tornar Angel?
Abigail, como uma sombra invisível, já estava nas costas da bruxa, com uma faca média nas mãos, ameaçando cortar seu pescoço. Como ela era baixinha, a bruxa envergou a coluna e quase caiu de bunda no território Dragão Dourado.
- De que lado está, velha? – interrogou Abigail.
- Do meu lado! – a velha se desvencilhou de Abigail e se levantou – Não tenho lados, mocinha. Só estou perguntando para o rapaz se é isso que ele realmente quer. E então, Charlie, é?
Charles jurou ter visto Abigail quase acertando um soco na orelha da bruxa, porém ela se conteve e deixou todos para o lado, indo se sentar num canto, sozinha. Charles sabia que ninguém mais o chamava de Charlie, somente ela.
- Eu quero ajudar os anjos, e por ordem. – ele respondeu.
- Mas para isso existe Alicia e Aline, duas filhas do Angel. Elas são as herdeiras.
- Aline morreu, Alicia é uma soberba que não pode deixar o poder subir a sua mente que fica doida.
- Primeiro erro: Aline não morreu. Nos meus livros constam o ano da morte e o ano do nascimento de todos os anjos. Não há anotação da morte de Aline, somente de seu nascimento. Segundo erro: Alicia já é doida.
- Mas como Aline não morreu? Eu sei que ela morreu.
- Um anjo só morre quando seu espírito para de vagar pela terra e vai descansar. Isso não aconteceu com Aline. Na verdade, ela está bem aqui, tentando não ser vista por ninguém. – apontou a bruxa Dora. – Abigail, você se esqueceu de mim, querida?
- Vá morrer. – Abigail resmungou, com a cara enterrada nos joelhos.
- Haha, minha jovem Abigail, foi comigo que você tomou esta forma, já esqueceu? Fui eu quem te transformou em um simples anjinho desconhecido.
- Pare de ficar falando assim com ela! – Lolipop se colocou entre a amiga e a bruxa. – Mais uma ofensa e eu te mato.
- Ah, eu acredito. – Dora concordou com um aceno de mão. – Acredito que você é capaz de me matar. Agora... Quanto ao desejo de Charles...
Charles deu alguns passos para trás, afinal não queria se envolver mais com aquela bruxa, ela era medonha, e não tinha dó da dor dos outros. Assim, queriam que ela mesma sentisse de seu veneno. Mas o que um mero feiticeiro do vento poderia fazer contra uma maga do vento?
Dora sorriu, adorável, e deu de ombros.
- No começo é assim mesmo, ficam com medo de mim... É chato, sabia? Logo eu, uma maga tão boa...
- Nós só precisamos de elevar o poder de Charles. – interrompeu-a Abigail – Mais nada. Chega das suas brincadeiras idiotas.
- Oh, a fera despertou... – Dora jogou algo no caldeirão. – Vejamos... Aqui diz que você é muito rabugenta.
Abigail revirou os olhos dourados e começou a caminhar em direção a porta da sala. Charles colocou o braço na sua frente, impedindo que ela continuasse. Abigail o encarou,e e então tentou novamente passar, mas ele não deixou. Abigail estava prestes a questionar o que ele tinha, quando Charles respondeu.
- Eu quero saber mais sobre você, e tenho certeza que esta bruxa pode me contar.
- Sim, sim... Mas prefiro que me chamem de maga, não de bruxa. – Dora estalou os dedos – Estou me lembrando! Há muito tempo, cerca de oitenta e nove anos atrás, quando Aline era apenas um anjo adolescente e em plena época de hormônios estourando, ela se pegou diante de uma guerra onde os anjos lutavam entre si para o poder e o domínio deles. Havia os Anjos Liberais, que achavam que todos podiam se tornar Angels e ter voz ativa. E havia os Anjos Conservadores, que preferiam continuar com os antigos costumes e eleger somente um Angel para governá-los. Foi ai que Aline e Alicia conversaram e concordaram em achar um novo Angel entre o povo. E elas encontraram um feiticeiro cuja habilidade com vento era impressionante. Tão ágil que as águias podiam parecer tartarugas ao lado dele. Com reflexos tão apurados que nem uma mosca passava despercebida. Otto era o escolhido das Irmãs Semianjos.
- Vai contar a história inteira? – Lollipop sentou-se no chão, perto do território de Asa Branca.
- Sim, ele precisa saber de cada detalhe – concordou Dora com um meneio. Então Lollipop sabia do segredo de Abigail. – Mas havia um elfo que tinha se apaixonado perdidamente por Aline, e que fora rejeitado pela mesma. Este lançou uma maldição sobre a pobre anjinha, ela jamais poderia conviver com um ser do sexo masculino sem se apegar, e o pior, se apaixonar. O elfo morreu quando Otto descobriu tudo, mas por uma volta no destino ele também se apaixonou por Aline. Assim, Aline e Otto fugiram por cinco dias de perto de Alicia e da missão. Eles se tornaram um só e Aline aceitou seus sentimentos, se tornando um demônio.
- Eles se tornaram um só. – repetiu Lollipop – Sabe o quanto isso soa malicioso?
- Mas é realmente malicioso – sorriu Dora – Aline não conseguia se olhar depois de tudo, e então fugiu, sem olhar para trás ela me encontrou e implorou por uma nova chance de recomeçar tudo. Eu a ajudei. Mas quando ela voltou para procurar por Otto, ele havia sumido como fumaça. Ninguém sabia dele, nem mesmo a irmã. Em seu novo corpo, Aline foi nomeada Abigail por Alicia. E hoje ela é isto. Uma espécie de casca para guardar o espírito de Aline.
- Isso é uma história delicada.
- Sim, é mesmo. Afinal ela irá se apaixonar por você, uma hora ou outra.
- Não vou não. – Abigail assoprou a mecha branca de cabelo para o lado.
- Ah, você vai sim. Afinal a maldição continuará até você morrer. E olhe que a vida de um anjo é bem longa.
Abigail olhou para Charles com o canto do olho. Ela queria se suicidar, mas agora já era tarde. Se fizesse isso, seu espírito de anjo iria vagar pelo mundo até desaparecer aos poucos. Lollipop agarrou o braço da maga e cochichou algo em seu ouvido. No mesmo instante a velha sorriu e acenou com a mão, como se concordasse.
- Iremos passar a noite aqui – anunciou – Lolli – Abi, você fica comigo.
- Não, A Abi vai ficar com o Charles. – corrigiu Dora.
- Por quê?
- Você acha que eu vou perder a chance dos dois se apaixonarem? Irão dormir juntos, no porão. E você fará companhia para meu doce Aspargo.
- Aspargo? – Lolli ergueu uma sobrancelha.
Um gato entrou pela porta, que estava fechada (Talvez ele soubesse abri-la) e pulou nos braços de Dora.
- Aspargo, sim, acho que já o conhece. Ele deu as boas vindas a vocês. Bem, Aspargo adora ser um gato, mas a forma humana é bem mais bonita.
Dora estalou os dedos e o gato saltou de seu colo, se transformando em um lindo rapaz alto, de olhos dourados encantadores e um sorriso harmonioso. Ele cumprimentou Lollipop com uma saudação um tanto formal demais, e então se virou para Dora.
- Este é Aspargo, meu anjo-servo. Ele pode se transformar em qualquer coisa que eu quiser. Mas eu costumo fazê-lo de gato, é mais típico das magas. – a bruxa sorriu novamente e disse a Aspargo que levasse os convidados para seus quartos.
Aspargo fez o que ela pedia e conduziu Abigail, Charles e Lollipop casa adentro, passando por corredores, entrando em sala e passando por escadas que os levavam cada vez mais para baixo. Até que chegaram numa escada que possuía uma porta no seu final. A escada ia para baixo, como todas.
- Aqui é o quarto mais profundo de toda a casa – contou Aspargo – É onde minha senhora quer que Abigail e Charles fiquem. Cuidado por onde pisam, não há muita luz, somente a de uma pequena vela, por isso vocês tem de ficar com ela. Normalmente é frio lá dentro e muito úmido. Espero que sobrevivam. Lollipop, nosso quarto é por aqui. – ele indicou, deixando os outros por lá mesmo.
Lollipop estava encantada demais com Aspargo para dar importância a Charles ou a Abigail. Os dois jovens se entreolharam. Não queriam descer até lá, afinal como o anjo-servo tinha dito: Era frio, escuro e úmido, coisa que qualquer anjo odeia e que qualquer feiticeiro detesta. Abigail tomou partido e desceu lentamente cada degrau, até chegar na porta e olhar para cima, esperando uma ação de Charles. O menino logo se pôs a descer os degraus. Ela abriu a porta e logo sentiu o cheiro de mofo. Aquilo era o porão, isso sim.
Com certo receio e ódio, ela amaldiçoou a maga Dora no pensamento.
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